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Revista Brasileira de Enfermagem

Print version ISSN 0034-7167

Rev. bras. enferm. vol.56 no.6 Brasília Nov./Dec. 2003

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-71672003000600011 

Pesquisa em enfermagem no Brasil: problematizando a produção de conhecimentos

 

Nursing research in Brazil: the problem of knowledge creation

 

Investigación en enfermería en Brasil: problematizando la producción de conocimientos

 

 

Rosa Maria RodriguesI; Maria Helena Salgado BagnatoII

IEnfermeira, Mestre em Enfermagem - USP, Doutoranda em Educação na Faculdade de Educação da UNICAMP - Campinas, Profesora da UNIOESTE, Presidenta da ABEn-Regional Cascavel, Gestão, 2002-2004
IIEnfermeira, Professora Doutora da Faculdade de Educação da UNICAMP - Coordenadora do Laboratório de Estudos e Pesquisas em Práticas de Educação e Saúde - PRAESA/UNICAMP. E-mail do autor:rmrodri@certto.com.br

 

 


RESUMO

Esta pesquisa analisa aspectos de artigos publicados nos últimos cinco anos, em três periódicos de circulação nacional divulgadores de grande parte da produção de conhecimentos na enfermagem; identifica focos privilegiados e silenciados, problematizando questões centrais na produção de conhecimentos. Trabalhou-se com 811 resumos e suas respectivas notas de rodapé. Os dados foram tratados e organizados em tabelas. Há predominância de pesquisas voltadas para a área de assistência; temas concentrados no espaço hospitalar como saúde da criança e outros no espaço não hospitalar como saúde da mulher, HIV/AIDS e enfermagem psiquiátrica e saúde mental; a produção é desenvolvida geralmente por doutores e pós-graduandos, sendo as universidades públicas os principais locus de produção com apoio dos órgãos federais no financiamento das mesmas.

Descritores: enfermagem; pesquisa em enfermagem; ciência


ABSTRACT

This research analyses aspects from articles published over the last five years, in three nation-wide periodicals divulging the most part of Nursing knowledge produced; it identifies priviledged and silenced points, raising problems around the main issues in knowledge creatopm. We worked on 811 abstracts and their footnotes. Data were approached and organized in tables. Most researches are in the assistance area; themes around hospital subjects, such as child health, and some others not concerning the hospital field, such as women´s health, HIV/AIDS, and Psychiatry and Mental Health Nursing; production is usually made by doctors and Postgraduate students, as public universities are the main locus for scientific production to receive financial support from Federal governmental organs.

Descriptors: nursing; nursing research; science


RESUMEN

Esta investigación analiza aspectos de artículos publicados en los últimos cinco años, en tres periódicos de circulación nacional que divulgan gran parte de la producción de conocimientos en Enfermería; identifica puntos privilegiados y silenciados, problematizando cuestiones centrales en la producción de conocimientos. Se han trabajado 811 resúmenes con las notas remisivas. Los datos se organizaron en tablas. En las investigaciones hay un predominio en el área de la asistencia; luego hay temas que se concentran en el espacio hospitalario, como el de la salud de los niños y otros fuera del hospital, como la salud de la mujer, el SIDA y enfermería psiquiátrica y salud mental. La producción está desarrollada, en general por doctores y profesionales de posgrado. Las Universidades públicas son los principales centros de producción, que cuentan con el apoyo de organismos federales para su financiación.

Descriptores: enfermería; investigación en enfermería; ciencia


 

 

1 Introdução

É notável o crescimento da produção científica na Enfermagem, principalmente nas duas últimas décadas. Nesse sentido, é importante destacar a contribuição decisiva dos programas de pós-graduação como espaço de apoio e desenvolvimento da reflexão, análise e crítica na/da relação teórico-prática no campo da Enfermagem. Este processo possibilita também, dar outras visibilidades à área na busca da sua autonomia e identidade profissional socializando maneiras de conhecer, ser e fazer Enfermagem.

Para colaborar com estas reflexões esta pesquisa traz uma leitura sobre a produção científica veiculada por três periódicos de circulação nacional, sendo dois deles localizados na Região Sudeste e um terceiro com sede em Brasília que veicula grande parte da produção científica vinda praticamente de todo o país. Esta sistematização permitiu-nos fazer uma aproximação ao estado da arte da pesquisa em enfermagem.

Tais pesquisas estão cada vez mais presentes na produção científica brasileira, em diferentes campos do conhecimento(1-4), os quais se apoiam em materiais como artigos de periódicos, textos e resumos de seminários, congressos, dissertações de mestrado e teses de doutorado, entre outros. As análises destes materiais colaboram para dar indicadores das tendências dos trabalhos publicados pela enfermagem brasileira, explicitando aspectos relevantes da produção de conhecimentos, temas de pesquisa emergentes ou ainda temas silenciados ou pouco explorados. É, portanto, uma pesquisa sobre a produção de conhecimentos em enfermagem que dá uma visibilidade a esta produção possibilitando reflexões sobre as mesmas.

O estudo teve como objetivo geral descrever e analisar elementos dos artigos publicados nos últimos cinco anos, nos três periódicos. Os elementos investigados contribuirão para a aproximação do estado da arte nesta produção, podendo sinalizar os focos privilegiados, os pontos silenciados e oferecer elementos para problematizar questões centrais na produção de conhecimentos como, por exemplo, as de financiamento.

 

2 Apontamentos metodológicos

Utilizamos como fontes de dados os resumos dos artigos de três periódicos e as notas de rodapé as quais foram imprescindíveis, para identificação de alguns dados como, por exemplo, o vinculo de trabalho e/ou estudo dos autores e a formação acadêmica. Para análise excluímos aquelas publicações que não contavam com resumos como, por exemplo, as resenhas. Foram selecionados três periódicos sendo dois da Região Sudeste e um com sede em Brasília.

Os periódicos da Região Sudeste selecionados foram: a Revista Latino-Americana de Enfermagem em seus volumes 5, 6, 7, 8, 9, perfazendo 25 números sendo denominada de periódico A; a Revista da Escola de Enfermagem da USP em seus volumes 31, 32, 33, 34, 35, perfazendo 19 números, denominada de periódico B. Já o periódico com sede em Brasília trata-se da Revista Brasileira de Enfermagem da qual analisamos os volumes 50, 51, 52, 53, 54, num total de 20 números e a denominamos de periódico C. Deste periódico não incluímos o número especial do volume 53, do ano de 2000, que foi exclusivamente direcionado para a temática saúde da família e o número 2 do volume 54, do ano de 2001, que foi uma publicação comemorativa aos 75 anos da ABEn, apresentando após análise, inúmeros artigos que resgatavam a história desta entidade e da enfermagem, o que poderia falsear as conclusões, dado ser um número com artigos de uma temática específica. Delimitamos o intervalo de tempo do ano de 1997 a 2001 direcionando, portanto a coleta para um período recente da produção científica.

A eleição de dois periódicos da Região Sudeste, economicamente mais desenvolvida que outras regiões, ocorreu pela centralização e socialização, até o momento, da produção científica, não só na especificidade da enfermagem, mas também em outras áreas. Foi na Região Sudeste que, na década de 70, implementaram-se os primeiros programas de Pós-Graduação em enfermagem no Brasil, o que em certa medida, viabilizou uma maior produção de conhecimentos neste espaço geográfico. Ainda, na escolha dos periódicos, consideramos o estilo da publicação, elegendo aquelas que não se dirigissem a números temáticos, uma vez que isto poderia alterar a diversificação geral dos periódicos. Assim, optamos por periódicos que tivessem circulação nacional e que divulgassem estudos em todas as áreas da enfermagem, aproximando-nos de um estudo do estado da arte da pesquisa em Enfermagem.

Visando uma possível sistematização dos dados para a análise, elaboramos uma matriz sob a qual foram submetidos todos os resumos e os 64 números dos três periódicos, no período delimitado. Para confecção da matriz elencamos os dados que poderiam oferecer subsídios para uma aproximação ao estado da pesquisa na Enfermagem. Os elementos eleitos para busca nos periódicos foram: gênero da publicação, áreas temáticas privilegiadas, autoria (s), formação dos autores, vínculo de estudo/trabalho, financiamento junto aos órgãos de fomento, elementos estes que serão detalhados na apresentação dos resultados.

Salientamos que na construção da matriz de análise para identificação das temáticas prevalentes na produção dos conhecimentos em Enfermagem, não consideramos as áreas temáticas definidas pelo CNPq para a indução de pesquisas na área da saúde, nem a elaboração de Linhas de Pesquisa e Prioridades de Enfermagem apresentada no Fórum Nacional de Coordenadores de Programas de Pós-Graduação em Enfermagem que aconteceu em Salvador em 13 de junho de 2000(5). Justificamos a não utilização desses parâmetros, pois como são formulações recentes pareceu-nos que o conjunto dos textos estudado não foi produzido a partir destas orientações.

Organizamos os dados nas matrizes e fizemos a distribuição dos mesmos em tabelas, embora elas não estejam compondo esta apresentação para publicação. Um trabalho desta natureza implica que se façam constatações, mesmo que provisórias, a partir dos dados estatísticos que resultaram da sistematização. Contudo, a proposta não é a apresentação pura e simples de dados estatísticos, buscamos extrapolar esses dados de maneira que eles sejam também indicadores que permitam uma análise aprofundada da temática da pesquisa na Enfermagem. Além disso, pensamos que poderá enriquecer a análise a correlação com outros autores que já tenham tratado direta ou indiretamente das questões levantadas na pesquisa. Outro elemento é que embora o resultados se explicitem na forma de tabelas e números aparentemente frios, objetivos e neutros, eles foram produzidos a partir das leituras e análises dos resumos e isto com certeza, já carrega em si uma carga de subjetividade o que não significa que os dados foram manipulados conforme as impressões subjetivas dos pesquisadores. Significa apenas que, mesmo um dado aparentemente neutro carrega em si um arsenal de valores e crenças que, mesmo não explicitados estão permeando a sistematização e a análise.

 

3 Apresentação e análise dos resultados

Realizamos um levantamento de todos os números de três periódicos de 1997 a 2001, totalizando 64 exemplares nos quais encontramos 811 resumos como se pode observar na Tabela 1.

 

 

O primeiro aspecto sistematizado foi a busca nos resumos pelos gêneros que são mais freqüentes na Enfermagem. Para tanto, consideramos que os trabalhos poderiam ser distribuídos em trabalhos de pesquisa, de análise ou reflexão teórico-metodológica, relatos de experiência, revisões bibliográficas, ensaios, documentários e outros para aqueles trabalhos que não se enquadrassem em nenhum desses gêneros. Ressaltamos que foram designados como pesquisa aqueles trabalhos que apresentaram uma certa sistematização científica, explicitando direta ou indiretamente um referencial teórico-metodológico, instrumentos e técnicas de coleta, sistematização e análise de dados. Salientamos, ainda, que essa opção excluiu trabalhos que tinham cunho científico e valor tanto quanto os que foram colocados sob essa denominação, além do que essa opção explicita uma determinada concepção de produção do conhecimento, que considera como científico apenas aquilo que se aproxima do paradigma empírico-analítico.

Cabe ressaltar que o periódico C, a partir do ano 2000, passou a identificar seus artigos com as designações acima o que, por um lado facilitou o trabalho, mas por outro, em certos momentos criou controvérsia quanto à designação proposta pela revista e a por nós apontada. Nesta controvérsia, optou-se por seguir a identificação que a revista trazia, uma vez que isto já era um consenso, por certo alcançado pelo grupo de consultores do periódico.

A partir destes indicadores foi possível constatar que a maioria dos artigos, 61,5%, é do gênero pesquisa; os relatos de experiência aparecem em segundo lugar com 13,3%, seguido de análise ou reflexão teórico metodológica com 13,0%, revisões bibliográficas com 5,8%, ensaios com 5,7% e documentários com 0,7%. Este quadro dá indicadores de um predomínio de produção de conhecimentos respaldado em dados empíricos e parece explicitar o esforço que a enfermagem tem feito, desde que iniciou sua trajetória pela pesquisa de se firmar como uma área de conhecimento consolidada, tendo como referência o modelo tradicional de ciência, ou o modelo empírico analítico. Para tal referencial o conhecimento tem sua origem nas ciências naturais, tem como método a explicação (procura das causas), tem como produto informações, como aplicação o controle técnico, como orientação normativa as regras e leis (normalidade) e como interesse propiciar um instrumental de controle(6). Particularmente não podemos criticar essa atitude de buscar firmar essa prática como ciência, mas ao mesmo tempo não acreditamos que a designação de ciência seja necessária para garantir o status e a visibilidade tão almejada. Nesta mesma linha de raciocínio podemos afirmar que a medicina ou a odontologia em si também não são ciências no modelo tradicional (elas são práticas sociais que, como a enfermagem, utilizam-se de conhecimentos produzidos por elas próprias, mas tem o apoio de uma proporção significativa de conhecimentos produzidos por outras áreas, tradicionalmente consideradas científicas como a biologia a química, a física) e nem por isso elas deixam de gozar de um status elevado, pelo contrário, são duas profissões da área da saúde que tem espaço e visibilidade bem definidos e adquiridos.

Por outro lado, se cruzarmos este dado com os relativos à formação dos autores veremos que há uma predominância das publicações por parte de alunos de pós-graduação e de doutores e podemos entender os motivos do gênero pesquisa ser o predominante. As publicações explicitam que quem produz são os atores envolvidos na formação Stricto Sensu, daí a predominância de trabalhos no gênero pesquisa.

Quanto às áreas temáticas buscamos ver nos artigos aquelas temáticas que se apresentam como centrais na Enfermagem, tais como a do cuidado ou da assistência, sendo que sob essa temática englobamos todos aqueles artigos que se referiam ao cuidado explicitamente ou que eram referentes ao cuidado da Enfermagem em áreas especializadas como cuidado nas Unidades de Terapia Intensiva, no Centro Cirúrgico, as pesquisas sobre a sistematização da assistência, entre outras; a gestão/administração na Enfermagem, na qual registramos todos os trabalhos relacionados direta ou indiretamente a essa temática, como o tema liderança, por exemplo; na temática educação/ensino, foram englobados todos os artigos que tratassem do ensino, desde a formação de auxiliares, técnicos, enfermeiros (na graduação e na pós-graduação), até a educação continuada e as práticas educativas em espaços não formais; a temática saúde pública englobou todos os artigos relacionados à saúde comunitária, saúde pública, etc.; as temáticas saúde da mulher, saúde da criança e do adolescente, saúde do idoso, saúde do trabalhador, HIV/AIDS, Enfermagem psiquiátrica e saúde mental, foram apontadas de antemão também por serem áreas que consideramos consolidadas em nossa prática, apenas tivemos o cuidado de salientar o espaço em que acontece em maior amplitude a produção nessas temáticas, ou seja, se ela se concentra em maior grau no espaço hospitalar ou em espaços não hospitalares.

As temáticas que denominamos como Pesquisa e Produção do Conhecimento, Ética, Ética Profissional e Bioética, História da Enfermagem, Enfermagem e Trabalho, surgiram na leitura dos resumos sendo que especificamente na temática Enfermagem e Trabalho foram inseridos todos os resumos que faziam referência à prática da Enfermagem, à organização da Enfermagem, aos problemas da profissão. Ainda houve a necessidade de reunir sob a denominação de Outros, aqueles temas que não se enquadravam em nenhuma dessas temáticas, como por exemplo, os trabalhos tratando da sexualidade de forma genérica, sobre internet, sobre motivação entre muitos outros que apresentaram um pequeno número de ocorrências.

A partir destes direcionamentos foi possível verificar que as áreas temáticas se apresentam com a seguinte configuração: Cuidado/Assistência em Enfermagem com 18,7%, Educação/Ensino com 12,0%, Saúde da Criança e do Adolescente com 9,6%, Saúde da Mulher com 7,4%, Gestão/Administração em Enfermagem com 6,0%, Saúde do Trabalhador com 5,8%, Enfermagem Psiquiátrica e Saúde Mental com 5,5%, História da Enfermagem com 4,4%, Enfermagem em Saúde Pública com 4,0%, Pesquisa e Produção do Conhecimento com 3,8%, HIV/AIDS com 3,1%, Enfermagem e Trabalho com 3,0%, Saúde do Idoso com 2,3%, Ética, Ética Profissional e Bioética 1,2% e outros temas com 13,3%.

Os dados dos periódicos consultados explicitam que há uma predominância de pesquisa que tomam o campo assistencial na enfermagem para estudo com ocorrência de 18,7%. É importante salientar que, na prática da pesquisa, parece que a enfermagem assume efetivamente a temática do cuidado como um foco privilegiado de sua atuação. Por outro lado cabe indagar se este dado não reflete ainda a predominância de temáticas dirigidas à assistência individualizada que era a tendência da pesquisa na década de 80 e que vinha se diversificando a partir de então, com a emergência de outras temáticas(7).

Ressaltamos ainda que a temática da Saúde da Mulher tem uma maior tendência a se concentrar no espaço não hospitalar com 75,4% dos trabalhos neste espaço em contraposição a 19,7% no espaço hospitalar, indicando que este é um tema mais abordado do ponto de vista da Saúde Coletiva. Isto pode ser entendido pela ênfase que é dada pelos programas oficiais na saúde da mulher, concentrando-se essas práticas nos espaços preventivos. Registramos, ainda, que este dado quando foi analisado e apresentado em um encontro de pesquisa, tendo como fonte apenas o periódico C, apresentou uma tendência de equilíbrio entre os espaços hospitalares e não hospitalares tendência esta que não se confirmou quando da reunião dos dados dos três periódicos.

A temática Saúde da Criança e do Adolescente apresentou-se com tendência de direcionamento para a área hospitalar com 52,5% enquanto que os trabalhos direcionados para o espaço não hospitalar perfizeram um total de 43,8%. Tal dado sugere que há uma menor produção de conhecimentos pelos enfermeiros (docentes ou assistenciais) que estão ligados aos espaços de atenção extra-hospitalar.

A temática da Saúde do Trabalhador aparece bastante concentrada no âmbito hospitalar com 55,8% dos trabalhos, indicando que os estudos sobre a saúde do trabalhador feitos pela enfermagem tem focalizado em grande medida os problemas relacionados ao próprio trabalho da enfermagem que acontece nos ambientes hospitalares.

Por outro lado, a tendência da temática HIV/AIDS, aparece bastante definida no espaço extra-hospitalar com 84% dos trabalhos, o que pode indicar que a enfermagem tem se debruçado timidamente sobre trabalhos de pesquisa com doentes de AIDS, dando maior relevância aos trabalhos extra-hospitalares. A isso poderíamos relacionar o maior incentivo, até mesmo governamental, a trabalhos preventivos, dado ser a AIDS uma doença ainda sem cura definitiva. Entretanto avaliamos que este é um dado relevante que merece atenção por parte dos estudiosos da área.

Encontramos a temática Enfermagem Psiquiátrica e Saúde Mental também tendendo a se concentrar no espaço extra-hospitalar, com 59,6%, comparados aos 36,2% do espaço hospitalar, o que pode nos indicar que está havendo uma mudança de postura da enfermagem brasileira em relação a esta área fato este que pode ser reflexo da reforma psiquiátrica e do modelo desacreditado de assistência asilar/manicomial que foi/é predominante, direcionando a produção do conhecimento para fora das instituições psiquiátricas tradicionais.

Um importante registro que se faz aqui é o da pouca ocorrência de resumos que tratassem da saúde coletiva especificamente (3,6%). Apesar disto, é possível inferir que esta pouca ocorrência não signifique exatamente que há apenas 3,6% de pesquisas ou textos que se direcionem à saúde coletiva. Se levarmos em consideração os trabalhos das áreas de saúde da mulher, da criança e do adolescente, do idoso, do trabalhador, HIV/AIDS e enfermagem psiquiátrica e saúde mental que se concentram no espaço não hospitalar este percentual se elevaria para 22,9% (3,6% dos especificamente voltados para saúde coletiva e 157 resumos - 19,3% das áreas de saúde da mulher, da criança e do adolescente, do idoso, saúde do trabalhador, HIV/AIDS, Enfermagem psiquiátrica e saúde mental com textos fora do espaço hospitalar). Contudo, pensamos que esta não seja uma observação muito precisa, pois nem sempre um texto que não se voltava para o espaço hospitalar tinha ao mesmo tempo uma perspectiva direcionada à saúde coletiva.

Em relação à autoria identificamos uma tendência de produção coletiva, expressa pelos seguintes dados: artigos com duas autorias, 42,9%, com três autores, 21,6%, com 4 autores, 11,1%, com cinco autores, 4,9% e com seis autores e mais 0,6%, em contraposição aos 17,5% de resumos de autoria individual. Tal distribuição pode ser justificada pelo crescente incentivo para formação de grupos de pesquisa, sendo cada vez menos recomendada a produção individual. Isso sem dúvida é um aspecto importante, pois pode favorecer as discussões e produções coletivas. Dado que a produção, como veremos adiante está bastante concentrada nos programas de pós-graduação, essa produção coletiva acaba sendo as parcerias entre docentes doutores e alunos de pós-graduação, fato este que pode explicar o elevado percentual (42,5%) de resumos com duas autorias.

A questão da produção coletiva tem sido um dos itens avaliados pelos órgãos de fomento como, por exemplo, o CNPq que pretende com isso "estimular estudos interdisciplinares, voltados para resolução de problemas sociais, tanto através de propostas tecnológicas como estudo de estratégia de sobrevivência(5:91)". Assim, percebe-se por parte dos órgãos financiadores, uma tendência a direcionar os recursos para trabalhos realizados em grupos. Da mesma forma a CAPES, em suas últimas deliberações, direcionou muitos dos recursos para financiamento apenas de pesquisas que estejam vinculadas a grupos e parcerias entre universidades. Os dados por nós levantados nesta pesquisa não nos permitem afirmar que a produção acadêmica da enfermagem esteja se pautando por estes critérios até o momento.

Considerando a formação dos autores, encontramos, que 29,8% são doutores, 20,7% são alunos de pós-graduação, 9,9% são alunos de graduação, 7,0% são mestres, 5,9% são enfermeiros graduados, 2,4% são outros profissionais 1,3% são especialistas, 1,0% são enfermeiros bolsistas e que 22,0% não deixam claro a titulação acadêmica. O número elevado de autores que não explicitou sua formação acadêmica, em sua maioria, eram autores que faziam referência apenas ao nível ocupado nos planos de carreira dentro das universidades, o que nos impossibilitou de saber claramente se eram doutores, mestres, especialistas, uma vez que o nível na carreira não tem ligação necessária com a titulação acadêmica em todas as instituições de educação superior. Entretanto, os dados explicitam que há uma relação direta entre titulação acadêmica e produção de conhecimentos na Enfermagem. Permitem retomar a afirmação feita no início deste texto de que é preciso buscar na produção de conhecimentos uma das possibilidades de dar visibilidade que a Enfermagem tanto anseia. Assim, é importante o alerta de que, nos periódicos estudados, encontramos um déficit de produção de conhecimentos por parte dos trabalhadores que estão na assistência direta ou desenvolvendo a prática da Enfermagem nos diversos espaços em que ela acontece efetivamente, uma vez que a produção é bastante concentrada nos programas de pós-graduação. Tal dado pode indicar um distanciamento da pesquisa dos problemas que são prementes no cotidiano dos trabalhadores de enfermagem.

O vínculo de trabalho e/ou estudo dos autores, apresentou-se da seguinte forma: 87,1% situam-se em universidades públicas, 4,2% em hospitais públicos, 1,6 % em universidades privadas, 1,0% em centros de saúde, 0,4% em hospitais privados, 0,3% em ambulatórios; 0,1% em instituições de ensino médio, 0,2% em clínicas, em 3,9% dos resumos não foi possível identificar o vínculo de trabalho e/ou estudo e 1,2% eram profissionais de espaços diferentes dos elencados para pesquisa. Registramos que para fidedignidade deste dado recorremos ao recurso de busca na internet para verificação da razão social da instituição e poucas foram as instituições que não foram identificadas a partir deste recurso. Cabe ainda o registro de que um grande percentual da produção científica está concentrada nas universidades da Região Sudeste, mesmo no periódico que não é localizado nesta região, corroborando nossa afirmação inicial deste texto de que a referida região, pelas características lá enumeradas concentra grande parte da pesquisa no Brasil.

Os dados apresentados reforçam a afirmação acima da correlação entre produção de conhecimentos e titulação acadêmica. Por outro lado, oferece um importante argumento em defesa da universidade pública como espaço privilegiado de produção e socialização científica. Assim, se há um discurso oficial de que as universidades públicas são onerosas e que não cumprem com sua função, essa afirmação, no que se refere à Enfermagem, tem que ser questionada. Há que se fazer uma leitura crítica, inclusive questionando a quem interessa este discurso, uma vez que a universidade pública é, na Enfermagem o locus, quase exclusivo, da produção e socialização de conhecimentos.

Se somarmos o percentual de trabalhos produzidos pelas universidades públicas e pelos hospitais públicos teremos um total de 91,3% de produção a partir destes espaços. Assim, a política neoliberal desencadeada na década de noventa no Brasil que, para a educação superior e para as instituições de caráter público teve como conseqüências à expansão da rede privada e o sucateamento da rede pública, bem como uma política de desvalorização destas instituições, deve sem dúvida, em curto prazo, refletir na qualidade da produção de conhecimentos.

Quanto ao financiamento das pesquisas, encontramos que 79,2%, não explicitam em seus artigos a fonte de financiamento e 20,8% mencionam. Destes, 66,6% são apoiados financeiramente pelo CNPq, 14,0% pela FAPESP, 8,6%, pela CAPES, e 9,8% por outras fontes de financiamento. Isso pode indicar que a produção de conhecimento, na sua grande maioria, não tem sido financiada ou que os autores não destacam sua fonte de financiamento quando publicam seus trabalhos de pesquisa. Sugere ainda que, sendo a produção centralizada nas universidades e, portanto, realizada por docentes haveria uma vinculação direta dos projetos de pesquisa com a destinação de carga horária do trabalho docente.

Podemos afirmar que as fontes de financiamento da pesquisa em enfermagem, por excelência, são aquelas vinculadas ao sistema de Educação Superior Federal, aqui representados pelos trabalhos financiados pela CAPES e CNPq. De acordo com as informações encontradas, há uma pouca participação dos órgãos de fomento estaduais como a FAPESP (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), que financia pesquisas no Estado de São Paulo. Sob a denominação de outros também inserimos fontes de financiamento de outros Estados como a FAPERJ do Rio de Janeiro, órgãos de estados do Nordeste, do Rio Grande do Sul, mas com pequena ocorrência.

Neste aspecto pode ser inserida a discussão sobre os direcionamentos das políticas públicas para a Educação Superior, inclusive em relação ao fomento de pesquisas. Neles está presente uma tendência à progressiva desobrigação do Estado para com este nível de educação, deixando para as leis de mercado a definição dos caminhos da produção e reprodução de conhecimentos.

No que tange à área da Enfermagem essa questão é preocupante, pois, nesta lógica, se os temas que são objetos de pesquisa, não se configurarem em uma mercadoria de grande aceitação no mercado, não haverá interesse em se financiar pesquisas dessa natureza. Está aí uma arena de conflitos e embates dos pesquisadores preocupados com uma produção científica que contemple prioritariamente os problemas e as necessidades sociais.

 

4 Considerações finais

O estudo realizado ofereceu indicadores do predomínio de alguns locus da produção de conhecimento, bem como das temáticas que têm sido privilegiadas como objeto de estudo pela Enfermagem, indicando presenças, ausências e limitada ocorrência de temáticas importantes como a saúde coletiva que figura com apenas 3,6% dos resumos analisados, mas que mesmo assim consideramos que devam ser debatidas no cenário atual.

Identificamos algumas tendências da produção e socialização do conhecimento na Enfermagem como a maior concentração de artigos relativos a pesquisas, entendendo esta atividade como uma produção e organização sistemática do processo de pesquisa e dos seus resultados, tendo como suporte o paradigma empírico analítico.

Podemos ver também que emergiram múltiplas e variadas temáticas que, se representam um movimento de distanciamento do modelo tradicional de ser e fazer enfermagem, ainda apontam uma certa permanência do mesmo modelo predominando as temáticas voltadas para a assistência.

Identificamos uma forte tendência de produção do conhecimento em parcerias com dois autores, na sua maioria doutores e alunos de pós-graduação, explicitando que a produção de conhecimentos em enfermagem tem tido seu principal espaço na pós-graduação. Contudo, avaliamos que seja necessário que se consolidem grupos de pesquisa, para possibilitar a produção efetivamente coletiva.

Reafirmamos que há forte predominância do espaço público representado pelas universidades, como quase únicos, na produção e socialização dos conhecimentos em Enfermagem, o que nos leva a reforçar a defesa da permanência e ampliação desses espaços e não o seu desmonte como tem sido efetivado pelas políticas públicas para este setor. Esta defesa se apresenta mais clara quando olhamos para as fontes de financiamento que são, na sua totalidade, vinculadas a órgão públicos federais e estaduais.

Gostaríamos de apontar (embora não tenha sido um dado por nós sistematizado), que percebemos uma forte concentração dos trabalhos de pesquisadores da Região Sudeste, sustentando nossa afirmação inicial neste texto de que esta Região tem se constituído no espaço geográfico privilegiado da produção científica no Brasil. Tal fato em nosso entendimento se explica pelo desenvolvimento econômico experimentado pela Região.

Acreditamos que esta pesquisa deixa lacunas pouco discutidas e que devem ser temas de pesquisa por pesquisadores especialistas em cada uma das áreas que foi superficialmente trabalhada. Podemos afirmar que os periódicos, fontes dos dados, têm se constituído em importantes meios de divulgação de conhecimentos na Enfermagem brasileira.

 

Referências

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Data de Recebimento: 01/09/2003
Data de Aprovação: 20/03/2004

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