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Revista Brasileira de Enfermagem

Print version ISSN 0034-7167On-line version ISSN 1984-0446

Rev. bras. enferm. vol.58 no.2 Brasília Mar./Apr. 2005

https://doi.org/10.1590/S0034-71672005000200007 

PESQUISA

 

O confronto entre enfermagem e a realidade do macro ao micro universo acadêmico

 

The confrontation between nursing and reality of the macro and micro academic universe

 

La confrontación entre enfermería y la realidad del macro al micro universo académico

 

 

Margarethe Maria Santiago RêgoI; Isaura Setenta PortoII

IDoutora em Enfermagem. Professora Adjunto do Departamento de Enfermagem Médico-Cirúrgica EEAN/UFRJ. santire@ajato.com.br
IIDoutora Enfermagem. Professora Adjunto do Departamento de Enfermagem Médico-Cirúrgica EEAN/UFRJ. isauraporto@superig.com.br

 

 


RESUMO

Partindo de uma análise crítica construtiva, esse estudo além de abordar o confronto entre o devir docente e a realidade do macro ao micro universo acadêmico, discute as dimensões éticas, estéticas e políticas vivenciadas por docentes da EEAN/UFRJ frente ao fenômeno da morte causada por crime de dois profissionais de enfermagem. Adotou-se referencial teórico - metodológico fundamentado nas concepções de Denis e Weil. Finalizando considera que, a base para a otimização de caminhos efetivos e afetivos em busca de vida com justiça social, solidariedade e participação política nos espaços de Enfermagem, emerge, primordialmente da vontade e de permanentes esforços no sentido da valorização do aprimoramento das qualidades humanas dos alunos e profissionais de enfermagem, sobretudo, dos valores éticos, estéticos e espirituais.

Descritores: Ética de enfermagem; Valores sociais; Qualidade.


ABSTRACT

Starting from a constructive and critical analysis, this study besides aproaching the confrontation between the becoming professor and the reality of the great and small academic universe, discusses about ethics, esthetics and politics dimensions lived by the professors of the EEAN/UFRJ (Anna Nery School of Nursing/Federal University of Rio de Janeiro) face the phenomenon of the death of two nursing professionals, caused by crime. It was adopted a theorical and methodological referential that was based in the conceptions of Denis and Weil. Concluding the study, it was considered that the basis for the optimization of the efectives and affectives paths in the seek of life with social justice, solidarity and political participation in the Nursing spaces, emerge, first of all, of the will and of the permanent efforts in the sense to valorized the aprovement of the human quality of the students and the nursing professionals, most of all, ethical, sthetical and spiritual values.

Descriptors: Ethics, nursing; Social values; Quality.


RESUMEN

Desde un análisis critico y constructivo, ese estudio además de abordar la confrontación entre el tornarse docente y la realidad del grand y pequeño universo académico, discute las dimensiones éticas, estéticas y politicas vividos por docentes de EEAN/UFRJ (Escuela Anna Nery de Enfermería/Universidad Federal del Rio de Janeiro) delante del fenómeno de la muerte causada por crimen de dos profesionales de enfermería. Fue adoptado un referencial teorico y metodologico procedente de las concepciones de Denis y Weil. Concluiendo, es considerado que, la basis para la optimazición de caminos efectivos y afectivos en busca de vida con justicia social, solidariedad y participación poltica en los espacios de Enfermería, sobresale, primariamiente de la vontad y de permanentes esfuerzos en el sentido de la valoración del perfeccionamiento de las cualidades humanas de los alumnos y profesionales de enfermería, sobretodo, de los valores éticos, estéticos y espirituales.

Descriptores: Ética de enfermeria; Valores sociales; Calidad.


 

 

1. INTRODUÇÃO

Atualmente, é possível constatar a predominância de uma realidade institucional e mundial, demarcada por estratégias e diretrizes político-econômico-sociais estabelecidas a partir de um modelo de sistema capitalista de deliberações comerciais que tendem a ignorar o referencial humano e a dimensão social - educação e saúde, como prioridades para a melhoria de vida das pessoas.

As instituições, em sua maioria, tendem a conservar normas, regulamentos, valores ou ideologias baseadas na valorização da política financeira e comercial, cuja primazia cultural do mundo materialista dominante é fundamental para a reprodução do capitalismo mundial. Sobre esta questão, Denis(1) afirma que, os efeitos desastrosos que emergem das teorias materialistas concitam os seres humanos à valorização excessiva do dinheiro, do sucesso, do despotismo, da vaidade, do niilismo, da intolerância e outros elementos que convergem para o favorecimento das desigualdades humanas e contradições da vida. Além disso, afirma que o materialismo, enquanto doutrina negativa, é constituída de homens de escol intelectual que diante de uma massa humana, de um povo sem crenças, sem princípios fixos, se aproveitam destas condições para lhes explorarem as paixões e especularem sobre suas ambições. O autor sustenta ainda que, esses miasmas da humanidade, em suas conseqüências extremas, levam fatalmente a história humana "ao vácuo, ao nada social"(1).

Neste contexto, existe um visível afastamento entre o atendimento as necessidades das pessoas e as dimensões políticas, sociais e culturais procedentes do contexto macro-institucional. As estratégias e diretrizes gestadas por uma dinâmica do capitalismo internacional, estimulam relações institucionais pautadas numa corrente de forças elitizantes, dominadoras, preconceituosas e discriminatórias. Mas, apesar da evidência de processos progressivos de democratização da sociedade, esse modelo capitalista/materialista dominante que se apresenta do macro ao micro universo acadêmico, é um dos grandes desafios atuais postos ao processo de renovação de novos valores na enfermagem, inclusive os valores sociais, isto é, "padrões abstratos ou variáveis empíricas da vida social, que são considerados importantes e/ou desejáveis"(2).

A partir desses lineamentos o estudo apresenta como objetivos abordar o confronto entre o devir docente e a realidade do macro ao micro universo acadêmico bem como, discutir as dimensões éticas, estéticas, políticas e sociais vivenciadas pelos docentes de enfermagem de um departamento de ensino universitário frente ao fenômeno da morte precoce de dois profissionais de enfermagem causada por crime.

 

2. CONSIDERAÇÕES METODOLÓGICAS

Adotou-se referencial teórico fundamentado nas concepções de Léon Denis(1) e Pierre Weil(3,4). Consideramos a "análise temática"(5) enquanto a análise dos significados dos conteúdos das mensagens, como o instrumento metodológico mais adequado para o estudo.

O campo da análise do estudo foi predominantemente o Departamento de Enfermagem Médico-Cirúrgica (DEMC) da Escola de Enfermagem Anna Nery (EEAN) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) considerando que, ele é o cenário onde regularmente reúnem-se os participantes desta pesquisa. Entretanto, eventualmente, os espaços externos ao DEMC (EEAN/UFRJ), foram incorporados à investigação, porque a vida institucional extrapola o espaço do DEMC.

A EEAN, é uma instituição de ensino de enfermagem, constituída de programas de graduação e de pós-graduação "lato e stricto sensu". As disciplinas e programas de ensino estão alocadas em cinco departamentos quais sejam: Departamento de Enfermagem em Saúde Pública (DESP), Departamento de Enfermagem Materno-Infantil (DEMI), Departamento de Enfermagem Fundamental (DEF), Departamento de Metodologia em Enfermagem (DME) e Departamento de Enfermagem Médico-Cirúrgica (DEMC).

Os participantes do estudo foram vinte docentes do DEMC/EEAN/UFRJ. A técnica de observação participante e a "entrevista sensível criadora"(6) foram às modalidades de pesquisa utilizadas para coleta de dados.

Para a fundamentação da dimensão ética da pesquisa bem como o processo de obtenção do consentimento livre e esclarecido dos participantes foram utilizadas as recomendações contidas na Portaria nº 196/96, do Conselho Nacional de Saúde, do Ministério da Saúde denominada "Diretrizes e Normas Regulamentadoras de Pesquisa Envolvendo Seres Humanos"(7). Nesse sentido, foram atendidos particularmente, os requisitos da eticidade, com a elaboração de dois documentos. O primeiro intitulado "Consentimento Livre e Esclarecido", destacou informações pertinentes à temática, bem como a anuência do sujeito da pesquisa autorizando sua participação voluntária na pesquisa. O segundo documento, "Termo de Consentimento da Versão" trata da autorização da entrevista concedida e a opção do docente em utilizar o nome real ou um pseudônimo. Cabe destacar que, dos vinte e quatro docentes participantes do estudo, vinte e três autorizaram a utilização do nome e uma docente solicitou identificação através da sigla IEC procedente do seu nome real.

 

3. ATRAVESSAMENTO DO CONTEXTO MACRO-POLÍTICO-ECONÔMICO-SOCIAL NO ESPAÇO MICRO-INSTITUCIONAL

Ao enunciar sobre o processo de vida pessoal, profissional e institucional que se processa como resultado de um universo social globalizado, evidenciamos profissionais que demonstram atitudes de indiferença para movimentos sociais e políticos da Enfermagem. Por outro lado, conhecemos pessoas que se expressam de forma crítica construtiva e rejeitam ideologias sociais e políticas de um mundo materialista metodicamente excludente e hegemônico. Por conta disso, lutam no sentido de viabilizar a construção de caminhos, que possibilitam a edificação de uma sociedade cada vez mais justa e solidária.

Neste sentido, cabe destacar um momento singular ocorrido no dia vinte de setembro de 1999. Trata-se do assassinato de duas lideranças da Enfermagem Brasileira que muito lutaram politicamente e socialmente por processos de melhorias contínuas no modo de pensar, conviver e viver enfermagem: Marcos Otávio Valadão Presidente da Associação Brasileira de Enfermagem/Seção Rio de Janeiro, e Edma Rodrigues Valadão Presidente do Sindicato dos Enfermeiros do Rio de Janeiro e Diretora da Federação Nacional dos Enfermeiros.

Foi possível constatar nesse acontecimento um real atravessamento do contexto macro-político-econômico-social no espaço micro-institucional. O fato em si influenciou docentes de enfermagem para determinadas reflexões e ações. Diversos profissionais de enfermagem promoveram interações efetivas no sentido de mobilizar sindicatos, associações, movimentos sociais, envio de e-mails e fax para o circuito acadêmico, Secretaria Estadual de Segurança Pública, Governo do Estado do Rio de Janeiro, Ministério da Justiça, exigindo esclarecimentos, apuração, detenção e julgamento dos responsáveis.

Esse acontecimento reuniu docentes de enfermagem para um movimento de solidariedade e homenagens a estes respeitados profissionais da enfermagem no Boletim Informativo do DEMC(8). Os corpos dos dois companheiros mortos foram velados na EEAN/UFRJ, no dia 21 de setembro de 1999 com a presença de docentes, alunos, autoridades políticas do Estado do Rio de Janeiro, dentre outros.

Fatos dessa natureza possibilitam reflexões sobre os valores universais sobretudo os éticos e estéticos nos espaços da Enfermagem Brasileira. Nesse sentido, a Professora Deyse expressou, a época, o que sentiu e disse assim:

Nessa situação em que acabamos de perder dois colegas enfermeiros, eu fiquei muito atordoada. [...]. Passei a conhecer o Marcos Valadão, a partir do momento que começamos a fazer algumas disciplinas na Escola. Ele no mestrado e eu no doutorado. Eu sabia que ele estava também em um período de preparação para qualificação de sua dissertação de mestrado. [...] A minha qualificação, que estava marcada para o dia 21, foi até adiada por motivo dos corpos terem sido velados na Escola, nesse dia. Quando a Paulinha, do nosso Departamento, me ligou confirmando a notícia, foi um choque. Chorei muito principalmente pelas circunstâncias. A perda dos dois foi muito grande. Não tinha razão. Eu nunca vi uma pessoa mais integra, mais honesta, mais aberta e clara do que o Marcos. A Edma, eu não conhecia, mais eu acredito que para estar casada com ele, é porque tem as mesmas qualidades. Então, eu não vejo motivo e não consigo entender. [...] A primeira coisa que eu pensei foi que, atualmente é muito difícil você querer fazer as coisas certas, esclarecer os fatos, transformar. É como se fosse assim, um domínio do mal. Quer dizer, se você está pensando diferente daqueles que estão no poder então, a forma de retirar você é a mais radical que existe. É tirando a vida. Isso é inacreditável! E, por uns poucos minutos, eu até perdi as esperanças. Eu pensei: ´aquele que entrar no poder com o pensamento de melhorar, de transformar para melhor, não vai conseguir. Vai ser eliminado, como o Marcos e a Edma foram. E, se eu quero o bem das pessoas que eu gosto, então, não quero que eles corram nenhum risco. Foi a primeira coisa que eu pensei. É uma perda de esperança muito grande, das coisas que são certas. Mas, depois que você se acalma, pensa e compreende. Então, volta atrás quanto a essa falta de esperança. É preciso continuar. Mas aquele momento a gente não esquece (Profª Deyse).

Ainda sobre esse acontecimento, o depoimento da Professora Paula, contribui para uma reflexão e compreensão sobre a questão da morte precoce de seres humanos causada por crime entrelaçando-os com outros referenciais, principalmente o bem-mal, o triste-alegre, limpo-sujo, a humildade-poder. Tratando-se das circunstâncias do acontecimento, significa perceber que existem seres humanos que desconhecem o que é ser humano. Ela ressaltou o seguinte:

Só de conversar é possível perceber o bom caráter da pessoa, porque é transparente. E o Marcos me passava isso, uma pessoa boa como se mostrava ser. [...] Eu vim para a Escola e fiquei pensando sobre esse acontecimento com pessoas tão próximas de todos nós. Isso me deixou muito triste. Têm pessoas que falam assim: ´Ah! nossa profissão não é valorizada. Além de ganhar pouco, [...] lida com dejetos humanos, com suor e secreção. Tudo que é sujo, que é feio, que cheira mal, a gente tem que lidar'. Então, as pessoas acham que isso é o pior da profissão. Eu não acho. Eu penso que para ser enfermeiro, é preciso gostar do que se faz. Tem que ser uma pessoa especial. Se não tiver determinadas qualidades então nem adianta, porque não vai conseguir ser profissional. Pode ser no papel ou no discurso, mas não vai ser enfermeiro de verdade. Eu pensei: 'não é possível, uma pessoa que tratava todo mundo tão bem, que estava lutando e procurando o bem e o melhor para todos, morrer por causa disso. [...] Matar é uma coisa inadmissível. A gente não pode nem imaginar uma coisa dessas, uma pessoa pensar em fazer mal a outra assim dessa forma. Então, para mim, isso é que é sujo, que é mal. E, eu fiquei pensando:Será que é aquela história da luta de poder? Eu vejo isso perfeitamente. É o mal dominando as pessoas. Será que essas pessoas acreditam em Deus?(Profª Paula).

Na linha de pensamento que trata da luta de poder bem como da banalização de princípios sociais básicos tais como liberdade e respeito à vida humana, o depoimento do Professor Walcyr contribui para as nossas reflexões acerca das lutas éticas e políticas de enfermagem:

Em certos momentos, as situações acontecem e se processam por conta de uma série de relações, de caráter político econômico e ideológico que apontam, quase que exclusivamente, para interesses de grupos controladores das formas de poder.[...] Félix Guattari em um dado momento de sua obra, nos faz a referência sobre as contradições das subjetividades individuais dentro de uma subjetividade maior no coletivo, onde as necessidades de cada pessoa, de cada cidadão, em sua importância, se movimentam e relacionam com as necessidades de um coletivo. E o que estamos vivendo? Uma marcante dissociação do que seja o sentido de coletividade, para onde se utilizam artifícios vis e maldosos para fazer valer objetivos particulares, [...] representação tópica de uma lógica elitista, narcisista e excludente.

De fato, as divergências ideológicas se fazem presentes, veladas ou não, no contexto atual. E o resultado desses dramas e tramas sociais podem ser radicais no sentido da destruição abusiva ao direito de vida do outro. A realidade mostra então, atitudes individuais que se movimentam através de todo tipo de expediente inclusive aqueles demarcados por processos estacionários ou de obliteração do desenvolvimento da profissão de Enfermagem. Para o Professor Walcyr:

Tem pessoas que passa a se utilizar de todo tipo de artifício, para fazer valer, acima de qualquer coisa, o seu projeto ideológico. Não importando os limites do respeito humano e social, da solidariedade, da ética da vida. E neste caminho, não dá para aceitar e/ou apreender as questões éticas através das máscaras do oportunismo moralista. Até porque, se configura como a mais plena demonstração de hipocrisia.

O problema da hipocrisia destacada pelo Professor Walcyr, também é motivo de incômodo para a Professora Isabel. Durante uma defesa de dissertação de mestrado na EEAN, na qual ela foi membro da banca examinadora, a professora destacou essa questão que perpassa o momento atual da vida social. A temática da dissertação abordava o compromisso e liberdade na enfermagem. Na sua fala, ela ressaltou a pertinência do assunto para os dias atuais, considerando principalmente as questões éticas e relações humanas comprometidas. Além disso, fundamentou sua fala em um texto publicado no Jornal do Brasil intitulado "Vitória da Hipocrisia"(9).

Na visão da professora Isabel a hipocrisia permeia a sociedade e os problemas éticos que estão surgindo todos os dias no país são conseqüências da ausência de atitudes e comportamentos verdadeiros. Prosseguindo destacou que felizmente existem pessoas preocupadas com essa questão da hipocrisia na sociedade atual. Ressaltou também a necessidade de buscar forças em algo divino, para transpor os diferenciados enfrentamentos da vida.

Uma sociedade que não se movimenta em um processo dinâmico de direitos, respeito, solidariedade e esperança, se reproduzindo como refém das relações de poder hegemônico, da multiplicação das diferenças, das exclusões, caminha para um futuro-presente bem sombrio. Tem-se de estar bem atento à dimensão desses conflitos, contradições e conseqüências, pois muitas das vezes passam a criar situações de selvageria, onde a sensatez e a solidariedade, são destroçadas em função de um movimento predatório, sem o menor escrúpulo e respeitabilidade ao outro e suas diferenças.

Muitas são as contradições do mundo que vivemos. Mas, o fato de vir-a-ser-profissional de enfermagem requer qualidades técnicas e humanas que possibilitem interações sociais caracterizadas por valores éticos, estéticos e espirituais imprescindíveis para a construção de uma realidade de Enfermagem mais justa e solidária. Esta qualidade "implica que os usuários de serviços recebam pontualmente, eficientemente e seguramente (qualidade técnica) ajuda em condições materiais e éticas adequadas (qualidade percebida)"(10).

A partir do aprimoramento das qualidades técnicas e humanas das pessoas, é possível alcançar caminhos que levem ao fim da violência e do egoísmo, enquanto males enraizados na atual sociedade. Assim, o esforço das pessoas para o auto-aprimoramento é vital para renovar valores construtivos caracterizadores de profissionais que sabem cuidar de si, do outro e sabem também aprender e ensinar para a vida.

Nesta linha de pensamento, destaco uma mensagem encaminhada via e-mail pela Professora Lys aos docentes do DEMC, inclusive para as pesquisadoras, no mês de setembro de 2000. Esta mensagem tratava-se do posicionamento da Diretoria da ABEn Nacional transcorrido um ano da morte dos companheiros Marcos e Edma. Aquela Diretoria solicitava, a época, que esta mensagem fosse socializada entre os profissionais de enfermagem para leitura, reflexão e divulgação de idéias, qual seja: "a ABEn avançou para além da defesa da corporação ao reafirmar a humanidade e solidariedade anônima e universal como preceitos estatutários máximos para a entidade e para associadas e associados". Mais adiante a mensagem da Diretoria da ABEn registra que:

Hoje dia 20 de setembro {2000}, completa um ano, do assassinato brutal dos nossos queridos companheiros [...]. Até hoje os crimes continuam sem solução. A Enfermagem Brasileira encontra-se enlutada, porém continua lutando para que a justiça cumpra o seu papel, e entregue para julgamento e punição, os culpados por mais essa atrocidade contra os trabalhadores; para juntos exigirmos do poder público seriedade e compromisso com os cidadãos brasileiros. A apuração desses crimes é essencial para que acreditemos na justiça. [...] Na mudança de seu estatuto, em 1994, a ABEN, entidade civil, criada há 74 anos, assumiu como compromisso oficial, ético, político e técnico propor e defender políticas e programas: que visem a melhoria da qualidade de vida da população, [...] A ABEn explicita e propõe [...] novos valores [...] de humanidade e solidariedade universais reprimidos em um mundo onde imperam o discurso e a prática do neoliberalismo e da globalização da economia e seus valores máximo de individualidade, do consumismo, da flexibilização das relações trabalhistas, da tecnificação e fragmentação transcontinental do processo de trabalho para o aumento de produtividade. Estes valores do neoliberalismo trouxeram ao mundo e ao Brasil, em particular, perversas conseqüências: aumento de desemprego [...], aumento da fome, da ignorância, [...] concentração de renda, miséria [...]. E talvez pior que tudo isso, [...] a des-responsabilização dos poderes executivos com seus mais primários deveres sociais: a garantia da saúde, da educação, da segurança, da justiça para todos os cidadãos.

Na leitura desta foi possível destacar pontos importantes para reflexões acerca das políticas públicas na saúde e educação, sobre questões sociais e políticas do contexto da enfermagem, sobre a importância do desenvolvimento das qualidades técnicas e humanas dos profissionais de enfermagem e também em relação a ética de enfermagem, esta última entendida como princípios de uma conduta profissional apropriada relativas aos direitos e deveres dos próprios enfermeiros, seus pacientes e os companheiros profissionais, como também às ações deles no cuidado de pacientes e em relações com suas famílias(11)

É fato que, a ética de enfermagem realmente precisa ser otimizada porque implica em transmitir valores universais e essenciais para a existência digna da profissão perante a sociedade. Claro que todo movimento e situações do macro cenário da realidade brasileira reflete e tem conseqüências diretas para a prática da enfermagem. Assim, destacamos ainda a mensagem da Diretoria da ABEN, ano 2000 quando afirma que:

Impera hoje na nossa sociedade [...] um sentimento coletivo de descrença, [...] e uma sensação de impotência frente às determinações macro-econômicas, ao abuso de poder, a corrupção e a violência que assola nosso país. [...]. A enfermagem brasileira precisa se posicionar, [...] Lutar para sua transformação são responsabilidades coletivas e corporativas. [...] Omitir-se é contribuir para manter o atual caos. [As pessoas precisam] parar de fugir ou desanimar frente aos problemas [...]. Esta sensação de desânimo frente à nossa cidadania aviltada precisa ser combatida com as armas da ética social da compaixão, do amor e da solidariedade.

Enfim, numa visão otimista em relação à possibilidade de uma realidade geradora de processos progressivos na enfermagem, a Diretoria da ABEn assim conclui:

[...] É preciso que a Enfermagem brasileira demonstre a sua perplexidade frente ao caos atual. Vamos organizar nos nossos locais de trabalho momentos de reflexão e cobrança por justiça, por cidadania, por equidade... Por vida, vida livre, vida digna e vida feliz para todos os brasileiros. Não mais um triste sonho distante. Mas, realidade. Por festa coletiva e universal. Fruto da justiça, da igualdade e da fraternidade e da implicação da enfermagem brasileira.

Todos esses fatos e depoimentos descritos acerca da realidade político-econômica-social, tornaram possível sistematizar um corpus teórico relevante à cerca do confronto do devir docente com a realidade do macro ao micro universo acadêmico. Deste modo, constituíram categorias presentes nesta passagem pelo estudo temas como: educação, saúde, crise, morte e outros. As enunciações obtidas através dos depoimentos nos fazem refletir sobre a concepção de Weil(3) quando ele refere que, na conhecida história do mundo, a humanidade está passando pela sua maior crise. Para o mesmo autor, o fato de o mundo estar mergulhando em crise, leva as pessoas ao suicídio coletivo pela destruição da vida no planeta. Nesta linha de pensamento destacamos Frei Betto(12) quando refere que no mundo atual o "Armai-vos uns aos outros parece sobrepor-se ao Amai-vos uns aos outros".

A morte é destruição abusiva da vida, quando ocorre uma manifestação violenta e repentina de ruptura do equilíbrio social gerando tensão, conflito ou fase difícil, ou grave na evolução das coisas. A morte não natural é um fenômeno de crise, que rompe o equilíbrio da harmonia universal, perturbando e desorganizando a vida de alguns ou de grupos integrados na sociedade.

A morte é a nossa única certeza de futuro. Não é, portanto, uma fatalidade, mas um destino. Mas por ser a vida um milagre que insiste em prolongar-se e reproduzir-se, a morte precoce de um ser humano causada por fome, crime ou trauma é a mais grave ofensa à natureza e ao dom de Deus(11).

Esses movimentos alternativos e transversos do contexto macro e micro-institucional são exatamente aqueles, com os quais cada ser humano de uma sociedade depara-se durante a construção da sua própria história. Assim, esses movimentos atravessam a instituição de ensino em enfermagem e o cenário departamental alcançando os profissionais de enfermagem. Por conseguinte, cada um vai manifestar pensamentos, sentimentos, atitudes e ações, de acordo com os valores que desenvolveram nas suas diferenciadas experiências e vivências de suas trajetórias histórico-existenciais reconhecendo-os como essenciais para nortear os caminhos da vida pessoal/profissional. Neste sentido, Weil(4) diz que, a crise pode ser uma oportunidade de crescer, de evoluir, para uma civilização mais lúcida, consciente e em paz.

No decorrer deste estudo foi possível observar que existe, de fato, uma preocupação dos docentes com a melhoria da qualidade de viver e ensinar enfermagem. O que importa dizer que existe o processo de desenvolvimento das qualidades humanas dos mesmos. Então, o que importa é compreender que, é possível a mudança no sentido do melhor. Ninguém permanece indiferente a esse movimento da vida. Os depoimentos e observações permitiram identificar as dificuldades, obstáculos e desafios que são (ou não) superados pelos docentes. Esses achados remetem a Demo(13) quando ele afirma que "não é a conquista de uma mina de ouro que nos faria ricos, mas sobretudo a conquista de nossas potencialidades próprias, de nossa capacidade de autodeterminação, do espaço de criação. É o exercício da competência política".

Essa realidade circunstancial indicada nos dados, sinaliza para uma possível sistematização de prismas emergentes do confronto do devir docente com a realidade do macro ao micro universo acadêmico. O Quadro 1 revela uma síntese desses prismas, que contextualizam o processo da prática político-pedagógica em enfermagem dos docentes do DEMC/EEAN/UFRJ.

O modelo capitalista atualmente implantado estimula as instituições a buscar estratégias para obter ganhos de lucro e produtividade, desconsiderando quase que plenamente, as diretrizes dirigidas para a valorização das pessoas. Tal situação constitui uma distorção, que pode ser destacada no pensamento de Denis(1). Para ele, a rigor, na universidade, assim como nas instituições humanas em geral, as pessoas deparam-se com obscuridades e contradições em tudo que diz respeito ao processo de viver a vida. Para ele, os males de nossa época, devem ser atribuídos a esses estados de coisas determinadas, especialmente pela incoerência das idéias, os confrontos ideológicos, a desordem da consciência, a anarquia moral e social. O desânimo, o medo e o pessimismo, elementos manifestados por alguns docentes são, para Denis(1), doenças de sociedades decadentes que ameaçam o futuro da sociedade.

Assim, para que a enfermagem seja capaz de mudar e direcionar para melhor, o rumo da sua trajetória histórica, é imprescindível desenvolver primeiro, as qualidades pessoais técnica e humana. Neste aspecto, assume importância a participação política dos docentes de enfermagem, na medida em que qualquer movimento de luta a favor do bem estar e justiça-social emerge primeiro, da vontade, do esforço e da coragem de cada pessoa e do grupo.

Então, a valorização e o aperfeiçoamento das qualidades técnicas e humanas é um processo dinâmico, revolucionário e um grande avanço para consolidar o movimento transformador rumo às melhorias contínuas da qualidade de viver, conviver e ensinar enfermagem. Este movimento tem implicações consubstanciais para o docente de enfermagem considerando principalmente, o fato dele ser o responsável pela socialização do conhecimento e pela possibilidade de criar espaços de reflexão.

Denis(1) corrobora com esta posição quando refere que é necessário despertar o ser humano adormecido por uma retórica funesta, a fim de sensibilizá-lo para as potencialidades e qualidades que lhes são inerentes e a ter consciência de si mesmo, para melhor encaminhar o seu próprio crescimento. Nesta linha de pensamento, o processo educativo é essencial para conquistar a liberdade e o discernimento da realidade Este processo, por sua vez, permite ao espírito humano escapar das forças opressivas que operam no mundo atual.

De fato, a realidade macro-institucional vigente estimula as pessoas para o personalismo, a competição destrutiva, o sectarismo, as contradições, as astúcias, a destruição abusiva das singularidades, as táticas de dissimulação, negação, engano, auto-engano, fuga, ilusão, poder. Estes prismas evidenciados nas pessoas, porém incompatíveis com a essência de humanidade, relacionam-se com os valores humanísticos universais opostos, que podem ser desenvolvidos e transformados em processos progressivos da vida espiritual. Neste sentido, a caminhada rumo ao aprimoramento pessoal acontece através de movimentos alternativos da vida, nos quais coexistem qualidades e excessivas vicissitudes, obstáculos e aberturas, fluxos e refluxos, triunfos e sofrimento, ascensões e quedas.

O homem fisica e materialmente é como uma planta que se desenvolve naturalmente, em virtude das leis universais, porém, intelectualmente e moralmente ele se cria por si mesmo. É por uma longa série de esforços, de trabalhos, de buscas que ele se torna no que é; é por suas relações com seus semelhantes que ele cria a ordem social completa(13).

 

4. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Em 20 de setembro de 2004 completam cinco anos do assassinato brutal dos respeitados profissionais de enfermagem Marcos Otávio Valadão e Edma Rodrigues Valadão. Estes crimes continuam sem solução.

A partir desse contexto, é possível evidenciar que os processos demandados do cenário macro-institucional, exercem influências político-econômico-sociais que atravessam os muros do micro universo institucional e chega até as singularidades dos grupos e de cada um dos profissionais de enfermagem. Desse modo, constata-se que nenhuma ação profissional está dissociada dos processos políticos, econômicos, culturais, sociais, naturais e outros do mundo do trabalho.

Essa realidade macro institucional, de características econômicas, sociais e culturais, opera no micro universo acadêmico reproduzindo os processos que (des)organizam o coletivo acadêmico profissional. A realidade é aquilo que construímos por meio do relacionamento mútuo. Porém, temos uma estrutura em nossos espaços acadêmicos, que se apresenta conduzida pelo estabelecimento de imposições e deliberações provenientes do contexto macro-institucional, do qual discordamos, muitas vezes.

As transformações relacionadas a ela podem encontrar-se distanciadas dos movimentos relativos a ações desenvolvidas para a promoção de um ambiente institucional produtivo e saudável. Então, é uma contradição que a instituição formada pelas próprias pessoas, não satisfaça a elas mesmas em suas necessidades e expectativas. As pessoas encaminham os movimentos de transformações da realidade, mas elas ainda vivem sob ansiedade, buscando de alguma forma, alcançar algo novo. Neste contexto acontece que, o funcionamento psico - organizacional em nosso micro universo, é atravessado por crise, confrontos e conflitos na medida em que as interações sociais apresentam continuidade de lutas presentes no macro universo social.

Desse modo, é imprescindível a defesa de valores éticos, estéticos e espirituais no decorrer da trajetória histórica profissional da enfermagem bem como a luta política efetiva de cada profissional contra valores materialistas dominantes, que atualmente impede uma construção mais fortalecida de uma sociedade mais justa e com melhor qualidade de vida. Então, cabe aos profissionais de enfermagem a qualidade humana da coragem, da ousadia, da determinação, no sentido de conseguirem vencer as próprias tendências destrutivas, enfrentar os conflitos transformando-os em oportunidade de crescimento, superar obstáculos próprios do contexto macro e micro institucional, ultrapassar as barreiras das dificuldades pessoais e se desenvolverem intelectualmente e moralmente de forma digna. Certamente vamos estar aprendendo, ensinando para a vida e contribuindo para a otimização de caminhos em busca da qualidade de viver mais com justiça social, mais solidariedade e maior participação política nos espaços de Enfermagem.

 

REFERÊNCIAS

1. Denis L. O problema do ser, do destino e da dor. 16ª ed. Brasília (DF): FEB; 2000.         [ Links ]

2. Biblioteca Virtual de Saúde. Descritores em Ciências da Saúde: Valores Sociais. [citado em 10 jul 2004]. Disponível em: URL: http://www.decs.bvs.br         [ Links ]

3. Weil P. Organizações e tecnologias para o terceiro milênio: a nova dos Ventos; 1997.         [ Links ]

4. Weil P. A Nova Ética: na política, na empresa, na religião, na ciência, na vida privada e em todas as outras instâncias. 2ª ed. Rio de Janeiro (RJ): Rosa dos Tempos; 1994.         [ Links ]

5. Bardin L. Análise de conteúdo. Lisboa (PT): Edições 70; 1990.         [ Links ]

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Data do recebimento: 04/08/2004
Data da aprovação: 04/05/2005

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