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Revista Brasileira de Enfermagem

Print version ISSN 0034-7167On-line version ISSN 1984-0446

Rev. bras. enferm. vol.58 no.2 Brasília Mar./Apr. 2005

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-71672005000200009 

PESQUISA

 

Vivência de violência familiar: homens que violentam suas companheiras

 

Experiencing familiar violence: men who commit violence against their mates

 

Vivencia de violência familiar: hombres que son violentos con sus compañeras

 

 

Nadirlene Pereira GomesI; Normélia Maria FreireII

IProfessora da Universidade Federal do Vale do São Francisco. Mestre em Enfermagem na área de Concentração Enfermagem na Atenção à Saúde da Mulher. Endereço: Jardim Vera Cruz, quadra 05, lote 08, IAPI, Salvador, BA. CEP: 40 360-590. Fone: (71) 388-6456 / (74) 8101-6878. lene.gomes@uol.com.br
IIProfessora Adjunto da Universidade Federal da Bahia. Doutora em Enfermagem pela UNIFESP. Orientadora da dissertação. Pesquisa do Grupo de Estudo Saúde da Mulher - GEM. Coordenadora da linha de pesquisa "Mulher, Saúde e Violência". normelia@lognet.com.br

 

 


RESUMO

Este estudo objetiva compreender os elementos presentes na construção da identidade dos homens que violentam suas companheiras. De abordagem qualitativa, tem como referencial teórico as Representações Sociais. Foi realizado na comunidade do Calafate, localizada no bairro de San Martin/Salvador-BA. Os sujeitos foram compreendidos por 07 homens que violentavam suas companheiras. Como técnica de coleta de dados, utilizou-se a entrevista semi-estruturada. Os dados foram organizados a partir da Análise de Conteúdo de Bardin, especificamente a Análise Temática, no tema eixo: Relação familiar. O estudo permitiu identificar elementos que interferem na construção da identidade de homens que violentam suas companheiras. Estes têm origem no relacionamento familiar marcado por diversos fatores, dentre os quais: ausência de diálogo e agressões físicas.

Descritores: Casamento; Violência doméstica; Relações familiares.


ABSTRACT

The aim of this study was to understand which elements are present on the construction of the identity of men who commit violence against their mates. This qualitative study took as theoretical reference the Social Representations. It was carried out on Calafate community, San Martin, Salvador, BA. Its population was composed by 7 men who committed violence against their mates. Semi-structured interview provided data, which was organized through Bardin's Content Analysis, specifically thematic analysis, in the axis Familiar Relation. The study enabled us to identify elements that interfere on the construction of the identity of men who commit violence against their mates. Its origin is in the familiar relationship, marked by factors as lack of dialogue and physical aggressions.

Descriptors: Marriage; Domestic violence; Family relations.


RESUMEN

Este estudio tuvo como objetivo comprender los elementos presentes en la formación de la identidad de los hombres que emplean la violência contra sus compañeras. El mismo con un enfoque cualitativo, tiene como referencia teórica las Representaciones Sociales. El estudio fue realizado en la comunidad de Calafate, localizada en el bairro San Martin/Salvador-BA. Los sujetos fueron 07 hombres que eran violentos con sus compañeras. Para la obtención de los datos se utilizó la entrevista semi estructurada. Estos datos fueron organizados a partir del Análisis de Contenido de Bardin, especificamente, el Análisis Temático, en el tema central: Relación familiar. El estudio permitió identificar los elementos que intervieren en la formación de la identidad de los hombres violentos con sus compañeras. Estes elementos se originan en la relación familiar marcada por diversos factores, entre los cuales estan la ausencia de dialogo y las agresiones físicas.

Descriptores: Matrimonio;.Violencia domestica; Relaciones familiares.


 

 

1. INTRODUÇÃO

A violência conjugal é um fenômeno cada dia mais presente no cotidiano de homens e mulheres, por isso tem se tornado uma preocupação de grupos de mulheres (feministas) e, mais recentemente, de grupos masculinos, que tentam compreender de que forma se constrói o fenômeno da violência entre homens e mulheres.

Conforme Bustos(1), a mulher foi criada para fazer companhia ao homem, num papel auxiliar e secundário. Assim, ao buscar a origem do homem e da mulher segundo a bíblia, o autor se reporta ao mito de Lilith, primeira mulher a ser criada por Deus, logo após o nascimento de Adão. Sicuteri apud Bustos(1) afirma que "quando Adão queria ter relações sexuais na posição mais natural, quer dizer, o homem por cima e a mulher por baixo, Lilith se queixava com inquietude: Por que devo estar sempre por baixo de ti? Por que devo abrir-me debaixo de teu corpo? Por que devo ser dominada por ti? Se eu fui criada do mesmo pó, então só tua igual. Se sou tua igual, não te devo obediência(1).

Neste contexto, a mulher quebra a ordem sagrada, cometendo o pior dos pecados, haja vista ela questiona a ordem natural. Assim, a história traz Adão como vítima de Lilith, demônio, expulso do paraíso e condenada a torturas. Contudo, a segunda mulher constituída, por sua vez, pela costela de Adão, também encarna a revolução. Isto ocorre quando Eva desobedece, já não a seu marido, mas ao próprio Criador. No entanto, assim como Lilith, Eva também vai ser castigada: perde o paraíso; conhece a dor e é condenada a morte.

A partir destas desobediências, se estabelece o domínio da mulher pelo homem. Estes mitos, entretanto, são cristalizados e interferem na construção das identidades feminina e masculina.

Durante todas as fases de nosso desenvolvimento, sofremos influências de instituições como a família, a escola e a igreja. Elas transmitem normas e valores culturais, ensinando meninos e meninas a diferenciarem o que é próprio do sexo feminino daquilo que é específico do masculino, e assim reconhecer os papéis de cada sexo(2,3).

Desta forma, desde cedo aprendemos a realizar atos, assumir condutas, exercer ações, a nos comportarmos de forma apropriada, enfim, a representar os papéis atribuídos aos gêneros, o que influenciará na construção da identidade de gênero.

Para Gebara(4), essa construção cultural de gênero determina as diferenças entre os sexos, e a partir destas legitima tanto a inferioridade feminina quanto à dominação e hierarquia sexual e social do homem. Neste sentido, a desigualdade permite que relações violentas entre homens e mulheres sejam consideradas naturais.

Neste sentido, as mulheres se ajustam aos papéis que a feminilidade determina, e tais papéis têm a ver com passividade, subordinação, sensibilidade, obediência, comportamentos que a sociedade espera que as mulheres tenham. Nada mais natural, portanto, para a sociedade, que a mulher lave, passe, cozinhe, cuide do marido e dos filhos, ocupações que se limitam ao âmbito doméstico. Por outro lado, espera-se que o homem, como chefe de família, seja o provedor do lar, o viril, o corajoso, o trabalhador, o competente, mas também aquele que não pode demonstrar suas fraquezas, dúvidas e emoção(2-5), características que se aprendeu a reconhecer como pertencendo a identidade masculina.

Durante a socialização, antes de aprender o que devem ser, os meninos aprendem o que não podem ser, ou seja, não podem ser feminino. Assim, ele só pode existir opondo-se a sua mãe, à sua feminilidade, à sua condição de bebê passivo... para afirmar uma identidade masculina, deve convencer-se e convencer os outros de que não é uma mulher, não é um bebê e não é homossexual(6).

Para Badinter(6), a masculinidade, por ser socialmente ensinada, poderá ser desconstruída em benefício das mulheres e dos homens, e reconstruída, ancorada em modelos de papéis sociais voltados para igualdade de gênero, sem que haja uma relação de dominação entre masculino e feminino.

No entanto, para se desconstruir o modelo de masculinidade, necessário se faz compreender os elementos presentes na construção da identidade dos homens que violentam suas companheiras.

 

2. REFERENCIAL TEÓRICO E METODOLÓGICO

Em virtude da necessidade de compreender os elementos presentes na construção da identidade do homem que violenta sua companheira, adotamos como referencial teórico a Teoria das Representações Sociais e como referencial metodológico a Análise de Conteúdo.

A Teoria das Representações Sociais amplia o modo com que o senso comum conhece uma determinada realidade, permitindo que esta possa ter uma nova representação, uma vez que "o conhecimento estudado via representações sociais é sempre um conhecimento prático; é sempre uma forma comprometida e/ou negociada de interpretar a realidade"(7).

Para aprofundar na complexidade do objetivo, utilizou-se o método de estudo qualitativo, haja vista que esta metodologia permite uma abordagem dos problemas humanos e sociais e a compreensão da ação humana, e não apenas a descrição dos comportamentos(8).

O estudo foi realizado na comunidade do Calafate, localizada no bairro de San Martin, na cidade de Salvador-BA, com o apoio do Coletivo de Mulheres do Calafate (CMC), entidade sem fins lucrativos, criada em 1992, que surgiu devido à alta incidência de violência doméstica na comunidade.

Os sujeitos foram constituídos por 07 homens com história de violência conjugal. A este respeito, Minayo(9) refere que "uma amostra ideal é aquela capaz de refletir a totalidade nas suas múltiplas dimensões". Assim, a amostra ideal neste estudo foi identificada no momento em que as informações fornecidas pelos entrevistados se repetiam, resultando num esgotamento do conteúdo.

Como técnica de coleta de dados, utilizou-se a entrevista, por ser a técnica de interrogação que apresenta maior flexibilidade(10). Esta era acompanhada por um roteiro semi-estruturado contendo a seguinte questão norteadora: Conte-me sobre sua relação familiar.

Os sujeitos se caracterizam por homens católicos, na faixa etária entre 20 e 46 anos. Quanto à escolaridade, 03 possuíam o 1º grau incompleto e 04, o 2º grau incompleto. O tempo de convivência conjugal foi entre 03 e 10 anos, resultando no máximo em 03 filhos.

Para o desenvolvimento destas pesquisas foi levada em consideração a Resolução n.º196/96 do Conselho Nacional de Saúde, a qual norteia a ética na pesquisa com seres humanos(11).

Primeiramente, foi explicado aos sujeitos o significado da pesquisa, dando-lhes em seguida a opção de participar ou não da entrevista. Também foram garantidos o sigilo e o anonimato, sendo os mesmos identificados com nomes fictícios referentes aos sete primeiros planetas (Mercúrio, Vênus, Terra, Marte, Júpiter, Saturno e Urano). Aqueles que se predispuseram a participar da pesquisa, foram interrogados quanto ao uso do gravador nas entrevistas, sendo que nenhum se opôs à gravação. A partir da exposição de todos estes princípios éticos, os sujeitos assinaram o termo de consentimento livre e esclarecido.

Como técnica de análise, utilizamos a análise de conteúdo, dentre elas, elegemos a análise temática, uma vez que esta forma de investigação permite explicitar elementos, não visíveis, constituídos por símbolos, representações e comportamentos, somente alcançados pela subjetividade, expressa na ordem verbal(12).

Conforme as autoras acima referidas, a análise temática permite, através de frases ou etapas, organizar os dados do conteúdo, buscando o conhecimento do que está por trás das palavras. Para Bardin(13), estes dados devem ser claramente definidos para que não se dê a uma mesma categoria, significados diferentes. Assim, identificamos para este estudo o tema Relação Familiar e como categorias: Relação com os pais e Relação entre os pais.

A interpretação dos dados foi baseada nas leituras referentes às temáticas gênero, identidade masculina, violência conjugal e Teoria das Representações Sociais, a qual, por sua vez, permitiu, a partir do senso comum dos entrevistados, compreender elementos que influenciam a construção da identidade masculina.

 

3. RESULTADOS E DISCUSSÃO

A relação familiar está permeada por mitos, que foram introjetados na infância através do aprendizado dos papéis sociais. Segundo Reis(14), a criança aprende desde cedo que o papel de filho é o de obediência aos pais, tida como sinônimo de amor aos pais, reproduzindo, assim, a representação de que amar é obedecer; é se submeter. Para o autor, a família, na função ideológica de fixar os papéis e as funções de cada um, ao ser apresentada como natural e necessária, reproduz regras e mitos familiares, muitas vezes explicados por si mesmos, não contestados e sem jamais mencionar suas verdadeiras determinações.

Durante as entrevistas, os homens representam o papel de filhos na relação com os pais, bem como os sentimentos que a sociedade determina como próprios de um filho com relação aos pais. Assim, mesmo tendo vivenciado a violência familiar, os entrevistados relatam:

... meu pai já chegou a dar uma facada na minha mãe no braço... Eu e minhas irmãs assistimos a tudo isto... Minha relação com meu pai não era boa porque eu sofri muito, apanhava muito. Todas as queixas que os vizinhos faziam, eu apanhava... minha vontade era de morar com a minha mãe... não é desfazendo dele, ele é meu pai e eu gosto dele, o que eu puder ajudar ele, eu sempre vou ajudar, mas pra outras partes, eu quero mesmo é estar com minha mãe. (Mercúrio)

Na concepção de Reis(14), a obediência aos pais significa a aceitação sem questionamento de normas que já estavam definidas quando nascemos, de modo que a possibilidade de rompimento destas normas é sempre ameaçadora. Desta forma, os filhos aprendem que amar os pais é seu papel e, mesmo tendo sido violentados no processo educativo, eles reprimem seus sentimentos negativos, como o ódio, por exemplo. Esta concepção foi produzida historicamente e, portanto, não é imutável nem natural, podendo ser transformada, haja vista que enquanto o ódio for mantido inconsciente o individuo não poderá se libertar dele nem do sentimento de culpa por ele gerado. No entanto, os filhos, no intuito de obter o amor paterno, não expressam seus sentimentos e idéias em relação aos pais, acabando por intensificar o controle e a dominação por parte destes últimos.

Aos homens, cabe também o papel de protetor da mãe, uma vez que esta, por ser mulher e, portanto, representada como frágil e indefesa, necessita de uma proteção masculina. Seguem depoimentos que ilustram bem isso:

... aí, sempre deixava de fazer as coisas pra evitar que ele brigasse comigo ou com minha mãe, eu evitava muito as coisas, evitava muitas coisas até ele sair do lugar, porque eu tinha medo dele. (Júpiter)

Em seus discursos, os homens trazem diferenças claras nas relações com pai e mãe, como nesta fala:

"... já minha mãe, se a gente parasse pra conversar com ela, ela parava pra ouvir o nosso lado também... Eu dizia não, se eu chamar minha mãe e disser, oi, tá se passando isso, isso e isso, ela vai deixar eu me explicar; já meu pai não" (Mercúrio).

Em seus discursos, os homens trazem um vínculo criado com o pai, de maneira distanciada, uma vez que não há espaço para o diálogo na relação. Conforme Corneau(15), quando o carinho, a proteção e o amor esperados não se fazem presentes, o pai idealizado se dilui na banalidade de um contato frio, superficial e sem compromisso afetivo. Seguem alguns depoimentos:

... eu não tinha muito diálogo com meu pai, nem ele falava comigo. Dificilmente a gente parava para conversar, ele nunca tinha tempo para mim... (Mercúrio)

... a gente não tinha muito relacionamento com ele, de conversar, botar no colo, brincar, ele não fazia isso... Ele sempre foi distante de mim. (Júpiter)

A partir dos discursos acima podemos dizer que a relação dos entrevistados com seus pais ou com figuras paternas foi apresentada como tendo pouco ou nenhum envolvimento afetivo. Contudo, Ramires(16) afirma que a única função da criação dos filhos da qual o pai está excluído é a da gestação e da amamentação, uma vez que eles são psicologicamente capazes de participar e interagir nos cuidados com seus filhos, de maneira ativa, tocando-os e acalentando-os.

Além de estabelecer com o filho uma relação sem diálogo e respeito, os pais o privam de lazer:

... quando eu era criança, eu não saía muito com meu pai... ele não gostava de sair comigo não... Ele não tinha tempo para mim como muitos pais têm: dar um passeio, ah! a gente vai sair; a gente vai numa praia; amanhã, a gente pode ir em um shopping; dá um passeio; pegar um cinema. Meu pai nunca fez isso comigo. (Mercúrio)

... ele não queria eu na rua, não queria que eu tivesse diversão que toda criança tem: brincar de arraia, jogar gude, essas coisas que criança tem que fazer, né? (Júpiter)

Ferrari(17) considera que a infância é o momento único e singular para o desenvolvimento das crianças. No entanto, podemos observar, a partir dos relatos acima, que os pais dos entrevistados não percebem a singularidade da infância para seus filhos e estes, por sua vez, influenciam na reprodução de tal ensinamento.

Conforme o autor, o desenvolvimento da identidade destes homens está ancorado em uma etapa anterior de sua vida, levando-os a agir transferencialmente nas inter-relações. Desta forma, não se desenvolve um processo verdadeiro de relacionamento entre pai e filho, construindo uma relação sujeito-objeto, uma vez que estes homens não respeitam nem as vontades e nem seus filhos, enxergando-os como objeto de seus desejos.

O que é mais grave é que, além de não participar do lazer dos filhos e não valorizar as brincadeiras infantis enquanto instrumento do desenvolvimento das crianças, os pais acreditam ser o trabalho infantil indispensável na formação da identidade masculina. É assim que os homens aprendem e transformam em natural o trabalho infantil, julgando-o inerente à masculinidade.

... a maioria da minha infância eu passei mais foi trabalhando: fazendo barraco de taipa, carregando madeira... Eu ajudava ele nestes trabalhos... Eu só fazia mesmo ajudar ele, era ele quem ganhava o dinheiro... (Mercúrio)

... eu trabalhei na infância, desde os 7 anos que meu pai me levava pra trabalhar, e me ensinava a bater um prego, a fazer uma massa, e outras coisas mais, mas ele não me deixou sair do estudo não, eu estudava e à tarde eu trabalhava com ele... na época eu não ganhava nada, só ajudava meu pai, então naquele tempo eu não pensava nada, só pensava que quando meu pai chegasse do trabalho, aí eu chegava do colégio, tirava a farda e ia mais ele, aí só chegava umas 5 horas, 6 horas em casa. Eu achava que era minha obrigação ajudar ele. (Terra)

A educação recebida pelo filho é repressora, haja vista que os seus pais os educavam através de punições como surras, por exemplo, não permitindo que houvesse diálogo. Desta forma, quando questionados sobre as relações com seus pais, os homens dizem:

.... eu tinha uns dez anos, eu ainda me lembro bem disso e tenho muita raiva dele por isso.. porque quando ele bate, ele bate espancando, é de chute, é de bicuda, é de murro.. (Vênus)

... Aí, qualquer coisa, ele ia logo para a ignorância, bater, não procurava conversar, entendeu? ele me bateu de fio, eu fiquei todo marcado de fio, eu tinha uns onze anos... hoje eu tenho trinta. Eu senti muito ódio dele, desejava que ele morresse. No dia, eu chorei muito e minha mãe cuidou de mim. (Júpiter)

Ferrari(17) diz que o papel dos pais, na família, é o de ensinar, enquanto que o dos filhos é aprender. No entanto, o conhecimento é transmitido de forma autoritária, haja vista que aprender significa aceitar os modelos de educação definidos pelos pais sem, contudo, questioná-los.

Azevedo e Guerra(18) comentam que todo e qualquer ato ou omissão praticado por pais, parentes ou responsáveis contra crianças e adolescentes, que os violentem física, sexual e/ou psicologicamente implica na coisificação da infância, violando seus direitos a serem tratados como sujeitos.

Desde a mais tênue infância, a violência tem estado presente na vida dos entrevistados, influenciando a construção da identidade masculina. No entanto, a violência entre os seus pais também se fez presente no dia-a-dia deles:

... meu pai brigava muito com minha mãe... A relação entre meus pais não era boa não... Era briga todo dia... Briga, discussão, um queria furar o outro... meu pai já chegou a dar uma facada na minha mãe no braço... Eu e minhas irmãs assistimos a tudo isto... (Mercúrio)

...ele (padrasto) batia em minha mãe... ele falava alguma coisa e quando ela respondia, ele já queria engrossar. Aí, já era briga, briga de murro, de faca. Uma vez ele bateu nela... ele deu um murro na cara de minha mãe e ela caiu, caiu na cama, aí eu fui entrando bem na hora e vi. Quando eu entrei que eu vi ela caída lá, eu peguei uma faca e meti no braço dele e saí correndo. (Vênus)

Contudo, ao presenciar situações de violência familiar durante a infância e a adolescência, os homens incorporam o modelo de homem presente no seu cotidiano, a partir do qual construíram sua identidade.

A este respeito, Ramires(16) coloca que os homens são simbolica-mente importantes para as crianças enquanto modelos de poder e autoridade.Quer dizer, uma infância carregada de tensão e violência, em que a prática e o uso de poder sobre o outro é uma constante, favorecerá o desenvolvimento de formas de contato com o mundo compatíveis com essas vivências. Assim, ao vivenciar a violência na relação familiar, o homem a reproduz em outras formas de relações sociais, inclusive nas relações com suas companheiras.

 

4. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Com base na análise, compreendemos, a partir deste estudo, que a identidade de homens (e mulheres) é construída no espaço familiar partindo do aprendizado dos papéis e atributos específicos de homens e mulheres.

No que se refere a sua relação com seus pais, o estudo mostrou que os entrevistados têm boa relação afetivamente com suas mães, sendo que o mesmo não se faz presente com relação ao pai. Percebemos que os homens tiveram uma infância marcada por situações de violência: presenciaram a violência nos seus lares entre seus pais; sofreram violência por parte de pais ou figuras paternas; vieram de lares nos quais prevaleciam a falta de diálogo, o autoritarismo paterno e a submissão materna.

Esta vivência de violência familiar permitiu compreender que a identidade destes homens é construída neste contexto, haja vista que, quando se relacionam com suas companheiras, eles reproduzem as mesmas histórias de violência.

Enfim, o estudo nos permitiu identificar elementos que interferem na construção da identidade de homens que violentam suas companheiras e, desta forma, perceber que o fenômeno da violência conjugal não pode ser visto, simplesmente, como homem-agressor e mulher-vítima, mas sim como um problema que tem origem na construção da identidade de homens cujo relacionamento familiar foi marcado pela ausência de diálogo e agressões físicas, o que caracteriza relações de violência.

Acredito que este estudo traz uma contribuição no sentido de permitir uma melhor compreensão do fenômeno da violência conjugal e, a partir daí, colaborar para o desenvolvimento de outros projetos de pesquisa e de projetos de intervenção que permitam homens e mulheres compreender que o fenômeno da violência não é inerente ao homem, mas sim construído socialmente e percebido, de forma natural, como elemento constituinte da identidade masculina.

 

REFERÊNCIAS

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2. Gregori MF. Cenas e queixas: um estudo sobre mulheres, relações violentas e práticas feministas. Rio de Janeiro (RJ): Paz e Terra; 1993.         [ Links ]

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Data do recebimento: 17/11/2004
Data da aprovação: 17/07/2005

 

 

Recorte da Dissertação "Violência conjugal: análise a partir da construção da identidade masculina" apresentada à Escola de Enfermagem da Universidade Federal da Bahia pata obtenção do título de Mestre em 2003..

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