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Revista Brasileira de Enfermagem

Print version ISSN 0034-7167

Rev. bras. enferm. vol.58 no.4 Brasília July/Aug. 2005

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-71672005000400018 

ENSAIO

 

O cuidado na perspectiva de Leonardo Boff, uma personalidade a ser (re)descoberta na enfermagem

 

The care according to Leonardo Boff's perspective, a personality to be rediscovered in nursing

 

El cuidado según la perspectiva de Leonardo Boff, una personalidad a ser re-descubierta en la enfermería

 

 

Luzia Wilma Santana da SilvaI;Fabiane Ferreira FrancioniII; Edite Lago da Silva SenaIII; Telma Elisa CarraroIV; Vera RandünzV

IEnfermeira. Professora Assistente do Departamento de Saúde da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia Campus de Jequié. Mestre em Enfermagem e Saúde Pública pela UNIRIO/UESB. Doutoranda em Enfermagem PEN/UFSC. Membro do Grupo de Pesquisa GESPI/UFSC.Bolsita CAPES PQI UESB/UFSC, luziawilma@bol.com.br e wilma@nfr.ufsc.br
IIEnfermeira. Professora do quadro de docente da FURB - Universidade Regional de Blumenau. Mestre em Enfermagem pela PEN-UFSC. Integrante do NUCRON/UFSC-Núcleo de Estudos em Condição Crônica de Saúde. fabifrancioni@ig.com.br
IIIEnfermeira. Professora Assistente do Departamento de Saúde da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia-Campus de Jequié. Mestre em Enfermagem e Saúde Pública pela UNIRIO/UESB. Doutoranda em Enfermagem PEN-UFSC. Membro do Grupo de Pesquisa GESPI/UFSC.Bolsita CAPES PQI UESB/UFSC, edite@nfr.ufsc.br
IVEnfermeira.Professora. Mestre em Assistência de Enfermagem.Doutora em Enfermagem. Docente do Deptº e da Pós-Graduação em Enfermagem da UFSC. Coordenadora do Grupo de Pesquisa Cuidando e Confortando PIPC&C/UFSC.Membro do EDEN/UFSC, telmacarraro@nfr.ufsc.br
VEnfermeira. Professora. Mestre em Enfermagem. Doutora em Enfermagem. Docente do Deptº e da Pós-Graduação em Enfermagem da UFSC. Vice-coordenadora do Grupo de Pesquisa Cuidando e Confortando PIPC&C/UFSC, radunz@nfr.ufsc.br

 

 


RESUMO

Trata-se de um ensaio sobre a contribuição de Boff para o cuidado na dimensão macro, a partir de sua visão ecológica e micro no cuidado entre os seres humanos.O autor fundamenta o conceito de cuidado em questões teológicas, filosóficas, sociais e místicas, visualizando as relações humanas que perpassam pelas dimensões ecológicas: integral, social e ambiental. Objetiva compreender o cuidado abordado pelo autor para a fundamentação ontológica e epistemológica do cuidado em Enfermagem.O resultado deste, foi um despertar vigilante no sentido de visualizar e implementar estratégias de adaptação à proposta de um novo paradigma que envolve um resgate da essência do ser humano com um modo-de-ser-com-o-mundo que perpassa pelo cuidado.

Descritores: Conhecimento; Cuidados de enfermagem; Enfermagem.


ABSTRACT

It is an essay about Boff's contribution for care in the macro dimension, from its ecological point of view and micro in the care among the human beings. The author bases the concept of care starting from theological, philosophical, social, and mystical questions, visualizing the human relations that move through the ecological dimension: integral, social and environmental. It aims to know/understand the care broached by the author for the ontological and epistemological fundamentation of care in nursing. The resullt of this one, has been a vigilant arouse in the sense to visualize and to implement strategies of adaptation to the proposal of a new paradigm that involves a rescue of human being essence with a manner-of-being-with-the-world that moves through the care.

Descriptors: Knowledge; Nursing care; Nursing.


RESUMEN

Trata de un ensayo sobre la contribución de Boff, para el cuidado en la dimensión macro, a partir de su visión ecológica y dimensión micro para el cuidado entre los seres humanos. El autor fundamenta el concepto del cuidado a partir de cuestiones teológicas, filosóficas, sociales y místicas; observando las relaciones humanas que atraviesan por las dimensiones ecológicas: integral, social y ambiental. El objetivo fue conocer y comprender el cuidado abordado por dicho autor para la fundamentación ontológica y epistemológica del cuidado en la Enfermería. El resultado fue un despertar vigilante en el sentido de visualizar e implementar estratégias de adaptación para la propuesta de un nuevo paradigma que envuelve un rescate en la esencia del ser humano como una manera-de-ser-con-el-mundo que pasa a través del cuidado.

Descriptores: Conocimiento; Atención de enfermería; Enfermería.


 

 

1. INTRODUÇÃO

Consideramos importante trazer uma breve retrospectiva da vida de Boff, pois, em face aos seus escritos é possível perceber a contribuição de sua obra para a Enfermagem, por sua visão conceitual de Ser humano, pois para ele, o ser humano é uma manifestação do estudo de energia de fundo..., um ser cósmico, parte de um universo...articulado em nove dimensões, formado pelos mesmos elementos físico-químicos e pelas mesmas energias que compõem todos os seres ..., morando no planeta terra. Um elo da corrente única da vida..., portador da psique ancestral de seu corpo, lhe permitindo ser sujeito, estruturada ao redor do desejo, de arquétipos ancestrais e de várias emoções e coroado pelo espírito que é aquele momento da consciência pelo qual se sente parte de um todo,que o faz sempre aberto ao outro e ao infinito, capaz de criar e captar significados e valores e se indagar sobre o sentido derradeiro do Todo, hoje em sua fase pioneira, rumo à noosfera pela qual mentes e corações convergirão numa humanidade unificada(1).

Assim, frente a este marco conceitual, que nos faz transcender enquanto sujeitos com expressões de significados e de vivências passamos a discorrer sobre este Ser humano difícil de tecer adjetivos, tamanha a dificuldade de quantificá-los.

Leonardo Boff é o nome literário deste teólogo, professor, orador, humanista e escritor que confessa ser um aprendiz da vida. O seu nome de batismo é Genésio Darci Boff, nascido em Concórdia/SC, em 1938. Filho de imigrantes italianos que chegaram ao Brasil no final do séc. XIX na região do Rio Grande do Sul. Seu pai chamava-se Mansueto Boff um professor, quase jesuíta, tinha grande envolvimento nas questões sociais de comunidade e sua mãe, Regina Fontana Boff; analfabeta que se orgulhava em dizer que teve onze filhos e todos cursaram a universidade(2).

 

2. HISTÓRIA DE SUA FORMAÇÃO

Boff teve como primeiro professor seu pai, iniciando aos dez anos, sua caminhada de franciscano. Em 1959, ingressa na Faculdade de Filosofia em Curitiba; Teologia em Petrópolis e pós-graduação em nível de doutorado, em Filosofia a Teologia na Universidade Ludwig-Maximilian de Munique/Alemanha, desenvolvendo neste período, estudos de extensão para pós-graduação nas Universidades de Wiirzburg, na Alemanha e Oxford, na Inglaterra, especialmente em lingüística e antropologia(2).

Em 1970, assumiu a cátedra de teologia no Instituto Teológico Franciscano de Petrópolis, no Rio de Janeiro.

O escritor Boff acumula inúmeros prêmios conferidos aos seus escritos e outros relacionados a sua capacidade dinâmica voltada às questões humanísticas e da igreja(2).

O movimento de sua vida o consagra como uma personalidade de reconhecida valorização no campo da docência, o qual lhe conferiu os títulos de doutor honoris causa em política pela Univesità degli Studi de Turin em 1991, Lund na Suíça em 1992; e o Prêmio dos Direitos Humanos, também em 1992(2).

A ele é dada a cidadania honorária de várias cidades brasileiras e do exterior. É o que poderíamos chamar de cidadão do mundo pelas suas andanças e luta pelas causas sociais e dos direitos humanos(2).

 

3. CONSIDERAÇÕES SOBRE BOFF

Leonardo Boff é considerado um dos "pais" da Teologia da Libertação, um movimentoª que nasceu nos anos 60 no esforço de escutar o grito do oprimido social e político(2).

Boff sofreu processo doutrinário pela Congregação para a doutrina da fé em 1984, ex-Santo Ofício em Roma em razão de suas teses ligadas à Teologia da Libertação, apresentadas no livro "Igreja: Carisma e Poder", sendo submetido em 1985 à condenação de um ano de "silêncio obsequioso" e deposto de suas funções editoriais e de magistério no campo religioso; sendo suspensa em 1986. No entanto, tinha que submeter, todos as suas obras à censura prévia da Igreja(2).

Em 1993, como conseqüência do cerceamento de liberdade de expressão pelo Vaticano, renunciou as suas atividades de padre e se autopromoveu ao estado de leigo, continuando como teólogo da libertação, escritor, professor, orador, conferencista em várias regiões do Brasil e do exterior; e atuando em movimentos sociais, a exemplo do movimento dos sem terra(2).

Por tais contribuições é considerado como advogado dos oprimidos em qualquer parte do mundo. É uma pessoa voltada à essência humana, aberto aos novos paradigmas, para a possibilidade de crescimento humano, social e ecológico.

 

4. PRODUÇÃO CIENTÍFICA DE BOFF RELACIONADA AO CUIDADO

Diante da vasta produção literária de Boff, buscamos desvelar aqueles escritos que identificamos ter convergência com a Enfermagem, esta compreendida no aspecto ontológico e epistemológico, visando as unidades de significados reunidas na Profissão e na observância das contribuições das obras de Boff.

Outrossim, consideramos importante enfatizar que buscamos destacar aquelas obras que acreditamos valorizar o cuidado e que sintonizam com o cuidar de Enfermagem, conforme apresentamos no quadro abaixo.

 

Quadro 1

 

A partir deste, evidenciamos a significativa contribuição de suas obras para a Enfermagem, ainda a serem (re) descobertas, ao nosso ver, por muitos profissionais desta área. Tal afirmação deve-se ao fato de um trabalho minucioso de pesquisa que realizamos sobre publicações na área de Enfermagem, observamos que muito pouco das obras de Boff são citadas. Essa constatação nos levou a refletir se o fato de Boff ter uma fundamentação "forte" na teologia seria o motivo da "pouca" citação de sua obra na enfermagem? Se assim o for, é um pesar, pois enquanto profissionais de enfermagem cuidadores, precisamos aprender a transcender e não se fechar ou tomar uma única direção e sim, estar aberto às possibilidades de autotranscendência.

Não é nossa intenção gerar conflitos, mas despertar reflexões sobre o cuidado. Observamos neste "vasculhar" nos trabalhos de Enfermagem que, dentre tantas outras obras citadas, uma aparece com muita freqüência, Ser e Tempo de Martin Heidegger, a fenomenologia ontológica-hermenêutica, a obra mais importante deste pensador; será o fato de tratar-se de um filosofo e não de um teólogo?

Heidegger entendia o homem como aquele em que a essência é ex-sistir, é acontecer é estar fora da realidade e em direção à possibilidade. A linha Heideggeriana tem auxiliado a produção de conhecimento em Enfermagem, visto sua forma diferenciada de olhar o outro.

É importante resgatar quais obras de Boff, de forma singular, convergem com o pensamento fenomenológico e aqui destacamos a obra Teologia da Libertação.

Assim, este pode ser um chamado para os profissionais de enfermagem vislumbrarem novas "re" descobertas, conhecendo novos caminhos, transversalizando com os já conhecidos. Desta forma, dentre as obras do autor, destacamos o livro "Saber cuidar: ética do humano, compaixão pela Terra", que acreditamos contribuir muito para o cuidado.

 

5. O SABER CUIDAR, A ÉTICA DO HUMANO E A COMPAIXÃO PELA TERRA: NOSSAS PERCEPÇÕES

Ao remetermo-nos a história da Enfermagem, encontramos Florence Nightgale, nossa Dama da Lâmpada, que refere-se ao zelo e ao cuidado para com os enfermos da época da Guerra da Criméia, há dois séculos atrás, quando a mesma cuidava dia e noite dos feridos da guerra.

Neste sentido, não pretende-se trazer uma retrospectiva do período de Florence, mas sim realizar uma análise crítica e reflexiva sobre as ações de cuidado na Enfermagem, à luz do livro de Boff (1999), "Saber cuidar: Ética do Humano-Compaixão pela Terra". Dentre as obras listadas, buscamos a partir desta, "inquietar" os profissionais de Enfermagem para os escritos de Boff, a quem consideramos um brilhante escritor humanista. E a Enfermagem, profissão comprometida com o cuidado definida como uma arte que, como tal, requer tão exclusiva devoção, tão duro preparo, como qualquer trabalho com a tela inerte ou com o mármore frio, comparado com o trabalhar com o organismo vivo... o templo do espírito de Deus? Ela é uma das belas artes. Eu tenho dito, a mais bela das artes(4).

Este é o conceito que acreditamos ser mais difundido na Enfermagem, e é assim, portanto, que nós enfermeiras nos percebemos enquanto cuidadoras, buscando a concretude do saber cuidar, envolvendo um dinamismo frente às novas tecnologias do cuidado para se colocar aberto aos novos paradigmas e se perceber como ser dialético, num mundo de constantes mudanças onde o exercício do cuidar deve considerar o estado permanente de desenvolvimento pessoal, de transformações e de vir-a-ser, uma autocompreensão ontológica pré-reflexiva para facilitar a compreensão/reflexão epistemológica.

Retomamos Boff, quando nos chama a atenção para refletirmos sobre a sociedade contemporânea, do conhecimento e da comunicação. Neste sentido, questionamos sobre como estamos nos relacionando com nosso semelhante. Em sua obra, inicialmente o autor faz uma alusão ao Tamagochi, um bichinho virtual que requer cuidados, mesmo que mediante o apertar de um botão. Estranhamente hoje estamos muito adaptados ao "apertar de um botão". O ser humano, para proteger-se do mundo que o rodeia e até de si mesmo, de seus anseios, medos e outros sentimentos, tem esquecido da beleza das coisas simples(5).

Na década de 50 do século passado, a televisão era acesso de poucos e muitos nem conheciam o aparelho de "apertar o botão" e ver o mundo uma caixa". Nesta época, as pessoas se reuniam na sala de estar para conversar, trocar idéias e conviver com aqueles de seu cotidiano. As pessoas se olhavam, riam umas para as outras, sonhavam com o progresso e conversavam. E o que temos hoje? Pessoas que se reúnem, talvez na mesma sala de estar, porém sempre com pedidos de silêncio para que todos possam assistir a televisão e o noticiário, que em mais de 50%, com cenas de morte, estupro, roubos, entre outros.

Acreditamos na força positiva da televisão e sua relação com o mundo globalizado. Porém, pensar que o ser humano tem se esquecido de formas singelas de cuidado, gera certo grau de desconforto, porque o ser humano vai além de si mesmo e deve estar aberto para o mundo(6).

Assim, necessitamos que os nossos pés sintam mais o macio da grama e as nossas mãos precisam pegar mais na terra escura e úmida, pois o mundo virtual criou um novo habitat para o ser humano, caracterizado pelo encapsulamento sobre si mesmo e pela falta do toque, do tato e do contato humano(5).

Tentamos, enquanto enfermeiras comprometidas com a ética e compaixão pelo humano, nos aproximar das pessoas através das formas diferenciadas e humanizadas do cuidado, embora, ao mesmo tempo, "cuidamos" para não nos envolvermos demais e sermos poupadas. Então qual a essência do cuidado?

O cuidado é mais do que um ato singular ou uma virtude ao lado das outras. É um modo de ser, isto é, a forma como a pessoa humana se estrutura e se realiza no mundo com os outros. Melhor ainda: é um modo de ser-no-mundo que funda as relações que se estabelecem com todas as coisas(5).

Assim, ao falarmos sobre o processo de cuidado, nos remetemos, inicialmente a questões tais como, estamos nos cuidando? E do outro, cuidamos preocupadas com as questões que envolvem a pessoa cuidada, seu contexto e, sobretudo, os aspectos que tangenciam sobre o ser-com-no-mundo? O que estamos fazendo para a melhoria das condições do cuidado hoje? Se eu não me cuido, posso cuidar do outro? O que é cuidado?

Saber cuidar implica aprender a cuidar de si e do outro, tendo sempre noção de nossa realidade, possibilidades e limitações. Antes de sonhar eternamente com um mundo por vir, sonhemos com uma sociedade onde os valores se estruturem e se construam ao redor do cuidado com as pessoas, sobretudo, considerando as diferentes culturas, saberes, idéias; com o planeta em que vivemos e com as questões que envolvem este viver em relação de cuidado uns com os outros. Então o que isso tem a ver com as ações de Enfermagem?

Diríamos, ancoradas em Boff, que estamos vivendo uma crise generalizada, onde o descuido, o descaso e o abandono são seus sintomas mais dolorosos. Vemos hoje o descuido com as crianças do planeta, com os marginalizados, flagelados pela fome crônica e pela tribulação de "mil doenças", que já haviam sido erradicadas que, em decorrência do grande aumento populacional global, voltam com toda a sua força. As pessoas atualmente estão muito sozinhas, egoístas, medrosas e o que é pior, enterrando seus sonhos.

Como profissionais de Enfermagem, podemos tentar modificar esta realidade, ou contribuir para que a essência do cuidado humano, enquanto sensibilidade, ciência e arte de Enfermagem, impere e o descuido para com o ser humano seja revisto a fim de obter melhoria da qualidade de vida, com ética e dignidade, neste espaço planetário em que vivemos.

A Enfermagem tem no cuidado o seu foco central de ação. A auto-responsabilidade constitui o modo como o ser humano vive a sua totalidade. Neste sentido, o cuidado de enfermagem implica em auxiliar as pessoas a buscarem um caminho que lhes dêem o sentido do cuidado de si através da compreensão de que a vida é repleta de sentidos, e que, a partir dessa compreensão, possam transcender dentro de uma concepção holística de ser-no-mundo-com-o-mundo, cuidando e se cuidando. A Enfermagem é entendida, ainda, como a arte de criar impulsos na direção do prazer, fazendo com que as pessoas prolonguem ou renovem as formas de ser e sentir-se saudável, através do cuidado de si.

Com o objetivo de gerar estes impulsos, o cuidado é entendido como o modo de ser essencial, ou seja, é uma maneira do próprio ser estruturar-se e dar-se a conhecer. O cuidado faz parte da constituição do ser humano, pois o modo de ser cuidado o revela. Sem o cuidado ele deixa de ser humano.

 

6. QUESTÃO EPISTEMOLÓGICA E ONTOLÓGICA DO CUIDADO SEGUNDO BOFF

Ao ler Saber Cuidar, percebemos que o autor aponta duas dimensões para o cuidado na perspectiva macro, expressando preocupação ecológica de preservação do planeta; e micro, nos remetendo ao cuidado entre os seres humanos, tendo a ver com o cuidado em saúde, revelando forte contribuição para a Enfermagem.

O mais importante para Boff não é se o cuidado é macro ou micro, mas sim que o cuidado é visto para além da atitude e de atos dos seres humanos; o cuidado está antes das atitudes humanas, e, portanto está em todas as situações e ações, "representa uma atitude de ocupação, preocupação, de responsabilização e de envolvimento afetivo com o outro"(5).

Esta forma de ver o ser humano imbuído do cuidado enquanto realização, que não se prende a espaço ou tempo, é que desenvolve o processo existencial, tem sua matriz teórico-epistemológica especialmente na abordagem fenomenológica existencial de Heidegger em sua obra Ser e Tempo, onde este discorre acerca da relevância do cuidado. Para este autor o cuidado é a raiz primeira do ser humano antes que este faça qualquer coisa, e se fizer, esta coisa vem acompanhada de cuidado; constituindo uma dimensão ontológica, um modo-de-ser que revela a maneira concreta como é o ser humano(5).

A dimensão ontológica do cuidado em Boff perpassa por uma questão antropológica que inquieta os seres humanos desde os tempos antigos a qual envolve o significado do ser humano.Tanto a pergunta quanto à resposta a esta questão varia conforme a visão de mundo de cada um, bem como de sua formação acadêmica, social e vivencial. Na tentativa de compreender a concepção ontológica de cuidado de Boff, encontramos respaldo na concepção de Heidegger e outros fenomenólogos.

Considerando o cuidado entre os seres humanos, a partir de suas relações e interações, os situamos enquanto existentes, isto é, enquanto entes. O ente do ponto de vista fenomenológico é o existente, o que se mostra ou o que aparece, ou ainda o que se dá a conhecer. Quando Boff conceitua o cuidado, ele está construindo um saber sobre o cuidado, buscando explicitar através de códigos lingüísticos o ser do ente; o ser seria o que se diz do ente.

O ente, na abordagem de Boff, contém em sua raiz primeira, o cuidado. Assim, o cuidado existe antes do agir humano, estando presente em todas as coisas e situações dos seres humanos. O cuidado é uma atitude que gera múltiplos atos e expressam a atitude de fundo, que é a essência ou cuidado em si(5).

Na perspectiva heideggeriana o ser entre nascimento e morte é a cotidianidade, e, portanto, ser é tempo, ser é pre-sença, o fim do ser-no-mundo é a morte. "Esse fim pertence ao poder-ser, isto é a existência, limita e determina a totalidade cada vez possível da pre-sença. ..., a temporalidade constitui o sentido originário da pre-sença, onde está em jogo o seu próprio ser"(3).

No exercício do cuidar em enfermagem, seja individual ou coletivo, permeiam eventos de relações entre modos de ser no mundo, nas quais seres que cuidam e seres cuidados se entrelaçam numa dinâmica intersubjetiva recíproca e até imperceptiva. Nesse ir e vir do cuidado, pessoas (entes que cuidam) emprestam percepções, emoções, sentimentos, valores e saberes ao fenômeno (o que aparece, pessoa que está sendo cuidada) para fazer ver a partir de si mesmo o que se é em si mesmo.

O ser humano é entendido como um ser-no-mundo-com-outros e este modo-de-ser é o cuidado que, enquanto essência humana, se expressa em eventos do aqui e agora que retém vivências passadas e se projeta para o futuro, numa relação dinâmica entre os vários atos de cuidar e a atitude de fundo, a qual aparece permeada de elementos constitutivos da história da vida, imbuídos do aspecto psicossocial e cultural, incluindo implementos acadêmicos. Cada vez que uma pessoa se empenha na função de cuidar, mostra a si mesma, satisfazendo uma necessidade sua e do outro, projetando-se para o futuro na perspectiva de sua qualidade de vida e do outro, em um constante movimento em busca da realização existencial que é o exercício do cuidado.

O cuidado somente surge quando a existência de alguém tem importância para mim. Passo então a dedicar-me a ele; disponho-me a participar de seu destino, de suas buscas, de seus sofrimentos e de seus sucessos, enfim, de sua vida(5).

 

7. REFLEXÕES FINAIS

Boff nos faz atentar para a ausculta de nossa natureza essencial, o cuidado, sendo um modo-de-ser essencial do ser humano além de nos fazer pensar em estratégias para uma nova prática de cuidado macro e o micro a partir de uma conversão de nossos hábitos cotidianos e políticos, privados e públicos, culturais e espirituais no sentido do respeito e preservação de tudo que existe e vive.

Aponta algumas alternativas sobre o paradigma de convivialidade que propõe a espiritualidade como forma de unir, ligar, re-ligar e integrar os seres humanos entre si e com o mundo; a moral, nascendo de uma redefinição do ser humano e de sua missão no contexto da aliança de paz e sinergia com a terra e seus habitantes; mais educação, envolvendo formação e informação, através da socialização do conhecimento, aumento da massa crítica da humanidade e democratização dos processos de empoderamento dos cidadãos; conecção com o todo, partindo da percepção da unidade de todas as coisas e da construção de um novo estado de consciência para uma atitude madura e de sabedoria que ajudará na busca de outros caminhos.

Saber cuidar implica em sentimentos éticos do ser humano para com o meio onde se está inserido, ou seja, o meio ambiente, a Terra. Sabemos que o ser humano não vive numa sesta biológica com a natureza. Pelo contrário, ele inter-age com ela a fim de tornar a sua vida mais cômoda, fazendo isso através do trabalho, mesmo que, em algumas situações, este torne-se sinônimo de descuidado. Isso é visto, embora não de forma efetiva, ao tentarmos combinar, de forma desafiadora, trabalho com cuidado(5).

Neste sentido, não se vê outra coisa no ser humano senão sua força de trabalho cuidado, a ser vendida e explorada. Perdeu-se a visão do ser humano como ser de relações ilimitadas, ser de criatividade, ternura, cuidado, espiritualidade.

Com base no acima exposto, podemos refletir sobre que ações de cuidado de si e do outro estamos vivenciando. Refletir sobre o cuidado nos faz perceber que cuidar das coisas implica ter intimidade, senti-las dentro, acolhê-las, respeitá-las, dar-lhes sossego e repouso. Cuidar é entrar em sintonia com, auscultar-lhes o ritmo e afinar-se com ele. Dessa forma, o ser humano consegue viver a experiência fundamental do valor, daquilo que tem importância e definitivamente conta.

Tudo começa com o sentimento, este que nos faz sensíveis ao que está a nossa volta, que nos faz gostar ou desgostar. É o sentimento que nos une às coisas. Se formos capazes de sentir, podemos agir em prol da melhoria do eu e do outro.

Nas ações de cuidado, alguns sentimentos são fundamentais, tais como: A ternura, que é sinônimo de cuidado essencial e afeto que devotamos às pessoas e o cuidado que aplicamos às situações existenciais, ela emerge do próprio ato de existir no mundo com os outros. O ato de ternura irrompe quando o ser humano se descentra de si mesmo, sai na direção do outro, sente o outro como outro, participa de sua existência e deixa-se tocar pela sua própria história de vida(6).

Outro sentimento é a carícia que é, fundamentalmente, a mão. A mão que acaricia, toca, afaga, segura, estabelece relação, acalenta e traz quietude.

A cordialidade e a convivialidade são também fundamentais no ato de cuidar, visto que estreita as relações entre os seres humanos. Outrossim, a compaixão é uma corroboração do cuidado não menos importante que as anteriormente. Talvez uma das mais difíceis de sentir, sendo algumas vezes, confundida com pena. A compaixão é a capacidade de compartilhar a paixão com o outro. Trata-se de sair do seu próprio círculo e entrar no universo do outro em sinergia.

Por fim, amor, ternura, carícia, cordialidade, convivialidade e compaixão que garantem a humanidade ao ser humano. Se estivermos imbuídos destes sentimentos enquanto enfermeiras e seres humanos, cremos que o mundo estará mais iluminado e mais sedento de vida do que se cultivarmos sentimentos pequenos de descaso e descuido consigo e com o próximo.

A existência é um ciclo nascer-crescer-reproduzir-morrer, ou seja, é um processo de crescimento, trabalhando o desapego e entendendo que somos do mundo e ao mundo retornaremos.

Portanto, é importante salientar que o descuidado e a negação do cuidado essencial podem ser considerados como patologias do cuidado. O ser humano não vive sem cuidado - essência da vida humana. As ressonâncias do cuidado são sua manifestação concreta nas várias vertebrações da existência e o seu alimento indispensável.

 

REFERÊNCIAS

1. Boff L. Publicações. 2003. citado em 23 maio 2003. Disponível em: URL: www.leonardoboff.com         [ Links ]

2. Santos AL. Entrevista com Leonardo Boff. Joinville (SC): Jornal de Joinville; 1996.         [ Links ]

3. Heidegger M. Ser e tempo: parte I. 3ª ed. Petrópolis (RJ): Vozes; 1989.         [ Links ]

4. Nightingale F. Notas sobre enfermagem: o que é e o que não é. (Notes on nursing: What it is and what it is not).São Paulo (SP): Cortez; 1989.         [ Links ]

5. Boff L. Saber cuidar: ética do humano compaixão pela terra. Petrópolis (RJ): Vozes; 1999.         [ Links ]

6. Scheler M. El puesto del hobre em el cosmos. Montevideo (URU): Técnica S.R.L; 1980.         [ Links ]

 

 

Data do recebimento: 03/11/2004
Data da aprovação: 03/07/2005