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Revista Brasileira de Enfermagem

Print version ISSN 0034-7167On-line version ISSN 1984-0446

Rev. bras. enferm. vol.60 no.1 Brasília Jan./Feb. 2007

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-71672007000100012 

PESQUISAS

 

Enfermeiras do Exército Brasileiro no transporte aéreo de feridos: um desafio enfrentado na 2a. Gerra Mundial

 

Brazilian Army Nurses and transportation of the wounded: a challenge faced during World War II

 

Enfermeras del Ejercito Brasilero en el transporte aereo de heridos: un desafío enfrentado en la 2a. Gerra Mundial

 

 

Margarida Maria Rocha BernardesI; Gertrudes Teixeira LopesII

IEnfermeira e Bióloga, especialista em Administração em Serviços de Saúde e Mestre pela Faculdade de Enfermagem da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ); Docente da Universidade Estácio de Sá, Rio de Janeiro, RJ
IIEnfermeira, Livre Docente e Doutora em Enfermagem. Professora Titular do Departamento de Fundamentos e Coordenadora do Programa de Mestrado da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (FENF/UERJ), Rio de Janeiro, RJ. Pós-Doutora na área de drogas pela USP. Membro da Diretoria Colegiada do Núcleo de História da Enfermagem Brasileira da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Nuphebras/UFRJ). Pesquisadora do CNPq gertrudeslopes@uol.com.br

 

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RESUMO

Estudo histórico-social objetiva analisar os desafios enfrentados pelas Enfermeiras que pertenceram ao Transporte Aéreo do Exército Brasileiro, inseridas na FEB, no Teatro de Operações da 2ª Guerra Mundial. Fonte primária: uma fotografia da época articulada aos depoimentos de nove enfermeiras que estiveram no conflito. Essa modalidade de obtenção de dados possibilitou criar um método de pesquisa que denominamos Analítico Fotográfico Oral. Fontes secundárias: referências sobre o assunto. Os conceitos do sociólogo Pierre Bourdieu apoiaram a discussão. Os resultados evidenciaram que as enfermeiras brasileiras transportaram feridos sem acompanhamento médico. Concluímos que o desafio de cumprir com a tarefa imposta deu-lhes autonomia e confiança, propiciando tomada de decisões independentes, já que o transporte aéreo dos feridos era sua responsabilidade.

Descritores: História deEnfermagem; Enfermagem Militar; Transporte de feridos e doentes.


ABSTRACT

This historic-sociologic study aims to analyse the challenges faced by the Brazilian Expeditionary Force´s Air Transportation Nurses of the Army with the Theatre of Operations on the course of World War II. The primary source was comprised of a photograph from this time period and oral testimonies of those who participated in the conflict. Ideas by sociologist Pierre Bourdieu support the discussion. Results suggest that Brazilian nurses were challenged to transport the wounded without medical advice. We conclude that the challenge to fulfill the task imposed, which led to independent decision-making, gave confidence and autonomy to the ones already responsible for the transportation of the wounded.

Descriptors: History of Nursing; Military Nursing; Transportation of patients.


RESUMEN

Estudio histórico-social objetiva el análisis de los desafíos enfrentados por las Enfermeras del Transporte Aéreo del Ejercito Brasilero, inseridas en la FEB, en el Teatro de Operaciones de la 2ª Guerra Mundial. Fuentes Primarias: Una fotografía de la época articulada a las declaraciones de nueve enfermeras que estuvieron en el conflicto. Esa modalidad de obtención de datos posibilitó la creación de un método de pesquisa que llamamos Analítico Fotográfico Oral. Fuentes Secundarias: referencias sobre el asunto. Los conceptos del Sociólogo Pierre Bourdieu apoyaron la discusión. Los resultados evidenciaron que las enfermeras brasileñas, fueron desafiadas a transportar heridos sin acompañamiento medico. Concluimos que el desafío de cumplir esta tarea que les fue impuesta, les dio autonomía y confianza, propiciando toma de decisiones independientes, ya que eran responsables por el transporte aéreo de los heridos.

Descriptores: Historia de la Enfermería; Enfermería Militar; Transporte de pacientes.


 

 

1. CONSIDERAÇÕES INICIAIS

De 1930 a 1945, o Brasil vivendo sob a ditadura de Vargas, participou do conflito da 2ª Guerra Mundial. Nesse contexto, foi criada a Força Expedicionária Brasileira (FEB) que partiu para o campo de batalha, comandada pelo General João Batista Mascarenhas de Moraes(1). Na oportunidade foram para a Itália cento e oitenta e seis profissionais de saúde, entre eles, sessenta e sete enfermeiras pioneiras do Exército, sendo sessenta e uma enfermeiras hospitalares e seis especializadas em transporte aéreo (2).

A mobilização nacional espontânea que emergiu no seio da sociedade foi fator preponderante para que o governo brasileiro se definisse e efetivamente participasse desta Guerra. Tal fato político possibilitou o pioneirismo das enfermeiras nas Forças Armadas. As brasileiras procurando uma forma de participar dessa mobilização encontraram um caminho na profissão de Enfermagem. Houve uma procura importante de moças pelos cursos das escolas de formação de Enfermagem da época. O voluntariado sendo feito também por duas princesas Maria Francisca e Maria Tereza Órleans e Bragança, na Escola de Enfermagem da Cruz Vermelha Brasileira, demonstra a importância da adesão feminina(2).

A solicitação dos aliados, já que as enfermeiras norte-americanas "(...) já estavam muito cansadas e, além do mais, não falavam a nossa língua (português) (...)"(3), levou o Brasil a criar um Quadro de Enfermeiras para atuar na 2ª Guerra, juntamente com o efetivo da FEB.

Portanto, o governo brasileiro atendendo a solicitação do grupo hegemônico dos Estados Unidos da América (EEUU), `'(...) mandatários do Estado, detentores do monopólio de violência simbólica legítima"(4), procurou com urgência voluntárias para tal papel.

Com chamada publicada no jornal "O Globo"(5), as enfermeiras brasileiras foram selecionadas, após terem iniciado seu voluntariado no esforço de guerra em nove de outubro de 1943.

Todas participaram obrigatoriamente do Curso de Emergência de Enfermeiras da Reserva do Exército (CEERE) ministrado pela Diretoria de Saúde, mesmo detendo diferentes tipos de capital simbólico. Segundo o depoimento oral do General Jonas Correia Neto, as enfermeiras ao terminarem o CEERE, integrando-se a FEB tornaram-se enfermeiras da reserva. A partir do momento em que integraram essa força operacional, de combatentes, imediatamente passaram à ativa, como todo o pessoal da reserva convocado "(...) Todo esse pessoal passou a estar na ativa por causa da guerra (...)". O objetivo deste Curso era formar o Quadro de Enfermagem (QEERE), que foi criado pelo Decreto Lei nº 6097/43 de 13 de Dezembro de 1943, publicado no Diário Oficial da União nº 290, datado de 15/12/43(6). Tal curso comportou três módulos distintos: parte teórica, preparação física e instrução militar(5).

O treinamento oferecido teve a intenção precisa de representar uma estratégia de homogeinização do comportamento das candidatas, mediante a absorção de um habitus militar e, possibilitar-lhes enfrentar o cenário de guerra, com todas as implicações que pudessem advir de um evento dessa natureza, inclusive o de transportar feridos em aeronaves, por horas, sobre o oceano Atlântico sem a presença médica, como o estudo em pauta se propõe discutir.

Essa adesão ao voluntariado gerou uma mudança radical no habitus dessas mulheres que precisaram se apropriar da formação militar, demandando esforços internos individuais para se adaptarem à Força Armada que passaram a pertencer, além de inserirem-se numa equipe multiprofissional de cultura diversa.

Dessa forma, frente ao exposto, este estudo apresenta como objetivo analisar os desafios enfrentados pelas enfermeiras que pertenceram ao Transporte Aéreo do Exército Brasileiro, inseridas na FEB, no Teatro de Operações da 2ª Guerra Mundial.

 

2. PERCURSO METODOLÓGICO

Para esse estudo de natureza histórico-social utilizamos uma foto, considerada por nós emblemática, sendo retirada do acervo histórico Exército Brasileiro de mais de cinco mil fotos.

Entrevistamos nove enfermeiras e alguns militares que concordaram em participar do estudo assinando o Consentimento Livre e Informado e o Termo de Doação de Depoimento elaborado.

Apresentamos esta fotografia aos agentes da pesquisa, articulando-a aos seus depoimentos orais. No intuito de buscarmos esclarecimentos sobre a fotografia e o momento vivido, utilizamos o depoimento oral dos agentes sobre a foto. Os resultados destes depoimentos igualaram-se em importância à fotografia apresentada, passando os depoimentos orais e a fotografia, a serem as fontes preferenciais do estudo realizado.

Ao realizarmos a articulação dos depoimentos orais com a fotografia, obtivemos dados inéditos não registrados em fontes oficiais. Empregando esses procedimentos na busca e análise das informações encontramos uma nova maneira de resgatar a memória dos depoentes durante a entrevista, emergindo uma inusitada possibilidade de pesquisa histórica.

A articulação do texto fotográfico com os depoimentos e os documentos, na pesquisa histórica, acaba se apresentando como um método de investigação que possibilita ao pesquisador abordar e aprofundar por diferentes técnicas o conhecimento sobre um determinado fenômeno em estudo. Denominamos o método desenvolvido de Método Analítico Fotográfico Oral. Ao desenvolvermos esta experiência, tínhamos em mente nos aproximar ao máximo das experiências vivenciadas pelas enfermeiras do Exército no Teatro de Operações durante a 2a. Guerra Mundial. Ao nos desafiarmos neste caminho metodológico, acabamos por perceber que estávamos desenvolvendo uma nova maneira de pesquisar em história. Assim, esperamos que este novo método possa contribuir com outros pesquisadores no desvelamento de fenômenos vinculados a essa área de conhecimento. Submetemos o material selecionado à análise de acordo com o seu conteúdo manifesto. A articulação do texto fotográfico aos depoimentos orais favoreceu a interpretação dos dados.

Os achados desta pesquisa em tela foram analisados à luz dos conceitos de habitus, poder e capital simbólico desenvolvido pelo sociólogo Pierre Bourdieu.

 

3. RESULTADOS

A participação das Enfermeiras Brasileiras

no transporte aéreo de feridos

As Enfermeiras voluntárias e toda a tropa brasileira enviada ao Teatro de Operações na Itália, foram obrigadas a deter abruptamente uma concentração de todos os tipos de capital: "(...) econômico, político, militar, cultural, científico e tecnológico, fundamento de uma dominação simbólica sem precedente (...)"(7).

Especificamente em relação às agentes dessa pesquisa, os fatos demonstraram que, por imposição norte-americana essas brasileiras foram selecionadas e preparadas para enfrentar uma guerra num país distante, desconhecido para a maioria delas, sendo obrigadas a absorver além de outras culturas, diferentes da sua, novas tecnologias para desenvolver seu trabalho profissional de Enfermagem, compondo uma equipe norte-americana e tendo que desempenhar papéis independentes e perigosos que deveriam envolver o fazer médico como as Enfermeiras do Transporte Aéreo, objeto do nosso estudo.

Para o transporte dos feridos, foi criado um Serviço de Transporte Aéreo, composto por seis enfermeiras. Uma delas, depoente deste estudo cedeu a foto.

Podemos visualizar através da fotografia que na 2a. Guerra Mundial a enfermeira teve a concessão de atuar no vôo cuja principal função era prestar assistência de Enfermagem aos feridos de Guerra, acompanhando-os no transporte em casos de evacuação. Os aviões eram de carga, convertidos em ambulâncias com padiolas nas laterais. Tais procedimentos foram fundamentais para a sobrevivência dos soldados feridos na Guerra(8).

O texto fotográfico tem por cenário o interior de uma aeronave. Trata-se de uma pose coletiva na qual estão presentes dez pessoas, sendo duas mulheres e oito homens. Sete participantes estão deitados em padiolas apropriadas e organizadas horizontalmente, superpostas, com espaços fixos entre as mesmas.

A figura central da foto é a Enfermeira Lenalda Campos, nascida em 9 de março de 1922, na cidade de Capela, Sergipe. Filha do juiz de direito Adroaldo Campos completou os estudos em Aracajú, fazendo nesta cidade o curso de Voluntária Socorrista na Cruz Vermelha. Apresentou-se como voluntária para a FEB, fazendo o curso do Exército na Bahia. Em Natal, na base aérea de Parnamirim fez o Curso de especialização de Enfermagem em Transporte Aéreo, atuando nesta função como tenente enfermeira. Casou-se após a guerra, acrescentando o sobrenome Duboc(3).

 

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Na foto, esta Enfermeira se encontra agachada, postura convencional para o momento, segurando o braço de um doente, estando aparente um relógio em seu pulso esquerdo. Usa uma braçadeira com o símbolo da Cruz Vermelha e uniforme idealizado para o serviço de transporte aéreo.

Ao fundo da composição, observa-se de pé outra Enfermeira a tenente Semírames de Queiroz Montenegro. Nascida no Estado do Amazonas em 24 de abril de 1916, mudando-se com a família para o Rio de Janeiro, concluindo nesta cidade seus estudos, fazendo o curso de Voluntária Socorrista na Cruz Vermelha Brasileira. Foi designada para fazer o curso de especialização em Transporte Aéreo, na cidade de Natal, Rio Grande do Norte, na base aérea de Parnamirim, atuando como Enfermeira deste transporte na guerra(3).

Ela está usando o mesmo uniforme de vôo, com o braço direito apoiado na padiola de outro paciente, com a cabeça fletida demonstrando atenção. Ao lado desta Enfermeira encontra-se um homem jovem fardado. O piso da aeronave é de retângulos.

Para apresentar os desafios enfrentados pelas Enfermeiras no transporte aéreo, durante a 2ª Guerra Mundial recortamos os seguintes depoimentos:

(...) (elas, as enfermeiras) foram treinadas em Natal, no Rio Grande do Norte, na base de Parnamirim (...) ficaram baseadas em Nápoles na Itália e no Brasil em Natal (...) seu trabalho era receber os nossos doentes em condições de serem evacuados e os transportarem para onde haviam previamente decidido a rota de vôo, ou iam para o Brasil ou para os Estados Unidos (da América). Podemos ver na foto, no centro dela a colega Lenalda Campos e ao fundo a enfermeira amazonense Semírames Montenegro. Sou amiga de Lenalda até hoje (Enfermeira Virgínia Maria de Niemeyer Portocarrero) face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">.

(...) (elas) foram designadas para fazer o Curso de Especialização de Enfermagem em Transporte Aéreo, na Base de Parnamirim, em Natal, no Rio Grande do Norte (...) elas ficaram baseadas em Nápoles e em Natal (...) recebiam os doentes e os transportavam para o Brasil ou para os Estados Unidos (da América) (Enfermeira Elza Cansanção) face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">.

(...) o transporte aéreo foi um serviço muito importante feito por estas colegas. Lenalda sempre foi muito alegre e procurava manter alto o moral dos feridos que recebia (Enfermeira Bertha Moraes) face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">.

(...) muito difícil este trabalho(....) (elas) fizeram um curso de especialização em Natal (Enfermeira Isabel Feitosa) face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">.

(...) os feridos quando estavam melhor e em condições de viajar, eram transportados pela equipe de enfermeiras do transporte aéreo(...)no centro está a Lenalda e no fundo a Semírames (Enfermeira Roselys Teixeira).

Os depoimentos revelam que para as Enfermeiras desempenharem suas atividades no transporte aéreo, realizaram treinamento específico para atender às necessidades dos feridos em pleno vôo, o que se constituiu em um grande desafio, especialmente porque assumiam toda responsabilidade no cuidado destes pacientes.

A Enfermeira que aparece no primeiro plano da foto, fez o seguinte esclarecimento:

(...) essa foto foi feita dentro da aeronave onde nós trabalhávamos, no centro estou eu (...) em pé a Semírames, colega que fez parte do grupo deste transporte ,(...) ao todo éramos seis que fazíamos este trabalho, (...) a rotina era sempre dentro dos aviões (...) nós dávamos assistência a eles dentro desses aviões da FAB que tinham adaptação para dezoito, vinte padiolas(...) os aviões daquela época eram muitas horas de vôo. Para atravessar o Atlântico eram dez horas (...) o avião chegava de madrugada (...) e viajava a hora que eles achavam melhor por causa do (...) medo de bombardeio (...) no avião tinha adaptação para tudo (...) não ia médico, eles davam para a gente toda a documentação que eles (pacientes) tinham (...) (Enfermeira Lenalda Campos Duboc)

Frente a esse depoimento, podemos inferir a sobrecarga psicológica que dominava a todas, particularmente as Enfermeiras do Transporte Aéreo, pois a assistência de enfermagem era desenvolvida com tomadas de decisões, que envolviam o fazer médico.

Certamente a responsabilidade com esta função, submeteu estas Enfermeiras a fatores com potencial estressor. Sabe-se que o manejo do estress freqüentemente está vinculado ao processo de enfrentamento para sobreviver. Frente a uma situação estressante os profissionais podem utilizar manejos comuns centrados no problema, controlando a situação; tentando resolver o problema; ou procurando organizar a situação(9).

Dessa maneira certamente as Enfermeiras realizavam seu trabalho, tomando suas decisões no momento preciso.

Acreditamos que aqui se observa um exemplo de função delegada, inculcada com alienação.

Por essa vertente, "(...) a vida cotidiana, de todas esferas da realidade, é aquela que mais se presta à alienação(...)" (10).

No cenário de uma guerra de proporções mundiais, acredito que as enfermeiras do Exército enfrentaram no cotidiano, muitos fatos "novos". A alienação e envolvimento com a missão levou-as algumas vezes, a aceitar com passividade o enfrentamento do cotidiano no T.O. Podemos deduzir que detinham um capital simbólico aquém das dificuldades com as quais se depararam.

As lutas empreendidas variavam com o momento vivido. As nossas Enfermeiras retratadas na fotografia em tela expressam claramente a visão que deixaram para os agentes da nossa FEB, transcrito nesse trecho do depoimento de seu Comandante, o Marechal Mascarenhas de Moraes(11):

"(...).Coube à nossa enfermeira, além de sua missão profissional, representar as virtudes da mulher brasileira, entre homens e mulheres de várias nacionalidades, no convívio cotidiano dos hospitais americanos. As nossas compatriotas que acorreram ao chamado da Pátria, prestaram excelentes serviços à F.E.B., durante a sua permanência em território italiano, enfrentando e vencendo obstáculos numerosos. Ainda no Brasil, sofreram a maledicência impatriótica de alguns. Na Itália, viveram e serviram em hospitais americanos, onde, além das dificuldades advindas das diferenças de idiomas e hábitos, suportaram por algum tempo a inferioridade hierárquica e pecuniária em relação às suas colegas americanas, com quem conviviam. Não obstante os óbices encontrados, as enfermeiras incorporadas à F.E.B. atenderam com abnegação e proficiência os nossos feridos e doentes, dando um veemente e nobilitante testemunho do valor da mulher brasileira (...)".

O Marechal Mascarenhas, ao publicar este elogio às Enfermeiras do Exército Brasileiro, fez resultar o mesmo num ganho simbólico para elas. Ele era o detentor do monopólio do poder e da violência simbólica legitima. Seu discurso é de alguém que impôs sua visão de mundo e, isso se reveste na identificação pública das enfermeiras que atuaram no conflito.

Acreditamos que:

"(...) A especificidade do discurso de autoridade, reside no fato de que não basta que ele seja compreendido (...) é preciso que ele seja reconhecido enquanto tal para que possa exercer seu efeito próprio. Tal reconhecimento (...) somente tem lugar como se fora algo evidente sob determinadas condições, as mesmas que definem o uso legítimo: tal uso deve ser pronunciado pela pessoa autorizada a fazê-lo, o detentor do cetro (...).conhecido e reconhecido por sua habilidade e também apto a produzir esta classe particular de discursos (...).deve ser pronunciado numa situação legítima, ou seja, perante receptores legítimos (...) devendo (...) ser enunciado nas formas (...) legítimas (...)"(12).

As fotografias inegavelmente foram instrumentos de comunicação da Guerra. Porém elas não ficaram restritas às imagens daquele evento, registraram também a intervenção social desse saber, pois as pessoas, incluindo as Enfermeiras retratadas no arquivo iconográfico estudado, tiveram papel relevante na História do Exército Brasileiro.

 

4. CONSIDERAÇÕES FINAIS

O Teatro de operações da 2ª Guerra Mundial recebeu Enfermeiras brasileiras por pressão exercida pelo governo norte-americano que exigiu a presença dessas enfermeiras para compor o Quadro da Força Tarefa, a FEB, criada para se unir aos aliados no Teatro de Operações na Itália.

Essas Enfermeiras brasileiras voluntárias receberam exaustivo investimento nos aspectos inerentes ao treinamento profissional, preparo físico e assimilação de um habitus militar. O treinamento intencionalmente igualitário para todas objetivou fortalecer o sentimento de unidade interna do grupo, mediante a homogeneização de atitudes e gestos, assim como de possibilitar-lhes atuar na equipe multiprofissional de saúde norte-americana.

Mesmo tendo conhecimento através dos depoimentos dos agentes colhidos durante o estudo, de todos os obstáculos encontrados, a leitura e interpretação do texto fotográfico, possibilitam atestar e conhecer a atuação dessas Enfermeiras e nos dá visibilidade de seu trabalho estressante e dos desafios cotidianos empreendidos no atendimento aos feridos transportados por inúmeras horas, sem acompanhamento e socorro médico nas aeronaves militares, no cenário da 2a. Guerra Mundial. Esta atuação profissional responsável pela vida dos militares feridos que transportavam, sem acompanhamento médico, foi uma das lutas enfrentadas por estas Enfermeiras no front italiano.

 

REFERÊNCIAS

1. Silveira JX. A FEB por um soldado. Rio de Janeiro (RJ): Expressão e Cultura; 2000.         [ Links ]

2. Medeiros EC. Eu estava lá! Rio de Janeiro (RJ): Ágora da Ilha;, 2001.         [ Links ]

3. Medeiros EC. 1...2...Esquerda...Direita!...Acertem o passo. Maceió (AL): Cian Gráfica e Editora Ltda; 2003.         [ Links ]

4. Bourdieu P. Livre troca: diálogos entre ciência e arte; apresentação de Inès Champey; tradução Paulo Cesar da Costa Gomes. Rio de Janeiro (RJ): Bertrand Brasil; 1995.         [ Links ]

5. Motta GLNS. Tomo 6. In: Motta AM. História Oral do Exército na Segunda Guerra Mundial. Rio de Janeiro (RJ): Biblioteca do Exército; 2001.         [ Links ]

6. Exército Brasileiro. Estado Maior. Estatuto dos militares: lei nº 6880. Brasília (Df): EGGCF; 1997.         [ Links ]

7. Bourdieu P. Contrafogos 2: por um movimento social europeu. Rio de Janeiro (RJ): Jorge Zahar; 2001.         [ Links ]

8. Ambrose SE. Soldados cidadãos: do desembarque do Exército Americano nas praias da Normandia à batalha das Ardenas e a rendição da Alemanha, 7 de junho de 1944 a 7 de maio de 1945. Rio de Janeiro (RJ): Bertrand Brasil; 2001.         [ Links ]

9. Caregnato RCA, Lautert L. O estresse da equipe multiprofissional na sala de cirurgia. Rev Bras Enferm 2005;58(5):545-50.         [ Links ]

10. Heller A. O cotidiano e a história. 4ª ed. São Paulo (SP): Paz e Terra; 1992.         [ Links ]

11. Moraes JBM. A F.E.B. pelo seu Comandante.1a ed. São Paulo (SP): Instituto Progresso Editorial; 1947.         [ Links ]

12. Bourdieu P. O poder simbólico. 2ª ed. Rio de Janeiro (RJ): Bertrand Brasil; 1998.         [ Links ]

 

 

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Submissão: 25/07/2006
Aprovação: 21/09/2006

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