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Revista Brasileira de Enfermagem

Print version ISSN 0034-7167

Rev. bras. enferm. vol.61 no.1 Brasília Jan./Feb. 2008

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-71672008000100013 

REVISÃO

 

Remoção do piercing no perioperatório

 

Perioperative removal of body piercing

 

Remoción del piercing en el perioperatorio

 

 

Solange Diccini; Aline Malheiro da Costa Nogueira

Universidade Federal de São Paulo, Departamento de Enfermagem. São Paulo, SP

Correspondência

 

 


RESUMO

A permanência do piercing no intra-operatório pode ocasionar intercorrências. Este estudo teve como objetivo determinar as intervenções de enfermagem no pré-operatório e avaliar as complicações do piercing no intra-operatório. Durante a revisão da literatura, foram incluídos 16 artigos publicados de 1994 a 2006. Nove artigos (56,2%) de intervenções de enfermagem no pré-operatório, quatro (25,0%) de complicações do piercing no intra-operatório e três (18,8%) sobre o uso do piercing no intra-operatório, não apresentando complicações. Concluímos que a presença de piercing oral durante o intra-operatório aumenta o risco de lesões e aspiração. No corpo, a presença do piercing pode causar lesões na pele, decorrentes da mobilização do paciente e queimaduras eletrocirúrgicas. Portanto, é necessária a retirada do piercing no pré-operatório.

Descritores: Enfermagem perioperatória; Piercing corporal; Cirurgia.


ABSTRACT

The remaining of piercing in intraoperative can cause damages. This paper had as purpose defining the nursing interventions in the intraoperative and evaluates the complications caused by piercing in the intraoperative. This literature review had 16 articles published from 1994 to 2006. Nine articles (56.2%) were about nursing interventions in the intraoperative, four (25.0%) were concerning complications in the intraoperative and three (18.8%) were about the use of piercing in the intraoperative, not presenting complications. We concluded that wearing oral piercing in the intraoperative increases the risk of swallowing and injuries. Furthermore, wearing body jewelry can cause injuries on the skin during the patient´s moving and burns after electrosurgery. Therefore, it is necessay to withdraw the piercing in the preoperative.

Descriptors: Perioperative nursing; Body piercing; Surgery.


RESUMEN

La permanencia del piercing en el intraoperatorio puede causar algún perjuicio. Pretendemos, determinar las intervenciones de enfermería en el preoperatorio y evaluar las complicaciones del piercing en el intraoperatorio. La revisión de la literatura mostró 16 artículos publicados de 1994 a 2006. Nueve (56,2%) fueron de intervenciones de enfermería en el preoperatorio, cuatro (25,0%) de complicaciones del piercing en intraoperatorio, tres (18,8%) no mostraron complicaciones. Concluimos, la presencia del piercing oral, durante el intraoperatório aumenta el riesgo de aspiración y daño. En el cuerpo, puede causar heridas en la piel, provocadas por la movilización del enfermo y las quemaduras, debido al uso de bisturí eléctrico durante el acto intraoperatorio. Por consiguiente, es necesario retirar el piercing en el preoperatorio.

Descriptores: Enfermería perioperatoria; Perforación del cuerpo; Cirugía. 


 

 

INTRODUÇÃO

O uso de piercing no corpo e/ou rosto não é uma prática recente. Egípcios, tribos indígenas, povos hindus e indivíduos pertencentes à corte da rainha Vitória são exemplos de adeptos de tal pratica(1,2). Os locais onde o uso do piercing é mais comum são: sobrancelha, lábios, filtro do lábio, nariz, orelha, bochecha, queixo, língua, úvula, umbigo, mamilos e genitália(1-5).

No contexto hospitalar podemos encontrar pacientes internados utilizando piercing. Porém a permanência do piercing pode acarretar intercorrências, tais como: dificuldade na realização das manobras de reanimação cardio-respiratória; suspensão do exame de ressonância nuclear magnética; dificuldade na passagem de sonda vesical; lesões no recém-nascido após o parto vaginal; predisposição a queimaduras após uso de desfibrilador na parada cardíaca; aumento do risco de queimaduras após uso de eletrocirurgia e dificuldade na intubação orotraqueal(1-5) .

No centro cirúrgico, durante a indução da anestesia geral, o piercing pode ser deslocado para as vias aéreas causando edema e hipóxia, ou para o trato gastrintestinal. O piercing em diversos locais do corpo podem provocar lesões por pressão ou mobilização durante o procedimento cirúrgico(2,6).

Pacientes de todas as idades são submetidos a diversos procedimentos cirúrgicos diariamente, porém há carência na literatura a respeito dos cuidados no pré-operatório imediato em pacientes com piercing. O enfermeiro que atua no pré-operatório imediato, tanto na unidade de internação quanto no centro cirúrgico, pode deparar-se com pacientes utilizando piercing. Estes enfermeiros devem realizar orientações e cuidados que previnam as complicações decorrentes do uso de piercing durante o procedimento anestésico-cirúrgico. Este estudo tem como objetivo determinar as principais intervenções de enfermagem no pré-operatório imediato em pacientes com piercing e avaliar na literatura relatos de experiência em relação ao uso de piercing em intra-operatório.

 

MÉTODO

Para elaboração deste estudo foi realizada uma revisão da literatura que ocorreu de acordo com as seguintes fases: delimitação do tema, busca na literatura, leitura e avaliação dos estudos e apresentação dos dados relevantes ao tema. As perguntas que orientaram o levantamento bibliográfico foram: a) Pacientes que usam piercing durante o intra-operatório podem ter complicações devido ao seu uso? b) Quais são as intervenções de enfermagem no pré-operatório que previnem a ocorrência de complicações pelo uso do piercing no intra-operatório? A revisão da literatura foi realizada no período de janeiro a novembro de 2006. A seleção dos artigos foi realizada nas bases de dados Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS), Medical Literature Analysis and Retrieval Sistem on-line (MEDLINE), Cumulative Index to Nursing and Allied Health Literature (CINAHL) e Scientific Eletronic Library on Line (SciELO). Os artigos incluídos foram publicados de 1994 a 2006, nos idiomas inglês, espanhol e português.

Os critérios de inclusão dos artigos foram: estudos que determinem os principais cuidados de enfermagem no pré-operatório imediato em pacientes com piercing e relatos de experiência sobre o uso de piercing no intra-operatório. Os seguintes descritores foram utilizados na localização dos artigos: "piercing e complicações", no campo palavras do título; "piercing e anestesia", no campo palavras; "cuidados pré-operatórios e corpos estranhos" no campo descritor de assunto; "controle de infecções e piercing" no campo descritor de assunto e por fim somente "piercing" no campo palavras.

 

RESULTADOS

Nas bases de dados LILACS e SciELO não foram localizados artigos. Na base de dados MEDLINE foram localizados 43 artigos, sendo que 16 preenchiam os critérios de inclusão. Na base de dados CINAHL foram localizamos 178 artigos, sendo que os quatro artigos selecionados nesta base, também foram encontrados no MEDLINE.

No total foram incluídos 16 estudos. Nove artigos (56,2%) eram sobre intervenções de enfermagem referentes à pacientes com piercing no pré-operatório, quatro (25,0%) eram sobre complicações devido ao uso de piercing em intra-operatório e três (18,8%) eram sobre pacientes que usaram piercing no pré-operatório e que não apresentaram complicações.

Quanto à autoria dos artigos constatou-se que sete (43,7%) foram escritos por médicos, quatro (25,0%) por enfermeiros, um (6,3%) foi escrito por médicos e enfermeiros e quatro (25,0%) não foi possível identificar a formação dos autores.

Quanto ao tipo de periódico, dez (62,50%) eram de anestesiologia, três (18,75%) de enfermagem perioperatória, um de enfermagem geral (6,25%), um (6,25%) de pediatria e um (6,25%) periódico de ginecologia.

Em relação ao delineamento dos trabalhos constatamos que nove (56,25%) eram relatos de experiência, três (18,75%) eram revisões de literatura, dois (12,5%) eram estudos clínicos observacionais prospectivos e dois eram correspondências (12,5%).

O Quadro 1 mostra os resumos dos artigos de revisão de literatura incluídos na amostra inicial do estudo.

O quadro 2 mostra os resumos dos estudos clínicos observacionais incluídos no estudo, sobre as intervenções de enfermagem em pacientes com piercing em pré-operatório.

O quadro 3 mostra os resumos das correspondências e relatos de experiência sobre as intervenções de enfermagem em pacientes com piercing em pré-operatório.O quadro 4 mostra os resumos de relatos de experiência incluídos inicialmente na amostra do estudo

O quadro 5 mostra os resumos de relatos de experiência, cujos pacientes com piercing em intra-operatório não apresentaram intercorrências.

 

DISCUSSÃO

No pré-operatório imediato, durante a realização da anamnese e do exame físico, o enfermeiro deve verificar se o paciente usa algum tipo de piercing e descrever a localização do adorno(9). Caso o paciente esteja usando algum tipo de piercing, o paciente deve ser orientado a retirar o mesmo, como também deve ser orientado quanto as diversas complicações que podem ocorrer durante o ato anestésico-cirúrgico(1-17) .

Uma das complicações da permanência do piercing em intra-operatório é o surgimento de uma queimadura após o uso de bisturi elétrico monopolar(1-4,9-12). Quando o método monopolar é utilizado, a corrente elétrica deixa a unidade eletro-cirúrgica (UEC) através do eletrodo ativo, passa por uma grande área do corpo do paciente e retorna a UEC através do eletrodo dispersivo. A condução elétrica é facilitada pela presença de diversos íons presentes no meio extra e intracelular (21). No momento em que a corrente elétrica entra em contato com o piercing, este concentra uma quantidade de energia térmica maior que a usual, o que provoca uma queimadura(12). Caso seja possível utilizar o bisturi elétrico somente para a realização da hemostasia, o método bipolar deve ser de primeira escolha, uma vez que a energia se mantém restrita a uma pequena área do corpo do paciente, evitando possíveis danos teciduais(12). Além disso, a densidade da corrente utilizada no método monopolar é muito maior que a necessária para o funcionamento do método bipolar. A fórmula utilizada para se calcular a voltagem a ser utilizada pelo método monopolar é proporcional a 1/raio, enquanto a utilizada para se calcular a voltagem utilizada pelo o método bipolar é proporcional a 1/raio(21). Cauterizações em áreas próximas a piercings não são recomendadas, pois também podem provocar queimaduras(12).

É recomendável que o piercing seja retirado mesmo quando o bisturi elétrico monopolar não é utilizado, uma vez que, durante a mobilização do paciente na mesa cirúrgica, o objeto pode provocar lesões em tecidos e nervos (2,7,12).

O paciente que usa piercing oral e que é intubado na anestesia geral, pode aspirar o mesmo, provocando laringoespasmo e hipóxia(6). Caso seja aspirado, o piercing deve ser localizado com o auxílio de um laringoscópio e retirado. Se não for possível localizar o objeto dessa maneira, devem ser realizada uma radiografia de tórax e se for preciso, o piercing deve ser retirado por broncoscopia(1,16) . Contudo, há alguns relatos de experiência na literatura sobre o uso de piercing oral em intra-operatório sem nenhum tipo de complicação(18-20).

Algumas vezes o paciente pode recusar-se a retirar o piercing. Na maioria dos casos o paciente tem receio de que o orifício de inserção do piercing possa fechar e a recolocação deste no pós-operatório se torne difícil e dolorosa(3,10,16,20). A enfermeira deve explicar que somente o piercing colocado recentemente propicia uma recolocação difícil e dolorosa(4). Neste caso, após a retirada do piercing, um fio de sutura ou um cateter intravenoso pode ser inserido e fixado no local em que o piercing se encontrava, favorecendo sua recolocação no pós-operatório(4,10,13). Não é recomendável a fixação de qualquer outro material no local em que o piercing se encontrava, uma vez que este objeto pode ser aspirado e/ou deslocado durante o intra-operatório(11,16). Se o paciente se negar a retirar o piercing, este deve assinar uma declaração, na qual se responsabiliza por todas as possíveis conseqüências da permanência do piercing em intra-operatório. Em algumas situações pode ocorrer até o cancelamento da cirurgia(12,13).

Procedimentos cirúrgicos de emergência não devem ser adiados quando o paciente usa piercing. Neste caso o enfermeiro do centro cirúrgico deve retirar o adorno no momento apropriado, antes do início da cirurgia. O piercing pode ser removido de duas maneiras. Quando o piercing possui uma "rosca" ele pode ser "desparafusado" em sentido anti-horário. Se o piercing não possui esta característica, as duas extremidades do piercing devem ser separadas, com o auxílio de um alicate que é usado especialmente para esse fim. O piercing nunca deve ser seccionado, pois o piercing seccionado pode traumatizar a pele. Após a retirada do piercing no pré-operatório imediato, ele deve ser entregue a um familiar do paciente, o qual deve ser orientado a manter o objeto em solução anti-séptica. Caso não seja possível contatar nenhum familiar do paciente, o adorno deve ser mantido em local seguro, no hospital(1,19).

Se for possível, o piercing pode ser recolocado no pós-operatório imediato pelo próprio paciente. O piercing deve ser recolocado mais tardiamente, do 2º dia de pós-operatório em diante, quando a ferida operatória está próxima ao local de inserção do piercing, podendo ser fator de risco para infecção do sítio cirúrgico ou retardar a cicatrização da ferida operatória (1,3, 9).

O enfermeiro no pós-operatório deve avaliar sinais inflamatórios próximos ao piercing e orientar o paciente quanto à higiene adequada do local, visando a prevenção de infecções no local. A higiene do local próximo ao piercing deve ser feita com solução antisséptica e diariamente(9,19).

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A maioria dos trabalhos analisados nesta revisão demonstrou a importância da retirada do piercing durante o pré-operatório imediato. Embora as modernas unidades eletrocirúrgicas tenham facilitado a diérese e a hemostasia, como também diminuíram o risco de queimaduras no paciente durante intra-operatório e nas equipes presentes na sala de cirurgia, os fabricantes destes equipamentos desaconselham o uso de adornos metálicos durante o intra-operatório.

A presença de piercing oral durante o intra-operatório aumenta o risco de lesões e aspiração. Em outras regiões do corpo, a presença do piercing pode causar lesões na pele, decorrentes da transferência da maca para a mesa cirúrgica, mesa cirúrgica para a maca, da maca para a cama do pacientes ou mesmo durante o posicionamento cirúrgico no intra-operatório.

 

REFERÊNCIAS

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Correspondência:
Solange Diccini
Rua Napoleão de Barros, 754 - Sala 110. Vila Clementino
CEP - 040024-002. São Paulo, SP

Submissão: 30/05/2007
Aprovação: 19/10/2007