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Revista Brasileira de Enfermagem

Print version ISSN 0034-7167

Rev. bras. enferm. vol.61 no.3 Brasília May/June 2008

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-71672008000300018 

RELATO DE EXPERIÊNCIA

 

Convivendo com a diversidade sexual: relato de experiência

 

Living with sexual diversity: experience report

 

Conviviendo con la diversidad sexual: relato de experiencia

 

 

Elma Mathias DessuntiI; Zeneide SoubhiaI; Elaine AlvesI; Cláudia RossI; Edson Bezerra da SilvaII

IUniversidade Estadual de Londrina, Departamento de Enfermagem. Londrina, PR
IIComissão Municipal de Prevenção e Controle das DST/AIDS. Londrina, PR

Correspondência

 

 


RESUMO

Este trabalho visa relatar a experiência de alunos e docentes do curso de Graduação em Enfermagem da Universidade Estadual de Londrina junto a uma Organização da Sociedade Civil (OSC), que atua com travestis e garotos de programa. Inicialmente, alunos e docentes permaneciam diariamente na OSC visando o atendimento de necessidades imediatas e semanalmente realizando palestras. Atualmente vêm sendo realizadas oficinas semanais sobre diversidade sexual ministradas pelas travestis aos alunos e docentes. Num segundo momento, as oficinas são ministradas por alunos e docentes abordando temas selecionados previamente pelas travestis. Considera-se esta experiência enriquecedora contribuindo para o crescimento pessoal e profissional de docentes e alunos, assim como para a melhoria da qualidade da assistência e qualidade de vida das travestis.

Descritores: Enfermagem; Homossexualidade masculina; Sexualidade.


ABSTRACT

This study reports the experience of undergraduate students and faculty from the School of Nursing - Londrina State University, in a Civil Society Organization (CSO) that works with transvestites and men who provide sexual services for a fee. In the first school semester, students and faculty remained daily at CSO in order to care for immediate necessities and perform weekly lectures. In the second semester, workshops on sexual diversity were ministered by the transvestites to students and faculty followed by workshops, that were ministered, weekly, by students and faculty involving themes previously chosen by the transvestites. This experience is deemed to be enriching and contributes to students and faculty's personal and professional growth, as well as improves care quality and life quality of the transvestites.

Descriptors: Nursing; Homosexuality, male; Sexuality.


RESUMEN

Este trabajo tiene por objetivo relatar la experiência de alumnos y docentes del curso de Graduación de Enfermería de la Universidad Estadual de Londrina junto a una Organización de la Sociedad Civil (OSC), que atua con travestis y " muchachos de programa" . Inicialmente, alumnos y docentes permanecían diariamente en la OSC con la finalidad de ofrecer atención a las necesidades inmediatas y semanalmente para dictar conferencias. Actualmente se están realizando talleres semanales sobre diversidad sexual a cargo de las travestis para los alumnos y docentes. Posteriormente serán alumnos y docentes que abordarán temas seleccionados previamente por las travestis. Esta experiência se há considerado enriquecedora porque há contribuído para el crecimiento personal y profesional de docentes y alumnos, así como para la mejoría de la calidad de la asistencia y calidad de vida de las travestis.

Descriptores: Enfermería; Homosexualidad masculina; Sexualidad.


 

 

APRESENTANDO A NOSSA EXPERIÊNCIA

Desde a organização do Sistema Único de Saúde discute-se a necessidade da formação de recursos humanos responsáveis pelas ações de saúde, com perfil crítico, autônomo, ético e capaz de resolver problemas e transformar a realidade. Neste contexto, docentes da área de doenças transmissíveis do Curso de Graduação em Enfermagem da Universidade Estadual de Londrina se propuseram a realizar atividades extramuros com população de transgêneros, inserindo os alunos em atividades de promoção da saúde e prevenção de doenças, especialmente relacionadas às DST/aids. Até então, o contato dos docentes e discentes com esse público ocorria apenas em nível hospitalar, o que gerava inquietação, pois se percebia a necessidade de melhor preparo para atender esses indivíduos, inclusive dos docentes. O contato das docentes com transgêneros nas atividades da Comissão Municipal de prevenção e controle de DST/aids favoreceu a abertura de espaço junto a Adé Fidan (Homens de fino trato), uma Organização da Sociedade Civil (OSC) que atua com travestis, além de garotos de programa.

Com o surgimento da aids no início da década de 80, os homossexuais constituíram um grupo populacional bastante vulnerável à epidemia, pois associava diferentes fatores como as características comportamentais e estilos de vida, falta de informação, estigma e preconceito da sociedade(1). A noção de vulnerabilidade estabelece uma síntese conceitual e prática das dimensões sociais, político-institucionais e comportamentais associadas a diferentes susceptibilidades de indivíduos e grupos populacionais à infecção pelo HIV e suas conseqüências(2).

Os homossexuais foram também os primeiros a buscarem respostas para o enfrentamento da epidemia, revertendo o imaginário social que os vinculou à culpa, à proibição, à doença e a discriminação(1).

A Adé Fidan é uma instituição reconhecida como de utilidade pública municipal pela Lei nº 8.828 de 26 de Junho de 2002 e de utilidade pública estadual pela Lei nº 14.383 de 12 de maio de 2004. Foi diretamente responsável pela promulgação da Lei nº 8.812 de 13 de junho de 2002 que estabelece penalidade aos estabelecimentos localizados no município de Londrina que discriminem pessoas em virtude de sua orientação sexual. Essa OSC surgiu decorrente do ativismo de um grupo de travestis londrinenses, incentivados pela travesti Saara Santana que cedeu sua residência para abrigar os que adoeciam e não possuíam mais o vínculo familiar. Assim, a partir do falecimento dessa travesti, ocorrido em 12 de outubro de 2001, o grupo se mobilizou para defender o espaço conquistado, mantendo uma sede e uma Casa de Vivência para o desenvolvimento de suas atividades(3). Nesse ano, o Brasil contava com doze associações não-governamentais específicas, que propiciavam o desenvolvimento de ações no campo da promoção à saúde e à prevenção das DST/aids, além da ampliação de sua atuação com atividades voltadas para garantia de renda alternativa (com cursos de corte e costura, artesanato, nutrição e informática) e acesso ao ensino regular(1).

A Adé Fidan, seguindo essa tendência nacional, propôs como objetivos: promover a melhoria da qualidade de vida e estimular o exercício da cidadania na população de travestis, gays e garotos de programa no município de Londrina, profissinalizando-os e dando como alternativa outra opção de renda, que não seja só a prostituição. As atividades desenvolvidas pela OSC incluem a capacitação de seus usuários para o exercício de sua cidadania, bem como cursos profissionalizantes proporcionados pela própria instituição e em conjunto com parceiros voluntários e profissionais adeptos à mesma. A instituição presta serviços na área de assistência social e jurídica aos seus associados, na busca da promoção humana e a inserção no mercado de trabalho e/ou alternativas de geração de renda(3).

Este estudo se refere à experiência com travestis, embora a OSC também atenda transexuais e garotos de programa. Neste convívio passamos a ter contato com os mais variados termos para se referir às diferentes formas de orientação sexual, o que nos incentivou a busca e melhor compreensão desses conceitos.

Orientação sexual: é a atração afetiva e/ou sexual de uma pessoa para a outra, que varia desde a homossexualidade exclusiva até a heterossexualidade exclusiva, passando pelas diversas formas de bissexualidade(4). Os termos 'preferência' e 'opção sexual' não devem ser usados, pois implicam que os homossexuais, por exemplo, optam por ser homossexuais. Embora os comportamentos sexuais realmente envolvam escolha, a orientação sexual inclui emoções e atração erótica e podem ser geneticamente determinadas, em vez de representarem uma questão de livre arbítrio(5).

A homossexualidade pode ser evidenciada de diferentes formas, de acordo com o padrão de conduta e/ou identidade sexual(4):

HSH: Homens que fazem sexo com homens. Esta sigla é utilizada principalmente pelos profissionais da saúde para se referirem a homens que mantém relações sexuais com outros homens, independente destes terem identidade sexual homossexual.

Homossexuais: indivíduos que tem orientação sexual e afetiva por pessoas do mesmo sexo.

Gays: são indivíduos que se relacionam afetiva e sexualmente com pessoas do mesmo sexo, assumindo estilo de vida de acordo com sua preferência.

Bissexuais: indivíduos que se relacionam afetiva e sexualmente com pessoas de qualquer sexo, assumindo abertamente ou não essa sua conduta sexual.

Lésbicas: refere-se às homossexuais femininas.

Transgêneros: engloba tanto travestis quanto transexuais. Fisiologicamente é um homem, mas se relaciona com o mundo como mulher.

Transexuais: são pessoas que não aceitam o sexo que ostentam anatomicamente. Sendo o fato psicológico predominante na transexualidade, o indivíduo identifica-se com o sexo oposto, embora dotado de genitália externa e interna de um único sexo.

Existe ainda, a expressão drag queen que se refere a atores transformistas (homossexuais ou não), que no seu cotidiano andam vestidos de homem, exercendo profissões diversas, não afeitas ao transformismo durante o dia(6). Entretanto, a maioria das drags queens tem saído dos espaços exclusivamente GLBTT (Gays, lésbicas, bissexuais, transexuais e transgêneros) para executarem performances nos mais diversos ambientes.

O presente estudo teve por objetivo relatar a experiência de estudantes e docentes do Curso de Graduação em Enfermagem da Universidade Estadual de Londrina relacionada às atividades desenvolvidas com grupo de travestis e transexuais em uma OSC de Londrina PR.

Espera-se que este relato possa sensibilizar os profissionais de saúde para as questões do preconceito e discriminação visando a humanização no atendimento a essa parcela da população. Pretende-se, ainda, contribuir com a formação de profissionais no relacionamento com grupo de travestis e transexuais.

 

DISCORRENDO SOBRE A NOSSA CAMINHADA

As docentes da área de doenças transmissíveis do Departamento de Enfermagem da UEL participaram de atividades extra-muros com população de transgêneros junto à Associação Londrinense Interdisciplinar de Aids (ALIA) nos primeiros anos de sua criação, e vem participando da formulação de políticas públicas relacionadas às DST/aids para o Município de Londrina-PR, através de representação na Comissão Municipal de prevenção e controle das DST/aids. Esse convívio despertou-nos para a necessidade de formação de recursos humanos para o atendimento desse público.

A inserção dos alunos junto a essa população de transgêneros teve início no ano de 2003 na OSC Adé Fidan (homem de fino trato).

Inicialmente, alunos e docentes permaneciam diariamente na OSC visando o atendimento de necessidades imediatas e semanalmente realizando atividades educativas.

O estágio diário era realizado no período matutino, permanecendo um docente e quatro alunos na Casa de Vivência Saara Santana, com visita a Escola Oficina. A Casa de Vivência, na época, dava apoio a alguns indivíduos com aids, que permaneciam na casa 12 ou 24 horas por dia. As atividades desenvolvidas pelos alunos e docentes incluíam orientações individuais sobre a patologia, tratamento, infecções oportunistas, entre outras. Isto propiciava aos alunos e docentes partilhar a história de vida dos transgêneros, que relatavam suas relações afetivas, sociais e familiares, e como perceberam as diferentes formas de expressão de sua sexualidade. A partir desta percepção, haviam relatos das experiências vividas na infância, principalmente no ambiente escolar, em que já ressentiam os efeitos da discriminação. Nesses encontros, as travestis sentiam-se com liberdade para expressar suas experiências amorosas, que variavam entre momentos prazerosos até situações de violência física e psíquica. Essas histórias faziam emergir nos alunos e profissionais a consciência da vida real de uma travesti.

O desejo de mudar o corpo, de forma semelhante ao das mulheres, motivava essas pessoas a buscar procedimentos invasivos e não seguros, como é o caso das injeções de silicone, cujos resultados eram mostrados pessoalmente aos alunos. Ainda, a barganha com alguns clientes levava muitas travestis a manter relações sexuais sem a devida proteção, expondo-as ao risco de uma série de doenças, que eram discutidas com o público-alvo.

O contato precoce com o álcool e/ou outras drogas ilícitas, relatado por algumas travestis, nos faz refletir sobre a condição de vida desses grupos, expondo-os ao risco de adquirir algumas doenças.

Diante desta situação, foi implantada a escola oficina, com o objetivo de profissionalizar esses indivíduos em algumas atividades que possibilitassem a inserção social da travesti e melhorasse a sua condição de vida. Assim, essa organização oferecia cursos de cabeleireiro, maquiagem, manicure, culinária, trabalhos manuais e outros.

Cada grupo de alunos permanecia dois a três dias na OSC, onde também preparava ação educativa para ser realizada às terças-feiras à tarde, período em que se reunia um grande grupo de travestis. Num primeiro momento os alunos da enfermagem realizavam oficinas sobre os mais diversos temas solicitados pelas mesmas e, em seguida, as travestis participavam de dinâmicas de grupo com um psicólogo que também as treinava para uma peça teatral, na tentativa de melhorar sua auto-estima e promover a discussão sobre temas relacionados a cidadania e inserção social. Essa peça, intitulada " Eu quero viver de dia" foi e continua sendo apresentada em várias partes do país; relata a história de vida das travestis, provocando reflexões sobre os direitos e deveres dessa cidadã.

O ativismo dessa organização favoreceu a aprovação da Lei Municipal nº 8.812 de 13 de junho de 2002, que estabelece penalidade a estabelecimentos no município de Londrina, que discriminarem pessoas em virtude de sua orientação sexual. Ainda, segundo relato, os órgãos de segurança pública têm tratado as travestis com mais respeito e menos violência.

Apesar das várias ações desenvolvidas diariamente junto a OSC, o período matutino era freqüentado por uma minoria de travestis, o que tornava o tempo excessivo para o programa proposto. Com a junção das duas casas (Saara Santana e Escola oficina), esse problema se agravou e, após avaliação de docentes e alunos, fizemos opção por manter apenas as atividades das oficinas no período da tarde, uma vez na semana.

Essas oficinas eram, inicialmente, ministradas pelas travestis aos alunos e docentes na sede da OSC, abordando o tema " Diversidade Sexual" . Isto propicia va discussão com várias travestis que relatavam suas histórias de vida e esclareciam conceitos sobre o tema. Posteriormente, oficinas eram ministradas por alunos e docentes desenvolvendo temas selecionados previamente pelas mesmas: DST/aids, hepatite, tuberculose, higiene pessoal, medicamentos antiretrovirais, drogas lícitas e ilícitas, entre outros. Esse trabalho sensibilizava o aluno para o atendimento dessas pessoas, respeitando sua orientação sexual e conscientizando-os de seus direitos como cidadã. Por exemplo, o acolhimento nas Unidades Básicas de Saúde, Pronto Socorro, Unidade de Internamento, tem sido relatado pelas travestis como ponto positivo resultante dessa aproximação anterior.

Ao final de cada grupo de estágio, os estudantes realizavam uma avaliação escrita em que expressavam suas percepções sobre a experiência vivida. A utilização desses dados foi autorizada pelos alunos que assinaram um Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, em que ficava claro os objetivos do estudo, o sigilo dos dados expressados pelos sujeitos, assegurando a privacidade e a liberdade de retirar seu consentimento sem penalização alguma e sem prejuízo ao seu desempenho escolar. Esses dados foram organizados em quatro categorias, utilizando-se como referencial a análise de conteúdo de Bardin(7).

 

EXPLORANDO A FALA DOS ALUNOS

A convivência de alunos com as travestis durante esses anos permitiu a troca de experiências, a realização de educação em saúde e, principalmente a superação de preconceitos frente às mesmas, conforme observação e anotações constantes das fichas de avaliação dos alunos. Essas anotações foram analisadas e organizadas em 4 categorias apresentas na Figura 1.

 

 

Explorando os discursos dos estudantes, os quais ao reportarem-se à sua experiência no estágio do módulo de Doenças Transmissíveis, falam de seus sentimentos ao conviver com a diversidade sexual. Nessas falas emergiram quatro temas: os objetivos do estágio, o relacionamento com as travestis, o preconceito e o trabalho da Adé-fidan.

Ao reviver sua experiência no estágio desvelam temas que agregam vários sentimentos. O estágio possibilitou o contacto com uma população vulnerável que num primeiro momento gerou um grande impacto ao deparar-se com o diferente, sem um saber como lidar com todas as sensações experimentadas. À medida que as experiências iam acontecendo, podiam vê-la com mais tranqüilidade e percebiam que se tratava de uma experiência nova e legal.

O estágio proporcionou o conhecimento de uma OSC, a qual mantém a Casa de Vivência Saara Santana que acolhe as travestis que a procuram. Referiram-se às oficinas como interessantes, pois nelas tomaram conhecimento dos projetos que lá se desenvolvem.

Reportaram-se também a um dos objetivos do estágio, preparar profissionais para a assistência , falando que a experiência possibilitou aprender lidar com o diferente e, aos poucos, iam percebendo que se tratava de um grupo vulnerável a várias doenças transmissíveis que necessitam de atenção especial da parte dos profissionais da saúde. Continuando no discurso sobre o estágio, os estudantes falam de pontos positivos com as seguintes expressões: foi legal, adorei, tomei consciência do que é saber e ser. Comentam como ponto negativo: o tempo destinado para o estágio nessa OSC, uns manifestam que o tempo era muito longo e outros que era curto.

O Objetivo do estágio procurou dar ênfase para a ação docente comprometida com o educando, para que este se desenvolva individualmente e coletivamente; entendendo que o aluno deve desenvolver as diversas facetas do ser humano: cognição, afetividade, a psicomotricidade e o modo de viver(8).

Outro tema abordado foi o relacionamento com as travestis. Nessa parte colocam em relevo os sentimentos de insegurança para lidar com o diferente, a percepção de aceitação pelas travestis e que o período propiciou reflexões que fizeram mudar seu modo de ser.

O relacionamento com diferentes pessoas se constitui em um evento diário do enfermeiro. Entretanto, quanto mais aberto estamos para as nossas emoções, mais hábeis seremos na leitura dos sentimentos de outrem, considerando-se que a incapacidade de registrar os sentimentos alheios é uma trágica falha no que significa ser um ser humano(9).

O preconceito foi mais um tema que aflorou nos discursos dos estudantes . Falam que a experiência ajudou a quebrar as barreiras pessoais, aceitando e respeitando a orientação sexual do outro, e perceberam o papel que o enfermeiro pode desenvolver com essa população.

Abordando o trabalho da Adé-fidan. Aqui as falas se orientam para o aspecto da prevenção das DST/aids, da luta contra o preconceito da sociedade para com as travestis, do trabalho de conscientização sobre os direitos delas como cidadãs e da função social e política da Casa de Vivência.

A capacidade de mobilização e organização dos homossexuais resultou na criação de leis e projetos municipais, estaduais e nacionais contra a discriminação e o preconceito. Em âmbito municipal, destacam-se: a participação na abertura do carnaval de rua com o carro e bloco da prevenção, a realização anual do concurso Miss Londrina Travesti, a coordenação atual da Comissão Municipal de prevenção e controle das DST/aids, entre outros. A Comissão Estadual também é coordenada por um membro da Adé Fidan. No trabalho de auto-estima e cidadania foram treinadas travestis para a peça 'Eu quero viver de dia', apresentada em eventos locais e nacionais.

Olhar para as falas dos estudantes permitiu perceber que toda experiência nova é um processo dinâmico e complexo que requer tempo para o indivíduo internalizá-la, valorizá-la e mudar seu modo de ser frente a situações semelhantes.

 

TECENDO AS CONSIDERAÇÕES FINAIS

As diferentes terminologias empregadas para diferenciar os comportamentos homossexuais, representam uma dificuldade para os profissionais e alunos da área da saúde.

O estágio na OSC Adé Fidan é um recurso utilizado pelos docentes do Módulo de Doenças Transmissíveis para preparar os alunos de Graduação em Enfermagem para a assistência dessa população.

O relacionamento com as travestis está sendo uma experiência que possibilitou aos docentes e aos alunos tomar consciência e rever seus preconceitos.

O trabalho dessa OSC constitui-se em exemplo de luta e coragem para enfrentar a discriminação da sociedade, pois desenvolve atividades de conscientização dos direitos e deveres e de inserção social das travestis, melhorando sua auto-estima.

Considera-se esta experiência enriquecedora contribuindo para o crescimento pessoal e profissional de docentes e alunos, assim como para a melhoria da qualidade da assistência e qualidade de vida das travestis.

 

REFERÊNCIAS

1. Ministério da Saúde (BR). Secretaria de Políticas da Saúde. Coordenação Nacional de DST e Aids. Guia de Prevenção das DST/Aids e Cidadania para Homossexuais/Secretaria de Políticas de Saúde, Coordenação Nacional de DST e Aids. Brasília (DF): Ministério da Saúde; 2002.         [ Links ]

2. Ayres JRCM. HIV/AIDS, DST e abuso de drogas entre adolescentes: vulnerabilidade e avaliação de ações preventivas. São Paulo (SP): Casa de Edição; 1996.         [ Links ]

3. Adé Fifan. Uma lição de vida aquendandando com as monas: projeto Casa de Vivência Saara Santana. Ministério da Saúde (DF): PN DST/AIDS.         [ Links ]

4. Câmara dos Deputados (BR). Brasil sem Homofobia: Programa de Combate à Violência e à discriminação contra GLTB e de Promoção da cidadania homossexual. 2ª ed. Brasília (DF): Câmara dos Deputados, Coordenação de Publicações; 2004.         [ Links ]

5. Poorman SG. Respostas sexuais e transtornos sexuais. In: Stuart GW, Laraia MT. Enfermagem psiquiátrica: princípios e prática. Porto Alegre (RS): Artes Médicas; 2001. p. 581-604.         [ Links ]

6. Chidiac MTV, Oltramari LC. Ser e estar drag queen: um estudo sobre a configuração da identidade queer. Est Psicol 2004; 9(3): 471-8.         [ Links ]

7. Bardin L. Análise de conteúdo. Lisboa (POR): Edições 70; 1977.         [ Links ]

8. Luckesi CC. Avaliação da aprendizagem escola: estudos e proposições. 8ª ed. São Paulo (SP): Cortez; 1998.         [ Links ]

9. Goleman D. Inteligência emocional. Rio de Janeiro (RJ): Objetiva; 1995.         [ Links ]

 

 

Correspondência:
Elma Mathias Dessunti
Rodovia Celso Garcia, Km 380. Campus Universitário. Cx. Postal 6001
CEP 86051-990. Londrina, PR

Submissão: 29/09/2006
Aprovação: 12/01/2008