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Revista Brasileira de Enfermagem

Print version ISSN 0034-7167On-line version ISSN 1984-0446

Rev. bras. enferm. vol.61 no.5 Brasília Sept./Oct. 2008

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-71672008000500019 

HISTÓRIA DA ENFERMAGEM

 

Escola Maria Antoinette Blanchot e a institucionalização do ensino auxiliar de enfermagem no Piauí

 

Maria Antoinette Blanchot School and the institucionalization of practical nursing education in Piauí, Brazil

 

Escuela Maria Antoinette Blanchot y la institucionalización de la enseñanza de enfermería práctica en Piauí

 

 

Benevina Maria Vilar; Lorena Dayse Vilarinho Nunes Magalhães Borges; Ana Maria Ribeiro dos Santos

Universidade Federal do Piauí. Teresina, PI

Correspondência

 

 


RESUMO

O estudo tem como objeto a primeira escola de enfermagem do Piauí e a institucionalização do ensino auxiliar de enfermagem. Objetivou descrever e analisar seu processo de institucionalização como marco no ensino auxiliar de enfermagem no Estado. Estudo histórico que se utilizou da história oral temática. As fontes primárias de dados foram sete entrevistas realizadas com personagens que trabalharam na escola. Utilizaram-se ainda fontes documentais, como também fontes secundárias. Os resultados retrataram a trajetória da Escola, enfatizando sua criação e dinâmica interna, ressaltando a sua importância como primeiro espaço de formação profissional de enfermagem. O estudo apresentou ainda a importância das irmãs de caridade de São Vicente de Paulo e das primeiras enfermeiras na construção e desenvolvimento da Escola.

Descritores: História da enfermagem; Escolas de enfermagem; Educação em enfermagem.


ABSTRACT 

The object of this study is the first nursing school in Piauí and the institutionalization of practical nurse education. The objective was to analyze and describe the process of institutionalization as a mark in practical nursing education in the state. It is a historical study that used a thematic oral history. The main source of data was seven interviews with people who had worked at the school. Documentary sources were used as well as secondary sources. The results portray the development of the School, highlighting its foundation and internal dynamics and pointing out its importance as the first school in the formation of nursing professional. The study also shows the importance the Sisters of Charity of Saint Vincente de Paulo who were the first nurses in the construction and development of the School.

Descriptors: Nursing history; Nursing schools; Education, nursing.


RESUMEN

El estudio tiene por objeto la primera escuela de enfermería de Piauí y la institucionalización de la educación auxiliares de enfermería. El objetivo describir y analizar sus procesos de institucionalización como un hito en la educación de auxiliar de enfermería en el Estado. Estudio de la historia que se ha utilizado la historia oral tema. Las principales fuentes de datos de siete entrevistas con personajes que trabajó en la escuela. Se utilizó incluso fuentes documentales, así como fuentes secundarias. Los resultados describen la trayectoria de la Escuela, haciendo hincapié en su creación y la dinámica interna, destacando su importancia como el primer ámbito de la formación de enfermería. El estudio también puso de manifiesto la importancia de las Hermanas de la Caridad de San Vicente de Paulo y la primera enfermeras en la construcción y el desarrollo de la Escuela.

Descriptores: Historia de la enfermería, Escuelas de enfermería; Educación en enfermería.


 

 

CONSIDERAÇÕES INICIAIS

Esta pesquisa tem como objeto a criação da primeira escola de enfermagem e a institucionalização do ensino auxiliar de enfermagem no estado do Piauí, originando-se de outros estudos históricos que temos desenvolvido em busca de preservar a memória da enfermagem na realidade local. Está vinculada ao recém-criado Grupo de Pesquisa em História e Educação em Enfermagem e Saúde, do Departamento de Enfermagem da Universidade Federal do Piauí,

Entre os desafios dessa área profissional, não só no Brasil, como também em muitos países do mundo, destacamos a formação de quantitativo de pessoal qualificado para cuidar dos pacientes. Essa mesma dificuldade acentuou-se no Brasil entre as décadas de 1930 e 1940, desencadeando o aparecimento da categoria auxiliar de enfermagem, instituída pela Lei 775/49, a qual oficializou o ensino de enfermagem no Brasil(1).

No início da década de 1940, foi inaugurado, no Piauí, o Hospital Getúlio Vargas (HGV), uma instituição de grande porte para os padrões da época, mas faltavam recursos humanos de enfermagem qualificados. Esse fato desencadeou a necessidade de criação de uma escola de enfermagem para atender não só ao HGV, como também aos demais serviços de saúde tanto na capital, Teresina, como no interior. Nesse contexto, foi criada, em 1958, a Escola de Auxiliar de Enfermagem Maria Antoinette Blanchot(2), que representou um marco na formação dos trabalhadores de enfermagem, tendo em vista que foi a primeira a desenvolver essa função social, mas, apesar da sua importância para o ensino de enfermagem, existem poucos registros sobre sua contribuição aos serviços de saúde no cenário piauiense.

Nesse sentido, ao discutir o processo de criação de Escola Auxiliar de Enfermagem Maria Antoinette Blanchot como marco da institucionalização do ensino auxiliar de enfermagem, este estudo contribuirá para a preservação da memória da enfermagem piauiense, tornando-se também um componente importante da história do ensino de enfermagem no Brasil.

 

METODOLOGIA

Trata-se de uma pesquisa qualitativa com abordagem histórico-social, utilizando-se a história oral temática, a qual é realizada por meio da entrevista com um grupo de pessoas sobre um assunto específico. A história oral é construída em torno de pessoas, que, por sua vez, têm suas memórias transformadas em história pelo historiador, o qual lança luz para dentro das pessoas e daí extrai história(³). Assim, o método da pesquisa histórica consiste em localizar, avaliar criticamente e sistematizar os dados e lançar luz sobre os acontecimentos referentes ao passado, para que este possa guiar o presente e o futuro(4).

Os sujeitos do estudo foram quatro professoras que atuaram diretamente na escola, uma enfermeira que foi secretária da escola e duas ex-alunas. A seleção ocorreu de forma intencional, pois as pessoas que participaram diretamente do cenário daquela época apresentavam-se com possibilidade de colaborar com a pesquisa.

A produção dos dados ocorreu por meio de entrevistas com os sujeitos do estudo, as quais foram agendadas previamente, sendo que as participantes foram esclarecidas sobre os objetivos da pesquisa, assinando o termo de consentimento livre e esclarecido.

As fontes documentais utilizadas foram provenientes dos sujeitos do estudo e consistiram de um texto escrito sobre a escola de autoria das religiosas, fotografias, planos de curso de disciplinas. Os registros oficiais da escola não foram encontrados e as informações que se tem é que essa documentação foi perdida. Utilizou também fontes secundárias, como livros, teses e artigos sobre ensino de enfermagem e o trabalho das religiosas no Brasil. O estudo cumpriu as determinações da Resolução 196/96 do Conselho Nacional de Saúde, tendo sido aprovado pelo Comitê de Ética e Pesquisa da Universidade Federal do Piauí com o número 0153.0.045.000-07.

A análise dos dados foi realizada, primeiramente, com a transcrição das fitas e revisão do conteúdo gravado, seguidos da leitura e releitura das transcrições, momento em que foram examinadas atentamente as informações obtidas e reorganizadas por categorias. Finalmente, os dados produzidos foram relacionados à literatura pertinente ao tema e procedeu-se a narrativa histórica.

 

RESULTADOS

Antecedentes da Formação Profissional em Ensino Auxiliar de Enfermagem No Piauí

A partir da década de 1930, em virtude das transformações urbanas advindas do processo de industrialização do país, ocorreram mudanças no sistema educacional que atingiram a enfermagem. Tais mudanças dizem respeito ao Decreto nº 20.109/31, que regulamentou o exercício da enfermagem no Brasil e considerou a Escola de Enfermagem Anna Nery como escola oficial padrão para o ensino da enfermagem no país(5), reconhecendo-se a excelência de seu ensino.

As modificações do quadro social urbano nos anos 1940, em virtude da industrialização e das pressões exercidas pelos trabalhadores assalariados para garantir a conquista de direitos sociais, dentre eles o da saúde, resultaram na expansão desse serviço e na ampliação da prática institucionalizada de atenção ao doente, gerando a necessidade de aumentar a formação específica de pessoal para o exercício da enfermagem(6).

Nessa perspectiva, surgiram hospitais que incorporaram modernas tecnologias no tratamento aos doentes, mas, para atender a essa nova complexidade, necessitava-se de pessoal treinado para o cuidado direto, uma vez que a quantidade de enfermeiras diplomadas no ensino oficial padrão não era suficiente para dar conta da demanda. Assim, iniciou-se uma pressão por parte de vários segmentos sociais para a criação de cursos de enfermagem de menor tempo de duração(1).

O surgimento desses novos profissionais foi motivo de conflitos, principalmente entre as escolas de enfermagem que defendiam o alto padrão na formação das enfermeiras e tinham a responsabilidade de suprir a demanda por profissionais de enfermagem. As enfermeiras, por sua vez, se viam ameaçadas pela possibilidade de perder as conquistas até então adquiridas para a sua formação. Em virtude desse conflito, a Associação de Enfermeiras Diplomadas (hoje Associação Brasileira de Enfermagem ABEn) solicitou ao Governo uma lei que alterasse o sistema de ensino de enfermagem de maneira a incluir outro nível de formação de pessoal de enfermagem - o auxiliar de enfermagem(¹). Dessa forma, foi criada e regulamentada a nova profissão, e as escolas de auxiliar de enfermagem trataram de disseminar suas práticas em todo o país.

No Piauí, foi inaugurado, em 1941, o HGV, em consonância com o movimento de expansão da rede hospitalar no Brasil, tornando-se essa instituição um marco na área da saúde, como também na formação profissional da área. Vale ressaltar que, com a sua inauguração, foram abertos postos de trabalho na cidade, todavia não existiam escolas que preparassem os recursos humanos de que o hospital necessitava para funcionar como um moderno nosocômio. Os poucos funcionários existentes foram recrutados na antiga Santa Casa de Misericórdia de Teresina, que foi desativada após a inauguração do HGV, mas não eram suficientes para cobrir as necessidades que a nova instituição demandava(7).

A direção do HGV envidou então esforços para recrutar enfermeiras formadas em outros centros do país, principalmente Rio de Janeiro, mas essas tentativas foram frustradas, tendo em vista que as mesmas não conseguiam se adaptar às condições de vida e de trabalho na realidade local(7).

Assim, sob a influência da Igreja Católica foram escolhidas as irmãs da Congregação São Vicente de Paulo, que eram fiéis difusoras do modelo hospitalar moderno, e, em 1946, chegou ao Piauí a enfermeira Irmã Catarina Cola, com formação profissional na Escola de Enfermagem Anna Nery. Essas religiosas tornaram-se elementos importantes na administração, no controle de material e na organização da lavanderia e da cozinha do HGV, tornando-se fundamentais no processo de definição do espaço da enfermagem no HGV(7,8).

No final da década de 1950, chegaram outras enfermeiras ao Piauí, como Maria Barbosa de Almeida e Filomena Leles Camello, com formação em enfermagem na Escola São Vicente de Paulo, do Ceará.

O diagnóstico inicial das irmãs de caridade sobre o HGV levou-as a priorizar a capacitação do pessoal, e sobre o assunto é esclarecedor o depoimento de uma enfermeira e professora da escola na época:

Providenciamos imediatamente cursos para tornar essas pessoas mais capazes, pois não podíamos dispensá-los, o que se podia fazer era torná-los eficientes.

De acordo com os depoimentos dos sujeitos do estudo, os treinamentos foram realizados pelas religiosas e enfermeiras recém-chegadas como forma de minimizar os problemas relacionados à assistência de enfermagem à clientela. O treinamento consistia de conteúdos relacionados a ações básicas de enfermagem desconhecidas pelas atendentes que trabalhavam no HGV. Além das aulas elas recebiam instruções no horário de trabalho.

Convém enfatizar que as religiosas e enfermeiras vivenciaram dificuldades em relação à produção do seu trabalho, tanto por parte da sociedade, que ansiava por tratamento eficaz e humanizado, como dos médicos, que exigiam qualidade no atendimento e diminuição do desperdício de material. Essa situação é esclarecida no relato de uma enfermeira da época:

a Irmã Abrahide era uma pessoa capaz, inteligente e enfrentava problemas administrativos, porque os médicos exigiam dela e não entendiam que por trás dela tinha muita gente incapaz, então ela chegou à conclusão que só criando uma escola .

Assim, nesse cenário, a Irmã Abrahide Alvarenga ganhou visibilidade em todo o hospital e em parte da sociedade teresinense, por conta dos serviços de enfermagem que prestava e por envidar esforços para a instituição do ensino de auxiliar de enfermagem no Piauí.

A Criação da Escola Auxiliar de Enfermagem Irmã Maria Antoinette Blanchot

A idéia de se criar uma escola de enfermagem no Piauí deveu-se a Associação de São Vicente de Paulo, que desde a década de 1930 fundou escolas de enfermagem no Brasil e ao empenho da irmã de caridade Abrahide Alvarenga, enfermeira formada pela Escola de Enfermagem Anna Nery na turma de 1942(8) e que chegou ao Piauí em 1956.

Ao perceber as deficiências de pessoal de enfermagem, ela promoveu reuniões com as religiosas e enfermeiras que trabalhavam no hospital, com o intuito de criar um centro educacional para profissionalizar auxiliares de enfermagem que pudessem atender ao HGV, e, numa escala maior, servissem como mão-de-obra especializada para outros hospitais e clínicas da cidade. Esse momento foi fundamental, marcando os primeiros passos da criação da escola:

fizemos reuniões e decidimos falar com o diretor, ele nos ajudou e nos cedeu duas salas no Getúlio Vargas .

Nesse sentido, com o apoio recebido, a Irmã Abrahide apresentou o plano de criação da escola à diretoria do HGV e à Presidência da Associação São Vicente de Paulo, sendo que, no dia 28 de junho de 1958, foi fundada a primeira escola de auxiliar de enfermagem no Piauí, autorizada a funcionar pela Portaria Ministerial nº. 94/1959, inaugurando novo ciclo da enfermagem no Piauí(9). A instituição recebeu o nome de Escola de Auxiliar de Enfermagem Irmã Maria Antoinette Blanchot, em homenagem a única Provincial da Companhia das Filhas da Caridade no Brasil, a irmã francesa com nome de batismo de Marie Antoinette Blanchot, que veio para o Brasil com o objetivo de expandir o trabalho da província(10).

A escola foi fundada sem ter uma sede própria e funcionou provisoriamente nas dependências do HGV, pois, no início, havia apenas muita vontade dos seus idealizadores e poucos recursos. Desse modo, as condições eram precárias, as salas pequenas e mal ventiladas, como esclarece o depoimento:

A escola situava-se em cima de onde era a clinica médica, e a sala de aula, sobre a primeira enfermaria de homens. No corredor, colocaram um biombo de madeira e um balcão, era onde funcionava a secretaria da escola.

Assim, a escola inicialmente passou por dificuldades, pois, apesar de o HGV ter contribuído com o espaço físico, eram necessários recursos financeiros e humanos para tocar o projeto, como relembra uma depoente:

A escola era pobre, dirigida pelas freiras e de início no HGV tudo era difícil e precário por falta de material, de instrumental, de tudo. E precária também pela carência dos alunos. Depois então é que foi começando a melhorar.

Posteriormente, a Irmã Abrahide Alvarenga conseguiu do Governo do Estado a doação de um terreno na Rua Olavo Bilac, onde foi construída a sede própria, com o esforço da Irmã, que reuniu recursos advindos de vários setores da sociedade e da própria congregação São Vicente de Paulo para melhorar as condições de funcionamento da escola, como relata uma depoente:

No prédio próprio, as salas eram mais arejadas e confortáveis, o professor dispunha de material audiovisual para ministrar suas aulas, havia planejamento das aulas e cada professor apresentava seu plano.

Na sua nova sede, a escola tornou-se bem equipada, dispondo de uma boa área administrativa, laboratórios para as aulas praticas e uma biblioteca, sendo alguns dos livros arrecadados pelas professoras. Contava ainda com um Conselho Consultivo constituído dos seguintes membros: Dom Avelar Brandão Vilela, arcebispo metropolitano de Teresina, Dr. Lucídio Portella Nunes, Dr. Lineu da Costa Araújo, Sr. Artur Silveira e a Irmã Superiora do HGV, na época irmã Abrahide Alvarenga(9).

Na primeira turma foram matriculados 32 alunos, os quais concluíram o curso em 7 de janeiro de 1962(9). Após a conclusão desse primeiro grupo de auxiliares, a escola cresceu e se consolidou no cenário piauiense, formando significativo contingente de atendentes de enfermagem que trabalhavam no HGV, como também outras pessoas que desejavam se tornar profissionais da enfermagem.

O Cotidiano da Escola de Enfermagem

A escola de enfermagem permitia que se concretizassem os intentos de organização da Irmã Abrahide, sendo que os caminhos que a escola percorreria para atingir seus objetivos teriam como orientação os princípios morais, sociais e espirituais baseados na religião católica.

O processo de seleção dos alunos consistia numa prova que verificava se o candidato sabia ler, escrever e realizar operações básicas em matemática, pré-requisitos para seguirem o curso, conforme está posto no depoimento de uma professora da escola:

A seleção dos alunos era por meio de uma prova. Eles tinham que saber ler, escrever e fazer as quatro operações, de preferência deveriam ter o ginásio, caso contrário tínhamos que providenciar o ginásio na escola. Lá se ensinava de tudo, tinha professor de português, matemática e de enfermagem.

As aulas de português e matemática mencionadas eram ministradas na própria escola por professores cedidos pela Secretaria de Educação do Estado, para que os alunos fizessem concomitantemente o curso auxiliar de enfermagem e a complementação de estudos do ensino formal, conforme permitia a Lei 775/49, como se refere uma depoente:

As disciplinas do curso de auxiliares eram concomitantes às disciplinas do curso ginasial [curso de primeiro grau hoje, grifo nosso] , porque os alunos tinham que fazer a complementação.

A escola não era gratuita, assim os alunos pagavam uma mensalidade para custear parte das despesas, havendo varias formas de pagamento: parte dos alunos inseridos no mercado de trabalho pagavam com o fruto do seu trabalho, enquanto outra parte conseguia bolsas por meio de hospitais particulares e da própria escola, conforme nos indica uma técnica de enfermagem, depoente deste estudo:

Era, pagava todos os meses a mensalidade, hoje eu não tenho idéia de quanto seria, mas eu tinha colegas que não trabalhavam e conseguiam bolsa integral, mas era só para quem não podia pagar.

Aqueles alunos que não podiam arcar com a mensalidade a escola oferecia um auxilio em forma de bolsa, com o comprometimento de reembolsar essa quantia para a escola quando estivessem trabalhando, como rememora a secretária da escola:

Eles pagavam simbolicamente porque o valor era muito pequeno, [grifo nosso] onze meses mais a matricula, entretanto a maioria dos alunos ficava inadimplente devido a sua baixa situação financeira. Os que atrasavam suas mensalidades não eram expulsos da escola, mas recebiam uma ficha de débito, que deveria ser paga logo que fossem empregados, o que naquela época não era um grave problema, devido à grande procura de funcionários pelos hospitais. As casas de saúde requisitavam candidatos que eram escolhidos pela escola através das notas e de sua desenvoltura. À medida que eles recebiam seus salários, iam aos poucos saldando os seus débitos.

A Secretaria de Saúde do Estado colaborava com a escola anualmente, investindo uma quantia, sendo que, para receber essa subvenção do governo, a escola preparava, todos os anos, um plano de aplicação contendo as despesas básicas da escola. Desse modo, podia-se disponibilizar, para alunas carentes bolsas integrais em parte custeadas pela escola e pelos recursos do Estado, que disponibilizava também os campos de estágio para as estudantes, facilitando-lhes a entrada nos hospitais públicos. Outra parte dos recursos advinha periodicamente da Congregação São Vicente de Paulo, cuja "quantia servia para a manutenção da casa e da comida".

Essa Congregação dispunha de religiosas enfermeiras, com formação profissional em outros centros, as quais ministravam aulas na escola Maria Antoinette Blachot, sendo, por muito tempo, as principais professoras da instituição. Ressalte-se que eram rigorosas em relação ao comportamento moral e ético das alunas e, em decorrência, a sociedade via aquele ensino como rígido e bom. Era obrigatório o uso de uniforme e só assistia às aulas quem estivesse com o fardamento completo, como recorda uma professora:

A escola tinha um regulamento que o aluno só poderia comparecer às aulas devidamente uniformizado. No começo o uniforme era listrado de azul com branco e tinha um avental branco, punhos brancos, gola branca, uma touca na cabeça (de organdi com uma fita de veludo azul), meia e sapatos fechados.

Também não se podiam usar adornos, as unhas deviam estar bem cortadas e cuidadas, o cabelo bem preso, bem como não se permitiam namoros nas proximidades da escola. Essas exigências das irmãs iam modelando os comportamentos das alunas e expressam a ligação entre a prática de enfermagem e a influência recebida das ordens religiosas, que marcaram o ideário da profissão(11).

O curso de Auxiliar de Enfermagem tinha uma duração de 11 meses e funcionava nos turnos manhã e tarde, em caráter intensivo, com o objetivo de qualificar rapidamente o maior número de pessoas, sendo inclusive chamado de curso intensivo de auxiliar de enfermagem.

As aulas eram em dois horários, de oito às onze e de duas às seis, o dia todo, não podia chegar atrasado.

Os estágios ocorriam nos hospitais das redes pública e privada, cujas parcerias eram articuladas pelas Irmãs Vicentinas, como explica uma depoente:

No processo de acompanhamento dos alunos existia uma parceria com o HGV e a Casamater [hospital privado, grifo nosso], os hospitais particulares colaboravam com a parte do centro cirúrgico. O centro cirúrgico sempre foi um problema porque eram aceitos poucos alunos, e, como as turmas tinham em média trinta a quarenta e até cinqüenta alunos, estes eram distribuídos em pequenos grupos de cinco pessoas que recebiam a orientação dos enfermeiros-chefes dos serviços nos hospitais, em seus horários de trabalho, sem remuneração. Eram organizadas escalas, de forma que todos os grupos passassem nos diversos setores dos hospitais e principalmente na clínica de urgência do HGV, que era pré-requisito para todos os alunos.

Um momento de destaque dos rituais do curso eram as formaturas, celebradas com júbilo, e, apesar de a maioria as alunas não terem muitas condições, a festa era marcante para toda a cidade, com presença de autoridades e familiares. As depoentes, ao reviverem esse momento, retratam-no mais fielmente:

As formaturas eram como se fossem na universidade, uma vez eu fui até paraninfa de turma. Alunas ficavam naquele pátio... tinha um pátio muito grande, ali faziam um convite, todo mundo de gala, as formaturas com discursos. Elas sempre escolhiam um médico, os padrinhos eram importantes, até o governador ia para as formaturas da escola.

Este momento era de grande importância tanto para as alunas, como para quem preparou estas alunas: Irmãs e professoras. Após a formatura, no hall de entrada da escola, ficavam as fotos das concludentes, como um marco de seu grande feito.

Um dos problemas enfrentados na escola foi o pequeno número de enfermeiras para desenvolver as atividades de ensino, então, como tinha muito respeito da sociedade e poder de persuasão, a Irmã Abrahide trabalhou para recrutar profissionais em outras realidades.

Nós tivemos que recrutar pessoas de fora, para nos a ajudar na criação da escola Maria Antoinette Blanchot. Veio a Nair Moita, a Lourdes Costa, Vangi. As primeiras fomos nós, primeiro a Irmã Alvarenga, eu estava mesmo desde a criação da escola.

Inicialmente, as professoras não recebiam remuneração, pois eram também funcionárias do Estado e ministravam, principalmente, aulas práticas nos seus horários de trabalho. Outras enfermeiras recebiam remuneração desde o início, pois, como não tinham vínculo empregatício com o Hospital e nem outro trabalho, tiravam da docência o seu sustento.

Inicialmente nos recebíamos como pagamento apenas muito obrigado. E nós aceitávamos para não perdermos aquele elo. Depois então, as coisas melhoraram e eles pagavam, mas pagavam precariamente, era só uma colaboração. Depois, já com a irmã Julieta, melhorou um pouco. E veio melhorar mesmo com a irmã Martha. Houve maior propaganda e a escola fez convênio, e, depois com a irmã Orminda, as coisas melhoraram, porque ela veio do Ceará e atuava na escola de enfermagem de Fortaleza e quando veio para cá já vinha com outros conhecimentos e as coisas melhoraram.

Interessante observar o espírito solidário dessas mulheres pioneiras que trabalhavam voluntariamente como professoras envolvidas pelo ideal de servir, refletindo nitidamente a difusão da influência das irmãs de caridade.

As diretoras da escola foram a Irmã Abrahide Alvarenga, de 21 de fevereiro de 1959 a 10 de abril de 1963; a Irmã Maria do Rosário Campanha, de 11 de abril de 1963 a 8 de outubro de 1963; a Irmã Maria Queiroz, de 9 de outubro de 1966 a 8 de agosto de 1967; a Irmã Maria Julieta Fernandes de 9 de agosto de 1967 a 3 de abril de 1972; a irmã Maria Maia de Mourão, de 4 de abril de 1972 a 3 de abril de 1975, e, por fim, a Irmã Orminda Santana de Oliveira, de 4 de abril de 1975 até 1984(9).

A partir de 1975 surgiu a idéia de desenvolver na escola cursos técnicos tanto de enfermagem como de outras áreas da saúde. Isso foi possível em virtude da Lei Diretrizes e Bases da Educação nº 5692/671, que promoveu mudanças no ensino médio no Brasil naquele período, reconhecendo a integração completa do ensino profissionalizante ao sistema regular de ensino e a plena equivalência entre os cursos profissionalizantes e o propedêutico, para fins de prosseguimento nos estudos(12).

Assim, em 12 de maio de 1978, por meio da resolução 19/78, foi aprovada a transformação para Escola Técnica em Saúde Maria Antoinette Blanchot(9), fato que marcou a memória da depoente:

No final da década de 70, a Escola Auxiliar de Enfermagem se transformou em Escola Técnica de Saúde Maria Antoinette Blanchot. Com a reforma do ensino médio, os cursos técnicos eram profissionalizantes. A escola ofereceu dois desses curso:, o de enfermagem e o técnico em higiene dental.

A partir dessa transformação tornou-se possível uma parceria com o Programa Intensivo de Preparação de Mão-de-obra (PIPIMO), que apresentou um pacote com normas e verbas destinadas aos cursos, contribuindo para a melhoria do funcionamento da instituição, o pagamento de professores e a aquisição de materiais e equipamentos.

Até 1979 a escola matriculou 954 alunos, sendo que 178 deles evadiram-se, 649 concluíram o curso, e 127 estavam em formação. A capacidade de formação de alunos foi aumentando e, de 1958 a 1963 concluíram, 58 alunos; de 1964 a 1968, formaram-se 118; de 1959 a 1973, foram 178, e, de 1974 a 1978, chegaram a se formar 295 alunos. Desses a maioria, cerca de 81,6%, eram piauienses; 10,1% eram maranhenses; 4,9% eram cearenses e 3,4% pertenciam a outros estados(9).

Em 1984, a última turma de alunos da Escola Maria Antoinette Blanchot concluiu os estudos, e a instituição fechou suas portas, deixando um vácuo na formação profissional da área de enfermagem e em todas as pessoas que lutaram por aquele sonho. Os motivos para o seu fechamento são obscuros e se confundem até mesmo na memória das depoentes, havendo controvérsias. Sabe-se que ocorreu a diminuição nacional da influência das religiosas nas escolas de enfermagem, somando-se as dificuldades financeiras e a falta de incentivo do governo, o que, provavelmente, culminou na extinção daquela instituição, como recorda uma depoente:

Eu já havia saído da escola quando soube que ela tinha fechado, por estar passando por grandes necessidades. Os motivos foram a suspensão dos recursos de manutenção do PIPIMO, o encerramento das mensalidades dos alunos e a diminuição das subvenções que a escola recebia, além de terem surgido novas escolas. Tudo isso contribuiu para a iniciativa de expor à venda materiais didáticos como livros e armários para pessoas da comunidade, professores e alunos. Parece que algumas coisas foram transferidas para outras escolas da congregação em outros lugares.

Vale ressaltar que o prédio da escola, o qual foi construído pelas irmãs, com o fechamento, foi devolvido ao Estado, pois, no documento de aquisição do terreno, havia uma cláusula que garantia essa devolução quando não houvesse mais a finalidade educativa. As religiosas fizeram também uma feira pondo à venda, por preços simbólicos, todo o material da escola, como livros, bonecos, equipamentos.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Estudar a Escola de Enfermagem Maria Antoinette Blanchott e a institucionalização do ensino auxiliar de enfermagem proporcionou importantes reflexões sobre o passado da enfermagem nesse cenário. Os antecedentes históricos da institucionalização do ensino de enfermagem no Piauí indicaram que, com a inauguração do Hospital Getúlio Vargas, a necessidade de formação de pessoal foi acentuada e, quase duas décadas após, graças ao trabalho das irmãs de caridade São Vicente de Paulo, lideradas pela Irmã Abrahide Alvarenga, foi fundada em 1958, a Escola Auxiliar de Enfermagem Maria Antoinette Blanchot, a qual funcionou inicialmente nas dependências do HGV.

Posteriormente, a Irmã Abrahide envidou esforços para conseguir recursos junto às mais diversas instituições públicas e privadas para construção de uma sede própria para a escola, onde foi desenvolvida por mais de duas décadas a formação de auxiliares e técnicos de enfermagem para os serviços de saúde do Estado.

A evocação da memória dos sujeitos do estudo permitiu esboçar aspectos do cotidiano da escola no que diz respeito aos alunos, aos professores, às religiosas e às facilidades e dificuldades relacionadas aos recursos materiais e humanos envolvidos na tarefa de formação desses profissionais. Assim, o contato com as pessoas que vivenciaram o cotidiano da escola nos permitiu refletir sobre o passado recente do ensino de enfermagem na realidade local, evidenciando a influência das irmãs de caridade São Vicente de Paulo, as quais, ao criarem uma escola baseada nos princípios da fé católica, foram moldando o comportamento de alunos e professores com base nesse ideário. Nesse sentido foi importante desvendar que, como em outras realidades do Brasil e do mundo, no Piauí também essas influências se fizeram presentes.

Ao refletir sobre esse tempo e esse movimento histórico e perceber as contradições da realidade em estudo, ressalta-se a importância da Escola Auxiliar de Enfermagem Maria Antoinette Blanchot para a enfermagem piauiense, nas condições que foram possíveis naquele momento histórico. Cabe reconhecer também o esforço e o trabalho das irmãs de caridade e das primeiras enfermeiras para dar visibilidade à enfermagem.

O fechamento da escola foi um momento de muita perda para a sociedade piauiense, incluindo-se as muitas moças que sonhavam em estudar naquela instituição. Infelizmente, a escola hoje é apenas uma lembrança que deixou bons frutos.

 

REFERÊNCIAS

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Correspondência:
Benevina Maria Vilar
Campus Universitário Ministro Petrônio Portella - Bairro Ininga
CEP: 64.049-550. Teresina , PI

Submissão: 13/03/2008
Aprovação: 31/07/2008

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