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Revista Brasileira de Enfermagem

versão impressa ISSN 0034-7167versão On-line ISSN 1984-0446

Rev. bras. enferm. v.62 n.1 Brasília jan./fev. 2009

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-71672009000100003 

PESQUISA

 

Hábitos alimentares de adolescentes de escolas públicas de Fortaleza, CE, Brasil

 

The feeding habits of adolescents from public schools in Fortaleza, CE, Brazil

 

Hábitos alimenticios de adolescentes de escuelas públicas en Fortaleza, CE, Brasil

 

 

Ana Roberta Vilarouca da SilvaI; Marta Maria Coelho DamascenoI; Niciane Bandeira Pessoa MarinhoI; Lívia Silva de AlmeidaI; Márcio Flávio Moura de AraújoI; Paulo César AlmeidaII; Isabela Saraiva de AlmeidaIII

IUniversidade Federal do Ceará. Programa de Pós-Graduação em Enfermagem. Fortaleza, CE
IIUniversidade Estadual do Ceará. Curso de Medicina. Fortaleza, CE
IIIUniversidade Estadual do Ceará. Curso de Nutrição. Fortaleza, CE

Correspondência

 

 


RESUMO

A pesquisa teve como objetivo conhecer os hábitos alimentares de adolescentes de escolas públicas de Fortaleza-CE. Entrevistou-se 720 alunos entre 14 a 19 anos, de doze estabelecimentos de ensino, por meio de um formulário estruturado. Dos alimentos consumidos, habitualmente, destacaram-se, os energéticos, arroz e pão, consumidos por 95,8% e 85,2% dos adolescentes, respectivamente (p=0,0001). Dentre os alimentos construtores as carnes e o feijão são ingeridos por 60,6% e 75,0%, respectivamente (p=0,0001). Os alimentos reguladores como frutas e hortaliças/folhosos não têm consumo habitual entre os adolescentes, já que apenas (34,3%) e (47,6%), respectivamente, os consomem (p=0,0001 e p=0,226). Constatou-se um desequilíbrio na ingestão dos nutrientes adequados para a adolescência, favorecendo o sobrepeso e, conseqüentemente, as doenças crônicas como o diabetes mellitus.

Descritores: Consumo de alimentos; Hábitos alimentares; Adolescente.


ABSTRACT

The research aimed at learning food habits of adolescents from public schools in Fortaleza, CE, Brazil. Seven hunndred students age ranging from14 to 19 years-old were interviewed from twelve education institutions by means of a structured form. From the usual food consumed the energetic rice and bread were highlighted, consumed by 95.8% and 85.2% of the adolescents, respectively (p=0.0001). Within constructor food, meat and beans are ingested by 60.6% and 75.0%, respectively (p=0.0001). Regulative food like fruit and vegetables do not have a usual consumption among adolescents, since just (34.3%) and (47.6%) respectively consume them (p=0.0001 and p=0.226). An unbalance in proper nutrient ingestion for the adolescence was stated, favoring overweight and, consequently, chronic diseases like mellitus diabetes.

Descriptors: Food consumption; Food habits; Adolescent.


RESUMEN

El objetivo principal de esta investigación fue conocer los hábitos alimentarios de adolescentes que estudian en escuelas públicas de la ciudad de Fortaleza/CE. Se entrevistó 720 alumnos, cuya edad variaba entre los 14 y 19 años; de doce institutos de enseñanza; con los cuales se usó un formulario estructurado. Entre los alimentos consumidos, habitualmente, se destacaron los energéticos, arroz y pan, consumidos por un 95,8% y un 85,2% de los adolescentes, respectivamente (p=0,0001). En relación a los alimentos constructores, las carnes y el frijol son ingeridos por un 60,6% y un 75,0%, respectivamente (p=0,0001). Los alimentos reguladores como frutas y hortalizas/ hojas no son consumidos habitualmente entre los adolescentes, como nos muestra el hecho de que sólo ( un 34,3%) y (un 47,6%), respectivamente, los consumen (p=0,0001 y p=0,226). Se pudo notar un desequilíbrio en la ingestión de los nutrientes adecuados para la adolescencia, lo que favorece el sobrepeso y, consecuentemente, las enfermedades crónicas como diabetes mellitus.

Descriptores: Consumo de alimentos; Hábitos alimenticios; Adolescente.


 

 

INTRODUÇÃO

A globalização com sua dinâmica possibilitou, atualmente, a construção de uma inversão epidemiológica nos países latino-americanos: a decadência das doenças infecciosas e a ascensão das doenças crônico-degenerativas. As sociedades latinas urbanas têm incorporado um estilo de vida sedentário e um consumo alimentar rico em lipídeos, açúcares e pobre em fibras e micronutrientes, o que vem incrementando os índices de doenças cardiovasculares, diabetes e alguns tipos de câncer(1-3).

Nesse processo, a população brasileira teve seu estilo de vida, hábitos e padrões alimentares profundamente alterados(1). A evolução do estado nutricional dos brasileiros vem indicando um importante aumento dos casos de sobrepeso com uma tendência especialmente preocupante em crianças escolares e em adolescentes, da camada social de baixa renda(4).

Estudos sobre a alimentação de adolescentes brasileiros mostram a ocorrência de uma dieta inadequada, carente de produtos lácteos, frutas e hortaliças e com excesso de açúcar e gordura. Sendo assim, a população infanto-juvenil merece especial atenção das políticas públicas preventivas, já que as transformações do comportamento alimentar, influenciada pelo contexto socioeconômico e cultural, têm efeito preditor sobre a saúde desses indivíduos, tornando-os vulneráveis a inúmeras patologias(5,6).

Visto que os pilares fundamentais no tratamento de distúrbios nutricionais e prevenção de doenças crônicas são a mudança nos hábitos alimentares e a prática de atividade física, torna-se necessária a realização da avaliação do consumo alimentar a fim de identificar os hábitos alimentares juvenis, prevenindo o surgimento de co-morbidades associadas(7).

Verificou-se a ausência de investigações acerca da temática hábitos alimentares em adolescentes, na cidade de Fortaleza, em importantes bibliotecas virtuais latino-americanas (LILACS e Scielo), demonstrando a pertinência de se pesquisar esse fenômeno nessa cidade do nordeste brasileiro. Adicionado a escassez de estudos sobre esse tema, têm-se a ascensão dos índices de distúrbios alimentares e doenças crônicas como a obesidade, a hipertensão arterial e o diabetes mellitus tipo 2 nos adolescentes brasileiros; assim, decidiu-se investigar os hábitos alimentares de adolescentes de escolas públicas de Fortaleza-Brasil.

 

METODOLOGIA

Trata-se de um estudo transversal, cujos dados foram extraídos de um banco de dados construído por ocasião do desenvolvimento de uma pesquisa "Identificação dos fatores de risco para diabetes mellitus tipo 2 em adolescentes", inserida no projeto "Ações integradas na prevenção do diabetes mellitus tipo 2", apoiado pelo CNPq. A referida investigação foi realizada doze estabelecimentos de ensino da rede pública estadual, situados na cidade de Fortaleza-Ceará. Segundo informações do Centro Regional de Desenvolvimento da Educação (CREDE), Fortaleza é dividida em seis regiões, e, em janeiro de 2006 possuía 194 com um total de 284.611 alunos matriculados. Ao serem solicitadas informações sobre o número de alunos matriculados na faixa etária entre 14 e 19 anos, obteve-se um total de 114.304 alunos distribuídos nas regionais como segue: Região 1- 17.902; Região 2- 15.450; Região 3- 16.670; Região 4- 18.020; Região 5-24.749; Região 6- 21.513 alunos. Esse total representou a população do estudo.

Para o cálculo da amostra utilizou-se uma fórmula para população infinita(8):

Onde t= valor da distribuição de Student (t5% =1,96); P=50%; Q=100-P= 50%; e = erro amostral absoluto = 4%. Considerou-se os valores supracitados para P e Q haja vista que proporcionam um tamanho máximo de amostra, além do nível de significância (á=0,05) e o erro amostral absoluto de 4%. Assim, o número de participantes determinado foi equivalente a 600 adolescentes. Em virtude das prováveis perdas de sujeitos e/ou de informações, acrescentou-se uma margem de 20% a esse tamanho amostral. Assim, o "n" final abrangeu 720 escolares.

Estratificou-se a amostra por região conforme o quadro 1.

 

 

De cada uma das seis regiões, escolheu-se duas escolas, localizadas em bairros distintos e com diferentes cenários de infra-estrutura, serviços e condições socioeconômicas, a fim de se construir um quadro abrangente da cidade de Fortaleza.

A seleção dos sujeitos ocorreu de maneira aleatória simples, por sorteio, entre os que concordaram em participar da pesquisa e apresentaram o termo de consentimento livre e esclarecido devidamente assinado tanto por eles como por seus pais ou responsáveis. Antes, porém, diretores, professores e alunos receberam informações sobre os objetivos e a metodologia da investigação.

A coleta de dados foi realizada nos meses de fevereiro e março de 2006, de segunda a sexta-feira, no período vespertino. Utilizou-se, como instrumento, um formulário estruturado, abordando dados pessoais, características sócio-demográficas e hábitos alimentares dos adolescentes.

As perguntas sobre o consumo alimentar foram adaptadas de Maestro(9) e submetidas à pré-teste para avaliar a eficácia de sua aplicabilidade. Foi considerado consumo habitual, a ingestão, > 4 vezes/semana, por mais de 50% dos adolescentes(10). Os alimentos foram distribuídos em grupos, a saber: construtores, energéticos e reguladores, conforme a classificação adotada por Carvalho et al(11).

Os dados foram analisados com o auxílio do Programa Epinfo versão 6.0, utilizando a estatística descritiva. Para as análises de associação entre variáveis, utilizou-se os testes não paramétricos de Qui-Quadradado e de Fischer; para se detectar médias de variáveis quantitativas se empregou o t de Student. Em todos os testes, fixou-se o nível de significância de 5%.

O projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa em seres humanos da Universidade Federal do Ceará sob protocolo 217/05.

 

RESULTADOS

Dentre os 720 adolescentes estudados, 59,3% eram do sexo feminino. Houve uma participação equiparada das faixas etárias, pois 32,7%, 33,2% e 34,1% tinham, respectivamente, 14-15, 16-17 e 18-19 anos. A idade média foi de 16,5 anos, desvio padrão de 1,6 e mediana de 17 anos. Em relação à escolaridade, participaram alunos desde a 8ª série do ensino fundamental até o 3º ano do ensino médio. A parcela predominante dos alunos (33,1%) cursava o 1º ano do ensino médio. Cerca de 91,1% dos pesquisados referiram ter renda familiar mensal de 3 salários mínimos. Em média, as famílias ganhavam 2 salários mensais (Tabela 1).

Dos alimentos consumidos habitualmente, destacaram-se o arroz e o pão, energéticos ricos em amido, utilizados por 95,8% e 85,2% dos adolescentes, respectivamente. Alimentos construtores também foram considerados de consumo habitual como: feijão, carnes, leite e derivados, ingeridos por 75%, 60,6% e 51,1% dos adolescentes respectivamente. Todos os alimentos, ingeridos de forma habitual, apresentaram uma associação estatisticamente significante (p= 0,0001), excetuando-se o leite e derivados (p=0,606). Os alimentos reguladores como frutas e hortaliças/folhosos não têm consumo habitual entre os adolescentes, já que apenas (34,3%) e (47,6%), respectivamente, os consomem (p=0,0001 e p=0,226) (Tabela 2).

Acerca da periodicidade das refeições, percebe-se que, do total de adolescentes pesquisados, 667 (92,7%) realizavam de três a seis refeições diárias. Desses, 277(38,5%) faziam quatro refeições, 141(19,6%) faziam cinco e apenas 40(5,6%) faziam seis. A média de consumo de refeições foi de 3,9, sendo a mediana, semelhantemente, de quatro refeições por dia. (Tabela 3).

 

 

Dentre os pesquisados, a maioria, 650(90,3%), referiu tomar café da manhã. No que se refere ao almoço e ao jantar, 657 (91,3%) e 660 (91,7%), respectivamente, afirmaram ter o hábito de fazer essas refeições. Excetuando-se o lanche da tarde, houve uma associação estatisticamente significante entre todas as variáveis (p=0,0001). A omissão de refeições, tais como, lanche matinal, lanche da tarde e ceia, foi observada em 531(73,7%), 485(67,4%) e 328(45,6%) dos investigados, respectivamente.

A preparação dos alimentos ingeridos pelos estudantes demonstrou ser uma atividade exercida, em boa parte, pela mãe (44,7%), todavia é relevante o papel de outras pessoas (33,4%) e do próprio adolescente (12,6%) nessa atividade. Em contrapartida, percebe-se que mais da metade das mães (57,8%) dos alunos exerce uma atividade profissional. Outra característica, em torno das práticas alimentares desses estudantes, é o hábito de comerem enquanto assistem TV, detectado em 72,7% dos pesquisados.

 

DISCUSSÃO

Estudos de análises de consumo alimentar, em geral, baseiam-se na avaliação da composição química da dieta. Entretanto, deve-se ressaltar que as questões referentes a qualidade da alimentação vão desde as questões sociais até as preferências e influências familiares, culturais e políticas. Já que o que se come não é apenas fruto de escolha individual, é, também, determinado pela pobreza, exclusão social e falta de acesso à informação disponível(2,12).

Os dados sócio-demográficos desse estudo demonstram que a maioria (91,1%) dos jovens pesquisados se insere entre aqueles com menor renda familiar. Apesar de não se ter adotado qualquer instrumento de classificação social acredita-se que, possivelmente, esses adolescentes estejam em classes sociais menos favorecidas.

No Brasil, segundo a Associação Nacional de Empresas de Pesquisa (ANEP), mais de 60% das famílias brasileiras encontra-se em classes socioeconômicas de menor renda (33% na D e 31% na E), sendo a região nordeste, local de desenvolvimento desse estudo, a de situação mais deficitária com 67% das famílias nas classes D e E, com respectivamente, 37% e 30%(12).

 

Tabela 4

 

Uma recente pesquisa bibliográfica, em torno da transição nutricional na América Latina, destacou que o melhor contexto socioeconômico e demográfico latino encontra-se no México, Chile, Venezuela, Argentina e Uruguai com renda per capta variando entre U$ 3.256 e U$ 10.065, enquanto o Brasil situa-se no grupo dos países com renda per capta entre U$ 826 e U$ 3.225 dólares, estando ambos os contextos, relacionados à saúde nutricional desses países(2). Santos et al(10), verificaram em pesquisa sobre hábitos alimentares de adolescentes que 52,2% e 42,9% se inseriam nas classes D e E, respectivamente.

A discussão acerca dos aspectos sociais versus nutrição é pertinente já que, na contemporaneidade, uma alimentação saudável, incluindo frutas e verduras, tem custo elevado para famílias de baixa renda. Paralelamente, a indústria alimentícia disponibiliza vários alimentos hipercalóricos, mais saciáveis, palatáveis e baratos, o que os torna acessíveis às classes de alta e baixa renda. Além disso, observa-se, nas pessoas de menor renda do continente latino-americano, mais dificuldades e menos oportunidades de se engajar em atividades físicas, o que decorre da falta de conhecimento sobre os benefícios que tais atividades proporcionam(2,13).

Fato é que, numa Pesquisa de Orçamento Familiar (POF), realizada no Brasil, em 48.470 domicílios, o efeito do rendimento familiar foi substancial sobre a maioria dos alimentos e grupos de alimentos. Grupos de alimentos cuja participação na dieta aumentou, uniformemente, com o nível de rendimentos familiares, incluem carnes, leite e derivados, frutas, verduras e legumes, bebidas alcoólicas, condimentos e refeições prontas; grupos de alimentos com tendência inversa incluem feijões, raízes e tubérculos(14).

Estudiosos argentinos, ao avaliarem 386 adolescentes desse país, concluíram que aqueles pertencentes às classes sociais média e alta apresentaram uma tendência a consumir maior quantidade de gorduras, gorduras saturadas e colesterol tanto de forma absoluta como proporcional aos demais jovens(15).

Cabe ressaltar, ainda, que as condições socioeconômicas, ao guardarem relações com padrão alimentar familiar, estão atuando na suscetibilidade desses jovens de desenvolverem patologias metabólicas. Martorell et al(16) referiram que, na América Latina, a obesidade infantil é mais predominante em famílias de maior condição socioeconômica e escolaridade materna elevada. Pesquisa no nordeste brasileiro apóia essa vertente ao constatar associação estatisticamente significante entre risco para sobrepeso/obesidade e condição social mais favorecida(17).

Nesse estudo, dentre os alimentos consumidos habitualmente, destacaram-se os ricos em carboidratos como arroz, pão e feijão, assim como as carnes, em detrimento das frutas e verduras. Um estudo semelhante com 508 escolares de 6 a 18 anos em Piracicaba, verificou que 89% e 76%, respectivamente, dos escolares consumiam diariamente arroz e feijão. Ao passo que outra investigação, avaliando o padrão alimentar de 95 escolares residentes em favelas, observou, ao analisar a ingestão de arroz e de feijão, que 90,2% dos adolescentes consumiam os dois alimentos pelo menos uma vez ao dia(9,18).

Dados semelhantes também foram encontrados ao se estudar o consumo alimentar de adolescentes matriculados em colégio particular de Teresina, no qual, entre os alimentos fontes de proteínas, o feijão ocupou posição de destaque, sendo consumido semanalmente por 80 a 90% dos alunos(11).

No Chile, uma pesquisa realizada com 108 crianças e adolescentes do sexo feminino e de nível socioeconômico alto revelou que o consumo de leite, frutas e verduras era deficitário conforme recomendação da Organização Mundial de Saúde(OMS) para aquela faixa etária(19). Outra investigação nutricional argentina com 386 adolescentes encontrou um perfil alimentar caracterizado por: 50% de carboidratos, 32% de gorduras e 17% de proteínas(15).

No que se refere ao pão, estudo semelhante registrou um consumo freqüente por parte de 89,2% dos jovens, o que pode se justificado pela substituição das refeições principais por sanduíches(9).

A elevação do aporte calórico, relacionada a ingesta de carboidratos, é um fato ascendente na América Latina, principalmente na Argentina, Venezuela e Peru. Já quanto ao consumo de gorduras, a ascensão ocorreu em todo o continente, excetuando-se alguns decréscimos anuais na Venezuela e Brasil. Por sua vez, ao se analisar o aporte calórico geral, os níveis mais elevados são observados no México, Argentina, Brasil e Cuba(2).

O mesmo estudo ainda revelou que um percentual equivalente a 65,7% dos pesquisados referiu não ter o hábito freqüente de consumir frutas, enquanto 52,4% afirmaram ter comportamento idêntico no que diz respeito ao consumo de hortaliças/folhosos. Tal fato sugere uma alimentação inadequada, já que esses alimentos são ricos em fibras e diferentes tipos de vitaminas como: os carotenóides, os folatos e o ácido ascórbico, além de minerais primordiais para a homeostase orgânica humana como o potássio, o magnésio e o cálcio(2).

Da mesma forma, Santos et al(10), em uma avaliação com 354 adolescentes brasileiros entre 14-16 anos verificaram um baixo consumo de fibras pelos jovens. Já Toral et al(20), contradiatoriamnete, num outro estudo brasileiro, com 234 alunos, identificaram um consumo alimentar de frutas e verduras em aproximadamente 89% dos avaliados.

São inegáveis as transformações que ocorreram no padrão alimentar brasileiro, decorrentes de um maior consumo de alimentos industrializados, em substituição às refeições preparadas no lar. Isso vem favorecendo um consumo excessivo de produtos hipercalóricos, com elevado índice glicêmico, e a diminuição da ingestão de cereais e/ou produtos integrais, frutas e verduras, os quais são fontes de fibras(6,11) .

As fibras desenvolvem importantes papéis no trato gastrintestinal humano. Além de diminuírem a absorção de gorduras, aumentam o peristaltismo intestinal e produzem ácidos graxos de cadeia curta, atuantes no combate ao colesterol, também promovem a regulação no tempo de trânsito intestinal e apresentam um alto poder de saciedade(6).

A média de consumo de refeições, detectada nesta investigação foi de 3,9 refeições diárias, como dito anteriormente, observou-se uma elevada prevalência da omissão dos lanches matinal e vespertino.

Pesquisa realizada em cidade do interior da Bahia evidenciou que, 342 (96,6%) jovens, fazia três ou mais refeições/dia. Desses, 130 (36,7%) faziam quatro refeições/dia; 102 (28,8%) faziam cinco refeições/dia; 77 (21,8%) faziam seis e apenas 33 (9,9%) realizavam três refeições diárias(10).

Um estudo francês coloca que 5,9% dos adolescentes não costumavam almoçar, 57,7% tinham o habito de fazer três refeições principais diariamente e que 14% dos pesquisados, além das três refeições principais, realizavam três lanches(21).

Outro aspecto observado nessa investigação foi o significativo índice de adolescentes que tomavam o café da manhã, mesmo sendo de classes econômicas mais deficitárias. Entre os que não tomavam o desjejum, os motivos citados foram não ter o costume e, principalmente, o despertar cerca de 10 horas da manhã, deixando para fazer apenas uma refeição, sendo essa o almoço.

Estudo realizado com 1.323 estudantes suíços, de 15 a 20 anos, mostrou que 27% dos adolescentes do sexo feminino e 24% dos do sexo masculino, não tomavam o desjejum. Os motivos como justificativa para burlar essa refeição foram a falta de tempo (34%), não ter o hábito de realizá-la (32%) e não ter fome(25%). Entretanto, sabe-se que esse hábito, entre as meninas, possa resultar de uma tentativa de perder ou não adquirir peso(22).

Inquérito entre adolescentes verificou que em 86% o almoço foi considerado adequado; em 7% a refeição foi substituída por um lanche e em 6%, abolida. Quanto ao jantar, 67% dos investigados afirmaram realizar essa refeição, enquanto 19% a substituíram por lanche e 14% a aboliram. Essa pesquisa ressalta ainda que a substituição de uma refeição por lanches pode ser feita, ocasionalmente, sem prejuízo nutricional, o que não deve ocorrer é a substituição freqüente, sobretudo se forem lanches pouco nutritivos(23).

A pesquisa também revelou o aumento da participação de outras pessoas e do próprio adolescente no preparo da alimentação familiar. Sabe-se que a inserção feminina no mercado de trabalho é algo irrevogável e crescente, havendo, diariamente, menos tempo para a preparação de refeições, propiciando a alimentação extra-domiciliar, sobretudo as refeições em fast foods, hipercalóricas e ricas em gorduras saturadas. Certamente, a transição da alimentação domiciliar e natural em detrimento da extra-domiciliar industrializada contribui, em muito, para a formulação de padrões alimentares juvenis inadequados.

Zanetti et al(24) destacam a importância do papel da família como cuidadora e de uma atenção especial a esta no sentido de ampliar suas capacidades na construção de hábitos saudáveis entre os seus membros.

 

CONCLUSÃO

Embora a presente investigação não tenha realizado o cálculo calórico e da composição química dos alimentos consumidos pelos estudantes, fica evidente que há um desequilíbrio na ingestão dos nutrientes adequados para a adolescência. Tal realidade favorece o sobrepeso e, conseqüentemente, as doenças crônicas como a hipertensão arterial e o diabetes mellitus ainda na adolescência, acarretando um problema de saúde coletiva no futuro.

Dessa forma, as informações aqui apresentadas devem fomentar novas pesquisas em torno do consumo alimentar dos adolescentes de Fortaleza, além de promover o diagnóstico precoce do desequilíbrio dietético nessa população jovem como medida preditora da saúde infanto-juvenil e instrumento preventivo de epidemias nutricionais como a obesidade.

Outro aspecto é que não basta apenas ter as informações sobre os hábitos alimentares dos jovens. São também necessárias ações de intervenção para combater os casos de dieta inadequada com desequilíbrio de nutrientes, assim como, ações de prevenção, uma vez que uma má alimentação, sobretudo, aliada ao sedentarismo é um dos principais preditores da qualidade de vida e de saúde na adultícia.

Nesse sentido, o enfermeiro pode colaborar tanto na viabilização de políticas públicas de saúde direcionadas ao combate da ascensão do sobrepeso/obesidade, como no planejamento e desenvolvimento de ações que visem à uma alimentação mais saudável.

As escolas, onde os adolescentes permanecem por longos períodos, são espaços propícios para a aprendizagem e a socialização, apresentando-se como locais adequados para o enfermeiro implementar ações de educação em saúde centradas nos hábitos alimentares. O esforço deve ser extensivo à família, aos professores e aos demais profissionais que atuam nas instituições.

 

REFERÊNCIAS

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Correspondência:
Ana Roberta Vilarouca da Silva
Universidade Federal do Ceará
Programa de Pós-Graduação em Enfermagem
Avenida da Universidade, 2853. Benfica
CEP 60020-181. Fortaleza, CE.

Submissão: 19/06/2008
Aprovação: 08/11/2008

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