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Revista Brasileira de Enfermagem

Print version ISSN 0034-7167On-line version ISSN 1984-0446

Rev. bras. enferm. vol.62 no.5 Brasília Sept./Oct. 2009

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-71672009000500018 

REFLEXÃO

 

Produção do conhecimento sobre o processo de trabalho na enfermagem

 

Knowledge production about the work process in nursing

 

La producción de conocimiento sobre el proceso de trabajo en enfermería

 

 

Flávia Regina Souza Ramos; Francine Lima Gelbcke; Jorge Lorenzetti

Universidade Federal de Santa Catarina. Programa de Pós-Graduação em Enfermagem. Florianópolis, SC

Correspondência

 

 


RESUMO

Trata de uma reflexão acerca da produção do conhecimento sobre o processo de trabalho, a partir de alguns questionamentos: quem e de onde se fala sobre o trabalho da enfermagem? Destaca-se neste contexto o papel das pós-graduações e da própria ABEn na produção do conhecimento sobre o processo de trabalho. Acerca do papel das pós-graduações, são identificadas as linhas de pesquisa voltadas a esta temática e faz-se uma análise desta produção a partir de estudos realizados por um grupo de pesquisa (Práxis/UFSC), que identificou suas fortalezas e fragilidades em dois estudos acerca da produção do grupo em teses e dissertações. As categorias mais abordadas foram a organização do trabalho, a saúde do trabalhador e alguns temas da relação trabalho e subjetividade; as lacunas se referem a estudos sobre os objetos e os produtos do processo de trabalho; avaliação da qualidade da assistência; necessidades dos sujeitos do cuidado; da finalidade do trabalho e sobre a própria práxis no cenário histórico-social. Finaliza-se reafirmando a importância de pesquisarmos sobre nosso próprio trabalho, em suas múltiplas possibilidades de objetos e abordagens.

Descritores: Trabalho; Enfermagem; Conhecimento.


ABSTRACT

This article is a reflection on the production of knowledge about the work process based on some questions: who talks, and from where, about the work in Nursing?In this context, it is highlighted the role of the post-graduation courses and of the ABEn in the production of knowledge in the work process. Concerning the role of the post-graduation courses, the research areas focused on this theme are identified and an analysis of that production based on studies performed by a research group (Práxis/UFSC) identified its strengths and its fragilities in two studies about the group's production showed in doctorate thesis and masters dissertations. The categories approached were: the organization of work and the worker's health and the gaps identified were related to studies on the objects and the products of the work process, the evaluation of the quality of assistance, the needs of the care subjects, the aim of the work and the praxis itself in the social-historical scenario. Finally it is reaffirmed the importance of studies about our own work in its multiple possibilities of objects and approaches.

Descriptors: Work; Nursing; Knowledge.


RESUMEN

Esta es una reflexión sobre la producción de conocimiento sobre el proceso de trabajo, a partir de algunas preguntas: ¿quién y dónde hablar de la labor de la enfermería? Es en este contexto el papel de post-graduados y la propria ABEn en la producción de conocimientos sobre el proceso de trabajo. Acerca de la función de post-graduados, se identifican como líneas de investigación dedicados a este tema y es un análisis de la producción de los estudios realizados por un grupo de investigación (Praxis/UFSC), que identifica sus fortalezas y debilidades en dos estudios sobre la producción del grupo en tesis y disertaciones. Las categorías que se trataron fueron la organización de los trabajos, el trabajador de la salud y algunas cuestiones del trabajo y la subjetividad; deficiencias se refieren a estudios sobre los objetos y productos del trabajo, la evaluación de la calidad de la atención, las necesidades de objeto de la atención, el propósito del trabajo y sobre la práctica en antecedentes históricos y sociales. Termina reafirmando la importancia de la investigación sobre nuestro propio trabajo, en sus múltiples posibilidades de los objetos y enfoques.

Descriptores: Trabajo; Enfermería; Conocimiento.


 

 

INTRODUÇÃO

O tema da produção científica sobre o trabalho da enfermagem remete, preliminarmente, a certas considerações de saída, ou seja, o fato de se colocar como tema eleito já indica certas condições que merecem ser reconhecidas. Estas condições podem ser vistas como uma base a partir da qual é possível este tema se colocar para nós hoje como um tema a ser pensado. Assim, tomamos este conhecimento como um discurso, em uma perspectiva foucaultiana, exatamente por querer pensar sua produtividade, sua capacidade de penetrar campos de saber e prática, de produzir reflexividade ou, dito de outro modo, de tornar algo problemático para nós, de participar das relações que estabelecemos com nosso próprio trabalho e conosco mesmo. Deste ponto de partida, afirmamos o interesse em aprofundar a compreensão sobre o trabalho da enfermagem, no contexto do trabalho coletivo em saúde, no cenário histórico-social singular do Brasil. Mas também, o interesse em discutir a própria experiência reflexiva que empreendemos quando tomamos isto - "o processo de trabalho da enfermagem" - como objeto de conhecimento; interesse em discutir nosso próprio discurso, em suas formas de apresentação, em seus modos de fabricação, em sua capacidade de inventar novos problemas e novos sujeitos, de propor certas questões e lógicas e inibir outras.

Ao falar de fabricação de discursos no interior de práticas discursivas que são operadas em (e fazem operar) tecnologias, saberes e instituições não isoladas, mas em constantes e mútuos atravessamentos, (disciplinares, por exemplo), estamos tomando a concepção de Foucault(1). Ao utilizar o termo reflexividade, estamos nos apropriando do conceito de sociedade reflexiva proposto por Guidens(2,3), ao tratar da sociedade que "se torna um tema e um problema para ela própria".

Assim, também o nosso trabalho e nós mesmos, enquanto trabalhadores, passamos a ser um tema e um problema para nós mesmos. Para este autor "a reflexividade da vida social moderna consiste no fato de que as práticas sociais são constantemente examinadas e reformadas à luz de informação renovada sobre estas próprias práticas, alterando assim constitutivamente seu caráter". A reflexividade do trabalhador da enfermagem não apenas está em construção, pelo permanente exame e reformulação a que está sujeita nos processos de conhecer e fazer, como também estes mesmos processos acabam por definir limites e potenciais desta construção. Ou seja: só pensamos dentro dos limites que nossos discursos permitem pensar as coisas (temas/problemas), mas só ao pensar estes discursos podemos superar limites presentes, em novas problematizações de nosso próprio pensamento.

A partir desta primeira aproximação, de fundo teórico, alguns outros desdobramentos são necessários para situar o eixo de problematização tomado neste texto. Deste modo, alguns pressupostos podem ser destacados:

a) As fronteiras entre os campos de conhecimento são móveis e o discurso que o trabalhador da saúde profere é revelador destes movimentos de miscigenação e tradução. No conjunto dos trabalhos sociais, também a saúde é "reconfigurada teórica e praticamente face à complexidade do social e de suas lutas e, também, em face de uma profícua relação com referenciais de áreas que, até então, detinham o privilégio na produção de interpretações sobre este complexo humano e social. Também o posicionamento deste trabalhador em fronts políticos, não apenas acadêmicos, de movimentos civis e projetos de contestação e reforma, promoveu a crítica do próprio saber e prática, da própria posição como profissão institucionalizada - em sua história, suas bases, suas pretensões e projetos político-técnicos"(4) .

b) É inegável que o tema/linha de pesquisa "processo de trabalho" na enfermagem é produto destas configurações dos campos de saber, do mesmo movimento que fez emergir a análise do processo de trabalho em saúde em sua filiação teórica ao materialismo histórico e a movimentos políticos e acadêmicos de construção da saúde coletiva e da reforma sanitária no Brasil. Em sua origem empregou o olhar próprio desta forma peculiar de produzir saber delimitando objetos sob o ângulo da crítica ao modo de produção capitalista e de suas conseqüências sobre o modo de trabalhar e o modo de organizar o setor saúde. Nestas mesmas reconfigurações o próprio olhar foi se ampliando e incorporando novos objetos e novas abordagens teóricas. Uma síntese aproximativa, e nunca suficientemente completa, articulando temas, temas/objetos e abordagens teórico-metodológicas envolvidas nesta linha de pesquisa foi elaborada por Denise Pires e Flávia Ramos com base em reflexões realizadas no âmbito do Grupo de Pesquisa "Práxis: trabalho, cidadania, saúde e enfermagem"(5) e nas formulações contidas no livro "Reestruturação produtiva e trabalho em saúde no Brasil"(6).

c) Uma iniciativa de análise da situação do conhecimento produzido, como no caso em que tomamos uma linha de pesquisa em particular, deve poder conjugar dois horizontes: o de uma postura de desmistificação do conhecimento científico, pela declaração de seu caráter socialmente construído, e o de uma reforma metodológica, em que as necessidades das comunidades afetadas pelos produtos da ciência sejam decisivas. Nisto nos apoiamos em Harding apud Santos(7) e questionamos: De que tipo de conhecimento sobre o mundo empírico precisamos para podermos, simplesmente, viver, e para vivermos mais razoavelmente uns com os outros neste planeta, a partir deste momento? Quem deve constituir o nós que responde a esta pergunta(7)?

E neste contexto nos perguntamos: "Qual o tipo de conhecimento sobre o mundo do trabalho da enfermagem precisamos para podermos, simplesmente, viver e trabalhar, e para trabalharmos e vivermos mais razoavelmente uns com os outros neste país, a partir deste momento? Quem deve constituir o "nós" que responde a esta pergunta?"

Queremos dizer, ao passar para a segunda parte deste texto, que acreditamos que ainda somos nós que temos o compromisso de responder a esta pergunta. Mas como estamos respondendo? Se temos dificuldade para responder, temos que saber por quê? Se tem alguém respondendo por nós, temos que saber por quê? E se estamos querendo e tentando responder isoladas, também temos que saber por quê? Se nas escolhas sobre o tipo de conhecimento a ser produzido devem participar certos atores, princípios e valores, temos que saber quem está sendo decisivo neste processo?

 

DE ONDE E QUEM FALA SOBRE NOSSO TRABALHO

Na perspectiva dos discursos não poderíamos falar de sujeitos únicos, falando de lugares exclusivos e evidentes ou mesmo de falas consistentes e coesas. Considerar heranças e trajetórias com lugares e condições reconhecíveis, não significa homogeneizar ou desprezar as inconsistências e conflitos do processo. Apesar disto, aqui serão considerados os produtos que são identificados por um lugar especifico de produção - a pós-graduação em enfermagem - que, se não exclusivos, são percebidos como locais privilegiados pela significância no conjunto da produção deste discurso. Por razões históricas que aqui não cabe detalhar, o desenvolvimento do conhecimento em enfermagem no Brasil sempre esteve imbricado na consolidação da Pós-graduação na área. Por outro lado, pensar em discurso e em processo de trabalho nos remete não só a Pós-graduação, mas também à Associação Brasileira de Enfermagem (ABEn). Basta lembrar um exemplo, dos Congressos Brasileiros de Enfermagem, como os de 1989 e 1999, que elegeram esta temática e marcos importantes no questionamento sobre o trabalho da enfermagem, na adesão da profissão ao movimento da reforma sanitária. Mais, a posição de centralidade que a educação em enfermagem sempre teve na atuação da ABEn. Tudo isso também produziu reflexos na própria pós graduação, inclusive na definição das linhas de pesquisa.

Escolhendo apenas um marco importante desta história, podemos lembrar da proposição, pelo conjunto dos Programas de PG em Enfermagem, também com o envolvimento da ABEn, de novas linhas de pesquisa que retratassem as prioridades e as tendências do conhecimento na área. Esta proposta, de 2001(8) não apenas pretendia dar indicativos às agencias de fomento da ciência e tecnologia no Brasil, como também, ajudava a dar visibilidade a certas escolhas que vinham redirecionando a atuação destes programas. Naquele momento foram incorporadas linhas de pesquisa que demonstravam interface com uma compreensão, construída nas duas décadas anteriores (a partir dos anos 80), sobre o trabalho da enfermagem como prática social em cenários históricos e políticos complexos. Os três grandes campos ou áreas que caracterizavam o conhecimento em enfermagem foram definidos como profissional, assistencial e organizacional e foi neste último que se mostrou de modo mais marcante a influência destas concepções.

Ao fazermos uma rápida leitura das linhas de pesquisa expressas nos Programas de Pós-Graduação em Enfermagem, veremos que de 28 Programas que puderam ser acessados pela web (via CAPES ou site próprio), 9 (32,14%) possuem áreas de concentração que expressam a eleição por enfoques e abordagens do trabalho em enfermagem, de forma direta (3 que adotam o termo trabalho), ou privilegiando o foco sobre a prática de enfermagem (6), como se pode observar nas denominações a seguir: CUIDADO E TRABALHO EM SAÚDE E ENFERMAGEM; CUIDADO, EDUCAÇÃO E TRABALHO EM ENFERMAGEM E SAÚDE; ENFERMAGEM E TRABALHO; ENFERMAGEM NO CONTEXTO SOCIAL BRASILEIRO; ENFERMAGEM, SAÚDE E SOCIEDADE; PRÁTICA DE ENFERMAGEM; PROCESSOS E PRÁTICAS EM SAÚDE E ENFERMAGEM.

Obviamente que estas informações não são suficientes para dimensionar o impacto desta contribuição teórica, mas permitem estabelecer algumas relações. Ao analisar as linhas de pesquisa dos 28 Programas estudados, pode-se destacar o fato de que 23 programas possuem, ao menos uma linha que expressa este tipo de impacto/influência, seja por meio de uma referência direta ao trabalho/trabalhador (7 linhas de 7 programas), ou pela eleição de temáticas como: práticas, saberes e políticas de saúde, gestão/gerenciamento dos serviços de saúde e de enfermagem, políticas e práticas em saúde e enfermagem, análise crítica da profissão, entre outras denominações com alguma similaridade (18 linhas de 16 programas)

Se este é apenas um indicativo, muito superficialmente apontado, é possível ainda retomar os resultados do levantamento desenvolvido pela Comissão da Área de Enfermagem na CAPES(9) que identificou as linhas de pesquisa das teses defendidas nos Programas de Pós-graduação em Enfermagem no Brasil, de 1983 a 2001, já utilizando o novo quadro de linhas de pesquisa (2001). Das 310 teses levantadas, 19,19% pertenciam às linhas de pesquisa do área/campo Profissional, 38,16% às linhas do campo Assistencial e 36.6% às linhas do campo Organizacional. Embora se reconheça que neste último campo (organizacional) há uma mais evidente interface com os temas e concepções do Processo de trabalho, as teses que diretamente se inseriam na linha "produção social e trabalho em saúde e enfermagem" representavam apenas 7,58%.

Ainda neste contexto da produção da Pós-graduação em Enfermagem, há que se ressaltar um importante estudo que buscou demarcar a emergência, o desenvolvimento e a contribuição da pesquisa em enfermagem que utilizava o referencial teórico do processo de trabalho. O estudo de Almeida, Mishima e Peduzzi(10) foi demandado pela própria ABEn para compor um dos painéis temáticos do 51 CBEn que, com o tema "Situando-se no mundo e construindo o futuro", se propunha a lançar uma olhar crítico sobre a posição da Enfermagem naquele final de século, em especial em relação às transformações político-sociais e no âmbito da produção, que se destacaram da década de 90 no Brasil. Naquela pesquisa as autoras demonstram que os anos 90 marcam a efervescência na produção do conhecimento na linha do processo de trabalho (35 das 40 produções então analisadas). E, confirma-se a vertente teórica do materialismo histórico como matriz predominante destes estudos, inaugurados por Almeida(11), Germano(12), Silva(13), Pires(14) e Melo(15). Foram analisadas produções que utilizavam a categoria de análise "trabalho"/"processo de trabalho" ou que referenciavam estudos desta linha em seu quadro teórico. Todas estas produções foram discutidas por sua aderência à temática do processo de trabalho (referida ao plano micro ou do cotidiano do trabalho, focados nos objetos, finalidades, saberes e agentes da ação/intervenção); da organização tecnológica do trabalho (elegendo dimensões objetivas e estruturais do saber e da prática nos campos da saúde coletiva, saúde mental, administração ou enfermagem hospitalar) e; finalmente, da subjetividade/ sujeito do trabalho (relações subjetivas com e no trabalho, micropolítica do trabalho, entre outras).

Diversas formas de categorizar e discutir o conhecimento produzido pela enfermagem podem ser úteis para dar visibilidade aos caminhos tomados e tarefas empreendidas. Na década de 90 pudemos já examinar um conjunto de obras, sendo que nos primeiros anos deste século já presenciamos a emergência de linhas de pesquisa e podemos analisar este tipo de impacto sob outro elemento ou modo de manifestação. Uma contribuição ou impacto se manifesta de várias formas e, por si só, esta mudança nas fontes que temos acesso para discutir este tema já é indicativa de avanços significativos.

 

COMO ESTÁ A PRODUÇÃO DO CONHECIMENTO SOBRE O PROCESSO DE TRABALHO NA ENFERMAGEM - UM CASO EXEMPLAR

Como parte final deste texto, é desenvolvida uma síntese de alguns pontos de análise que podem ser destacados de um estudo realizado no Grupo Práxis - saúde, trabalho, cidadania e enfermagem, grupo de pesquisa do Programa de PG em Enfermagem da UFSC, que desde 1993 vem se dedicando à consolidação da linha de pesquisa sobre processo de trabalho em saúde e enfermagem, do mesmo Programa. A escolha deste núcleo específico de produção científica se deu pela facilidade de acesso aos resultados de estudos que tiveram o objetivo de analisar a produção do conhecimento a partir das teses de doutorado e dissertações de mestrado defendidas neste Programa, linha e grupo de pesquisa. O primeiro estudo analisou 23 teses de doutorado defendidas até o início de 2005(16) e o segundo analisou 56 dissertações de mestrado do período de 1995 a 2006(17). Além disso, considera-se que o Programa estudado foi pioneiro na definição de uma linha de Pesquisa denominada "Processo de Trabalho em saúde e enfermagem", bem como o local de formação e Programa sede de Projetos Interinstitucionais que contribuíram para criação de novos Programas de Pós-graduação (PG), nos quais hoje estão presentes linhas de pesquisa com este tipo de eleição temática. Também por ser um dos núcleos de mais expressiva produção nesta linha e temática na Enfermagem brasileira, juntamente com a Escola de Enfermagem da USP/RP e, finalmente, por ter sido o grupo/Programa que propôs e participou da organização, junto à ABEn-seção SC, do I Seminário Internacional sobre o Trabalho da Enfermagem. Deste modo, acredita-se que uma experiência singular, já que significativa no panorama mais geral, pode ser representativa e em alguns pontos compartilhada por diferentes atores em espaços diferenciados de produção.

Os dois estudos aqui retomados tiveram desenhos muito similares, mas o segundo, por ser mais atual, será mais destacado. Considerando que um Grupo de pesquisa se consolida pelo investimento de seus pesquisadores, tomou-se como ponto de partida a identificação de trabalhos orientados por estes, uma vez que é recente a admissão do pós-graduando no Programa já vinculado a um grupo e linha de pesquisa (anteriormente, professores ainda podiam orientar trabalhos que não na linha de pesquisa a que se dedica seu grupo). Mesmo assim, a linha de pesquisa do Processo de Trabalho em Saúde foi a mais desenvolvida pelos membros do Práxis, em termos de dissertações orientadas (58,93%).

Grande parte das dissertações analisadas (53,36%) foi defendida entre os anos de 2000 e 2002 em decorrência dos convênios estabelecidos com outras universidades federais para a expansão do Curso de Mestrado, através do financiamento do Governo Federal no Programa de Mestrado Interinstitucional (MINTER). O envolvimento dos professores orientadores do Práxis nestes cursos expandidos ampliou, significativamente, a produção do conhecimento do Grupo.

As 56 dissertações analisadas foram elaboradas por enfermeiras (os) e quase a totalidade teve abordagem qualitativa, com 21 estudos exploratórios (38,18%), 16 (29,9%) descritivos e (10,91%) com metodologia de pesquisa convergente-assistencial, o que é pertinente pela tendência do curso e da prática assistencial proposta no seu currículo(17).

A maioria das dissertações (78,57%) analisadas demonstrou vinculação com a Matriz conceitual do Grupo, bem como com as sub-linhas ou áreas de estudo (conforme organização dos atuais projetos e identificação no Diretório de Grupos de Pesquisa do CNPq), destacando-se a área de "Organização do trabalho".

Os conceitos mais destacados foram: processo de trabalho, sujeito trabalhador, sujeito do cuidado, sociedade, ambiente de trabalho e relações de trabalho. Em consideração ao esquema representativo do Marco Conceitual, as investigações expressaram uma preocupação com a subjetividade no trabalho, a organização, o objeto de trabalho e a força de trabalho. Estes dados revelam a contribuição em investigações que buscam explicar/descrever como os serviços estão organizados e como se dão as relações de trabalho durante o desenvolvimento das práticas profissionais. Esta tendência é estimulada pela proposta do Curso de Mestrado (até 2007) que afirma sua intencionalidade em abordar problemas de pesquisa identificados a partir da prática assistencial desenvolvida pelos discentes.

Os resultados da análise das dissertações reforçam a perspectiva do grupo ao privilegiar o processo de trabalho em saúde e a saúde do trabalhador, denotando um compromisso com o desenvolvimento desta linha - incluindo as dimensões subjetivas, organizacionais, assistenciais e educativas do processo de trabalho - por sua evidente relação com as lutas políticas no contexto do trabalho em saúde, em defesa da maior qualidade dos produtos deste trabalho.

É interessante perceber que no processo de transformação histórica das práticas, das instituições acadêmicas e das comunidades científicas em que linhas e grupos de pesquisa se consolidaram, cada vez um número mais expressivo de pesquisadores se filiam às vertentes de pesquisa e a temática do processo de trabalho em saúde, em modos produtivos de relacionar as ciências sociais e a saúde. Nestas vertentes o tema do sujeito tem se evidenciado, seja sob o foco do cuidado, da práxis da saúde coletiva, dos processos de organização e gestão do trabalho, dos instrumentais teórico-metodológicos, da ética no encontro assistencial e na conformação tecnológica do trabalho, dos processos de formação, entre muitos outros. Este é um avanço também percebido na produção do grupo de pesquisa discutido.

Ao apontar tais fortalezas é indispensável, também, reconhecer as fragilidades presentes no desenvolvimento de investigações nesta linha de pesquisa. Tanto a análise das teses quanto a das dissertações apontou as fragilidades do Grupo no sentido de responder ao seu marco teórico, o que expressa as lacunas na produção do conhecimento acerca do processo de trabalho. Em ambos os estudos as categorias mais abordadas foram a organização do trabalho, a saúde do trabalhador e alguns temas da relação trabalho e subjetividade. Da mesma forma, as lacunas evidenciadas se localizam na eleição de objetos como dos produtos do processo de trabalho, da avaliação da qualidade da assistência; das necessidades dos sujeitos do cuidado; da finalidade do trabalho e sobre a própria práxis no cenário histórico-social.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Para concluir esta reflexão gostariamos de retornar ao conceito de reflexividade para reafirmar o papel destes espaços no interior dos quais falamos, local de onde emitimos um discurso capaz de construir reflexividade. Espaços nos quais se consolida um campo de conhecimento, compartilham projetos coerentes às especificidades, preocupações e interesses de um coletivo de sujeitos (profissão), se produz saber pertinente e necessário, em interações com outros atores e saberes. Os discursos que produzimos, destes lugares, têm uma grande responsabilidade, exatamente por esta dupla capacidade, dizer "algo" sobre nosso real, proferir uma fala legítima (científica) sobre nossos problemas e nosso trabalho e, no mesmo movimento, definir as margens do próprio pensamento, ora abrindo brechas ora restringindo aberturas a este mesmo pensar, enfim, formando identidades, subjetividades ou reflexividades (como se queira chamar). Ou seja, se queremos saber o impacto de nosso discurso, de nossa produção, comecemos olhando para nós, para o que somos capazes de pensar, para os limites nos quais pensamos e definimos problemas ou soluções. Através destes limites olhamos e trabalhamos e, mais, dentro destes limites "somos". Somos constituídos "por" e "nestas" práticas discursivas, nunca fora delas.

Continuamos reafirmando a importância de pesquisarmos sobre nosso próprio trabalho, em todas aquelas múltiplas possibilidades de objetos e abordagens. Também precisamos exercer firmemente a crítica sobre os caminhos e produtos deste empreendimento. Esperamos que o exemplo aqui tratado tenha mostrado a produtividade desta auto-avaliação. Muito ainda teríamos a debater se pudéssemos reunir nossas experiências e potenciais e, sobretudo, se pudéssemos reconfigurar alguns dos processos de produção do conhecimento, de modo a refinar a sensibilidade para novos objetos, em cuja eleição nunca estivesse ausente o principio da solidariedade.

Assim, terminamos nossa reflexão com este desafio: a construção solidária e comprometida de nossos objetos e processos de pesquisa. Um passo importante como este exige o reconhecimento de nosso papel como pesquisadores e da importância estratégica da ABEn nestes passos desejados. Ou seja, voltando a pergunta lançada sobre que conhecimento nós precisamos produzir e "Quem deve constituir o "nós" que responde a esta pergunta?" Volto ao desafio inicial. Se nas escolhas sobre o tipo de conhecimento a ser produzido participam certos atores, princípios e valores, temos que saber quem está sendo decisivo neste processo.

 

REFERÊNCIAS

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Correspondência:
Flávia Regina Souza Ramos
Rua Ângela Chaves, 81. Lagoa da Conceição
CEP 88.062-305. Florianópolis, SC

Submissão: 12/12/2008
Aprovação: 10/08/2009

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