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Revista Brasileira de Enfermagem

Print version ISSN 0034-7167

Rev. bras. enferm. vol.63 no.1 Brasília Jan./Feb. 2010

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-71672010000100003 

PESQUISA

 

Qualidade de vida de pessoas colostomizadas com e sem uso de métodos de controle intestinal

 

Quality of life of the colostomized person with or without use of methods of bowel control

 

Calidad de vida de personas colostomizadas con o sin uso de métodos de control intestinal

 

 

Isabel Umbelina Ribeiro CesarettiI; Vera Lúcia Conceição Gouveia SantosII; Lucila Amaral Carneiro ViannaI

IUniversidade Federal de São Paulo. Departamento de Enfermagem. São Paulo, SP
IIUniversidade de São Paulo. Escola de Enfermagem. São Paulo, SP

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Avaliar e comparar a qualidade de vida (QV) de pessoas colostomizadas que utilizam e não utilizam os métodos de controle intestinal (MCI), ou seja, a irrigação e o sistema oclusor da colostomia, considerando a hipótese de que aquelas que os utilizam têm melhor QV. Método: O estudo foi desenvolvido no Ambulatório do Hospital Heliópolis, após a aprovação do projeto pelo Comitê de Ética, usando o WHOQoL-abreviado. A amostra foi constituída de dois grupos: 50 pessoas colostomizadas usando os dois MCI e 50, sem os MCI. Resultados: A QV do Grupo com MCI foi significativamente melhor em todos os Domínios e na QV Geral do que daquelas do Grupo sem MCI. Conclusão: O estudo confirmou a hipótese de que a QV do Grupo com MCI é melhor do que a do Grupo sem MCI.

Descritores: Qualidade de vida; Colostomia/métodos; Colostomia/reabilitação.


ABSTRACT

OBJECTIVE: To evaluate and to compare the quality of life (QoL) of colostomy people, using or not using the bowel control methods (BCM), in other words, the colostomy irrigation and the plug system, considering the hypothesis that people who used them had better QoL. Method: This study was carried out in the Heliópolis Hospital Outpatient Department, after the project approval for the Ethical and Research Committee, using the WHOQoL-bref. The sample was constituted of two groups: 50 colostomy people with BCM and 50, without BCM. Results: The Group with BCM had a QoL significantly higher, being this observed in all the Domains and in the Overall QoL, than those of the Group without BCM. Conclusion: The study confirmed the hypothesis that the QoL of the Group with BCM is better than the Group without BCM.

Key words: Quality of life; Colostomy/methods; Colostomy/rehabilitation.


RESUMEN

OBJETIVO: Evaluar y comparar la calidad de vida (CV) de las personas colostomizadas, con y sin el uso de los métodos de control intestinal (MCI), es decir, la irrigación y el sistema obturador de la colostomia, teniendo en cuenta la hipótesis de que aquellas que los utilizan tienen mejor CV. Método: El estudio fue llevado a cabo en el Ambulatorio del Hospital Heliópolis después de la aprobación del proyecto por lo Comité de Ética, usando el WHOQoL-bref. La muestra fue constituida de dos grupos: 50 personas colostomizadas usando los dos MCI y 50, sin los MCI. Resultados: Las personas del Grupo con MCI tenían CV perceptiblemente mejor, siendo eso observado en todos los Dominios y en la CV General, que aquellas del Grupo sin MCI. Conclusión: El estudio confirmo la hipótesis que la CV del Grupo con MCI es mejor que la del Grupo sin MCI.

Descriptores: Calidad de vida; Colostomía/métodos; Colostomía/rehabilitación.


 

 

INTRODUÇÃO

A perda do controle da eliminação de fezes e gases, causada pela abertura de um estoma intestinal, constitui fator forte de impacto emocional para as pessoas estomizadas, porque o estoma lhes altera o esquema corporal, a auto-imagem e a auto-estima, além de determinar outros distúrbios associados a essas. Tais alterações acarretam transtornos vários em suas vidas, com os quais passam a conviver e que, sabidamente, prejudicam a sua qualidade de vida(1-3).

Isso justifica iniciar o processo de reabilitação das pessoas que se tornarão estomizadas tão logo seja diagnosticada a necessidade de um estoma. A continuidade desse processo no pós-operatório tardio requer a manutenção do suporte físico, social e psicológico de todos os integrantes da equipe de saúde, sem limite de tempo, por meio de cuidados gerais e específicos e da aplicação de medidas preventivas e terapêuticas que se fizerem necessárias, além da retaguarda do grupo de apoio, ou de auto-ajuda, visando a facilitar a convivência com o estoma e, com isso, melhorar a qualidade de vida das pessoas estomizadas(1).

Concernente aos cuidados específicos, a irrigação e o sistema oclusor da colostomia são recursos importantes na reabilitação de pessoas colostomizadas, possibilitando-lhes o controle intestinal mais efetivo, com reflexos para a sua qualidade de vida. São os métodos de controle intestinal mais usados atualmente e, além de terem boa aceitação por parte dos usuários, proporcionam-lhes muitas vantagens, podendo ser usados de modo isolado ou associados. Destaca-se que a obtenção da "continência" da colostomia sempre foi objeto de preocupação dos integrantes da equipe de saúde, na tentativa de minimizar os efeitos da perda de habilidade para o controle das eliminações e facilitar o viver e o conviver dessas pessoas, tendo como metas a reabilitação e a qualidade de vida(4). Ambos os métodos necessitam de indicação médica, e o enfermeiro, de preferência, o especialista em estomaterapia, é responsável pela avaliação e treinamento da pessoa colostomizada. Essa pessoa, além da motivação e interesse, que são imprescindíveis para se engajar no programa de treinamento, deve preencher alguns critérios como: ter colostomia terminal, de uma boca, localizada no cólon descendente ou sigmóide; ter destreza e habilidade física e mental para realizar o procedimento; ter ausência de complicação no estoma e não ser portadora de síndrome de cólon irritável(4-6). A avaliação e a seleção devem obedecer aos critérios de inclusão estabelecidos por protocolos internacionais e nacionais, levando em conta a pessoa, as características do estoma e do efluente e os equipamentos usados para a sua execução, a fim de garantir o sucesso no uso de tais métodos, embora sejam de fácil aprendizado e realizados com técnica limpa(4-5).

Quanto à irrigação, uma de suas vantagens relaciona-se à continência da colostomia com base nos significados de segurança e conforto atribuídos pelas pessoas colostomizadas como essenciais à sua reintegração social(7-8). Assim, essa vantagem se consolida na manifestação de sentimentos de satisfação e sensação de normalidade, maior segurança e diminuição da ansiedade e, conseqüentemente, maior facilidade no ajustamento social e emocional e no retorno às atividades diárias de trabalho e lazer, além do bem-estar causado pela redução ou ausência de restrições alimentares(4,7,9), conferindo-lhes um modo melhor de conviver com a colostomia. Destaca-se que os resultados alcançados pelas pessoas com o uso da irrigação da colostomia, nos últimos anos, têm sido responsáveis pela ampliação do uso desse método, principalmente, pelo impacto positivo sobre a sua qualidade de vida(10).

O sistema oclusor da colostomia representa um importante avanço para o cuidado das pessoas colostomizadas, facilitandolhes a convivência com o estoma e, ao contrário dos implantes que o antecederam, não exige intervenção cirúrgica para a aplicação. O primeiro estudo clínico realizado testou o sistema em 53 pessoas colostomizadas, voluntárias, sendo que 30 delas irrigavam a colostomia. Nos resultados, o tempo de uso do oclusor variou entre 10 e 24h nas pessoas que praticavam a irrigação e entre 5 e 10h naquelas que não a praticavam, com diferença estatística significante entre os dois grupos em relação ao número de oclusores usados. Relataram, ainda, a eficiência do sistema na continência de fezes, a eliminação de gases, sem o ruído e odor característicos, em quase 100% dos oclusores usados, não sendo observada complicação no estoma ou pele periestoma, e a facilidade de inserção na colostomia pela maioria das pessoas. Mencionaram, ainda, as razões que forçaram a sua remoção, em prazo menor, em ambos os grupos, quais sejam desconforto intestinal e dor em cólica pela distensão pelos gases, dada a obstrução parcial do filtro por muco e fezes, e vazamento de fezes(6). A partir da divulgação desse estudo, o sistema passou a ser testado por diferentes pesquisadores e em vários países do mundo, inclusive no Brasil, avaliando as mesmas variáveis, para confirmar a sua eficiência. Diversos autores(11-16), trabalhando com amostras de tamanhos diferentes, confirmaram os efeitos satisfatórios conforme descritos anteriormente. Mediante os resultados, os pesquisadores foram unânimes em afirmar que o sistema contribui para a recuperação da autoimagem e aumento da autoconfiança, com reflexos para a qualidade de vida da pessoa colostomizada. Para alguns autores(17-19), tanto o uso do sistema isolado, como associado ao da irrigação da colostomia, constitui método eficaz para melhorar a qualidade de vida das pessoas colostomizadas. Outro estudo consultado(20) destacou que esse sistema permite a eliminação de gases sem o ruído característico, sendo responsável pela participação mais confiante dessas pessoas nas atividades sociais.

Com base em todos os aspectos mencionados e reconhecendo a importância desses métodos para a reabilitação de pessoas colostomizadas, ao serem consultados alguns estudos realizados com pessoas, com e sem estoma, e de pessoas que tinham estomas definitivos, observaram-se resultados contraditórios no que se referia à qualidade de vida, embora a presença do estoma tenha sido sempre apontada como uma fonte de preocupação. Estudos(21-23) mencionaram que a qualidade de vida de pessoas estomizadas tende a ser pior do que a daquelas não estomizadas. Ao contrário, para outros autores(24-25), a colostomia definitiva não é sempre o fator que afeta a qualidade de vida da maioria das pessoas. Outros estudos(2,27-29) não encontraram diferenças relativas à qualidade de vida entre as pessoas colostomizadas quando comparadas àquelas não colostomizadas.

Nessa busca, como não foram encontrados estudos que comparassem a qualidade de vida de pessoas colostomizadas que utilizavam a irrigação e o sistema oclusor da colostomia, os dois métodos de controle intestinal, com a daquelas que não os utilizavam, por meio de instrumentos validados para coletar dos dados, surgiu o interesse da pesquisadora em investigar a influência do uso desses métodos no estilo de vida dessas pessoas e, consequentemente, sobre a sua qualidade de vida. Além disso, deveu-se à necessidade de melhorar as evidências científicas, de modo a possibilitar a indicação e utilização mais freqüente desses métodos, em nosso meio.

Acredita-se que a investigação acerca do viver e conviver dessas pessoas, com e sem o uso dos métodos de controle intestinal, e no modo como percebem a sua qualidade de vida no contexto em que vivem, possa contribuir com subsídios para facilitar a prestação de assistência especializada, além de consistir em excelente fonte de informação para estudos posteriores. Assim, o estudo partiu da hipótese de que as pessoas colostomizadas que utilizam os métodos de controle intestinal têm qualidade de vida melhor do que aquelas que não os utilizam, e teve como objetivo principal: Avaliar e comparar qualidade de vida de pessoas colostomizadas que utilizam e não utilizam os métodos de controle intestinal, ou seja, a irrigação e o sistema oclusor da colostomia.

 

MÉTODO

O estudo caracteriza-se como epidemiológico com desenho transversal e de cunho analítico, e foi desenvolvido no Setor de Estomizados do Ambulatório Regional de Especialidades do Hospital Heliópolis, após a apreciação e aprovação do projeto pelos Comitês de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de São Paulo e do referido hospital.

A amostra foi constituída de 50 pessoas colostomizadas que usavam os dois métodos ou Grupo com Métodos de Controle Intestinal (MCI) e 50, que não os utilizavam ou Grupo sem Métodos de Controle Intestinal (MCI) que foram comparados a respeito de sua qualidade de vida.

Os dados foram coletados em duas fases: levantamento nos prontuários, para identificação das pessoas colostomizadas do Grupo com MCI e entrevistas para preenchimento dos instrumentos de coleta de dados, conforme plano estabelecido com a enfermeira especialista responsável pelo Setor. Quanto ao Grupo sem MCI, em virtude da alta demanda de freqüência no Setor, as pessoas foram identificadas e entrevistadas no dia da consulta e, nesse momento, também foram preenchidos os dados da ficha de identificação. As entrevistas foram realizadas pela pesquisadora e pela enfermeira especialista em local reservado, a fim de garantir a privacidade da pessoa colostomizada.

Quanto à utilização de instrumento de medida, destaca-se que, dada a escassez de instrumentos específicos para avaliar a qualidade de vida de pessoas colostomizadas e os existentes(30-33), ainda, não foram traduzidos e validados para o português do Brasil, optou-se por usar o WHOQoL-abreviado, apoiando-se em duas razões principais: o aspecto transcultural do instrumento e o fato de haver sido traduzido e validado para o português do Brasil, com propriedades psicométricas testadas e confirmadas em nosso meio(34), apesar de seu caráter genérico(35).

Esse instrumento é composto de quatro domínios: Físico, Psicológico, Relações Sociais e Meio Ambiente. Cada um dos deles é constituído de facetas, perfazendo um total de 24 facetas, mais 2 para Qualidade de vida e Saúde Geral, que não são incluídas nos escores dos Domínios. Cada faceta é avaliada por apenas um item ou questão, somando-se 26 questões(34-37). São usados quatro tipos de escalas de intervalo para as respostas (tipo Lickert, com pontuação de 1 a 5), que foram projetadas e testadas para refletir intensidade, capacidade, freqüência e avaliação(34-35).

Para a análise dos dados, foi utilizado o programa de software SPSS (Statistical Package for Social Sciences), conforme orientação da Organização Mundial de Saúde(35).

 

RESULTADOS

Comparadas as variáveis sociodemográficas e clínicas (doença de base, doença associada, tratamento adjuvante, tempo de uso de irrigação e do sistema oclusor [meses] e de permanência do sistema oclusor [hs]), verificou-se que não houve diferença estatisticamente significante entre as pessoas colostomizadas dos Grupos com e sem MCI. No entanto, para as outras variáveis clínicas: Tempo de colostomizado e de Acompanhamento no Serviço, observou-se que a média para as pessoas do Grupo com MCI era maior do que para as do Grupo sem MCI, com diferença estatisticamente significante entre os Grupos (p-valor <0,001).

Verifica-se pela Tabela 1 que os escores médios obtidos em todos os domínios e na qualidade de vida geral pelas pessoas colostomizadas com MCI foram maiores do que aqueles obtidos por aquelas que não os utilizavam, com diferença significativa (p valor <0,001).

Em face desses resultados, optou-se por verificar quais facetas se correlacionavam mais com o escore médio de qualidade de vida em cada um dos domínios, em ambos os grupos. Isso pode ser observado nos dados da Tabela 2.

Nota-se que apenas a faceta: Cuidados de saúde e sociais: disponibilidade e qualidade não se correlacionou de modo significativo com o escore do domínio Meio-Ambiente no grupo com MCI. Por outro lado, todas as demais que compõem os domínios: Físico, Psicológico, Relações Sociais e Meio-Ambiente tiveram correlação significante com o escore médio desses domínios, embora com diferenças nos valores das magnitudes entre os dois grupos.

 

DISCUSSÃO

O objetivo primordial das intervenções em saúde tem sido a busca do nível de excelência em qualidade de vida das pessoas. Em se tratando de pessoas colostomizadas, em caráter definitivo, a utilização dos MCI constitui um recurso fundamental na concretização da melhoria da qualidade de vida, o que foi constatado pelos resultados deste estudo. Com base nas análises estatísticas, com alta confiabilidade, pode-se afirmar que as pessoas colostomizadas que usam MCI têm qualidade de vida significantemente melhor do que aquelas que não os utilizam.

O estudo se baseou na definição de qualidade de vida proposta pela Organização Mundial de Saúde(35), que afirma a percepção do indivíduo de sua posição na vida, no contexto da cultura e sistema de valores nos quais ele vive e em relação aos seus objetivos, expectativas, padrões e preocupações, pela importância atribuída ao contexto cultural e valores considerados na avaliação e à relevância das metas, expectativas padrões e preocupações, ou seja, considerar a pessoa com seus objetivos, expectativas, padrões e preocupações, dentro de seu contexto de vida, de cultura e de sistemas de valores. Partindo dessa premissa, vale destacar que os objetivos, expectativas, padrões e preocupações das pessoas colostomizadas são específicos de sua condição e estilo de vida atuais e que, provavelmente, diferem daqueles que tinham anteriormente à doença e à cirurgia.

Vistos os resultados e, conforme dito anteriormente destaca-se que não foram identificados estudos semelhantes, ou seja, que comparassem a qualidade de vida de pessoas colostomizadas, com e sem o uso MCI, utilizando o WHOQoL-abreviado, para possibilitar a comparação com os achados deste estudo. Karadag et al(10), utilizando os instrumentos SF-36 e DDQ-15 (Digestive Disease Questionaire), divulgaram os resultados de estudo realizado com 25 pessoas que irrigavam a colostomia e 10, que não a irrigavam, sendo a coleta de dados feita antes e doze meses após a implementação de um programa de assistência. Os resultados do DDQ-15 foram altamente significantes no grupo experimental, sugerindo um ganho considerável na qualidade de vida com a irrigação da colostomia. Do mesmo modo, os resultados do SF-36 demonstraram que a qualidade de vida desse grupo apresentou melhoras significativas nos itens referentes às atividades físicas e sociais, aspectos emocionais, saúde mental, vitalidade e dor corporal, enquanto nas pessoas que não irrigavam a colostomia, as melhoras significativas se deram apenas nas atividades sociais e na saúde mental. Na opinião dos autores, tais achados apóiam a idéia de que a prevenção da eliminação intestinal descontrolada, por meio da irrigação da colostomia, contribui para melhorar a qualidade de vida de pessoas colostomizadas.

Também com pessoas que irrigavam e não irrigavam a colostomia, Valenti, Salabert e Borsot(38) elaboraram e aplicaram um instrumento para comparar os benefícios da irrigação em relação à adaptação, conforto e custos em um grupo de 20 pessoas colostomizadas que utilizavam o método e em outro, também de 20, que usavam os equipamentos coletores. Observaram que as pessoas que irrigavam a colostomia sentiam-se mais confortáveis, adaptaram-se mais facilmente ao seu meio social e tiveram um custo consideravelmente menor em relação àquelas que usavam equipamentos coletores. Segundo os autores, os resultados possibilitaram afirmar que a irrigação da colostomia é um método efetivo que, além de diminuir os custos relacionados à assistência, melhora a qualidade de vida de pessoas colostomizadas.

O estudo de Juárez et al(39), usando o Questionário Montreax de Qualidade de Vida, avaliou a qualidade de vida de 30 pessoas colostomizadas, antes e após terem sido treinadas para a irrigação da colostomia. Como resultados, o índice médio de qualidade de vida que, antes do treinamento, foi de 54,2%, após o treinamento, passou a 77,3%, tendo alcançado a pontuação máxima de 91,3%. Foram observadas diferenças estatisticamente significativas entre os índices obtidos, antes e após o treinamento, em todas as dimensões de qualidade de vida avaliadas pelo instrumento usado.

Avaliando também a qualidade de vida de pessoas colostomizadas, Galán(17) investigou duas amostras: uma de 25 pessoas, usando somente o sistema oclusor da colostomia e outra de 8, que usavam a irrigação da colostomia associada ao sistema oclusor. Para tanto, elaborou e aplicou três instrumentos para a coleta de dados, que foi feita em três momentos: antes do início do uso de MCI (questionário 1), depois de um período de adaptação das pessoas ao seu uso (questionário 2) e após um período, que considerou suficiente, para que tais pessoas pudessem avaliar o impacto desses métodos em sua qualidade de vida (questionário 3). Porém não deixou clara a duração desses períodos nem descreveu os instrumentos. Nos resultados, observou que tanto as pessoas que usavam somente o sistema oclusor da colostomia como as que o utilizavam associado à irrigação, tiveram melhora considerável na participação de atividades físicas e sociais, além de alto nível de satisfação com a sua qualidade de vida.

Ainda Aragonés et al(40), utilizando seis instrumentos diferentes (dentre estes o Questionário de Depressão de Beck e o Questionário de Qualidade de Vida de Gimeno et al), analisaram os efeitos do uso do sistema oclusor da colostomia sobre os aspectos físicos, sociais e emocionais da pessoa colostomizada. Para tanto, as 15 pessoas da amostra, que concordaram em participar do estudo, preencheram os mesmos instrumentos antes de serem treinadas para usar o dispositivo e um mês após a sua utilização. Como resultado, houve diferença estatística significativa para a maioria das variáveis estudadas, ou seja, o sistema oclusor da colostomia contribuiu para a diminuição dos incômodos e medos, melhorou o estado de saúde e bem-estar e propiciou melhora em várias das atividades cotidianas, refletindo-se, positivamente, na qualidade de vida dessas pessoas.

Os resultados dos estudos citados(10,17,38-40), embora enfatizando pessoas colostomizadas que irrigavam e não irrigavam a colostomia, ou que a usavam a irrigação da colostomia associada ao sistema oclusor, ou que usavam apenas o sistema oclusor da colostomia, mesmo sem compará-las a outras que não utilizavam os métodos, corroboram os achados deste estudo, pois destacam a melhoria na qualidade de vida com o uso de um ou dos dois métodos de controle intestinal.

Esse achado serve para alertar os profissionais de saúde, principalmente o cirurgião e o enfermeiro, de preferência, o especialista em estomaterapia, de sua responsabilidade na divulgação das vantagens e benefícios do uso desses métodos para as pessoas colostomizadas por ocasião da alta hospitalar, nos ambulatórios, nos consultórios, nas reuniões da associação de estomizados e nos eventos específicos. Devem divulgá-los, também, por meio da publicação de pesquisas ou da apresentação de trabalhos nos eventos científicos, sempre visando à qualidade de vida dessas pessoas.

A qualidade de vida das pessoas estomizadas e, em especial, das colostomizadas deve ser vista como um bem maior a ser mantido e/ou recuperado, para que estas possam viver felizes e em harmonia no seu contexto de vida. Para tanto, a medicina, a enfermagem e outras ciências afins, por intermédio dos profissionais que compõem a equipe de assistência, não devem medir esforços para que a qualidade de vida dessas pessoas seja o desfecho da assistência prestada em todas as fases do tratamento cirúrgico.

 

CONCLUSÃO

Os resultados confirmaram a hipótese do estudo, pois a qualidade de vida das pessoas colostomizadas que fazem uso de MCI apresenta diferenças estatisticamente significativas em relação àquelas que não os utilizam.

 

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Submissão: 01/09/2008
Aprovação: 12/12/2009

 

 

AUTOR CORRESPONDENTE Lucila Amaral Carneiro Vianna. Universidade Federal de São Paulo, Departamento de Enfermagem, R. Napoleão de Barros,754. Vila Clementino. CEP 04023-900. São Paulo, SP.