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Revista Brasileira de Enfermagem

Print version ISSN 0034-7167

Rev. bras. enferm. vol.64 no.5 Brasília Sept./Oct. 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-71672011000500017 

REVISÃO

 

Práticas alimentares no primeiro ano de vida

 

Eating habits in the first year of life

 

Hábitos alimenticios en el primer año de vida

 

 

Ana Paula Esmeraldo LimaI; Marly JavorskiII; Maria Gorete Lucena de VasconcelosII

IUniversidade de Pernambuco, Faculdade de Enfermagem Nossa Senhora das Graças. Prefeitura Municipal do Recife. Recife-PE, Brasil, E-mail: anapaulaesmeraldo@gmail.com
IIUniversidade Federal de Pernambuco, Departamento de Enfermagem. Recife-PE, Brasil

 

 


RESUMO

O estudo buscou analisar a literatura publicada referente às práticas alimentares no primeiro ano de vida de filhos de mães adolescentes, por meio de uma revisão integrativa nas bases de dados Lilacs, Medline e Cochrane, no período de 2000 a 2010. Foram utilizadas as palavras-chave: adolescente, aleitamento materno, alimentação mista e nutrição do lactente, sendo selecionados onze artigos científicos, que compuseram a amostra do estudo. Os resultados apontaram a incipiência de pesquisas publicadas sobre o tema proposto, sobretudo para as que versam sobre alimentação complementar, desvelando uma lacuna na produção mundial sobre o tema. Novas pesquisas, portanto, precisam ser desenvolvidas com foco em mães adolescentes, devendo-se explorar a alimentação infantil em toda sua dimensão.

Descritores: Adolescente; Aleitamento materno; Alimentação mista; Nutrição do lactente.


ABSTRACT

The study aimed to examine the relevant published literature to food practices in the first year of life of teenage mothers' children, through an integrative review within Lilacs, Medline and Cochrane, databases from 2000 to 2010. We used the keywords: adolescent, breastfeeding, mixed feeding and infant nutrition, from which we selected eleven articles that composed the study sample. The results indicated the paucity of published research on the proposed topic, especially for those focusing on complementary feeding, revealing a gap in global production on the subject. New researches, therefore, need to be developed with a focus on teenage mothers, exploring infant feeding in all its dimensions.

Key words: Adolescent; Breastfeeding; Mixed feeding; Infant nutrition.


RESUMEN

El estudio trató de examinar la bibliografía publicada sobre los hábitos alimenticios en el primer año de vida de los hijos de madres adolescentes, mediante una revisión integradora en las bases de datos Lilacs, Medline y Cochrane, en el período de 2000 a 2010. Hemos usado las palabras clave: adolescente, lactancia materna, alimentación mixta y nutrición del lactante, siendo seleccionados once trabajos, los cuales compusieran la muestra del estudio. Los resultados indicaron la escasez de investigaciones publicadas sobre el tema propuesto, especialmente para aquellos que se ocupan de la alimentación complementaria, con una brecha en la producción mundial sobre el tema. Nuevos estudios, por lo tanto, necesitan ser desarrollados con un enfoque en las madres adolescentes, y explorar la alimentación infantil en todas sus dimensiones.

Palabras clave: Adolescente; Lactancia materna; Alimentación mixta; Nutrición del lactante.


 

 

INTRODUÇÃO

A adolescência é considerada como o processo de passagem da vida infantil para a vida adulta e tem sua conceituação influenciada por processos históricos, com diferentes significados em diversas classes sociais, épocas e culturas(1).

Para a Organização Mundial de Saúde (OMS), a adolescência está circunscrita à segunda década de vida, entre os 10 e 19 anos de idade, podendo, ainda, ser subdividida em adolescência menor (de 10 a 14 anos) e adolescência maior (de 15 a 19 anos). Tal fase deve ser entendida como um fenômeno singular, caracterizado por influências socioculturais que vão se concretizando por meio de reformulações constantes de caráter social, sexual e de gênero(2).

A sexualidade, embora presente desde o nascimento, é consolidada na adolescência, quando se estabelecem as condições para as funções sexuais do adulto. O que se observa nos últimos anos, entretanto, é que, cada vez mais cedo, grande número de jovens assume vida sexual ativa, e é nesse contexto que a gravidez na adolescência constitui-se um grave problema de saúde pública(1).

A insuficiente orientação do jovem sobre seu corpo, sua sexualidade e seus direitos reprodutivos contribui para a falta de controle da fecundidade, afetando amplamente as mulheres brasileiras, especialmente as de condições socioeconômicas menos favorecidas. A gestação precoce traz problemas de natureza biológica e social, não só para a mulher, mas também para o concepto. A falta de perspectivas de futuro, entretanto, faz com que algumas adolescentes representem a gravidez como um meio para o alcance do status de mulher adulta e até, para o resgate de sua cidadania(3).

A ocorrência de gravidez e maternidade nessa fase da vida traz como conseqüência mudanças que exigem uma redefinição no futuro com um filho, geralmente, não planejado(4). A adolescente vivencia intensa reestruturação e amadurecimento pessoal e social, acarretando mudança de identidade e nova definição de papéis. A prática de cuidar do filho exige, portanto, maior esforço de adaptação, que deve ser gradativa, na medida em que vai alterando sua condição de filha adolescente para mãe adolescente(5).

Como qualquer mulher que vivencia a maternagem, a jovem mãe irá desenvolver um papel fundamental em relação ao cuidado com o filho, sendo o cuidado com a alimentação um dos mais importantes, haja vista as repercussões que determina na saúde do infante.

A formação dos hábitos alimentares, então, tem como influência de maior destaque a interação da criança com a própria mãe ou com a pessoa mais ligada a sua alimentação, além do ambiente doméstico, das condições socioeconômicas e das relações familiares. Desse modo, a família poderá determinar a adoção de práticas de alimentação, favorecendo o estabelecimento de um padrão de comportamento alimentar infantil adequado ou não(6).

A alimentação dos adolescentes, por sua vez, pouco frequentemente pode ser considerada adequada. Mesmo quando os hábitos alimentares da família são elogiáveis, o mesmo não se pode afirmar do filho adolescente, que tende a rejeitar os hábitos alimentares da família e a adotar os hábitos do seu grupo de convivência. As peculiaridades características desta fase, assim, podem contribuir negativamente na instituição da alimentação do filho. Mães com hábitos alimentares inadequados dificilmente irão estabelecer uma alimentação infantil adequada.

O aleitamento materno exclusivo durante os seis primeiros meses de vida, a alimentação complementar oportuna e adequada e a manutenção do aleitamento materno complementado até os dois anos de idade ou mais é o esquema recomendado pela Organização Mundial de Saúde (OMS) para as crianças de todo o mundo. Entre os fatores de risco para a baixa taxa de aleitamento materno exclusivo e continuado e introdução precoce de alimentos sólidos, a maternidade na adolescência se destaca como um dos principais. Recentemente, a OMS lançou documento alertando acerca dos riscos de adoecer e morrer para os filhos de mães adolescentes, enfatizando a necessidade dos profissionais da saúde estarem capacitados a trabalhar com este grupo, sobretudo no apoio à alimentação infantil adequada(7-9).

Neste cenário, evidenciou-se a necessidade de buscar na literatura referências sobre as práticas de alimentação de filhos de mães adolescentes, a fim de responder ao questionamento: como são instituídas as práticas de alimentação no primeiro ano de vida de filhos de mães adolescentes? A opção pelo desenvolvimento de uma revisão integrativa sobre esse tema deve-se ao fato de que tal revisão possibilita a interpretação de estudos produzidos sobre práticas de alimentação infantil, abrangendo desde o aleitamento materno até a alimentação complementar, que tenham como foco as mães adolescentes, no intuito de compreender como é estabelecida a alimentação dessas crianças, auxiliando no desenvolvimento de futuras investigações.

O presente estudo tem como objetivo, pois, analisar a literatura publicada referente às práticas alimentares no primeiro ano de vida de filhos de mães adolescentes.

 

METODOLOGIA

A fim de alcançar o objetivo proposto, optou-se pelo método da revisão integrativa, visto que ele possibilita reunir e sintetizar resultados de pesquisas sobre um determinado tema ou questão, de maneira sistemática e ordenada, contribuindo para o aprofundamento do tema investigado, além de apontar lacunas do conhecimento que precisam ser preenchidas com a realização de novas pesquisas. A realização de uma revisão integrativa exige os mesmos padrões de rigor e clareza utilizada nos estudos primários(10-11).

Para a construção dessa revisão, os seguintes passos foram percorridos: elaboração da questão norteadora, estabelecimento de critérios para seleção da amostra, elaboração de um instrumento para coleta de dados, análise crítica dos dados, interpretação e apresentação dos resultados(12).

O levantamento bibliográfico foi realizado no período de fevereiro a abril de 2010, nas seguintes bases de dados: Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS), Medical Literature Analysis and Retrieval Sistem on-line (MEDLINE) e Biblioteca Cochrane (COCHRANE).

Foram utilizados, para a busca dos artigos, os seguintes descritores e suas combinações nas línguas inglesa e espanhola: Adolescente, Aleitamento materno, Alimentação mista e Nutrição do lactente. O cruzamento dos referidos descritores foi realizado da seguinte forma: adolescente e aleitamento materno, adolescente e alimentação mista, e adolescente e nutrição do lactente. A tabela 1 descreve o caminho percorrido no levantamento dos artigos.

Os critérios utilizados para a seleção da amostra foram: artigos publicados em português, inglês ou espanhol; artigos publicados nos referidos bancos de dados no período de 2000 a 2010, que retratassem a temática das práticas de alimentação infantil de filhos de mães adolescentes, abrangendo experiências e atitudes frente ao aleitamento materno e/ou à alimentação complementar.

Uma vez acessados os títulos e resumos das publicações, 22 artigos foram selecionados e adquiridos na íntegra. Três artigos não estavam disponíveis como texto completo e foram solicitados diretamente aos autores, que prontamente disponibilizaram suas publicações. De posse de todas as cópias, procedeu-se à leitura integral e crítica dos 22 artigos quanto aos critérios de inclusão, ficando a amostra final composta por onze artigos científicos.

Para facilitar a coleta de dados, foi desenvolvido um instrumento, preenchido para cada artigo da amostra final do estudo, contendo itens como título e autores, local de publicação, tipo de estudo, objetivos, resultados, implicações, limitações, dentre outros. A utilização de tal instrumento permitiu a sucinta organização dos dados, facilitando a comparação dos estudos em tópicos específicos. Os resultados extraídos de cada estudo foram analisados de forma descritiva, discutidos à luz da literatura específica.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

A amostra final desta revisão integrativa foi composta por onze artigos científicos, selecionados pelos critérios previamente descritos. Desses, a maioria foi identificada na base de dados MEDLINE, seguida pela base de dados LILACS e, por fim, COCHRANE. A caracterização de cada um desses artigos encontra-se descrita no Quadro 1.

Pode-se observar a incipiência de artigos científicos publicados sobre o tema proposto. Apesar do elevado quantitativo de estudos sobre as práticas de alimentação infantil, ainda são escassos aqueles que focam os filhos de mães adolescentes, grupo considerado de risco para instituição de práticas de alimentação inadequadas.

Importante salientar, ainda, que entre os poucos artigos encontrados, quase a totalidade versa sobre aleitamento materno. As palavras-chave mais utilizadas pelos autores foram "adolescente" e "aleitamento materno", presentes em 10 (90,9%) estudos. Percebe-se, assim, que os descritores "nutrição do lactente" (encontrado em apenas um artigo) e "alimentação mista" (ausente nos estudos selecionados), apesar de serem os que melhor representam a alimentação no primeiro ano de vida, são pouco utilizados pelos pesquisadores. A nítida carência de artigos sobre alimentação complementar sugere a subestima da sua importância para a saúde da criança.

Ao analisar o país de origem dos estudos selecionados, percebe-se a predominância dos Estados Unidos, seguido do Brasil. Juntos, esses países respondem por mais de 80% das publicações. A ausência de publicações em língua espanhola evidencia a necessidade de pesquisas sobre práticas de alimentação infantil nestes países, já que o tema adquire peculiaridades conforme o contexto sócio-cultural em que está inserido. Esta necessidade é enfatizada por estudo norte-americano(13), que buscou examinar decisões e práticas de aleitamento materno entre adolescentes latino-americanas e afro-americanas, reconhecendo a importância do valor cultural para as práticas de alimentação.

Quanto à periodicidade das publicações, observa-se uma distribuição quase que uniforme de produção anual, já que, proporcionalmente, foi publicado aproximadamente um artigo por ano. No entanto, é possível notar que 36% das publicações concentraram-se nos últimos dois anos, o que pode sinalizar para uma tendência à maior ênfase nas práticas de alimentação de filhos de mães adolescentes. Dos periódicos identificados, apenas dois publicaram mais de um artigo sobre o tema, sendo um referente à Enfermagem Materno-Infantil e o outro destinado a estudos sobre aleitamento materno.

Verifica-se que todos os artigos apresentam os objetivos da pesquisa de forma clara, facilitando o entendimento do leitor. Apenas um estudo não expôs com clareza o problema de pesquisa; cinco (45,4%) dos artigos evidenciaram como problema de pesquisa a necessidade de estudos sobre alimentação infantil na perspectiva de mães adolescentes, reconhecendo a vulnerabilidade desse grupo.

Em relação à abordagem metodológica empregada, identifica-se que cinco (45,4%) utilizaram metodologia quantitativa, cinco (45,4%) realizaram uma abordagem qualitativa e uma desenvolveu pesquisa quanti-qualitativa (descritiva). As abordagens quantitativa e qualitativa se apóiam, fornecendo um quadro mais geral do conhecimento das práticas alimentares. São métodos complementares, e não competitivos, devendo sua escolha ser baseada na natureza do problema de pesquisa(14).

Entre os estudos quantitativos, três são não-experimentais, abrangendo estudo transversal e de coorte. Um utiliza o desenho quase-experimental, através de estudo correlacional e outro adota o desenho experimental, com um estudo caso-controle.

Desperta a atenção o fato de que nenhum dos estudos qualitativos explicitou a utilização de algum referencial teórico para embasar a análise e interpretação do fenômeno estudado. Apesar de um destes artigos referir a realização de uma "entrevista etnográfica", não há qualquer menção a utilização da etnografia para análise dos dados.

A maioria dos estudos (90,9%) optou por uma seleção amostral por conveniência, contabilizando um total de 883 adolescentes ao se somar as amostras dos 11 artigos. No entanto, apenas três (27,3%) justificam o tamanho amostral, ficando aos demais a incerteza da representatividade da população que se pretende investigar.

A caracterização dos sujeitos, embora não esteja descrita em alguns estudos, apresentou aparente homogeneidade, onde a média de idade das adolescentes foi de 16,5 anos; a maioria apresentava baixa escolaridade, embora algumas ainda estivessem cursando o ensino médio; a renda familiar era baixa, sendo que poucas adolescentes contribuíam com essa renda; a maior parte era primípara e estava vivenciando pela primeira vez, portanto, a experiência de alimentar o filho.

No que se refere à temática dos artigos, como já citado anteriormente, há predominância do tema aleitamento materno, sendo exploradas, principalmente, as experiências maternas (45,4%). Ainda, dois (18,2%) dos artigos focalizaram as dificuldades na amamentação, dois compararam a prática do aleitamento materno em adolescentes e não adolescentes, um analisou a influência da confiança e atitudes de gestantes na instituição do aleitamento materno e, por fim, outro avalia a eficácia de uma intervenção para retardar o início da alimentação complementar. O tema alimentação complementar, presente em dois estudos, mostrou-se como um "coadjuvante", restrito à identificação dos alimentos consumidos na ocasião das entrevistas.

O Ministério da Saúde reconhece a ênfase à promoção do aleitamento materno nas últimas décadas, ao mesmo tempo em que uma lacuna de informação se abria quanto à alimentação complementar(15). A alimentação da criança no primeiro ano de vida, por sua vez, se constitui elemento fundamental para garantir sua sobrevivência e crescimento adequado. Deste modo, além de receber o leite materno, a criança necessita de uma alimentação adequada e oportuna a partir dos seis meses de vida.

A alimentação infantil, por sua vez, deve ser estudada em sua totalidade, o que significa investigar não somente o registro de freqüência e quantidade dos alimentos consumidos, mas os fatores decisórios para escolha do alimento, as formas de preparar e oferecê-lo, contemplando os aspectos socioculturais envolvidos no fenômeno da alimentação(16).

Dos cinco artigos que analisaram as experiências maternas em aleitamento materno, nenhum foi produzido no Brasil. Nesses, as adolescentes atribuíram à decisão de amamentar os benefícios do aleitamento materno, principalmente para a saúde da criança. Referiram, também, que esta decisão pertencia a elas, independente da opinião dos outros, embora algumas tenham admitido a influência de mães, profissionais, familiares, amigos e professores(13, 17-20). Naquelas pesquisas em que se trabalhou com adolescentes no pré e pós-natal, é possível observar a baixa taxa de início do aleitamento materno(13,21-22). Tal fato pode ser justificado pela ausência do título Hospital Amigo da Criança nas instituições sede das pesquisas, já que tal título caracteriza o hospital como incentivador da amamentação.

Vários fatores também foram apontados como problemas para manutenção do aleitamento materno, entre eles dor nas mamas, cansaço, frustração, leite insuficiente, ou fraco, retorno à escola, limitação das atividades cotidianas, ou medo da criança recusar mamadeira e ficar muito dependente da mãe. Importante enfatizar que o constrangimento de amamentar em público foi um dos principais fatores referidos pelas adolescentes, relato este pouco comum no nosso país, já que esta percepção negativa de amamentar em público depende da cultura de cada grupo social. Em estudo realizado em Chicago, EUA, com adolescentes de diferentes etnias, várias adolescentes latinas referiram que esta cultura norte-americana de considerar o aleitamento materno em público constrangedor e vergonhoso não existe em seus países de origem(13).

Ambos os artigos que focalizaram nas dificuldades em amamentar são nacionais e identificaram a dor, as dificuldades na pega e a posição inadequada como os principais problemas para a instituição da amamentação. A oferta de água e chá, principalmente por influência das avós, também surgem como importante fator para interrupção do aleitamento materno. O maior número de filhos, em um desses estudos, mostrou-se determinante para diminuir as dificuldades na amamentação(23-24).

A cultura institucional frequentemente atribui à amamentação um processo natural e instintivo e pode contribuir para o surgimento de sentimentos conflituosos para a mãe que se depara com estas dificuldades. Os profissionais da saúde exercem, então, papel fundamental na promoção do aleitamento materno, na medida em que são capazes de reconhecer as vicissitudes do amamentar e apoiar a nutriz em seu processo decisório(25).

A necessidade de uma rede de apoio para as jovens mães é salientada em uma das pesquisas, na qual se inclui o apoio emocional, encorajamento, apoio técnico/assistencial, orientações e apoio da rede social, onde se incluem família, amigos, pares, profissionais(19). Para problemas como retorno à escola ou constrangimento de amamentar em público, o uso de bombas de ordenha é frequentemente estimulado(13,17). Esta recomendação, por sua vez, ainda é pouco comum no Brasil, tendo em vista o elevado custo de tal equipamento, sendo orientada, então, a ordenha manual.

Para estudo realizado em Manitoba, Canadá, as adolescentes que apresentavam maior confiança, principalmente no período pós-natal, tinham mais probabilidade de amamentar seus filhos, e recomenda que os profissionais sejam encorajados a promover a confiança no aleitamento materno, desde o pré-natal, dissipando mitos e oferecendo suporte necessário(22).

Em uma pesquisa de intervenção, incluída na amostra, verificou-se que através de visitas domiciliares e exibição de vídeo com adolescentes nutrizes, as mães mostram-se quatro vezes mais propensas a aderir às recomendações de introdução da alimentação complementar a partir dos 4-6 meses de vida. O grupo de intervenção também se mostrou mais capaz de desafiar o preconceito cultural, e negociar com suas próprias mães o manejo da alimentação dos seus filhos(21).

As avós podem influenciar negativamente no aleitamento materno, seja na duração ou no seu caráter exclusivo, o que pode ser justificado pelas experiências destas na alimentação dos seus filhos, já que há algumas décadas o aleitamento artificial era amplamente divulgado e praticado, juntamente com a oferta de água, chás e sucos, ao mesmo tempo em que se acreditava que o leite materno era fraco e insuficiente para nutrir uma criança(26). A influência de fatores sociais e culturais, portanto, não deve ser desconsiderada ao se elaborar ações para promoção do aleitamento materno e introdução da alimentação complementar adequada e em momento oportuno. Neste contexto, a visita domiciliar torna-se fundamental para orientar o papel da família e incentivar e apoiar a nutriz.

Entre os estudos que compararam as práticas de adolescentes e não adolescentes, não se evidenciaram diferença estatística significativas de aleitamento materno entre os grupos. A ocorrência de dificuldades para amamentar, no entanto, foi mais freqüente em mães adolescentes, mostrando-se fortemente associada ao desmame(27). Os filhos de mães adolescentes, ainda, apresentaram estatura ao nascer e peso e IMC com um ano de vida menores que os de adultas, além de ingerir significativamente menos carne(4).

Segundo a Organização Mundial de Saúde, as taxas de baixo peso ao nascer também são mais elevadas entre os filhos de adolescentes, e quanto mais jovem a mãe maior o risco de morte durante o primeiro mês de vida(9). Quanto à amamentação, estudo realizado em Campinas traz resultados discordantes, onde mães adolescentes ofereceram leite materno por menos tempo aos seus filhos(28). Nos Estados Unidos, bem como em outros países desenvolvidos, as mães adolescentes continuam a ter as menores taxas de aleitamento materno(8). Além do risco mais elevado de desmamar seus filhos precocemente, as jovens mães também são mais propensas a erros na introdução alimentar, seja pelo seu baixo poder aquisitivo ou pela simples repetição do seu hábito alimentar, geralmente inadequado.

As adolescentes são mais propensas a oferecerem aos seus filhos alimentos comumente consumidos por elas, como refrigerantes, bolachas e salgadinhos, que são, por sua vez, inadequados para crianças menores de um ano(29). É na infância, no entanto, que o hábito alimentar é estabelecido, quando as crianças começam a receber a alimentação complementar. Nessa fase, as atitudes em relação à comida são normalmente aprendidas, transmitidas por pessoas cuja relação afetiva é grande, comumente a mãe(30).

Compreender a experiência de alimentar o filho para a mãe adolescente implica em uma atuação mais eficaz do profissional da saúde, possibilitando-o modificar e redirecionar sua abordagem para esse grupo singular, oferecendo apoio sensível e especializado.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A realização de uma revisão integrativa sobre práticas alimentares de filhos de mães adolescentes possibilitou o levantamento e análise de publicações no contexto mundial. Além do Brasil, nenhuma publicação latina foi identificada, revelando uma carência de estudos nestes países. A escassez de artigos demonstra que a pesquisa sobre este tema ainda não está consolidada, sobretudo no que diz respeito à alimentação complementar, desvelando uma lacuna na produção mundial sobre o tema.

Novas pesquisas, portanto, precisam ser desenvolvidas com foco em mães adolescentes, devendo-se explorar a alimentação infantil além das avaliações de consumo. A realização de estudos em diferentes etnias possibilitaria o conhecimento da diversidade cultural, auxiliando o planejamento de ações específicas para cada grupo social.

 

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Submissão: 11-09-2010
Aprovação: 08-12-2011

 

 

Extraído da Dissertação "Práticas alimentares no primeiro ano de vida na percepção de mães adolescentes", Programa de Pós-Graduação em Saúde da Criança e do Adolescente, Universidade Federal de Pernambuco, 2011.

 

 

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