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Revista Brasileira de Enfermagem

versão impressa ISSN 0034-7167

Rev. bras. enferm. vol.67 no.2 Brasília mar./abr. 2014

http://dx.doi.org/10.5935/0034-7167.20140040 

Pesquisa

Prevalência de transtornos mentais comuns em trabalhadores de enfermagem em um hospital da Bahia

Prevalence of common mental disorders in nursing workers at a hospital of Bahia

Prevalencia de trastornos mentales comunes en trabajadores de enfermería en un hospital de Bahia

Eder Pereira RodriguesI 

Urbanir Santana RodriguesI 

Luciana de Matos Mota OliveiraII 

Rodrigo Cunha Sales LaudanoII 

Carlito Lopes Nascimento SobrinhoIII 

IUniversidade Federal do Recôncavo da Bahia, Centro de Ciência da Saúde, Curso de Enfermagem. Santo Antônio de Jesus-BA, Brasil

IIUniversidade Estadual de Feira de Santana, Curso de Medicina. Feira de Santana-BA, Brasil

IIIUniversidade Estadual de Feira de Santana, Departamento de Saúde, Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva. Feira de Santana-BA, Brasil

RESUMO

Neste estudo, objetivou-se descrever a prevalência de "suspeitos" de transtornos mentais comuns (TMC) em trabalhadores de enfermagem em um hospital geral, no estado da Bahia. Realizou-se um estudo epidemiológico, de corte transversal, com 309 profissionais de enfermagem, que trabalhavam em atividades assistenciais em um hospital de grande porte. Os profissionais de enfermagem referiram sobrecarga de trabalho e baixa remuneração. As queixas de saúde mais frequentes estavam relacionadas à postura corporal e a saúde mental. A prevalência geral de "suspeitos" de TMC foi de 35,0%. Em relação aos aspectos psicossociais do trabalho, relataram uma alta demanda psicológica e baixo controle sobre as atividades laborais. Os resultados obtidos apontam que as condições de trabalho e saúde observadas, não são adequadas para a efetiva realização do trabalho de enfermagem no hospital estudado.

Palavras-Chave: Condições de Trabalho; Saúde do Trabalhador; Recursos Humanos de Enfermagem; Transtornos Mentais

ABSTRACT

This study aimed to describe the prevalence of "suspected" of common mental disorders (CMD) in nursing workers at a general hospital in the state of Bahia. It was carried out a cross-sectional epidemiological study with 309 nursing workers, who worked in welfare activities in a large hospital. The nurses mentioned overwork and low pay. The most frequent health complaints were related to body posture and mental health. The overall prevalence of "suspected" of CMD was 35.0%. Regarding the psychosocial aspects of work, it was reported high psychological demand and low control over their work activities. The results indicated that the working and health conditions observed are not suitable for the effective realization of nursing work in the hospital.

Key words: Working Conditions; Worker Health; Nursing Human Resources; Mental Disorders

RESUMEN

Este estudio objetivó describir la prevalencia de la "sospechas" de trastornos mentales comunes (CMD) en trabajadores de enfermería en un hospital general en el estado de Bahía. Se realizó un estudio epidemiológico transversal con 309 trabajadores de enfermería, que trabajaban en actividades de bienestar en un gran hospital. Los trabajadores de enfermería mencionaron el exceso de trabajo y los bajos salarios. Los problemas de salud más frecuentes estuvieron relacionados con la postura del cuerpo y la salud mental. La prevalencia global de la "sospecha" de CMD fue de 35,0%. En cuanto a los aspectos psicosociales del trabajo, informaron alta demanda psicológica y bajo control de sus actividades de trabajo. Los resultados indican que las condiciones de trabajo y de salud observados, no son adecuadas para la efectiva realización del trabajo de enfermería en el hospital.

Palabras-clave: Condiciones de Trabajo; Trabajador de la Salud; Enfermería Recursos Humanos; los Trastornos Mentales

INTRODUÇÃO

Diversos estudos foram realizados nas últimas décadas relacionando as condições de trabalho e as suas implicações para a saúde dos trabalhadores de enfermagem(1-5). De maneira geral, os estudos revelam a importância que a saúde do trabalhador tem frente à produção do cuidado em saúde.

O estudo do processo saúde/enfermidade do trabalhador deve levar em conta três condicionantes básicos deste processo; as condições gerais de vida, as condições de trabalho e o processo de trabalho propriamente dito. As condições de trabalho referem-se a questões mais facilmente perceptíveis e quantificáveis do processo como: a jornada de trabalho (número de horas trabalhadas, obrigatoriedade de cumprir horas extras); o tipo de contrato de trabalho (carteira assinada, prestação de serviços); a forma de pagamento (por mês, semana, dia, tarefa); o valor da remuneração; o horário de trabalho (diurno, noturno, por turnos); as condições do ambiente de trabalho, dentre outras(6).

O desgaste físico, emocional e mental gerado pelo trabalho podem produzir apatia, desânimo, hipersensibilidade emotiva, raiva, irritabilidade e ansiedade; provocam ainda despersonalização e inércia, acarretando queda na produtividade, no desempenho e na satisfação do trabalhador(7).

Estes são alguns dentre muitos fatores que colaboram para o surgimento de problemas relacionados à saúde mental, com destaque para os transtornos mentais comuns (TMC), expressão criada por Goldberg e Huxley(8) para designar sintomas tais como insônia, ansiedade, depressão, irritabilidade, dificuldade de concentração, esquecimento, fadiga e queixas somáticas que, embora demonstrem ruptura do funcionamento normal do indivíduo, não configuram categoria nosológica da 10ª Classificação Internacional de Doenças (CID-10), ou dos Manuais de Diagnóstico e Estatística (DSM) da Associação Psiquiátrica Americana, mas se caracterizam como um importante problema de saúde pública(9).

No Brasil, pesquisadores têm evidenciado, em estudos epidemiológicos realizados com trabalhadores da área da saúde, uma associação entre a ocorrência de transtornos mentais comuns e o trabalho exercido por esses profissionais de saúde(1-4). Pesquisas também foram realizadas associando elevada prevalência de transtornos mentais comuns com alta demanda e o baixo controle no trabalho(3,5-6,10).

As demandas são pressões psicológicas a que os trabalhadores são submetidos no trabalho e que podem se originar da quantidade de trabalho a executar por unidade de tempo e/ou do descompasso entre as capacidades do trabalhador e o trabalho a executar. Quanto ao controle, trata-se da autonomia ou possibilidade que ele tem de governar o seu trabalho, a partir de suas habilidades ou conhecimentos(11).

Karasek(11) desenvolveu um modelo de análise do trabalho conhecido como demanda-controle, representado por uma figura quadrangular, onde cada quadrante representa associações entre níveis de demanda e graus de controle. Assim, considera duas dimensões que podem favorecer o desgaste no trabalho (job strain): as demandas psicológicas caracterizadas pelo ritmo e intensidade no trabalho; e o controle, que é a habilidade e a autonomia referida pelo trabalhador sobre o trabalho executado. Assim, atividades que requerem alta demanda psicológica e sobre as quais o trabalhador tem baixo controle favorecem o desgaste psicológico e adoecimento físico.

Ao demarcar a importância que o ambiente hospitalar tem sobre a saúde dos trabalhadores de enfermagem objetivou-se, neste trabalho, descrever a prevalência de "suspeitos" de transtornos mentais comuns (TMC) em trabalhadores de enfermagem em um hospital geral, no estado da Bahia.

MÉTODO

Trata-se de um estudo de corte transversal, populacional, exploratório, cujos dados foram coletados no período de agosto a novembro de 2010, entre os trabalhadores de enfermagem que atuam no hospital geral público na cidade de Feira de Santana-BA. A instituição possui 296 leitos, sendo referência no atendimento de alta complexidade para 126 municípios, que corresponde a uma população adstrita de aproximadamente 4 milhões de habitantes.

A população do estudo foi constituída por todos os enfermeiros, técnicos e auxiliares de enfermagem atuantes nos diversos setores do hospital e que concordaram em participar da pesquisa. Os critérios de inclusão adotados para a participação na pesquisa foram: que os sujeitos fossem trabalhadores da equipe de enfermagem (enfermeiros, técnicos e auxiliares); que estivessem desenvolvendo atividades assistenciais; e que aceitassem participar do estudo após a leitura e assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). Foram excluídos do estudo, os trabalhadores que, no momento da coleta, estavam afastados do trabalho por doença, licença gestação, férias etc.; que não estivessem atuando em atividades assistenciais; e que não aceitassem participar do estudo após a leitura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE).

Na coleta de dados foi utilizado um questionário padronizado com seis blocos de questões. O primeiro bloco abordou características sociodemográficas; o segundo bloco, questões relacionadas às condições de trabalho; o terceiro bloco, características do ambiente de trabalho e os aspectos psicossociais do trabalho, adotando-se o Job Content Questionnaire (JCQ); o quarto bloco, as queixas de saúde e doença; o quinto bloco avaliou a saúde mental por meio da aplicação do Self-Report Questionnaire (SRQ-20) e um instrumento de detecção de bebedor-problema, o Teste CAGE; finalmente, o sexto bloco abordou questões sobre doenças e acidentes de trabalho, problemas de saúde recentes e hábitos de vida.

Foram construídos dois bancos de dados no EpiData 3.1 para confrontar as informações e identificar possíveis erros de digitação. Utilizou-se para a análise dos dados o programa Statistical Package for the Social Science (SPSS®) version 9.0 for Windows.

Foi realizada a descrição das variáveis estudadas: sociodemográficas, condições de trabalho, hábitos de vida, aspectos psicossociais do trabalho, queixas de saúde e doença, e o SRQ-20. Foi realizada análise de associação entre as questões relacionadas à demanda e o controle do JCQ e o resultado do SRQ-20, utilizando-se a razão de prevalência (RP) como medida de associação. Como o estudo foi populacional não foi necessária a utilização de medidas de significância estatística(12).

O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS) sob o Protocolo nº 14/2010, CAAE 0016.0.059.000-10.

RESULTADOS

Estudou-se 309 profissionais de enfermagem, correspondendo a 79,6% da população de 388 indivíduos inicialmente elegíveis. Os 79 (20,4%) sujeitos que não participaram da pesquisa foram considerados como recusas, pois, embora contatados pelo pesquisador, não devolveram os questionários nem o TCLE assinado.

A população de trabalhadores apresentou média de idade de 36,8 anos (± 9,9 anos), sexo feminino 90,9% (281), casadas(os) ou com companheiros(as) 50,3% (148), com filhos 58,1% (175), escolaridade até o ensino médio 64,0% (194) e renda de até três salários mínimos 60,4% (168) (Tabela 1).

Tabela 1 - Características sociodemográficas dos trabalhadores de enfermagem de um hospital geral na Bahia, Feira de Santana-BA, 2010 

  Características sociodemográficas   N*   %
Sexo   309    
  Feminino   281   90,9
  Masculino   28   9,1
Faixa etária   308    
  20-39 anos   182   59,1
  40-59 anos   96   31,2
  >60 anos   30   9,7
Situação conjugal   294    
  Casado/a   120   40,8
  União livre   28   9,5
  Solteiro/a   112   38,1
  Viúvo(a)/ divorciado(a)   34   11,6
Tem filhos   300    
  Sim   175   58,3
  Não   125   41,7
Escolaridade   303    
  Até ensino médio   130   42,9
  Superior incompleto   64   21,1
  Superior completo   27   8,9
  Especialização, mestrado ou doutorado   82   27,0

*respostas válidas, excluídas as respostas ignoradas.

No tocante às variáveis relacionadas ao trabalho, identificou-se que a maior parte dos trabalhadores é composta por técnicos de enfermagem 46,4% (143); por trabalhadores com vínculo temporário, ou seja, com contrato de trabalho temporário baseado na Consolidação das Leis do Trabalho/CLT 64,2% (178) e, destes, 88,5% (161) estavam contratados pelo Regime Especial de Direito Administrativo (REDA); com menos de 11 anos de trabalho na área de enfermagem 58,6% (181). Entre os profissionais estudados, 53,7% (165) apresentavam mais de uma inserção de trabalho; 43,6% (134) trabalhavam em outra instituição e 8,6% (26) dos profissionais atuavam em mais de duas instituições, além do hospital estudado. Entre os enfermeiros, 77,4% (65) apresentavam mais de um vínculo de trabalho e, entre os auxiliares e técnicos de enfermagem, essa frequência foi de 35,4% (28) e 49,6% (71) respectivamente. A carga horária semanal de trabalho mais frequente foi mais de 40 horas semanais, 59,9% (181) (Tabela 2).

Tabela 2 - Características profissionais dos trabalhadores de enfermagem em um hospital geral na Bahia, Feira de Santana-BA, 2010 

Características profissionais     N*   %
Tipo de vínculo     277    
  CLT   17   6,1
  REDA   161   58,1
  Estatutário   95   34,3
  Outros   4   1,4
N° de vínculos empregatícios     307    
  Um   142   46,3
  Dois   134   43,6
  Três ou +   31   10,1
Carga Horária Semanal     302    
  <40 horas   121   40,1
  >40 horas   181   59,9
Renda média/mês     268    
  Até 3 SM**   168   60,4
  De 4 a 7 SM   85   30,6
  ≥ 8 SM   25   9,0
Acidente de Trabalho     307    
  Sim   85   27,7
  Não   222   72,3
Ocupação     308    
  Aux.Enfermagem   80   26,0
  Tec.Enfermagem   143   46,4
  Enfermeira (o)   85   27,6

*respostas válidas, excluídas as respostas ignoradas;

**Salário mínimo de R$ 510,00.

Entre as queixas de saúde destacaram-se como as mais frequentes: dor nas pernas 66,4% (192), dor nas costas 61,8% (178), cansaço mental 47,0% (131), sonolência 36,6 % (101) e formigamento nas pernas 35,6% (100). Dentre os diagnósticos referidos desde que começaram a atuar como trabalhadores de enfermagem no hospital (Tabela 3), se destacaram: lombalgia 52,8% (163), varizes em membros inferiores 46,3% (143), infecção urinária 37,5 % (116) e hipertensão arterial 19,7% (61). Com exceção do cansaço mental, auxiliares e técnicos apresentaram frequências mais elevadas, tanto das queixas de saúde como dos diagnósticos referidos. A prevalência de transtorno mental comum (TMC) foi de 35,0% (99). Entre as (os) enfermeiras (os), a prevalência foi de 38,1% (32) e entre os técnicos de enfermagem 35,3% (47) e auxiliares de enfermagem 30,8% (20). O teste Cage triou 1,7% (05)de indivíduos como bebedores-problema. Entretanto, ao analisarmos a prevalência entre aqueles que informaram o uso de bebida alcoólica, observamos que 27,7% destes foram considerados bebedores-problema.

Tabela 3 - Características da situação de saúde dos trabalhadores de enfermagem de um hospital geral público da Bahia, Feira de Santana-BA, 2010 

Características da situação de saúde   N*   n   %
Queixas de Saúde            
  Alergias   276   98   35,5
  Nervosismo   276   93   33,7
  Dor nas costas   288   178   61,8
  Formigamento nas pernas   281   100   35,6
  Rinite   285   94   33,0
  Insônia   280   61   21,8
  Sonolência   276   101   36,6
  Dor nas pernas   289   192   66,4
  Dor nos braços   289   111   38,4
  Cansaço mental   279   131   47,0
Morbidade referida            
  Hipertensão   309   61   19,7
  Infecção urinária   309   116   37,5
  Lesão por esforços repetitivos   309   49   15,9
  Varizes dos membros inferiores   309   143   46,3
  Lombalgia   309   163   52,8
SRQ-20   283        
  Positivo       80   28,3
  Negativo       203   71,7
Cage   293        
  Positivo       5   1,7
  Negativo       288   98,3

*respostas válidas, excluídas as respostas ignoradas.

DISCUSSÃO

Os resultados apontaram que 59,7% (165) dos trabalhadores de enfermagem estudados, apresentavam mais de uma inserção de trabalho, o que pode acarretar sobrecarga de trabalho entre esses indivíduos. Esses resultados são maiores que os obtidos em outros estudos(1-4,6). Múltipla inserção acarreta prejuízos à atividade de enfermagem, haja vista a necessidade de tempo para interação entre profissional e paciente, acompanhamento e avaliação cotidiana dos mesmos, bem como para integração à instituição hospitalar e para atualização profissional (aquisição de conhecimentos, habilidades e atitudes).

Os trabalhadores de enfermagem do hospital estudado apresentaram uma remuneração obtida com o trabalho que pode ser considerada baixa. Esse fato, frente às especificidades do trabalho realizado pela categoria, pode estar relacionado com outras atividades, com dupla inserção, que pode indicar uma busca por ampliação da renda mensal, gerando uma sobrecarga de trabalho. Esses resultados assemelham-se aos de outros estudos(2-3,6,10).

Os resultados revelaram elevada carga horária de trabalho, baixa remuneração, mais de uma inserção de trabalho e vínculo de trabalho estabelecido por contrato temporário/precário. Esses resultados foram semelhantes aos obtidos em outros estudos com trabalhadores de enfermagem(2,5-6,10) e as condições de trabalho reveladas nesse estudo podem ser consideradas impróprias.

Entre os problemas de saúde, destacaram-se as queixas e diagnósticos de problemas mentais e posturais, que podem estar associados às características do trabalho de enfermagem: atender a pacientes, enfrentar a dor, o sofrimento a morte, excesso de trabalho, elevada responsabilidade, atividades de plantão e baixa remuneração(1-4,13-14).

A prevalência de "suspeitos" de TMC de 35,0%, aponta para uma situação de saúde mental preocupante na população estudada. A prevalência encontrada foi maior que a observada em outros estudos com trabalhadores de enfermagem(2-3,5) todavia prevalências superiores estão descritas na literatura(13). Estudo que analisou as novas relações de trabalho e as suas repercussões no desgaste físico e mental dos trabalhadores de saúde(15) afirma que a precarização das condições de trabalho tem repercussões na saúde mental, que é indissociável da saúde como um todo.

Verificou-se com relação ao sexo dos participantes, que houve uma predominância de trabalhadores do sexo feminino (90,9%), coincidindo com o perfil da profissão de enfermagem, onde há um predomínio de profissionais deste sexo, dados ratificados por estudos realizados tanto no Brasil como em outros países(16-17).

No presente estudo identificamos que as situações de alta demanda psicológica no trabalho apresentaram-se associadas a uma maior prevalência de "suspeitos" de TMC. Outros estudos também encontraram uma maior associação entre alta demanda psicológica e TMC(10,18-19). Segundo o modelo demanda-controle de Karasek(11), o trabalho realizado em condições de baixo controle e alta demanda (alta exigência) apresenta-se prejudicial à saúde dos trabalhadores.

Ressalta-se o grande número de profissionais em situação temporária de emprego, devendo-se chamar a atenção para o fato de a Constituição Federal de 1988 determinar que a investidura em cargo ou emprego público se dê por concurso público. Constituem-se exceção a esta regra os cargos em comissão, nomeados pelas autoridades competentes e os casos de contratação temporária para atenderem a necessidade de excepcional interesse público(20).

Faz-se necessário tecer algumas considerações metodológicas. Inicialmente devem-se apontar os limites dos estudos de corte transversal. O estudo de corte transversal examina a relação exposição-doença em uma dada população ou amostra, em um momento particular, fornecendo um retrato de como as variáveis estão relacionadas naquele momento. Por isso, esse tipo de estudo não estabelece nexo causal e apenas aponta a associação entre as variáveis estudadas. Além disso, esse estudo teve cunho exploratório, realizando apenas análises bivariadas(12). Outra limitação desse tipo de estudo é selecionar apenas os sobreviventes ao efeito estudado (viés de prevalência) o que é particularmente relevante em estudos ocupacionais, em decorrêcia do chamado efeito trabalhador sadio(10). Do ponto de vista do desenho, pode-se afirmar que o rigor metodológico do estudo buscou minimizar problemas inerentes ao seu desenho, ou seja, ao viés de seleção e aferição.

Em estudos que utilizam questionários autoaplicáveis, apresenta-se, como limitação, a opção do entrevistado de não responder a todas as questões colocadas, dificultando o controle das perdas de informação(12). Entretanto, a coerência e a consistência dos achados, apontam para condições laborais inadequadas dos trabalhadores de enfermagem no hospital estudado, bem como para uma alta prevalência de queixas de problemas mentais e posturais e de "suspeitos" de TMC.

O percentual de recusas ocorridas neste estudo foi considerado aceitável haja vista que estudos semelhantes com profissionais de saúde, a frequência de perdas ou recusas variou de 3,9% a 20,8%(3,5,10).

CONCLUSÃO

A existência no trabalho de enfermagem de condições desencadeadoras de sofrimento, estresse e ansiedade, é uma realidade não mais contestada. No entanto, as repercussões sobre a saúde desses trabalhadores, reconhecidamente expostos a fatores estressantes e ansiogênicos, ainda são pouco conhecidas. Os resultados desse estudo corroboram os de outros estudos com a mesma categoria de trabalhadores e com outras categorias de trabalhadores de saúde, bem como de outras profissões.

Espera-se que este trabalho possa fomentar novas investigações sobre as características e os riscos à saúde dos trabalhadores de enfermagem que exercem suas atividades laborais em hospitais gerais; e que estimule a implantação de um serviço de saúde do trabalhador no hospital estudado. Ressalta-se, por fim, que as condições de trabalho e saúde observadas apontam para a necessidade de mudanças na organização do trabalho de enfermagem.

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Recebido: 06 de Novembro de 2012; Aceito: 31 de Janeiro de 2014

AUTOR CORRESPONDENTE: Eder Pereira Rodrigues. E-mail: rodrigues.eder@gmail.com

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