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Revista Brasileira de Enfermagem

versão impressa ISSN 0034-7167versão On-line ISSN 1984-0446

Rev. Bras. Enferm. vol.68 no.5 Brasília set./out. 2015

http://dx.doi.org/10.1590/0034-7167.2015680516i 

PESQUISA

O absenteísmo - doença da equipe de enfermagem de um hospital universitário

El absentismo - la enfermedad de equipo de enfermería de un hospital universitario

Divina de Oliveira MarquesI 

Milca Severino PereiraII 

Adenícia Custódia Silva e SouzaII 

Vanessa da Silva Carvalho VilaII 

Carlos Cristiano Oliveira de Faria AlmeidaI 

Enio Chaves de OliveiraI 

IUniversidade Federal de Goiás, Faculdade de Medicina, Programa de Pós-Graduação em Ciências da Saúde. Goiânia-GO, Brasil.

IIPontifícia Universidade Católica de Goiás, Programa de Pós-Graduação em Atenção à Saúde. Goiânia-GO, Brasil.

RESUMO

Objetivo:

analisar o absenteísmo-doença da equipe de enfermagem.

Método:

estudo retrospectivo, com abordagem quantitativa, realizado em um hospital universitário, localizado no município de Goiânia, Goiás, Brasil. Os dados foram coletados nos dossiês funcionais dos trabalhadores referentes ao período de 2008 a 2012.

Resultados:

dos 602 trabalhadores, 435 apresentaram 1574 atestados médicos. As doenças do sistema osteomuscular e do tecido conjuntivo, seguidas dos transtornos mentais e comportamentais foram as principais causadoras de licenças médicas. A categoria profissional que apresentou maior número de atestados médicos foi a de técnico em enfermagem. Predominou o sexo feminino e a faixa etária de 41 a 50 anos. O ambulatório foi o local com maior frequência, seguido da clínica médica e do Pronto Socorro.

Conclusão:

o absenteísmo-doença compromete o funcionamento do serviço, a equipe de enfermagem e os usuários, promove uma sobrecarga de trabalho e interfere na qualidade da assistência de enfermagem.

Descritores: Absenteísmo; Equipe de Enfermagem; Trabalhadores

RESUMEN

Objetivo:

analizar el absentismo-enfermedad del personal de enfermería.

Método:

se trata de un estudio retrospectivo, con abordaje cuantitativo de un hospital universitario de la ciudad de Goiânia, Goiás, Brasil. Se recogieron datos sobre expedientes trabajadores funcionales para el período 2008 a 2012.

Resultados:

se encontró que de los 602 trabajadores, 435 tenían 1.574 certificados médicos. Las enfermedades del sistema osteomuscular y del tejido conjuntivo, seguidos por los trastornos mentales y del comportamiento eran las principales enfermedades de la licencia por enfermedad. La ocupación con mayor número de certificados médicos era el técnico de enfermería. Prevaleciente mujeres y el grupo de edad 41-50 anos. El ambulatorio fue el sitio con mayor frecuencia, seguido de la clínica médica y la sala de emergencias.

Conclusión:

el absentismo-enfermedad afecta a la operación del servicio, el personal de enfermería y los usuarios, promueve una sobrecarga de trabajo e interfieren con la calidad de los cuidados de enfermería.

Palabras clave: Absentismo; Grupo de Enfermería; Trabajadores

INTRODUÇÃO

Diante dos impactos causados pelas mudanças de valores no mundo moderno e globalizado, do processo de reestruturação produtiva, iniciado nos anos 90, o perfil do trabalho e dos trabalhadores modificou-se para se adaptar às inovações tecnológicas com os novos modelos gerenciais de qualidade estabelecidos. Juntamente com isso houve intensificação do trabalho decorrente do aumento do ritmo, das responsabilidades e da complexidade das tarefas, trazendo também o aumento do desemprego, do trabalho informal, mudanças nas formas de trabalho e dos determinantes do processo saúde-doença(1).

Entende-se que algumas atividades podem desencadear ansiedade, insatisfação, estresse, tensão gerando ausências não justificadas ou justificadas por licenças médicas, denominadas absenteísmo(2).

De acordo com a Organização Internacional do Trabalho (OIT), o absenteísmo consiste na prática de um trabalhador não comparecer ao trabalho por um período de um ou mais dias (ou turnos), quando tiver sido atribuído a ele, o dia de trabalho(3).

O absenteísmo é considerado problema em todas as áreas de atuação porque a ausência de um trabalhador impacta de forma negativa na dinâmica da produção laboral, causando déficit de pessoal e, consequentemente, diminuindo a produção quantitativa e qualitativamente^. Além disso, o absenteísmo produz impactos financeiros, causando custos associados aos próprios ausentes (benefícios, salários); custos associados ao gerenciamento dos problemas ocasionados pelo absenteísmo; custos de funcionários substitutos com horas extras, contratação de substitutos; custos da redução da quantidade ou qualidade do trabalho(4).

No contexto hospitalar, os profissionais de enfermagem merecem destaque, pois constituem o maior contingente de trabalhadores da área da saúde. A enfermagem é considerada uma profissão fatigante e tensa, em decorrência do contato com o sofrimento e com a morte, das jornadas de plantão, da aceleração dos ritmos de trabalho, da polivalência do profissional e do esforço musculoesquelético para a realização do cuidado, entre outros(5).

Considera-se importante aprofundar o debate acerca do ab-senteísmo-doença no serviço de enfermagem, tendo como entendimento a sua repercussão no cotidiano institucional, pela ausência dos trabalhadores no processo de trabalho, mediante falta justificada por atestado médico. Frente a isso, emergiram os seguintes questionamentos: como se apresenta o fenômeno do absenteísmo-doença no contexto da enfermagem? Quais são seus atributos e características?

O objetivo do estudo foi analisar o absenteísmo-doença apresentado por profissionais da equipe de enfermagem em um hospital universitário.

MÉTODO

Estudo retrospectivo, de abordagem quantitativa, desenvolvido no período de novembro de 2008 a outubro de 2012, em um hospital universitário, localizado no município de Goiânia, Goiás, Brasil. A instituição possui 310 leitos para atendimento aos usuários do Sistema Único de Saúde (SUS) nos níveis de atenção de baixa, de média e de alta complexidade.

No período do estudo, o quadro de pessoal era constituído por 2.493 trabalhadores de vários vínculos empregatícios e cargos, sendo 989 do quadro permanente. Destes, 602 eram da equipe de enfermagem. Os dador foram coletados nos dossiês da equipe de enfermagem, assim distribuídos: 127 enfermeiros, 381 técnicos de enfermagem e 94 auxiliares de enfermagem.

A amostra selecionada para o estudo foi composta por 435 dossiês funcionais de trabalhadores da equipe de enfermagem, pertencentes ao quadro permanente da instituição, que apresentaram pelo menos uma ausência no trabalho, justificada por atestado médico no período de 01/11/2008 a 31/10/2012.

Foram excluídos os dossiês funcionais de trabalhadores que apresentaram atestados médicos tendo como causa de afastamento: licença-maternidade, adoção, licença odontológica, licença de acompanhamento a parentes ou falecimento de familiares, prontuários de trabalhadores da equipe de enfermagem que se encontravam à disposição de outros órgãos durante o período em estudo.

A coleta de dados foi realizada na Assessoria de Gerenciamento de Pessoal (AGP) e no Serviço Médico (SM), no período de janeiro a junho de 2013.

Os dados foram registrados em formulário contendo as seguintes variáveis: nome, sexo, idade, lotação, Código Internacional de Doenças (CID), cargo e dias de afastamento. Os diagnósticos médicos foram decodificados e agrupados. As situações de afastamento por doença foram organizadas com base na Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relativos à Saúde - CID10(6).

Foi consultado o livro de assentamento da AGP, que contém os dados referentes ao nome, cargo, lotação, empregador e período de afastamento. Nos dossiês funcionais foi investigada a troca de setores, os dados dos atestados médicos e outros documentos do serviço médico.

A duração do absenteísmo foi calculada em dias, a partir da data de início e final dos atestados médicos consultados. Os dados foram apresentados em frequências absolutas e relativas. Para análise, foi utilizado o programa Statistical Package for the Social Sciences-SPSS, versão 18.0 for Windows®. Para garantir o anonimato dos trabalhadores, cada dossiê analisado recebeu uma codificação numérica.

O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Goiás, protocolo n° 01749412.7.0000.5078. A pesquisa foi autorizada pela Diretoria de Gestão de Pessoas, Diretoria de Enfermagem e Diretoria do Serviço Médico da Instituição.

RESULTADOS

Dos 602 trabalhadores da equipe de enfermagem, 443 (73,6%) utilizaram o atestado médico para justificar sua ausência no trabalho; destes, 8 não foram encontrados, sendo analisados 435 dossiês funcionais.

Dos 435 trabalhadores da equipe de enfermagem que fizeram uso de atestado médico, 92,9% eram do sexo feminino, 7,1% do sexo masculino; a faixa etária em que se concentrou o maior número de trabalhadores foi de 41 a 50 anos, com 35,9%. Técnico de enfermagem foi a categoria que apresentou maior número de atestados (Tabela 1).

Tabela 1 Distribuição dos trabalhadores de enfermagem (N=435), por sexo, faixa etária, e categoria profissional, Goiânia, Goiás, Brasil, 2014 

Variáveis   n %
Sexo
  Masculino 31 7,1
  Feminino 404 92,9
Faixa etária
  De 21 a 30 anos 44 10,1
  De 31 a 40 anos 132 30,3
  De 41 a 50 anos 156 35,9
  De 51 a 60 anos 94 21,6
  De 61 anos acima 9 2,1
Categoria profissional
  Enfermeiro 83 19,1
  Técnico de enfermagem 284 65,3
  Auxiliar de enfermagem 68 15,6

As patologias com maior incidência foram as doenças do sistema osteomuscular e do tecido conjuntivo, com 310 (19,70%) ocorrências, e os transtornos mentais e comportamentais com 284 (18,04%) (Tabela 2).

Tabela 2 Agrupamentos das doenças apresentadas nos atestados médicos dos profissionais de enfermagem (N=435) conforme Código Internacional de Doenças (CID 10), Goiânia, Goiás, Brasil, 2014 

Agrupamento de doenças - CID 10 Total
n %
Doenças do sistema osteomuscular e do tecido conjuntivo 310 19,70
Transtornos mentais e comportamentais 284 18,04
Lesões, envenenamentos e algumas outras consequências de causas externas 132 8,39
Fatores que influenciam o estado de saúde e o contato com os serviços de saúde 116 7,37
Doenças do aparelho respiratório 100 6,35
Doenças do aparelho circulatório 79 5,02
Doenças do aparelho geniturinário 74 4,70
Doenças do aparelho digestivo 73 4,64
Gravidez, parto e puerpério 64 4,07
Sintomas, sinais e achados anormais de exames clínicos e de laboratório, não classificados em outra parte 60 3,81
Doenças do olho e anexos 58 3,68
Neoplasias 52 3,30
Doenças infecciosas e parasitárias 39 2,48
Doenças do sistema nervoso 30 1,91
Doenças da pele e do tecido subcutâneo 27 1,72
Doenças do ouvido e da apófise mastoide 19 1,21
Doenças endócrinas, nutricionais e metabólicas 15 0,95
Malformações congênitas, deformidades e anomalias cromossômicas 8 0,51
Doenças do sangue e dos órgãos hematopoiéticos e alguns transtornos imunitários 6 0,38
SEM CID* 28 1,78
Total 1574 100,0

A Tabela 3 apresenta as principais categorias de doenças que se destacaram nos atestados médicos, com evidência para as dorsalgias, Lesões por Esforços Repetitivos (LER), depressão, transtorno bipolar e estresse.

Tabela 3 Principais categorias de doenças apresentadas nos atestados médicos dos profissionais de enfermagem (N=435) conforme Código Internacional de Doenças (CID 10), Goiânia, Goiás, Brasil, 2014 

Categorias de Doença - CID 10 Auxiliar de Enfermagem Técnico de Enfermagem Enfermeiro Total
  n % n % n % n %
Dorsalgia 20 1,3 76 4,8 10 0,6 106 6,7
Episódios depressivos 14 0,9 48 3,0 16 1,0 78 5,0
Transtorno depressivo recorrente 6 0,4 46 2,9 9 0,6 61 3,9
Transtorno afetivo bipolar 11 0,7 27 1,7 1 0,1 39 2,5
Sinovite e tenossinovite 12 0,8 17 1,1 5 0,3 34 2,2
Outros transtornos ansiosos 3 0,2 29 1,8 1 0,1 33 2,1
Outros transtornos de discos intervertebrais 2 0,1 22 1,4 6 0,4 30 1,9
Reações ao "stress" grave e transtornos de adaptação 7 0,4 19 1,2 1 0,1 27 1,7
Lesões do ombro 11 0,7 9 0,6 3 0,2 23 1,5
Luxação, entorse e distensão das articulações e dos ligamentos ao nível do tornozelo e do pé 3 0,2 14 0,9 5 0,3 22 1,4
Total 89 5,7 307 19,5 57 3,6 453 28,8

Na Tabela 4 estão registrados os locais de trabalho onde os servidores da equipe de enfermagem estavam lotados quando se ausentaram por motivo de doença.

Tabela 4 Distribuição de atestados (N= 1574) por categoria profissional e serviços, Goiânia, Goiás, Brasil, 2014 

Lotação Auxiliar de Enfermagem Técnico de Enfermagem Enfermeiro TOTAL
n % n % n % n %
Ambulatório 66 4,2 110 7,0 25 1,6 201 12,8
Clínica Médica 17 1,1 134 8,5 26 1,7 177 11,2
Pronto Socorro 15 1,0 111 7,1 17 1,1 143 9,1
CME 25 1,6 85 5,4 29 1,8 139 8,8
Hemodiálise 16 1,0 96 6,1 9 0,6 121 7,7
Clínica Cirúrgica 4 0,3 80 5,1 16 1,0 100 6,4
Centro Cirúrgico 14 0,9 64 4,1 7 0,4 85 5,4
Clínica Pediátrica 18 1,1 53 3,4 12 0,8 83 5,3
UTI Cirúrgico 0 0,0 62 3,9 15 1,0 77 4,9
SERUPE 13 0,8 40 2,5 23 1,5 76 4,8
Clínica Tropical 10 0,6 43 2,7 21 1,3 74 4,7
Maternidade 5 0,3 26 1,7 11 0,7 42 2,7
UTI Médica 0 0,0 34 2,2 7 0,4 41 2,6
Clínica Obstétrica 4 0,3 22 1,4 12 0,8 38 2,4
UTI Neo 0 0,0 20 1,3 6 0,4 26 1,7
Clínica Ortopédica 9 0,6 11 0,7 1 0,1 21 1,3
Vigilância Epidemiológica 12 0,8 8 0,5 0 0,0 20 1,3
Serviços Multiprofissionais* 31 2,0 56 3,6 23 1,5 110 7,0
Total 259 16,5 1055 67,0 260 16,5 1574 100

*Nota:Nessa categoria foram agrupados os setores que apresentaram menos de 20 atestados no período estudado e compreendem os seguintes setores: Acolhimento, Serviço de Controle de Infecção Hospitalar, Centro de Referência em Oftalmologia, Núcleo de Neurociências, Compras, Coord. Pessoal, Costura, Diretoria, End. Digestiva, Fisiatria, Fonoaudiologia, Hemodinâmica, Higienização, Lab. Clínico, Núcleo Interno de Regulação, Quimioterapia, Reprodução Humana, RX, Serv. Social e Urgência Pediátrica.

Quando à faixa etária dos trabalhadores que estavam lotados nos setores que apresentaram o maior número de atestados médicos, os profissionais do ambulatório tinham entre 51 a 60 anos, os profissionais da clínica médica, 41 anos e os do pronto socorro, 50 anos.

DISCUSSÃO

Este estudo mostra a predominância do sexo feminino no absenteísmo com 92,9% dos casos, o que se justifica pelo perfil do trabalhador de enfermagem ser formado predominantemente por mulheres. Destaca-se, também, que nos quatro anos investigados, 73,6% dos profissionais faltaram ao trabalho com apresentação de atestado médico, atinentes somente às justificativas de adoecimento.

O absenteísmo feminino também é influenciado pelo fato de que a maioria das mulheres inseridas no mercado de trabalho serem responsáveis pelas atividades domésticas e pelos cuidados com os filhos. Geralmente, chegam ao serviço cansadas pelos afazeres realizados em casa, adoecendo com maior frequência e faltando mais ao trabalho(7). Estudos recentes relatam que as mulheres, em média, procuram o serviço de saúde 1,9 vezes mais do que o homem(8).

Os dados demonstram que, independente do sexo, a maior frequência de afastamentos foi registrada na faixa etária de 41 a 50 anos (35,9%), seguida de 31 a 40 anos (30,3%). Constatou-se que 59,5% dos trabalhadores que apresentaram atestados tinham acima de 40 anos de idade.

Estudo realizado com servidores municipais de Goiânia, no período de 2005 a 2010, num quadro de efetivos de 28.230 servidores, dos quais 47,5% tiveram pelo menos uma licença médica no período, foram registradas 40.578 licenças médicas para tratamento de saúde, concedidas a 13.408 servidores que se ausentaram 944.722 dias. O perfil dos servidores licenciados relativo ao primeiro afastamento, caracterizou-se por predomínio de mulheres (52,0%) e idade superior a 40 anos (55,9%)(9).

Os técnicos e auxiliares de enfermagem foram os profissionais que mais apresentaram atestados médicos, 81% do total de trabalhadores da equipe de enfermagem. Este dado é preocupante, pois esses profissionais representam o maior contingente da força de trabalho da equipe de enfermagem. Suas ausências comprometem a assistência prestada e, consequentemente, desestruturam a equipe por gerar sobrecarga de atividades aos demais trabalhadores.

A maior ocorrência de absenteísmo entre técnicos e auxiliares de enfermagem pode estar relacionada à menor remuneração, menor exigência de instrução técnico-científica e à maior necessidade de esforço físico na execução do cuidado ao paciente(10).

As principais doenças motivadoras de afastamento dos trabalhadores da equipe de enfermagem foram as doenças do sistema osteomuscular e do tecido conjuntivo com 310 atestados (19,70%), seguidas por transtornos mentais e comporta-mentais, com 284 atestados (18,04%).

A Organização Mundial de Saúde (OMS) designou o decênio de 2000 a 2010 como a década do osso e da articulação, devido ao número crescente das doenças e lesões osteomus-culares que incidem na população mundial. Estima-se que, para o ano de 2015, estas serão as causas de maiores gastos com saúde e um dos motivos mais frequentes de absenteísmo laboral e de invalidez permanente(11).

Estudo realizado com enfermeiros de Ibadan, no sudoeste da Nigéria, demonstrou que 84,4% deles tiveram doenças osteomusculares relacionadas ao trabalho (DORT) uma vez ou mais na vida profissional. Detectou-se também que os enfermeiros com mais de 20 anos de experiência clínica tinham cerca de quatro vezes mais probabilidade de desenvolver DORT do que aqueles com 11 a 20 anos de experiência(12).

Devido às características do trabalho desenvolvido pela equipe de enfermagem e o grande risco de desenvolver doenças osteomusculares, é necessário adequar o ambiente de trabalho, visando amenizar os riscos para a saúde desse trabalhador.

A segunda doença apresentada nesse estudo como responsável pelo afastamento dos trabalhadores foi os Transtornos Mentais e Comportamentais (TMC) com 284 (18,04%) dos casos. Destacaram-se os episódios depressivos, transtornos bipolares e estresse.

Quanto às doenças mentais, os transtornos do humor responderam por boa parte dos afastamentos. Isto ratifica outros estudos que apontam os problemas depressivos como maior causa de absenteísmo(9,13). A maioria da população estudada atua na prestação de serviço direto à população, na saúde. Essa atuação é caracterizada por altas demandas psicológicas, baixo suporte social e controle sobre o trabalho, associada ao maior risco de licenças por morbidades psiquiátricas.

Na União Europeia, os TMC estão entre os principais fatores relacionados ao absenteísmo, principalmente os casos de depressão, ansiedade e distúrbios associados ao estresse. Em um estudo de coorte de 9.904 trabalhadores na Dinamarca, foi observado risco aumentado de recorrência de absenteísmo no grupo de empregados com episódios prévios de absenteísmo devido aos TMC(13).

O profissional de enfermagem convive constantemente com a dor, o sofrimento e a morte. Essas condições podem levá-lo a desenvolver doenças psiquiátricas. No que diz respeito à relação entre estresse e trabalho, constata-se que o ser humano se depara com um universo profissional que, frequentemente, faz exigências além da sua capacidade na sociedade contemporânea. Tal fato gera um constante estado de estresse entre os trabalhadores. Trata-se do estresse de caráter ocupacional. As doenças surgem quando a capacidade do indivíduo se esgota para responder ao trabalho de forma saudável. O estresse é reconhecido como um dos riscos mais sérios ao bem-estar psicossocial do indivíduo(14).

Ao mapear os setores em que ocorreu absenteísmo-doen-ça, o ambulatório apareceu como a unidade que apresentou o maior número de atestados, com 201(12,8%) casos. Embora o ambulatório seja considerado uma unidade onde é exigido menor esforço físico do trabalhador, esse resultado pode ser explicado pelo fato de ser o setor do hospital para o qual são remanejados trabalhadores com restrições de atividades no trabalho. No período da pesquisa, trabalhadores lotados no ambulatório, que apresentaram absenteísmo por doença, tinham, em sua maioria, idade acima de 51 anos de idade. Realizavam atividades insalubres, manipulação de substâncias, exames especializados, entre outros procedimentos.

O segundo e terceiro locais que apresentaram número significativo de atestados médicos foram a Clínica Médica com 177 (11,2%) e o Pronto Socorro com 143 (9,1%) casos. São locais onde é exigido grande esforço físico por parte do trabalhador, tais como: grande número de atividades, existência de pacientes dependentes, convívio diário com a morte, causando desgaste físico e emocional(7).

Estudo(7) registra que os setores que apresentaram os maiores índices de licença médica, foram: Clínica Médica e UTI. Essas diferenças podem ser explicadas pelas características do trabalho nessas unidades. O ambiente é tenso, com o manejo de situações intensas e penosas, podendo contribuir para os transtornos de ordem física, química e psicológica. Isto aumenta os riscos de agravos à saúde e afastamentos do trabalho.

Conforme estudo realizado em UTI(15), o trabalho no ambiente hospitalar caracteriza-se pela exposição ao desgaste físico e emocional, decorrente da convivência diária com a angústia e o sofrimento dos clientes e familiares. Isto foi percebido como fator contribuinte para o absenteísmo dos profissionais de enfermagem.

É imprescindível que os profissionais de saúde, em especial os enfermeiros, por serem os profissionais que lideram as equipes, busquem medidas voltadas à prevenção do absen-teísmo. Conhecer o ambiente laboral pode colaborar para a implementação de ações preventivas voltadas para a saúde dos trabalhadores, reduzindo o sofrimento físico, psíquico e social, bem como os custos(16).

Recomenda-se que sob a liderança do enfermeiro sejam realizadas atividades de promoção de um trabalho educativo, com foco na prevenção e com vistas à conscientização dos profissionais. Deve-se incentivar novos hábitos de vida, por meio de palestras preventivas, planejamento de exercícios laborais no ambiente de trabalho com o auxílio do profissional educador físico. Podem ser instituídas pausas nas atividades e intervenção nos postos de trabalho para detectar possíveis riscos. Estar atento ao bem-estar físico e emocional da equipe no ambiente de trabalho é uma atribuição do líder(16).

Outra estratégia mencionada pela literatura é o uso das práticas alternativas como medidas para aliviar o estresse. A acupuntura e a auriculoterapia são algumas dessas técnicas indicadas por seus praticantes como de bom efeito e com positivo resultado terapêutico. Dentre os benefícios dessas técnicas, estão a diminuição da ansiedade, do estresse e uma significativa melhoria nos transtornos generalizados de ansiedade(17).

Salienta-se que o presente estudo é um importante instrumento para o planejamento das ações das equipes do Subsistema Integrado de Assistência à Saúde do Servidor (SIASS). Seus objetivos são organizar as ações e os programas de promoção à saúde, prevenção de doenças e fazer o acompanhamento da saúde dos servidores federais, visando à assistência à saúde(18). As ações das unidades do SIASS já estão destacadas na literatura(19).

CONCLUSÃO

Este estudo identificou que a saúde dos trabalhadores da equipe de enfermagem está comprometida, pois 73,6% deles apresentaram atestados por motivação de adoecimento. Constatou-se o predomínio de profissionais acima de 40 anos, com prevalência das doenças do sistema osteomuscu-lar, transtornos mentais e do comportamento. As categorias de doenças com maior frequência foram dorsalgia, depressão, transtorno depressivo recorrente e transtorno afetivo bipolar. Pela especificidade da gestão local, o ambulatório registrou os maiores índices de absenteísmo. Os resultados encontrados fundamentam a recomendação de estratégias de cuidado para os trabalhadores da instituição, que poderão ser aplicáveis a outros estabelecimentos prestadores de serviços de saúde.

Algumas medidas importantes para a superação do cenário analisado são: identificar os riscos inerentes ao ambiente de trabalho e estabelecer intervenções preventivas; criar um serviço de ginástica laboral; oferecer suporte terapêutico aos profissionais; realizar encontros periódicos com os profissionais da psicologia no intuito de discutir, refletir e compreender melhor o processo de sofrimento e morte vivenciados no ambiente de trabalho; realizar um estudo ergonômico dos locais de trabalho, com foco no planejamento e implementação de medidas preventivas.

Os resultados trazem indicadores de fragilidades no mundo do trabalho, que possibilitarão aos gestores estabelecer ações para combater os agravos que envolvem o absenteísmo e, consequentemente, a sua redução. Além disso, pode contribuir para a discussão das implicações ético-profissionais das práticas cotidianas da equipe de enfermagem e das estratégias para o enfrentamento dos desafios postos pelo processo de trabalho.

As instituições hospitalares normalmente focam a sua prioridade no atendimento ao doente, muitas vezes se esquecendo da saúde dos profissionais que executam o trabalho. É importante adotar políticas e ações de saúde que tenham o trabalhador como foco, com vistas a assegurar a promoção da saúde e a prevenção de agravos ocupacionais, de modo a garantir a qualidade da assistência prestada ao paciente.

Como citar este artigo:

Marques DO, Pereira MS, Souza ACS, Vila VSC, Almeida CCOF, Oliveira EC. Absenteeism – illness of the nursing staff of a university hospital. Rev Bras Enferm. 2015;68(5):594-600.

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Recebido: 04 de Setembro de 2014; Aceito: 09 de Julho de 2015

AUTOR CORRESPONDENTE: Divina de Oliveira Marques. E-mail: divinaoliveiramarques@yahoo.com.br

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