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Revista Brasileira de Enfermagem

versão impressa ISSN 0034-7167versão On-line ISSN 1984-0446

Rev. Bras. Enferm. vol.68 no.6 Brasília nov./dez. 2015

http://dx.doi.org/10.1590/0034-7167.2015680610i 

PESQUISA

Concepções de profissionais de enfermagem de nível médio perante o dependente químico

Concepciones de técnicos y auxiliares de Enfermería frente al dependiente químico

Divane de VargasI 

Marina Nolli BittencourtI 

Anna Carolina Oliveira SilvaII 

Janaína SoaresI 

Erika Gisseth Leon RamirezI 

IUniversidade de São Paulo, Escola de Enfermagem, Programa de Pós-Graduação em Ciências da Saúde. São Paulo-SP, Brasil.

IIUniversidade de São Paulo, Faculdade de Medicina, Hospital das Clínicas. São Paulo-SP, Brasil.

RESUMO

Objetivo:

descrever e compreender as concepções dos profissionais de nível médio em enfermagem dos Centros de Atenção Psicossocial álcool e drogas (CAPS ad), perante o dependente químico.

Método:

foram entrevistados 16 auxiliares e técnicos de enfermagem de 9 CAPS ad do município de São Paulo, e os dados foram analisados utilizando-se o método de comparação constante.

Resultados:

o desempenho das funções no CAPS ad possibilitou a mudança de concepção dos trabalhadores, de uma visão estigmatizante e preconceituosa, para a concepção da dependência química como doença e dos dependentes químicos como pessoas doentes que possuem comorbidades e problemas familiares, que necessitam de auxílio e tratamento.

Conclusão:

a prática profissional em serviços especializados em álcool e outras drogas favorece a mudança nas concepções dos trabalhadores sobre o dependente químico, destacando-se a necessidade da inclusão do tema álcool e drogas no currículo escolares.

Descritores: Equipe de Enfermagem; Transtornos Relacionados ao Uso de Substâncias; Serviços de Saúde Mental

RESUMEN

Objetivo:

describir y comprender las concepciones de técnicos y auxiliaries de Enfermería de los Centros de Atención Psicosocial alcohol y drogas (CAPS ad), frente al dependiente químico.

Método:

fueron entrevistados 16 auxiliares y técnicos de enfermería de 9 CAPS ad del municipio de São Paulo, los datos fueron analisados utilizando el método de comparación constante.

Resultados:

el desempeño de las funciones en el CAPS ad facilitó el cambio de la concepción de los trabajadores, de una vision estigmatizante y prejuiciosa, hacia una comcepción de la dependencia química como una enfermerdad, y de los dependientes químicos como personas enfermas que poseen co-morbilidades y problemas familiars, que necesitan de auxilio y tratamiento.

Conclusión:

la práctica professional en servicios especializados en alcohol y otras drogas favorece el cambio en las concepciones de los trabajadores sobre el dependiente químico, destacandose la necesidad de la inclusion del tema de alcohol y drogas en los curriculos escolares.

Palabras clave: Grupo de Enfermería; Trastornos Relacionados con Sustancias; Servicios de Salud Mental

INTRODUÇÃO

Conforme o I e o II Levantamentos Nacionais sobre uso de álcool no Brasil (LENAD I, II), realizados nos anos de 2006 e 2012, o consumo de álcool entre a população brasileira teve mudanças significativas no que se refere ao padrão de uso. No ano de 2006, 71% dos usuários de álcool declararam ingerir até 4 doses de bebida alcoólica em uma única ocasião, e 29% declararam beber 5 doses ou mais. Em 2012, a proporção observada daqueles que bebem 5 doses ou mais passou para 39%, crescendo tanto entre homens quanto entre as mulheres. Esses levantamentos também situam o álcool como a droga mais usada na vida e com maior número de pessoas com uso nocivo e dependência(1-2).

Para atender às necessidades de saúde desse número crescente de pessoas com problemas relacionados ao uso de álcool e outras drogas, em 2002 foram criados, em todo o território nacional, os Centros de Atenção Psicossocial álcool e outras drogas (CAPS ad). Surgiram com o advento da Reforma Psiquiátrica, compondo a rede de atenção primária ao atendimento a pacientes com transtornos decorrentes do uso e dependência de substâncias psicoativas(3).

Além da criação dos CAPS, a nova política regulamentou a equipe mínima que deve compor esses centros, dentre os quais a equipe de enfermagem, formada por enfermeiro, técnicos e auxiliares de enfermagem(3). Isso significou uma ampliação do espaço para inserção desses trabalhadores no cuidado às pessoas com problemas relacionados ao álcool e outras drogas no País.

Entretanto, apesar de os profissionais de nível médio em enfermagem estarem inseridos no contexto de atenção ao dependente químico nos CAPS ad, existe uma lacuna na literatura nacional referente às práticas, atitudes e concepções desses profissionais perante o dependente químico, sendo mais evidentes os estudos que avaliaram essas questões entre estudantes de enfermagem e o profissional enfermeiro(4).

A ausência de estudos envolvendo essa população merece atenção, principalmente quando se considera que a equipe de enfermagem constitui o maior contingente de trabalhadores de saúde na maioria dos CAPS ad. Portanto, são esses profissionais que podem estabelecer as pontes com o intuito de promover vínculos entre os demais profissionais e os pacientes e ter uma apreciação mais integral do seu estado e evolução(5).

Há evidências na literatura de que, apesar do grande potencial desses trabalhadores de enfermagem para identificar e orientar os usuários sobre o consumo e abuso de álcool, atuando na identificação e manejo dos problemas relacionados ao álcool e alcoolismo, e de seu contato direto e ininterrupto com essa população, eles ainda são um recurso subutilizado nos serviços de saúde(6).

Por outro lado, estudos mostraram que, dentre os profissionais de saúde, os profissionais de enfermagem de nível médio são aqueles que detêm a visão mais negativa dos pacientes com problemas relacionados ao álcool(7) e que mais concordam com a etiologia moral da dependência(8). Enfermeiros mostram maior preconceito em relação ao dependente de substâncias psicoativas quando comparado aos demais profissionais e trabalhadores desses serviços(8).

De modo geral, observa-se que, dos poucos estudos que envolvem esses trabalhadores(5-8), a maioria se ocupou em investigar visões, representações e atitudes desses, tendo como foco o paciente alcoolista(5-7).

Assim, considerando-se a escassez de pesquisas sobre a temática e o preponderante papel que esses profissionais desempenham nos serviços especializados em álcool e outras drogas, este estudo teve como objetivos descrever e compreender as concepções dos profissionais de nível médio em enfermagem, que atuam em serviços especializados em álcool e outras drogas, sobre o dependente químico.

MÉTODO

Para descrever a percepção dos trabalhadores de enfermagem de nível médio sobre o dependente químico e visando obter as vivências pessoais e profissionais desses sujeitos, optamos pela abordagem qualitativa baseada no método de comparação constante. Adotou-se esse referencial teórico metodológico porque permite enfatizar a "compreensão do fenômeno tal como ele emerge dos dados, e não em embasamentos, conceitos e teorias do pesquisador"(9), de forma que o delineamento das conexões entre os dados prima por explicações precisas dos fatos e da cena social onde elas ocorrem.

Durante o trabalho, tomaram-se várias medidas para garantir o rigor da investigação: triangulação dos dados, sessões regulares de discussões entre os autores para codificação dos dados, uso comparativo das anotações feitas pelos autores durante as entrevistas, e discussões dos dados, considerando-se o cenário e as políticas institucionais dos CAPS ad. Buscou-se garantir também, durante todo o processo de análise dos dados, um modelo que melhor se adequasse à interpretação dos dados.

Sujeitos do estudo

Foram realizadas entrevistas semiestruturadas com 16 profissionais de enfermagem de nível médio (9 auxiliares e 7 técnicos de enfermagem) que atuavam nos CAPS ad da cidade de São Paulo e que aceitaram participar do estudo. O número de sujeitos foi determinado pela saturação dos dados, ou seja, suspendeu-se a participação de novos sujeitos, quando os dados passaram a apresentar uma certa redundância ou repetição(9).

Coleta dos dados

A coleta de dados se deu no período de outubro a dezembro de 2010. As entrevistas duraram em torno de 30 minutos, foram gravadas com aquiescências dos sujeitos e se deram nos CAPS ad em local reservado, permitindo um ambiente calmo e sem ruídos, onde não houvesse interrupções. As falas foram transcritas na íntegra e optou-se por referenciar os participantes no corpo do trabalho pela letra E, seguida pelo número da entrevista, com vistas a garantir o anonimato. A entrevista foi norteada pela questão: "Quem é o dependente químico, para você?". Ao final de cada entrevista, era perguntado ao sujeito se havia mais alguma informação ou comentário sobre sua experiência com os dependentes químicos que ele gostaria de mencionar.

Análise dos dados

Os dados foram analisados utilizando-se o método de comparação constante(9). Nesse processo, os resultados das discussões dos autores e as anotações feitas durante cada entrevista constituem componentes essenciais da análise. Depois de transcritas, as entrevistas foram codificadas e comparadas. Após a codificação das concepções dos sujeitos, a análise dos dados focou a sua reconstrução, a partir da sua realidade como trabalhadores de enfermagem de nível médio dos CAPS ad, quando foram isoladas as características comuns relacionadas a esses dados.

Aspectos éticos

Este projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa com seres humanos da Secretaria Municipal de Saúde de São Paulo.

RESULTADOS

Em relação aos dados sociodemográficos dos sujeitos do estudo, 57,89% atuava como técnico de enfermagem, 79% era do sexo feminino e 50% estava na faixa etária entre 31 e 39 anos. De acordo com a formação, 57,89% tinha estudado em escola privada e, no que se refere ao tempo de atuação desses profissionais, 50% atuava na profissão entre 1 ano e 1 ano e 5 meses. Em relação ao preparo para atuar com dependentes químicos durante o curso de formação como profissional de enfermagem, 52,63% dos entrevistados referiu não o ter recebido.

O significado pessoal que os trabalhadores de nível médio dos CAPS ad estudados conferiram ao dependente químico reflete-se em duas concepções principais que emergiram dos dados: o dependente químico como um doente que necessita de auxílio e tratamento, e a mudança da concepção com o dependente químico, após o trabalho. Essas concepções e suas inter-relações são apresentadas na sequência.

O dependente químico como um doente que necessita de auxílio e tratamento

Vários profissionais apontaram o dependente químico como um doente que necessita de tratamento e auxílio de familiares, amigos e profissionais para sua recuperação. A concepção de que o dependente químico é uma pessoa doente prevalece na fala dos profissionais entrevistados e é fundamental para o trabalho dos técnicos e auxiliares de enfermagem nesses serviços, já que permite a todos eles reconhecer a necessidade do tratamento especializado e do cuidado técnico.

Como um paciente, ele é uma pessoa doente, não é uma pessoa diferente das outras que procuram um serviço médico. (E.13)

O dependente químico é um doente, uma pessoa que tem uma doença e que está procurando uma cura. (E.15)

Compreendo e sei que é um doente, a gente entende mesmo que é um doente. (E.2)

Na minha visão é isso, eles são doentes que precisam de cuidados, assim como em qualquer outra doença. (E.4)

Ele é uma pessoa doente, que precisa de atenção, de medicação, de acompanhamento. (E.7)

Acho que quem trabalha nessa área, se não entender como doença, não tem condições de trabalhar. (E.12)

Alguém que precisa de ajuda, precisa realmente dos técnicos, precisa da enfermagem, precisa ser reintegrado à sociedade. (E.9)

A gente precisa mesmo ajudar porque é difícil; qualquer tipo de dependência, de vício, é muito difícil pra você deixar, e eles precisam da nossa ajuda, da ajuda da família e dos profissionais especializados mesmo. (E.5)

As disfunções familiares

Os profissionais concebem o dependente como uma pessoa que apresenta disfunções familiares, tanto relacionadas a conflitos como a falta de apoio da família. Isso faz com que esses pacientes usem a substância psicoativa como recurso para suprir seu desamparo e como forma de esquecimento dos problemas no seu relacionamento com os familiares.

Eles procuram na droga o que às vezes eles não têm em casa, porque muitos não têm atenção e então eles procuram na droga o que eles não vão achar. (E.3)

[...] o que levou a pessoa a ingressar no mundo da droga pode ser um problema com a esposa, ou com os filhos, ou com pai e mãe, um conflito, eles procuram uma fuga pra substância, e geralmente é isso que ocorre. (E.10)

As comorbidades

Muitos profissionais também concebem o dependente químico como um paciente portador de comorbidades. Na concepção desses sujeitos, os transtornos psiquiátricos - dentre eles a depressão e a esquizofrenia - são os mais comuns. Apesar de relatarem dificuldade em identificar qual dos dois quadros se instalou primeiro, a maior parte dos sujeitos mencionou o transtorno psiquiátrico como fator prévio desencadeante para a dependência química, o que reforça a necessidade de tratamento especializado por profissionais capacitados para tal assistência.

Eu acredito que ninguém é dependente químico à toa. Sempre tem uma patologia atrás que desencadeia alguma coisa no meio do caminho. A maioria dos pacientes que a gente tem é esquizofrênico, é persecutório, sempre tem alguma coisa. (E.8)

Depressão ocorre muito nos dependentes químicos, porque com a depressão a pessoa acaba procurando uma via de escape no mundo da droga, geralmente é isso que ocorre. (E.10)

A mudança da concepção após o trabalho com o dependente químico

Trabalhar com o dependente químico apareceu como um fator determinante da mudança da concepção dos trabalhadores em relação a esses sujeitos, fazendo com que superassem os preconceitos e o receio do contato com o paciente. Isso porque, no contato com o dependente químico, os trabalhadores passaram a perceber o "outro lado", a pessoa por detrás da dependência, o que permite um novo "olhar" e, consequentemente, um cuidado mais humano, desprovido do julgamento moral e do medo.

A gente tem um pouco de preconceito. Agora, depois que eu comecei a trabalhar aqui, minha visão mudou completamente. Na primeira vez que a gente trabalha assim, direto, a gente aprende a ver o outro lado, não só aquele lado que a gente imagina que seja, a gente aprende a ver a realidade da pessoa. (E.1)

Antes eu tinha um pouco de receio com dependentes químicos. É engraçado isso, mas com alcoólatras, por exemplo, eu tinha uma grande dificuldade. Eu não tinha muita paciência e era meio preconceituosa, e hoje com quem eu mais me dou é com os alcoólatras. Minha visão é diferente da que eu tinha antes de entrar no CAPS. (E.16)

Hoje eu tenho outro olhar em relação ao dependente químico. Antes, pra mim todo mundo usava droga porque queria mesmo e era "tô nem aí pra vida". (E.3)

DISCUSSÃO

Os resultados deste estudo mostram que os profissionais de enfermagem de nível médio relataram ter mudado a sua visão em relação ao dependente químico após o exercício da profissão nos CAPS ad, passando de uma concepção preconceituosa e baseada no senso comum para a de dependência química como doença e os dependentes químicos como doentes que necessitam de auxílio dos técnicos, familiares, amigos e de tratamento. Ainda, passaram a considerá-los pessoas portadoras de comorbidades e que apresentam sérios problemas no âmbito familiar que, muitas vezes, são precursores do uso de drogas.

Considerar a dependência química uma doença é algo novo, ocorrido somente a partir da segunda metade do século passado. O conceito de dependência deixou de ser enfocado como um desvio de caráter, ou apenas como um conjunto de sintomas, para ganhar contornos de transtorno mental com características específicas(10).

Isso aponta para a importância da prática com dependentes químicos para a mudança das concepções desses profissionais de enfermagem perante o sujeito adicto. Porém, é importante a reflexão sobre a forma com que esses profissionais concebem a doença, pois, apesar de o fenômeno da drogadição ser complexo e multifatorial, como as doenças exclusivamente orgânicas, o modelo de atenção psicossocial de saúde direcionado aos dependentes químicos nos CAPS ad é diferente do modelo biomédico. Nesse modelo, os hospitais e muitos docentes dos cursos de enfermagem ainda ensinam(11), levando os trabalhadores a considerar o dependente químico um doente, porém direcionando seus cuidados para as alterações orgânicas do indivíduo.

Por outro lado, percebe-se que, apesar da mudança de concepção que esses profissionais apresentam ao serem inseridos no contexto do CAPS ad, ainda permanecem resquícios do senso comum, ao associarem o uso das substâncias psicoativas à decorrência de problemas afetivos, ou a doença mental prévia. Ainda que esses fatores possam servir de gatilho para o início do uso, não podem ser considerados como causa da dependência química. Esse resultado remete ao pouco preparo desses trabalhadores para a compreensão do fenômeno de forma mais adequada, o que leva, em última análise, a constatar que a profissionalização não conseguiu suprir essa lacuna de conhecimento. Esse fato também foi constatado neste estudo, que apontou que mais metade dos entrevistados negou ter tido qualquer preparo ou conteúdo sobre a temática álcool e outras drogas durante a formação profissional.

Conforme o exposto, e considerando que o CAPS ad configura-se como espaço de atuação dos profissionais de nível médio em enfermagem, no cuidado ao dependente químico, é essencial que se atente para a formação e capacitação desses profissionais. Uma vez que, ao compreenderem a dependência química como doença e o dependente químico como doente, estarão preparados para entender não só as consequências físicas e psíquicas envolvidas no uso problemático das substâncias psicoativas, mas também os aspectos sociais, políticos, econômicos, legais e culturais inerentes a esse fenômeno(12). Dessa forma, o conhecimento fará com que esses trabalhadores valorizem mais a abordagem psicossocial em contraposição à abordagem biologicista, e conferirá a eles maior esclarecimento, com vistas a assegurar um cuidado pautado em evidências científicas e no conhecimento formal.

Com relação ao auxílio no tratamento, os profissionais consideram a importância não só dos técnicos como também dos amigos e da família do sujeito. Isso demonstra o reconhecimento, por parte de alguns desses profissionais, da importância da inclusão dos integrantes da rede social do dependente químico no seu processo de tratamento. Esse reconhecimento deve sempre estar presente no cuidado a esses indivíduos nos CAPS ad, pois as redes sociais são consideradas centrais para o sentimento de identidade e competência, em especial na atenção à saúde e na adaptação naquelas situações de crise(12), possibilitando um tratamento com base em estratégias psicossociais proposto pela Lei 10.216/2001(12).

Por outro lado, apesar de esses profissionais terem identificado a família como parte integrante no tratamento, ela deve ser vista de forma particular, principalmente porque a literatura evidencia que, para cada sujeito envolvido com álcool e ou outras drogas, estima-se que quatro a cinco pessoas, dentre eles cônjuges, companheiros, filhos e pais, serão afetados de forma direta ou indireta(13-14). Por isso, é necessário que esses profissionais sejam preparados também para atentar para as necessidades e dificuldades da família e para seu adoecimento, o que pode interferir diretamente no agravamento da problemática vivenciada pelo núcleo familiar, notadamente do próprio usuário de drogas(15), como bem ilustrado pelos entrevistados.

Preparar esses profissionais para esse aspecto pode contribuir para que o trabalhador de enfermagem possa conceber a família como parceira fundamental no tratamento, e não como um agente propulsor do uso da droga pelos sujeitos. Ainda, deve reconhecer, juntamente com os pacientes, os membros das famílias que têm potencial para atuar como parceiros no tratamento e auxiliar a equipe a trabalhar as limitações, dificuldades e sentimentos dos membros da família e, em especial, daquele partícipe que mais interage com o dependente químico. Assim que ele assumir o papel de cuidador e também responsável, será mais fácil ocorrer positividade no tratamento(15).

Os profissionais também apontaram as comorbidades psiquiátricas como causa do uso abusivo das substâncias psicoativas. Ainda que a literatura revele prevalência elevada de doenças mentais em usuários de substâncias psicoativas(16-18), muitas vezes consideradas não um fator causador do uso das substâncias psicoativas, mas uma consequência dele(19), conceber ou associar a dependência a doença mental contribui para uma visão reducionista do problema. Dessa forma, uma vez que esses profissionais identificam a presença dos transtornos mentais em alguns usuários e os percebem como fator desencadeador do uso, é importante que a equipe os possa orientar sobre o cuidado, preparando-os, dentro de suas competências profissionais, para intervir junto a esses pacientes. Conforme as falas dos participantes, a ocorrência de um transtorno adicional à dependência química pode alterar de forma negativa a sintomatologia, o tratamento e o prognóstico de ambos(19).

A mudança da concepção perante o dependente químico, após o início da prática profissional nos CAPS ad, foi um achado importante e condizente com achados da literatura(20-22). Pois, conforme estudo prévio(20), o contato direto com os usuários de álcool e outras drogas, em serviços especializados no atendimento das necessidades decorrentes do uso de substâncias psicoativas, permite ao profissional de enfermagem a superação da influência do modelo moral de explicação para o uso das substâncias psicoativas, ainda comum entre os profissionais de saúde(20,23), e o surgimento de uma concepção baseada no modelo psicossocial condizente com o modelo de atenção dos CAPS.

Ainda que a prática não substitua o ensino formal sobre a problemática - que contribui significativamente para melhor compreensão e consequentemente para a mudança de visão que o profissional tem desses indivíduos -, os achados deste estudo e de estudos prévios(20-22) reforçam a necessidade de experiências práticas com populações estigmatizadas durante a formação profissional. Essa experiência permitirá que o futuro trabalhador esteja mais bem preparado para atuar nesse novo cenário de prática, auxiliando o indivíduo na busca de apoio necessário à sua recuperação e reintegração social.

Essa sensibilização e preparo para tratar esses pacientes só serão possíveis quando o tema for considerado importante e incluído de forma satisfatória na formação desses profissionais.

Este estudo possui limitações, pois foi realizado apenas com auxiliares e técnicos de enfermagem que trabalham nos CAPS ad da cidade de São Paulo, o que não permite extrapolar esses resultados para outros contextos ou locais. Porém, pode contribuir de forma significativa na área de álcool e outras drogas, em especial no que se refere aos trabalhadores de enfermagem de nível médio, pois pouco se sabe a respeito das atitudes e concepções dessa categoria perante o dependente químico.

Além disso, pode subsidiar pesquisas que visam propor estratégias de melhora na educação, treinamento e capacitação desses profissionais, pois, conforme sugerido, eles saem dos cursos profissionalizantes com concepções advindas do senso comum, com pouco embasamento técnico-científico, essencial para tratar e cuidar do dependente químico de maneira integral.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Os resultados deste estudo qualitativo ilustram algumas concepções importantes dos trabalhadores de nível médio em enfermagem perante o dependente químico, o que permitiu a construção de categorias que podem servir de base para explicar como os auxiliares e técnicos de enfermagem que trabalham em CAPS ad compreendem o dependente de álcool e outras drogas.

Conforme os resultados, o dependente químico é uma pessoa doente e as situações sociais ou familiares e de saúde mental são importantes fatores a serem considerados nesse adoecimento. Os resultados permitem, ainda, teorizar que o contato e o trabalho com esses pacientes em serviços especializados possibilitam a mudança de concepção dos trabalhadores. Tal achado levanta a importância de que os currículos dessa categoria profissional incluam, em suas atividades práticas, estágios em serviços especializados no atendimento de indivíduos com necessidades decorrentes do uso de substâncias psicoativas na Rede de Atenção Psicossocial (RAPS). Isso permitirá que o ensino formal em álcool e outras drogas seja reforçado durante atividades práticas com esses usuários, e o futuro profissional esteja mais bem preparado para atuar nos serviços da atenção especializada da RAPS - os CAPS ad.

REFERÊNCIAS

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Errata

na página 1068 onde se lia:

"8. Vargas D, Soares J. Knowledge and attitudes of nurses towards alcohol and related problems: the impact of an educational intervention. Rev Esc Enferm USP [Internet]. 2013 Oct[cited 2014 Nov 02];47(5):1172-9 Available from: http://www.scielo.br/pdf/reeusp/v47n5/0080-6234-reeusp-47-05-1172.pdf".

Leia-se:

"8. Vargas D, Soares J, Formigoni MLOS. Knowledge and attitudes of nurses towards alcohol and related problems: the impact of an educational intervention. Rev Esc Enferm USP [Internet]. 2013 Oct[cited 2014 Nov 02];47(5):1172-9 Available from: http://www.scielo.br/ pdf/reeusp/v47n5/0080-6234-reeusp-47-05-1172.pdf".

Recebido: 04 de Novembro de 2014; Aceito: 28 de Julho de 2015

AUTOR CORRESPONDENTE: Marina Nolli Bittencourt. E-mail: marinanolli@hotmail.com

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