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Revista Brasileira de Enfermagem

Print version ISSN 0034-7167On-line version ISSN 1984-0446

Rev. Bras. Enferm. vol.68 no.6 Brasília Nov./Dec. 2015

http://dx.doi.org/10.1590/0034-7167.2015680615i 

PESQUISA

Incubadora de Aprendizagem: ferramenta indutora do empreendedorismo na Enfermagem

Incubadora del Aprendizaje: inducir herramienta del espíritu empresarial en Enfermería

Dirce Stein BackesI 

Marielle Kulakowski ObemI 

Simone Barbosa PereiraII 

Carine Alves GomesIII 

Marli Terezinha Stein BackesIV 

Alacoque Lorenzini ErdmannIV 

ICentro Universitário Franciscano, Curso de Enfermagem. Santa Maria-RS, Brasil.

IICentro Universitário Franciscano, Mestrado Profissional em Saúde Materno Infantil. Santa Maria-RS, Brasil.

IIIAssociação Franciscana de Assistência à Saúde, Hospital Casa de Saúde. Santa Maria-RS, Brasil.

IVUniversidade Federal de Santa Catarina, Departamento de Enfermagem. Florianópolis-SC, Brasil.

RESUMO

Objetivo:

conhecer as contribuições da Incubadora de Aprendizagem no processo de educação permanente em saúde.

Método:

pesquisa de caráter qualitativo, cujos dados foram coletados entre agosto e dezembro de 2014, pela técnica de grupo focal, com 34 colaboradores de um hospital de ensino da região central do Rio Grande do Sul que, a priori, participaram do processo de incubação.

Resultados:

dos dados codificados pela análise de conteúdo resultaram em três categorias temáticas: Incubadora de Aprendizagem - espaço de acolhida e integração; Ferramenta instigadora e ampliadora de possibilidades; Estratégia de educação continuada e permanente.

Conclusão:

a Incubadora de Aprendizagem constitui uma importante ferramenta indutora do empreendedorismo na enfermagem e na saúde, pela capacidade de repensar as práticas mecanizadas, pela contingência de instigar novos modos de ser e agir e pela possibilidade de criar e desenvolver novas idéias, alicerçadas nas necessidades individuais e institucionais.

Descritores: Pesquisa em Enfermagem; Inovações Tecnológicas; Difusão de Inovação

RESUMEN

Objetivo:

conocer las contribuiciones de la Incubadora de Aprendizage en el proceso de educacion permanente em salud.

Método:

pesquisa de carácter cualitativo. Ciertos datos fueron colectados entre agosto y diciembre de 2014, por tecnicas de grupo focal, con 34 empleados de un hospital de enseñanza de la región central del Rio Grande del Sur que, la priori, participaron del proceso de incubación.

Resultados:

de los datos codificados por las análisis de contenido, resultaron em tres categorías temáticas: Incubadora de Aprendizage – espacio de acogida e integracion; Herramienta instigadora y ampliadora de posibilidades; Estrategia de educación continuada y permanente.

Conclusión:

la Incubadora de Aprendizage constitui una importante herramienta inductora del emprendedorismo en la enfermería y en la salud, por la capacidad de repensar las prácticas mecanizadas, por la contingencia de instigar nuevas maneras de ser y actuar y por la posibidad de criar y desarrollar nuevas ideas, de acuerdo con las necesidades individuales y institucionales.

Palabras clave: Investigación em Enfermería; Desarrollo Tecnológico; Disfusión de Innovación

INTRODUÇÃO

O termo incubadora surgiu, pela primeira vez na década de 70, nos Estados Unidos, associado à incubação de empresas. O seu uso foi direcionado para os universitários recém-graduados como estimulo ao empreendedorismo, caracterizando-se como tecnologia inovadora e transformadora pela (re)criação de processos, produtos, serviços e outros. Assim, essa ferramenta foi se traduzindo, gradativamente, em oportunidade para os jovens iniciarem e amadurecerem seus negócios, pelo fomento de parcerias junto a estruturas físicas que ofereciam assessoramento gerencial, jurídico, de comunicação e tecnológico(1).

No Brasil, as primeiras incubadoras surgiram na década de 80 quando, por iniciativa do então presidente do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico - CNPq, foram introduzidas as fundações tecnológicas, em vários estados do país. Destaca-se, nesse processo de implantação, a Fundação Parque de Alta Tecnologia de São Carlos - ParqTec, criada em dezembro de 1984, considerada a primeira Incubadora de Empresas, no Brasil(2).

Na área da saúde e especialmente na área de Enfermagem, essa ferramenta ainda é incipiente, mas promissora. Além de sua pouca empregabilidade nesta área, as incubadoras carecem de referenciais teórico-práticos que as validem como tecnologias inovadoras. Destaca-se, na Enfermagem, a criação de um laboratório virtual de aprendizagem da Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo (EEUSP)(3). Outro estudo, mais especificamente, discute a incubadora como possibilidade geradora e disseminadora de novos conhecimentos, bem como o despertar de ideias empreendedoras para a Enfermagem, denominadas Incubadoras de Aprendizagem(4).

No atual cenário político, econômico e tecnológico, os profissionais de modo geral são convocados a inovar, (re)criar e transformar as práticas profissionais, por meio do desenvolvimento de tecnologias inovadoras nas diferentes áreas do conhecimento. Nesse contexto, a Enfermagem tem um importante papel articulador e integrador, pela possibilidade de investir em tecnologias de cuidado e saúde, motivadas por processos interativos e associativos de ensino-aprendizagem, na prática(1).

Com base no exposto acima, no ano de 2012, criou-se o Projeto de Extensão Universitário denominado Incubadora de Aprendizagem, no sentido de agregar tecnologias ao processo de cuidado de Enfermagem e saúde. Tal projeto iniciou com uma dupla finalidade: despertar o potencial inovador e empreendedor de estudantes de Enfermagem, fomentar o acolhimento de novos colaboradores e promover a educação permanente de profissionais já inseridos no serviço, por meio da acolhida diferenciada e de novas metodologias de aprendizagem. A Incubadora de Aprendizagem está situada em uma área de 230 m2 de um hospital de ensino da região central do Rio Grande do Sul.

As atividades, na Incubadora de Aprendizagem são realizadas por estudantes de Enfermagem, em grupos de até doze colaboradores, sob a supervisão de Enfermeiros da assistência. As unidades de aprendizagem, desenvolvidas de forma criativa e interativa, compreendem temáticas que vão desde o acolhimento diferenciado ao cuidado humanizado, na prática.

Acredita-se, portanto, no potencial inovador e transformador das Incubadoras de Aprendizagem, na Enfermagem e na saúde. Assim, o presente estudo teve por objetivo conhecer as contribuições da Incubadora de Aprendizagem no processo de educação permanente em saúde, na perspectiva de profissionais que participaram previamente do processo de incubação.

MÉTODO

Trata-se de um estudo exploratório-descritivo, orientado pela abordagem qualitativa, tendo em vista o lugar essencial dessa vertente no âmbito das investigações social e de saúde(5).

Os dados foram coletados por meio da técnica de grupo focal, com 34 profissionais de saúde e das áreas de apoio hospitalar, entre os meses de agosto e dezembro de 2014. As atividades foram sistematizadas e dinamizadas por estudantes de enfermagem, na Incubadora de Aprendizagem, conforme já descrito anteriormente.

O processo de incubação, mais especificamente dos colaboradores ingressantes das diferentes áreas, foi dinamizado mensalmente, durante cinco dias sequenciais, com a duração de cinco horas. Para tanto, foram sistematizadas, de forma criativa e interativa, as seguintes unidades de aprendizagem: 1° dia: Acolhimento individualizado e coletivo, além da apresentação da história e Planejamento Estratégico do hospital; 2° dia: Ética, postura e marketing profissional e institucional; 3° dia: (Re)con-trução dinâmica da história do Sistema Único de Saúde (SUS); 4° dia: Principais protocolos institucionais, relacionados às diferentes áreas; 5° dia: Visita ao Museu da Mantenedora e confraternização em local estratégico da cidade.

Foram convidados a participar do estudo todos os colaboradores que, a priori, haviam participado do processo de incubação. Dos 37 incubados das mais diferentes áeas do hospital, 34 se enquadraram nos critérios de inclusão, quais sejam: ter participado do processo de incubação e ser colaborador, na instituição, entre dois e seis meses. Os participantes foram divididos em cinco grupos focais. A coleta de dados foi realizada no espaço da incubadora e cada sessão durou cerca de uma hora. Os grupos focais contaram com um pesquisador e um moderador e as discussões foram gravadas. Os temas discutidos foram: Contribuições da Incubadora de Aprendizagem; Incubadora de Aprendizagem e sua relação com a Educação Permanente; Potencialidades e fragilidades do processo de incubação e sugestões para a qualificação do processo de incubação.

Na sequência, os dados foram transcritos e o material foi submetido à análise de conteúdo temática. Esta análise consistiu em descobrir os núcleos de sentido que compunham a comunicação, cuja presença ou frequência acrescentavam perspectivas significativas ao objeto de estudo. A noção da temática esteve associada às afirmações referentes ao assunto, apresentadas por palavras, frases ou ideias e a sua operacionalização.

Foram seguidas as três etapas preconizadas por esta técnica de análise(6). Na primeira etapa, denominada pré-análise, foi realizada a leitura exaustiva dos dados, seguida da organização do material e formulação de hipóteses. A seguir, foi realizada a exploração do material, ou seja, os dados brutos foram codificados. Na terceira e última etapa, os dados foram interpretados e delimitados em categorias temáticas pela compreensão dos significados(6).

Foram atendidas as recomendações da Resolução do Conselho Nacional de Saúde n° 466/2012, que orienta a pesquisa com seres humanos(7). O projeto foi submetido e aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa sob o nº 162.980/2012. Para manter o anonimato dos participantes, as falas foram identificadas no texto com a letra "P", seguida por um algarismo arábico, correspondente à ordem das falas.

RESULTADOS

Da análise dos dados emergiram três categorias temáticas: Incubadora de Aprendizagem - Espaço de acolhida e integração; Ferramenta instigadora e ampliadora de possibilidades; Estratégia de educação continuada e permanente.

Incubadora de Aprendizagem - espaço de acolhida e integração

Nos depoimentos, os participantes do estudo afirmam que a Incubadora de Aprendizagem atende os seus objetivos inicialmente propostos de ser um espaço de acolhida, partilha e convivência, sobretudo, para os novos colaboradores. Mesmo não entendendo, a priori, o significado do termo Incubadora e ou do processo de incubação, todos se motivaram a participar da programação proposta.

Quando me falaram tu tens que ir na incubadora, eu pensava, nossa! o que é incubadora, como será? É assim mesmo a palavra... prá gente que está chegando agora, prematuros, foi muito importante e também pelo fato de que todos os dias temos que aprender coisas novas. (P3)

Além de ser espaço de acolhida para os ingressantes na instituição, a incubadora possibilitou a troca de experiências, o esclarecimento de dúvidas e inquietações, e a possibilidade de conhecer colegas dos diferentes setores. Na fala de duas participantes, ficou evidente a importância de ser reconhecida e chamada pelo nome, não somente pelos colegas de sua equipe, mas também pelos colegas de outros setores e funções:

Com a incubadora eu me senti mais tranquila por que eu vi que eu não era a única nova no hospital ... me senti mais aliviada e consegui trabalhar melhor. Gostei por que não eram só técnicos ou enfermeiros, foi uma integração entre todos os setores. Assim a gente fica sabendo o nome ... por que quando você ouve teu nome no corredor 'bom dia fulana' e fala pelo nome é como se fosse uma música para os ouvidos da gente. Eu me sinto super bem. (P9)

Agradeço a oportunidade de conhecer os novos colegas. Hoje entendi que entrei numa equipe que posso contar ... não vamos trabalhar juntos, mas com certeza vamos nos encontrar nos corredores e vamos lembrar o nome de cada um. Entrar numa empresa, assim, eu falo para o meu marido, é muito bom, porque eu me senti abraçada pelos colegas e pela instituição. Estou num ambiente maravilhoso. (P32)

A incubadora de aprendizagem representou, ainda, a possibilidade de ir além de espaços estruturados e ou das metodologias tradicionais, tais como os treinamentos formais e pontuais. Os profissionais se sentiram acolhidos como colegas e colaboradores, capazes de pensar, opinar e contribuir ativamente para o alcance dos objetivos e metas institucionais:

já tinha participado de outros treinamentos, mas o diferencial deste foi o acolhimento mesmo ... foi como boas vindas, você já chega empolgado e se sentindo em casa. (P19)

Na verdade, tu não te sente um mero funcionário, como em outras empresas que você fica quase dormindo em cima dos polígrafos, aprendendo só as regras ... Não foi aquela reunião estressante e chata onde só um fala e os outros escutam ... (P21)

A Incubadora de Aprendizagem possibilitou, sobretudo, a acolhida e a integração entre os colaboradores das diferentes áreas. Este espaço diferenciado permitiu que os colaboradores se sentissem reconhecidos e valorizados como pessoas humanas e não meros funcionários, objetos de uma determinada atividade ou função.

Ferramenta instigadora e ampliadora de possibilidades

Para os participantes, a incubadora de aprendizagem representou a possibilidade de ser e fazer a diferença, independente do espaço de atuação profissional. Reconheceram que muitos profissionais, com facilidade, se acomodam no seu modo de pensar e agir e que, consequentemente, criam vícios e passam a agir de forma mecânica. A Incubadora, no entanto, os instigou e motivou a transcender a visão bitolada e a saírem da mesmice, isto é, do fazer as coisas de forma rotineira, mecânica e desumanizada.

A incubadora me mostrou que a gente não pode ter uma visão bitolada, mas que tem que ter uma visão mais aberta, não só da tua área... a incubadora pelo que eu vi, ela desperta muito a humanização da gente. (P4)

Essa incubadora é muito importante porque acaba motivando a gente a sair da mesmice e fazer o melhor e o diferente ... a gente acaba se acomodando, cria vícios e fazendo as coisas de forma mecânica. (U23)

Para vários participantes, o processo de incubação significou o despertar de sonhos ou a possibilidade de continuar sonhando. Compreenderam que, na instituição, a sua função não se limita ao trabalho rotineiro, mas que é possível continuar acreditando e apostando nos sonhos pessoais. Em duas falas, mais especificamente, ficou evidente que o trabalho havia se tornado um fim em si mesmo ou apenas um meio para sustentar os filhos, a família.

Uma coisa que marcou muito ... 'nunca desista dos seus sonhos' ... até eu entrar aqui eu tinha me esquecido disso. Eu só pensava, eu tenho que trabalhar para os meus filhos, o meu objetivo eram eles, mas os meus sonhos? A partir de hoje eu tomei uma atitude de lembrar e levar adiante os meus sonhos. Aquilo que vocês falaram me sacudiu, me alertou que eu tenho que correr atrás e que não estou aqui só para trabalhar. (P10)

Para mim reforçou mais o meu foco, que a partir do ano que vem, se Deus quiser, eu vou começar a cursar medicina, vou mais focado ainda neste objetivo, por que entendi que posso fazer a diferença. (P17)

O processo de incubação representou uma sacudida e um alerta de que a vida não se limita ao trabalho e ou aos filhos mas que, por meio do trabalho, é possível transcender e ampliar as possibilidades tanto pessoais quanto coletivas.

Estratégia de educação continuada e permanente

A Incubadora transcendeu as tradicionais reuniões ou treinamentos, nas quais se reproduziam saberes e práticas com pouca interação e reflexão. Os participantes reconhecem e reavaliam as suas atitudes e prática, de forma crítico-reflexiva e se propõem ao aprendizado continuo e permanente:

Eu comecei a refletir e observar mais as coisas. Até ontem aconteceu uma coisa e eu lembrei logo da Incubadora ... até na maneira de falar com as pessoas. (U3)

Quando estava fazendo as anotações, ontem, alguém me chamou e eu tive uma reação indelicada, mas logo caí em mim e me dei conta das nossas discussões na Incubadora. (P9)

Além da acolhida diferenciada e da integração entre profissionais e setores, a Incubadora de Aprendizagem possibilitou repensar, reavaliar, renovar e ampliar os saberes teórico-práticos. Em alguns casos, mais especificamente, a experiência da incubação transcendeu o espaço propriamente dito da Incubadora e possibilitou a multiplicação do conhecimento para os outros setores, bem como para os integrantes da família.

Eu entrei na Incubadora achando que sabia tudo e que iria tirar de letra ... mas me deparei com muitas coisas novas. Foi uma espécie de sementinha e que mudou bastante coisa em mim. (P16)

Este momento eu estou levando como uma lição de vida ... vocês passaram que a gente tem que ter força de vontade, sonhar e se renovar sempre ... vou levar estas experiências para os meus colegas e para dentro de minha casa. (P30)

Enquanto estratégia de educação continua e permanente, a Incubadora de Aprendizagem se configurou como estratégia efetiva e transformadora, principalmente, pela sua metodologia de intervenção:

... essa Incubadora eu levei como um encontro agradável, como se fosse uma turma de amigos conversando e aprendendo todos juntos. (P33)

A fala anterior denota que é preciso transcender as tradicionais metodologias de educação continuada e permanente, e investir em ferramentas que sejam significativas para os integrantes da instituição.

DISCUSSÃO

Os resultados deste estudo permitem argumentar que a Incubadora, enquanto espaço concreto de aprendizagem significativa, pode ser considerada uma tecnologia indutora do empreendedorismo, pela capacidade de (re)criar e qualificar os processos relacionais, interativos e assistenciais de cuidado em saúde. Na área da Enfermagem, a Incubadora pode ser caracterizada como tecnologia inovadora de aprendizagem, pela possibilidade de gerar e integrar a inovação, a tecnologia e a educação continuada ou permanente na realidade concreta dos profissionais, como também já evidenciado em outro estudo(4).

A Incubadora desperta atitudes proativas e empreendedoras, na medida em que instiga a necessidade de transcender a mesmice e o desejo de ser e fazer a diferença, ao resgatar sonhos e possibilitar a ideia de ir além de ser um bom funcionário, conforme expresso pelos integrantes do estudo. Nessa compreensão, o empreendedorismo se traduz na capacidade de criar algo novo ou diferente, por meio da dedicação, do esforço pessoal e coletivo e por meio da capacidade de rever e transcender as práticas instituídas(8).

Como tecnologia de aprendizagem, a Incubadora permite recriar as tradicionais reuniões, palestras e ou intervenções verticalizadas, e possibilita a educação continuada e permanente, por meio de metodologias que potencializam as interações, associações e relações dialógicas(9). Com base no exposto, salienta-se que as organizações de saúde se constituem, por si só, em ambientes dinâmicos e complexos, precisando acompanhar as contínuas e crescentes transformações sociais, econômicas e ambientais. Assim, enquanto tecnologias ou ferramentas de ensino-aprendizagem, as incubadoras surgem como respostas ousadas e impulsionadoras de novos modos de ser e agir. Esses ambientes profícuos de aprendizagem complexa constituem espaços geradores e estimuladores de novas idéias, capazes de articular e fomentar a educação continuada e permanente em saúde, por meio da acolhida, do reconhecimento e da valorização de habilidades e competências humano-interativas necessárias para a qualificação e humanização do cuidado em saúde.

Diferentemente das Incubadoras Empresariais, Tecnológicas ou de Informática, na área de Enfermagem e saúde as Incubadoras de Aprendizagem se caracterizam como laboratórios vivos, nos quais se experiencia o cuidado acolhedor e transformador, na prática(10). Conforme demonstrado pelos participantes, muito mais que criar, testar e lançar novos produtos ou serviços para o mercado, a Incubadora de Aprendizagem busca resgatar a essência do humano pela potencialização das relações e interações sistêmicas, as quais se consolidam no e pelo cuidado integrador e articulador(4).

A enfermagem tem, portanto, várias razões e possibilidades para exercer o empreendedorismo. Primeiro, por ser uma profissão que tem uma compreensão ampliada da realidade, isto é, das necessidades do ser humano em suas diferentes dimensões. Segundo, pela possibilidade de explorar novos espaços, independente do contexto ou das condições sociais. Terceiro, por ser a profissão do cuidado e para o cuidado, por isso a profissão do futuro(11). Isto foi confirmado em outros estudos em que os autores apontam que as inovações são uma realidade na prática assistencial de enfermagem e saúde, mesmo que fortemente associadas às tecnologias virtuais, de informação ou de sistematização do cuidado em enfermagem(9,11-12).

Assim, promover o empreendedorismo por meio da Incubadora de Aprendizagem implica mudança na forma de encarar e conduzir a educação continuada e permanente em saúde. Implica, ainda, superar as intervenções convencionais desacompanhadas de reflexão crítica e estimular atitudes proativas capazes de ampliar as oportunidades reais dos seres humanos como sujeitos pensantes e autônomos(13).

CONSIDERAÇÕES FINAIS

As contribuições da Incubadora de Aprendizagem no processo de educação continuada e permanente em saúde são altamente positivas e animadoras, tanto para os profissionais de Enfermagem e demais colaboradores que participaram do processo de incubação, quanto para os dinamizadores, isto é, pesquisadores, estudantes e enfermeiros. Além de possibilitar um espaço acolhedor e estimulador, motivado por trocas efetivas e afetivas entre colaboradores, estudantes e pesquisadores, a Incubadora possibilitou a aprendizagem criativa, autônoma e responsável, na prática, isto é, na realidade viva e concreta dos profissionais.

Em suma, a Incubadora de Aprendizagem constitui uma importante ferramenta indutora do empreendedorismo na enfermagem e saúde, pela capacidade de repensar o fazer rotineiro e mecanizado, pela possibilidade de instigar novos modos de ser e fazer a diferença e, principalmente, pela oportunidade de criar, implementar e desenvolver novas idéias, alicerçadas nas necessidades individuais e institucionais.

As produções encontradas se restringem, na sua maioria, às Incubadoras Tecnológicas, de Empresas ou de Informática, o que se constituiu uma das limitações deste estudo. Logo, é importante e necessário que a Enfermagem se esmere no desenvolvimento de novas tecnologias, principalmente, as relacionadas ao cuidado em suas diferentes dimensões, espaços e construções.

Como citar este artigo:

Backes DS, Obem MK, Pereira SB, Gomes CA, Backes MTS, Erdmann AL. Learning Incubator: an instrument to foster entrepreneurship in Nursing. Rev Bras Enferm. 2015;68(6):794-8.

REFERÊNCIAS

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2 Garcia QR, Terra B. A importância das incubadoras na criação e desenvolvimento de empresas inovadoras de base tecnológica: um estudo de caso do instituto gênesis da PUC-RIO e da empresa minds at work. Polêmica. 2011;10(2):223-45. [ Links ]

3 Peres HHC, Leite MMJ. Innovation and technological interaction at the School of Nursing- USP. Rev Esc Enferm USP [Internet]. 2008[cited 2015 May 30];42(4):614-15. Available from: Available from: http://www.scielo.br/pdf/reeusp/v42n4/en_editorial.pdfLinks ]

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5 Strauss A, Corbin J. Pesquisa qualitativa: técnicas e procedimentos para o desenvolvimento de teoria fundamentada. 2ª ed. Porto Alegre: Artmed; 2008. [ Links ]

6 Bardin L. Análise de conteúdo. Lisboa, Portugal: Edições 70; 2011. [ Links ]

7 Brasil. Ministério da Saúde. Conselho Nacional de Saúde. Resolução n° 466, de 12 de dezembro de 2012. Aprova as diretrizes e normas regulamentadoras de pesquisas envolvendo seres humanos. Diário Oficial da União, Brasília, 13 jun. 2013, p. 59. [ Links ]

8 Backes DS, Backes MTS,. Erdmann AL Systemic social practice of nurses in Luhmann's perspective. Rev Esc Enferm USP[Internet]. 2011[cited 2015 May 30];45(1):291-98. Available from: Available from: http://www.scielo.br/pdf/reeusp/v45n1/en_16.pdfLinks ]

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10 Terra B. Inovação, Empreendedorismo e Negócios Tecnológicos em Universidades e Institutos de Pesquisa Públicos - IPPs no Cenário Pós-Lei de Inovação, no Brasil: uma breve revisão bibliográfica. J Bras Tele [Internet]. 2012[cited 2015 May 30];1(2):25-34. Available from: Available from: http://www.telessaude.uerj.br/resource/goldbook/pdf/50.pdfLinks ]

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Recebido: 07 de Junho de 2015; Aceito: 06 de Agosto de 2015

AUTOR CORRESPONDENTE: Dirce Stein Backes. E-mail: backesdirce@ig.com.br

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