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Revista Brasileira de Enfermagem

versão impressa ISSN 0034-7167versão On-line ISSN 1984-0446

Rev. Bras. Enferm. vol.69 no.2 Brasília mar./abr. 2016

http://dx.doi.org/10.1590/0034-7167.2016690225i 

Pesquisa

Ansiedade no período pré-operatório de cirurgia cardíaca

Ansiedad en el período preoperatorio de cirugía cardíaca

Karyne Kirley Negromonte GonçalvesI 

Jadiane Ingrid da SilvaI 

Eduardo Tavares GomesII 

Liane Lopes de Souza PinheiroII 

Thaisa Remigio FigueiredoII 

Simone Maria Muniz da Silva BezerraII 

IUniversidade de Pernambuco, Faculdade de Enfermagem Nossa Senhora das Graças. Recife-PE, Brasil.

IIUniversidade de Pernambuco, Pronto-Socorro Cardiológico Universitário de Pernambuco. Recife-PE, Brasil.

RESUMO

Objetivo:

caracterizar a ansiedade dos pacientes no pré-operatório de cirurgia cardíaca.

Método:

Foi realizado um estudo de corte transversal no qual 106 pacientes, entre um e cinco dias da data da cirurgia, foram entrevistados utilizando-se um questionário sócio-demográfico próprio e o Inventário de Ansiedade de Beck.

Resultados:

Os pacientes avaliados se apresentaram em 59,4% (63) na ansiedade mínima e 19,8% (21) na faixa considerada grave, tendo a amostra uma média no nível de ansiedade leve (15,8±19,79). As mulheres tiveram escores (22,13±23,41) significativamente (p=0,003) maiores que os homens (10,76±14,71); assim como os pacientes que já haviam sido submetidos a cirurgia cardíaca prévia (24,4±28,05 X 13,14±15,74). Não houve diferença significativa entre idosos e pacientes adultos mais jovens, nem no tocante as variações de peso, presença de diabetes ou etilismo.

Conclusão:

Reforça-se a importância do enfermeiro reconhecer a ansiedade pré-operatória e intervir através de estratégias de educação em saúde e visita de enfermagem.

Descritores: Ansiedade; Cirurgia Cardíaca; Educação em Saúde; Enfermagem; Período Pré-Operatório

RESUMEN

Objetivo:

caracterizar la ansiedad de los pacientes en el preoperatorio de cirugía cardíaca.

Método:

se realizó un estudio de corte transversal en el cual 106 pacientes, entre uno y cinco días de la data de la cirugía, han sido entrevistados mediante un cuestionario sociodemográfico propio y el Inventario de Ansiedad de Beck.

Resultados:

los pacientes evaluados se presentaron en el 59,4% (63) en la ansiedad mínima y el 19,8% (21) en la franja considerada grave, teniendo la muestra una media en el nivel de ansiedad leve (15,8±19,79). Las mujeres tuvieron scores (22,13±23,41) significativamente (p=0,003) mayores que los hombres (10,76±14,71), así como los pacientes que ya habían sido sometidos a cirugía cardíaca previa (24,4±28,05 X 13,14±15,74). No hubo diferencia significativa entre personas mayores y pacientes adultos más jóvenes, ni en relación a las variaciones de peso, presencia de diabetes o etilismo.

Conclusión:

se refuerza la importancia del enfermero reconocer la ansiedad preoperatoria e intervenir mediante estrategias de educación en salud y visitas de enfermería.

Palabras clave: Ansiedad; Cirugía Cardíaca; Educación en Salud; Enfermería; Período Preoperatorio

INTRODUÇÃO

A cirurgia, apesar das constantes inovações tecnológicas e o aumento da qualidade das intervenções, constitui um momento difícil para o ser humano. Como desafio para os pacientes, o procedimento cirúrgico traz limitações pré e pós-cirúrgicas, como mudanças em seus hábitos de vida, além da vulnerabilidade do transoperatório, o que pode gerar níveis consideráveis de ansiedade1.

Vários fatores contribuem para este agravo no ambiente hospitalar, que vão desde as ameaças, concretas ou imaginárias, até o processo de despersonalização, muitas vezes decorrentes de práticas desumanizadas pela equipe de saúde. Isso pode impactar o sujeito de modo diversificado, particularmente quando ele cria fantasias diante da espera de uma intervenção cirúrgica, podendo interferir no curso do procedimento e na sua recuperação, pois seu estado emocional repercute no funcionamento do seu sistema imunológico e na sua condição física geral. A depender do grau de ansiedade do paciente, muitas cirurgias podem ser canceladas2.

A fase pré-operatória é considerada o período em que o paciente se encontra mais vulnerável em suas necessidades, tanto fisiológicas quanto psicológicas, tornando-se mais propenso a um desequilíbrio emocional2.

A falta de orientação quanto à cirurgia e à ausência de apoio, por parte da equipe de saúde, como impeditivos de um relacionamento terapêutico adequado, causam a permanência dos pacientes em estado ansioso e deprimido durante toda a internação. A presença de informações sobre a cirurgia, ao contrário, contribui para a redução dos níveis de ansiedade3.

A cirurgia cardíaca e a própria doença impõem constantes mudanças de ordem física, social e psicológica, levando o paciente à necessidade de ajustar-se a uma nova realidade abruptamente imposta. Essas mudanças podem ser percebidas como estressores e representam ameaças no cotidiano de cada indivíduo, que assim mobiliza diferentes estratégias para enfrentar esse processo, com base nas suas vivências4.

A associação cultural do coração enquanto órgão relacionado à vida, à morte e à geração dos sentimentos, desperta fantasias e desgaste emocional nos pacientes, tanto pela consideração simbólica do coração quanto pelas fantasias e medos ligados à morte. Assim, de todos os tipos de cirurgias, a cirurgia cardíaca é a menos tolerada psicologicamente, sendo responsável por níveis de ansiedade elevados no pré-operatório, tendo em vista as emoções sentidas pelos pacientes que possuem um papel significativo como causadoras de complicações no período pós-operatório5.

O bem-estar do paciente cirúrgico cardíaco deve ser o objetivo principal dos profissionais de saúde, principalmente os enfermeiros que prestam uma assistência direta aos clientes, uma vez que, é na fase pré-operatória que eles podem apresentam níveis consideráveis de estresse e desenvolver sentimentos que atuam negativamente em seu estado emocional, tornando-os vulneráveis e dependentes.

A equipe de enfermagem desempenha o papel decisivo na tentativa de minimizar a ansiedade pré-operatória vivida por estes pacientes, não somente fornecendo medicações, como também conhecimento para que seja tomada uma decisão informada. Em cada encontro com o paciente, deve-se assegurar que este se encontra preparado física e psicologicamente para enfrentar tanto o procedimento quanto o pós-operatório cirúrgico6.

Diante das evidências de ansiedade, temor e angústia no pré-operatório, que estão presentes entre os indivíduos submetidos à cirurgia cardíaca, torna-se primordial o desenvolvimento de ações de enfermagem direcionadas a minimizar tais efeitos. Dentre as ferramentas que os enfermeiros podem utilizar para minimizar a ansiedade no pré-operatório de cirurgia cardíaca, proporcionar informações sobre o evento cirúrgico e promover o diálogo esclarecedor e o acolhimento dos pacientes constituem importantes estratégias7.

Através de uma visita pré-operatória de qualidade, o enfermeiro adota estratégias de cuidado baseadas não somente no conhecimento técnico-científico, mas também no conhecimento das expectativas e percepções da paciente em relação à cirurgia, de forma a contemplar todos os aspectos físicos, emocionais e sociais e, com isso, sistematizar a assistência a ser realizada neste período8.

Apresenta-se neste artigo uma investigação que teve como objetivos caracterizar a ansiedade dos pacientes no pré-operatório de cirurgia cardíaca, comparar a ansiedade entre gêneros, idade e cirurgia cardíaca anterior e verificar a associação da ansiedade com comorbidades em pacientes no pré-operatório de cirurgia cardíaca.

MÉTODO

Aspectos éticos

O presente estudo faz parte de um projeto aprovado pelo comitê de ética e pesquisa do complexo Hospital Universitário Osvaldo Cruz/ Pronto-Socorro Cardiológico de Pernambuco. Esta pesquisa seguiu as normas disciplináveis da Resolução nº 466, de 12 de dezembro de 2012, do Conselho Nacional de Saúde, do Ministério da Saúde. Em observação à resolução, os sujeitos que fizeram parte deste estudo foram previamente convidados a participar e informados sobre os objetivos do estudo, riscos e benefícios, após o qual assinaram um termo de consentimento livre e esclarecido. Foram abordados apenas pacientes que já estavam no internamento cientes do seu diagnóstico e da data da cirurgia, de forma a participação na pesquisa não repercutir no processo de cuidado - comunicação com a equipe dos setores.

Desenho, local do estudo e período

Trata-se de um estudo transversal, descritivo, com abordagem quantitativa. A pesquisa foi realizada nas enfermarias de doenças coronarianas, valvulopatias e miocardiopatias do Pronto-Socorro Cardiológico de Pernambuco Professor Luiz Tavares (PROCAPE/UPE), referência Norte-Nordeste no atendimento às doenças cardiovasculares e cirurgia cardíaca do adulto e da criança, de março a junho de 2014. O serviço atende à região metropolitana, municípios do interior do estado e de outros estados, realizando, em média, 60 cirurgias cardíacas/mês em adultos.

População e amostra

Para delimitação da amostra foi realizado um cálculo através da equação de cálculo do tamanho amostral para médias, considerando que a variável-desfecho é quantitativa contínua. Para o cálculo, utilizou-se um erro α de 5%, que corresponde à diferença entre o valor estimado pela pesquisa e o verdadeiro valor; um nível de confiança de 95%, que é a probabilidade de que o erro amostral efetivo seja menor do que o erro amostral admitido pela pesquisa. O erro máximo adotado foi de 1,0 ponto na média. Considerando a população finita de 200 pacientes submetidos à cirurgia cardíaca, em média, para um período de cinco meses de coleta, a amostra foi estimada em 119 pacientes. Contudo, foram coletados 106 pacientes, considerando os critérios de inclusão e a intervalos com menos cirurgias no serviço (feriados, recessos, etc.).

A amostra foi composta por pacientes que estavam no período pré-operatório, entre um e cinco dias da data da cirurgia. Incluíram-se todos os pacientes com ciência da cirurgia e da data, que seriam submetidos ao procedimento de revascularização do miocárdio ou cirurgias de substituição ou plastia valvar. Foram excluídos pacientes que tinham indicação cirúrgica por doenças da aorta e doenças congênitas, que faziam uso de antidepressivos e antipsicóticos ou com comprometimento clínico que redundasse em comunicação verbal prejudicada.

Protocolo do estudo

O instrumento de coleta foi composto por um questionário próprio com dados sóciodemográficos (gênero, idade, religião, estado civil, renda em salários-mínimos vigentes no período - R$724,00, escolaridade, raça, procedência, ocupação) e clínicos e, para avaliação da ansiedade, utilizou-se o Inventário de Ansiedade de Beck. Este instrumento é um o protocolo de uso livre mundial utilizado tanto em pesquisas quanto em clínicas para avaliar os níveis de ansiedade de pacientes submetidos à experiência cirúrgica. É composto por 21 itens, com alternativas de respostas variando entre nada a um pouco, moderadamente e gravemente, sobre os quais cada um reflete acerca dos níveis gradativos de cada sintoma, sendo a ansiedade graduada em mínima (0-10), leve (11-19), moderada (20-30) e grave (31-63)9.

Análise dos resultados e estatística

Os dados foram analisados através do software SPSS 20.0. Foi considerada a significância dos testes estatísticos para rejeição da hipótese nula em 5%. A caracterização dos pacientes é apresentada com recursos de estatística descritiva em frequências absoluta e relativa e em média ± desvio-padrão. Os escores de ansiedade medidos são comparados em função de variáveis categóricas dicotômicas por meio do teste t-student para amostras independentes. A distribuição normal dos valores de ansiedade foi avaliada pelo teste de Kolmogorov-Smirnov (p<0,001). Para avaliar a confiabilidade interna da escala em uso na amostra, calculou-se o alfa de cronbach (α) sendo considerado alto ou significante valores acima de 0,7.

RESULTADOS

A amostra foi composta predominantemente por pacientes do sexo masculino (55,7%), que se declaravam de raça branca (41,5%), com idade até 60 anos (53,8%) e média de 56,58 ± 14,0 anos, casados ou em união estável (68,9%), com religião (96,2%) e ensino fundamental (43,4%). A maioria era da zona urbana (77,4%), proveniente da capital (18,9%) ou da região metropolitana (44 / 41,5%). Houve predominância de aposentados (41,5%) e renda média de 2,33 ± 0,99 salários (Tabela 1).

Tabela 1 Caracterização sóciodemográfica da amostra, Recife, Pernambuco, Brasil, 2014 

Variáveis n (%)
Gênero
Mulher 47 (44,3)
Homem 59 (55,7)
Idade
Idade (md±dp) 56,58 (14,0)*
Até 60 57 (53,8)
>=60 anos 49 (46,2)
Renda 2,33 (0,99)
Religião 102 (96,2)
Estado Civil
Casado/União estável 73 (68,9)
Solteiro 15 (14,2)
Viúvo 15 (14,2)
Outros 3,0 (2,8)
Escolaridade
Ensino Superior 35 (33,0)
Ensino médio 18 (17,0)
Ensino fundamental 46 (43,4)
Analfabeto 7,0 (6,6)
Pessoas em casa 3,14 (1,45)*
Raça
Branco 44 (41,5)
Negro 15 (14,2)
Pardo 44 (41,5)
Amarelo 2,0 (1,9)
Indígena 1,0 (0,9)
Área
Rura 24 (22,6)
Urbana 82 (77,4)
Procedência
Capita 20 (18,9)
Região Metropolitana do Recife 44 (41,5)
Interior 42 (39,6)
Ocupação
Empregado 22 (20,8)
Desempregado 10 (9,4)
Aposentado 44 (41,5)
Estudante 1,0 (0,9)
Trabalhador rura 10 (9,4)
Dona de Casa 19 (17,9)

Nota: * média (desvio-padrão)

No tocante aos antecedentes pessoais, os pacientes apresentaram alto índice de hipertensão arterial (70,8%), tabagismo (43,4%) e diabetes (31,1%). Já haviam sido submetidos a cirurgia cardíaca anterior 23,6% dos pacientes (Tabela 2). A amostra estava predominantemente na faixa de sobrepeso ou obesidade (53,8%).

Tabela 2 Distribuição da amostra quanto ao peso e antecedentes pessoais de saúde, Recife, Pernambuco, Brasil, 2014 

Variáveis n(%)
Peso
Peso normal 49 (46,2)
Sobrepeso e obesidade 57 (53,8)
Antecedentes pessoais
Hipertensão arterial 75 (70,8)
Tabagismo 46 (43,4)
Estilismo 35 (33,0)
Diabetes Mellitus 33 (31,1)
Cirurgia cardíaca anterior 25 (23,6)
Acidente vascular cerebra 13 (12,3)
Febre reumática 11 (10,8)
Insuficiência rena 4 (3,8)
Asma 4 (3,8)

Os pacientes avaliados se apresentaram, em sua maioria, entre os extremos dos níveis de ansiedade, sendo 59,4% na ansiedade mínima e 19,8% na faixa considerada grave. Na avaliação dos escores de ansiedade, a amostra manteve uma média no nível de ansiedade leve (15,8±19,79), considerando a confiabilidade interna no uso da escala aplicada (α=0,715) (Tabela 3).

Tabela 3 Níveis de ansiedade da amostra, Recife, Pernambuco, Brasil, 2014 

Variáveis n(%) Média±dp Mediana α
Ansiedade 15,8±19,79 8,0 0,715
Ansiedade mínima 63 (59,4)
Ansiedade leve 15 (14,2)
Ansiedade moderada 7 (6,6)
Ansiedade grave 21 (19,8)

Notas: dp: desvio-padrão; α de Cronbach.

As mulheres tiveram escores (22,13±23,41) significativamente (p=0,003) maiores que os homens (10,76±14,71). Não houve diferença significativa entre idosos e pacientes adultos mais jovens, nem no tocante as variações de peso, presença de diabetes ou etilismo. Observou-se diferença significativamente maior (p=0,012) na ansiedade no grupo dos pacientes que já haviam sido submetidos a cirurgia cardíaca prévia (24,4±28,05 X 13,14±15,74) e entre os tabagistas (19,27±23,57 X 11,28±12,19; p=0,039) (Tabela 4).

Tabela 4 Comparação entre as médias dos escores obtidos, Recife, Pernambuco, Brasil, 2014 

Variáveis Ansiedade Valor de p*
Amostra 15,8(19,79)
Homens 10,76(14,71) 0,003
Mulheres 22,13(23,41)
<60anos 17,84(23,36) 0,25
>=60 anos 13,43(14,53)
Peso normal 16,53(18,89) 0,727
Sobrepeso e obesidade 15,18(20,68)
Cirurgia cardíaca (CC) anterior 24,4(28,05) 0,012
Sem CC anterior 13,14(15,74)
Diabético 13,21(15,61) 0,368
Não-diabético 16,97(21,41)
Hipertensos 17,27(19,44) 0,238
Não-hipertensos 12,26(20,50)
Tabagista 19,27(23,57) 0,039
Não-tabagista 11,28(12,19)
Etilista 14,69(14,98) 0,686
Não-etilista 16,35(21,86)

Notas: md (dp): média (desvio-padrão);

*Teste t-Student.

DISCUSSÃO

A média de idade revelou uma amostra próxima a 60 anos. Estudos mostram que a ansiedade e a depressão no período pré-operatório tem maior incidência entre idosos e que neste grupo apresenta menor redução no pós-operatório10.

Uma coorte com 148 idosos que foram submetidos a cirurgia de revascularização identificou que o grupo com ansiedade pré-operatória elevada apresentava na análise de regressão risco de mortalidade ou morbidade grave quase cinco vezes maior que o grupo sem ansiedade. (OR=5,1, IC95%1,27-20,2, p=0,02). Neste mesmo estudo, fatores como diabetes, hipertensão, obesidade e outros fatores físicos não se relacionavam diretamente com a presença de ansiedade, assim como nos achados apresentados na Tabela 4 11.

A escolaridade da amostra apresentou alto nível de pacientes com graduação (33,0%) e ensino médio (17,7%) e apenas 6,6% de analfabetos. Uma coorte de dez anos com 180 pacientes com média de escolaridade 11,4 anos revelou que a ansiedade pré-operatória e a escolaridade baixa eram preditoras de mortalidade pós-alta tanto quanto o EUROSCORE, um escore para cirurgia cardíaca utilizado internacionalmente, que se utiliza de variáveis clínicas como preditores de risco12.

O estudo citado anteriormente ainda mostrou que entre os pacientes que evoluíram para o óbito houve, no pré-operatório, maior tempo de internamento, maior idade, maior EUROSCORE e menor escolaridade enquanto que no pós-operatório este grupo apresentou maiores índices e mais persistência da ansiedade e depressão12.

Outra pesquisa internacional com 100 pacientes encontrou 32% de incidência para ansiedade e 19% para depressão. Avaliou-se também que a ansiedade pré-operatória tinha associação a maiores escores e maior persistência de dor no pós-operatório, assim como maior tempo de permanência na unidade de terapia intensiva (UTI), sem ter sido estatisticamente significativa a diferença quando dicotomizada a amostra para a presença ou não de depressão13. No presente estudo não houve diferença de incidência dos transtornos de humor em questão entre os gêneros, contudo, a amostra apresentou significativa diferença na média de ansiedade, sendo mais elevada entre as mulheres (p=0,003).

Já em um estudo nacional, no pré-operatório de cirurgia de revascularização miocárdica, a presença de ansiedade e depressão investigada com a Escala Hospitalar de Ansiedade e Depressão apresentou-se em 34,4% e 28,1%, respectivamente14.

Em uma coorte realizada para avaliar o efeito da ansiedade e depressão em até quatro anos da revascularização miocárdica, foi evidenciado de forma significativa maior taxa de mortalidade associada ao traço de ansiedade dos 180 indivíduos pesquisados15. Outra coorte internacional com seguimento médio de 4,4 anos acompanhou 152 pacientes que se submeteram a transplante cardíaco, iniciando a avaliação da depressão e ansiedade no pré-operatório. Esses pacientes foram divididos em dois grupos de acordo com a causa da falência cardíaca e indicação clínica para o transplante em causa isquêmica e miocardiopatia dilatada. O grupo de causa isquêmica apresentou maiores escores de depressão e ansiedade e maior mortalidade, estando esta última associada a maiores resultados pré-operatórios de ansiedade e depressão em ambos os grupos16. Ambos os estudos reforçam dever-se considerar o valor preditivo dos sintomas de ansiedade e depressão na avaliação prognóstica, bem como a necessidade de se buscar desenvolver protocolos e estratégias de intervenção para redução desses níveis, em especial a educação em saúde no pré-operatório.

Uma coorte internacional de 162 pacientes concluiu associação significativa entre marcadores fisiológicos de estresse (cortisol sérico, proteína C-reativa e interleucina 6) com ansiedade pré-operatória e como preditores de sintomas indesejáveis no pós-operatório. Este estudo mostrou que os pacientes que lançaram mão de estratégias de coping religioso e suporte social também tiveram melhores resultados após a cirurgia17. Um estudo nacional mostrou que o acolhimento proporcionado pela presença da família é mais significativo para o enfrentamento que o contato único do enfermeiro, avaliado pelos níveis menores de ansiedade18.

Utilizando-se de outros instrumentos de avaliação, um estudo nacional mostrou melhora da qualidade de vida nos aspectos genéricos de saúde mental e aspectos emocionais após a cirurgia cardíaca, mesmo sem considerar o aspecto espiritual e religioso19.

Ao se avaliar as estratégias de enfrentamento utilizadas por pacientes em pré-operatório de cirurgia cardíaca, outro estudo nacional relatou que a modalidade de coping sustentativo, que inclui a espiritualidade, foi utilizada em 50% dos casos4. A análise qualitativa também já demonstrou a presença de sentimentos positivos e de busca por fé e esperança na religiosidade diante o evento da cirurgia cardíaca20-21. Outro estudo observou através de entrevistas o elevado valor da utilização de recursos espirituais no enfrentamento da cirurgia cardíaca21.

Um estudo exploratório utilizando um questionário para julgamento da relevância das características definidoras dos Diagnósticos de Enfermagem Ansiedade e Medo por enfermeiros de clínicas cirúrgicas, revelou que os pacientes associavam o medo a um evento agudo, com repercussões mais físicas como tremores na voz, palpitação e frequência cardíaca aumentada, enquanto a ansiedade era reconhecida por aspectos mais subjetivos e relacionados a questões psicológicas, como relato de incapacidade de relaxar, insônia, irritabilidade, impaciência22. Esta referência aponta que os enfermeiros, no mais das vezes, reconhecem a ansiedade, mas pouco a incluem na sistematização da sua assistência ou ainda pouco registram as alternativas para minimizá-la22.

CONCLUSÃO

A ansiedade pré-operatória avaliada apresentou incidência e valores próximos a de outros estudos, sendo maior entre mulheres e pacientes que já haviam realizado cirurgias cardíacas prévias, com diferença estatisticamente significativa.

Os valores elevados de ansiedade, corroborando com outras pesquisas, indica que os enfermeiros devem incluir a investigação da ansiedade na sua avaliação, seja através de instrumentos gerais validados ou, principalmente, através do uso do diagnóstico de enfermagem e das características definidoras. Deve o enfermeiro compreender o fenômeno e reconhecer a relevância para o pós-operatório imediato e tardio.

Ao enfermeiro cabe o papel de, mais que reconhecer intervir diante de um quadro tão frequente. Atualmente, vem sendo reconhecido e investigado o valor das estratégias de educação em enfermagem para redução da ansiedade. As pesquisas indicam que, ao alcance da enfermagem, estão disponíveis intervenções significativas na direção do encorajamento das estratégias de coping, em particular o suporte social e familiar e os recursos da própria religiosidade e espiritualidade do paciente, que comprovadamente reduzem a tensão no período pré-operatório.

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Recebido: 31 de Maio de 2015; Aceito: 15 de Novembro de 2015

AUTOR CORRESPONDENTE: Eduardo Tavares Gomes. E-mail: edutgs@hotmail.com

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