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Revista Brasileira de Enfermagem

Print version ISSN 0034-7167On-line version ISSN 1984-0446

Rev. Bras. Enferm. vol.71 no.1 Brasília Jan./Feb. 2018

https://doi.org/10.1590/0034-7167-2016-0616 

RELATO DE EXPERIÊNCIA

Saturação teórica em pesquisa qualitativa: relato de experiência na entrevista com escolares

Luciana de Cassia Nunes NascimentoI 

Tania Vignuda de SouzaI 

Isabel Cristina dos Santos OliveiraI 

Juliana Rezende Montenegro Medeiros de MoraesII 

Rosane Cordeiro Burla de AguiarIII 

Liliane Faria da SilvaIII 

IUniversidade Federal do Rio de Janeiro, Programa de Pós-Graduação em Enfermagem. Rio de Janeiro-RJ, Brasil.

IIUniversidade Federal do Rio de Janeiro, Escola de Enfermagem Anna Nery, Departamento de Enfermagem Materno-Infantil. Rio de Janeiro-RJ, Brasil.

IIIUniversidade Federal Fluminense, Escola de Enfermagem Aurora de Afonso Costa, Departamento Materno Infantil e Psiquiatria. Niterói-RJ, Brasil.


RESUMO

Objetivo:

relatar a experiência na aplicação técnica de saturação teórica dos dados em pesquisa qualitativa com escolares.

Método:

leitura crítica das fontes primárias e compilação dos dados brutos, seguidas do agrupamento temático por meio da codificação colorimétrica e alocação dos temas/tipos de enunciados em um quadro para constatação da saturação teórica de cada agrupamento.

Resultados:

a codificação colorimétrica ocorreu de acordo com os temas estabelecidos previamente: hidratação corporal; brincadeiras e atividades físicas; manejo da doença falciforme; alimentação e roupas utilizadas. Na décima primeira entrevista foi possível alcançar a saturação teórica dos temas, sendo, após, realizadas mais quatro entrevistas.

Conclusão:

este relato de experiência permitiu descrever os cinco passos percorridos sequencialmente para identificação da saturação teórica dos dados em uma pesquisa qualitativa desenvolvida com escolares.

Descritores: Validação de Dados; Pesquisa Qualitativa; Amostragem; Coleta de Dados; Criança

ABSTRACT

Objective:

report the experience of applying the theoretical data saturation technique in qualitative research with schoolchildren.

Method:

critical reading of primary sources and compilation of raw data, followed by thematic grouping through colorimetric codification and allocation of themes/types of statements in charts to find theoretical saturation for each grouping.

Results:

colorimetric codification occurred according to previously established themes: bodily hydration; physical activities and play; handling of sickle-cell disease; feeding and clothing. On the eleventh interview, it was possible to reach the theoretical saturation of themes, with four additional interviews being performed.

Conclusion:

this experience report enabled the description of the five sequential steps for identification of theoretical data saturation in qualitative research conducted with schoolchildren.

Descriptors: Data Curation; Qualitative Research; Sampling; Data Collection; Child

RESUMEN

Objetivo:

Relatar la experiencia en la aplicación técnica de saturación teórica de datos en investigación cualitativa con escolares.

Método:

Lectura crítica de fuentes primarias y compilación de datos brutos, continuadas por agrupado temático mediante codificación colorimétrica y ubicación de los temas/tipos de enunciado en un cuadro para constatación de saturación teórica de cada grupo.

Resultados:

La codificación colorimétrica se realizó según los temas previamente establecidos: hidratación corporal; bromas y actividades físicas; manejo de la enfermedad falciforme, alimentación y ropas utilizadas. En la decimoprimera entrevista fue posible alcanzar la saturación teórica de los temas, realizándose luego cuatro entrevistas más.

Conclusión:

Este relato de experiencia permitió describir los cinco pasos seguidos secuencialmente para la identificación de saturación teórica de datos en una investigación cualitativa desarrollada con escolares.

Descriptores: Validación de Datos; Investigación Cualitativa; Muestreo; Colecta de Datos; Niño

INTRODUÇÃO

A expressão saturação teórica utilizada na pesquisa qualitativa considera que, quando se coletam dados, ocorre uma transferência de significações psicoculturais de seu meio original, de indivíduos ou grupos, para outro meio , aquele do pesquisador(1). Considera-se saturada a coleta de dados quando nenhum novo elemento é encontrado e o acréscimo de novas informações deixa de ser necessário, pois não altera a compreensão do fenômeno estudado. Trata-se de um critério que permite estabelecer a validade de um conjunto de dados(2).

Neste contexto, o pesquisador deve explicitar os fatores por ele identificados como envolvidos na gênese da configuração teórica que apresenta. Isto é importante, pois, apesar dos modelos interpretativos das pesquisas qualitativas não se filiarem de todo à tradição positivista, este tipo de pesquisa não está isento de ser avaliado quanto ao rigor metodológico empregado em todas as suas fases e deve explicitar, com transparência, como ocorreu a saturação teórica, a fim de evidenciar este rigor na investigação científica(1,3).

A saturação teórica dos dados também é encontrada na literatura científica como validação externa, uma vez que está relacionada aos resultados da pesquisa.

A validação em pesquisa qualitativa é um tema que já vem sendo explorado há mais de cinco décadas, porém, com maior ênfase nos últimos anos. Embora inicialmente seus pressupostos tenham sido pensados para a pesquisa quantitativa, a investigação de natureza qualitativa vem deles se apropriando cada vez mais. O propósito de se adotar métodos de validação conforme o objetivo de cada pesquisa consiste em uma perspectiva integradora, cujo intuito é alcançar uma proposta holística de validade, resguardando as pesquisas de caminhos e resultados equivocados(4).

É possível observar que tais concepções, quanto à validade, podem ser agrupadas em três grandes blocos, podendo-se citar aquelas mais relacionadas às fases de: formulação da pesquisa (validade prévia), desenvolvimento da pesquisa (validade interna) e resultados da pesquisa (validade externa). A validade em pesquisas qualitativas parece ser mais ampla e pormenorizada, embora menos mensurável quantitativamente(5).

Ao desenvolver uma pesquisa qualitativa, frequentemente os autores se deparam com o desafio de descrever, de maneira transparente, os passos percorridos até a identificação do momento adequado para a interrupção da coleta dos dados e obtenção da saturação teórica.

Por transparência, entende-se que o leitor da pesquisa possa compreender, com clareza, os processos realizados pelo pesquisador durante a coleta e análise dos dados, para a construção teórica. Trata-se de um critério de confiabilidade adotado em pesquisas qualitativas(6-7).

O critério de saturação é um processo de validação objetiva em pesquisas que adotam métodos, abordam temas e coletam informações em setores e áreas onde é inviável ou desnecessário o tratamento probabilístico da amostra. É uma das formas de lidar com o paradoxo da amostragem. O paradoxo da amostragem se expressa do seguinte modo: a amostra é inútil se não for verdadeiramente representativa da população(2).

A forma de utilização mais comum do critério de saturação refere-se à aplicação de entrevistas semiestruturadas de forma sequencial, com respostas em aberto. O pesquisador identifica os tipos de resposta e anota as repetições. Quando nenhuma nova informação ou nenhum novo tema é registrado, identifica-se o ponto de saturação. O esquema de investigação é simples, porém, na prática, apresenta a dificuldade de se fundamentar o critério para cessação do levantamento ou interrupção das entrevistas, isto é, da adequação da amostra(2).

Neste contexto, o presente estudo objetivou relatar uma experiência na aplicação técnica de saturação teórica dos dados em pesquisa qualitativa com escolares.

MÉTODO

Trata-se de um relato de experiência cuja motivação teve início após o alcance da saturação teórica dos dados de uma tese de doutorado, os quais foram coletados por meio de entrevista semiestruturada realizada com escolares portadores de doença falciforme. O estudo foi aprovado pelos Comitês de Ética em Pesquisa das instituições proponente e coparticipante.

Foram realizadas, previamente, duas entrevistas no sentido de validar o roteiro (validação interna), buscando atender aos objetivos da tese e ajustar as perguntas para evitar interpretações dúbias, dúvidas e/ou variedade de respostas, o que poderia comprometer o rigor do método, a obtenção dos dados e, posteriormente, o alcance da saturação teórica.

Quando a entrevista é realizada de maneira isolada, mantendo a privacidade do participante, maiores são as garantias da representatividade conferidas pelas condições genéricas de investigação. Ainda no que se refere à elaboração de perguntas, formulações com sentido dúbio e questões que permitam amplas respostas devem ser evitadas. Tais cuidados maximizam o rigor e reduzem o número de entrevistas necessárias à saturação(2). Após a validação do instrumento, iniciou-se a coleta dos dados, a qual ocorreu no período de maio de 2015 a março de 2016.

Para determinar o alcance da saturação teórica nas fontes primárias, foram seguidos cinco passos procedimentais, sendo eles(3):

Passo 1- Registro de dados brutos (fontes primárias): no total, foram entrevistados 15 escolares com doença falciforme. Desde o início da coleta, as entrevistas eram gravadas com autorização dos responsáveis legais e consentimento da criança e, imediatamente, transcritas na íntegra.

Passo 2 - Imersão nos dados: realizou-se leitura flutuante dos dados obtidos por meio das entrevistas à medida em que eram realizadas.

Passo 3 - Compilação das análises individuais de cada entrevista e agrupamento temático: ao realizar a leitura flutuante, os temas brincadeiras e atividades físicas, alimentação, manejo da doença falciforme, hidratação corporal, eliminações e roupas foram organizados por meio da codificação colorimétrica.

Passo 4 - Alocação dos temas e tipos de enunciados em um quadro: a apresentação dos dados em um quadro permitiu a identificação da regularidade dos achados nos depoimentos, de acordo com os temas, e a verificação da consistência dos enunciados (Quadro 1), em que "P" é o pesquisador e "E" o escolar. Assim, com a aplicação do método colorimétrico, as respostas relacionadas às brincadeiras e atividades físicas foram destacadas em amarelo, alimentação em azul-claro, manejo da doença falciforme em cinza, hidratação corporal em rosa, eliminações em vermelho e roupas em verde.

Quadro 1 Entrevista de um escolar após a aplicação do método colorimétrico e agrupamento dos temas (Passos 3 e 4) 

Pesquisador Escolar Temas
P: como você costuma brincar? E: de pique-esconde nos fundos da casa da minha avó, na sombra. É porque no sol eu fico dodói, com dor nas costas, na barriga, no braço, na perna e dor de cabeça por causa da anemia falciforme, é quando uma pessoa sente dor. Brincadeiras e atividades físicas
P: tem alguma brincadeira que você acha que pode influenciar na sua saúde? Por quê? E: piscina. Quando eu fico muito tempo, eu sinto dor no braço, na barriga, nas costas, na perna... porque lá em casa tem uma piscina, aí, quando eu entrei e fiquei muito tempo com a minha prima, eu senti dor.
P: entendi. E o que você costuma comer? E: macarrão e o biscoito recheado. Alimentação
P: dos alimentos que você costuma comer, quais fazem bem pra sua saúde? E: arroz, feijão, carne e salada e salsicha.
P: e dos alimentos que você costuma comer, quais são os que não fazem bem pra sua saúde? E: doces. Minha mãe disse que não pode comer doce.
P: entendi. Eu queria saber se você usa alguma medicação, remédio em casa? E: hidroxiureia, para eu não sentir dor. Manejo da doença falciforme
P: com quem você aprendeu essas informações sobre os remédios? E: com a doutora. Ela disse que tem que tomar. Em casa, minha mãe tirava o pozinho que tinha dentro e colocava na água para “mim” beber, mas não fazia efeito. Não melhorava, aí, tinha que tomá-lo inteiro.
P: Quem cuida de você quando fica doente? E: minha mãe. Ela me dá remédio. E quando a minha dor aumenta, ela vai para o hospital comigo.
P: e o que você faz pra cuidar da sua saúde? E: tomo remédio e vou para o médico.
P: O que você costuma beber no café da manhã, almoço, lanche, jantar e nos intervalos? E: água, refri, achocolatado, suco, pouco. Na escola, água, um pouquinho. Hidratação corporal
P: como que é para você usar o banheiro na escola? E: sempre pode, mas quando a gente entra na sala a professora não deixa. A gente tem que beber água e ir no banheiro para não precisar.
P: por que é importante tomar líquido? E: porque a gente morre sem beber água.
P: e desses líquidos que você costuma beber, quais fazem bem pra sua saúde? E: água, refri...
P: e dos líquidos que você costuma beber, quais são os que não fazem bem pra saúde? E: nenhum aqui.
P: vamos falar das roupas, então? Como você costuma se vestir nos dias frios? E: casaco, calça e blusa de frio e uma touca. Roupas
P: por que você se veste assim quando está frio? E: porque sim.
P: e quando o dia está muito quente? E: roupa leve.
P: alguém fala pra você como você deve se vestir? E: sim, minha mãe. Quando está frio, fala para colocar calça e blusa de frio. Quando tá calor, para colocar uma blusa e um short.

Passo 5 - Constatação da saturação teórica dos dados por meio da identificação de ausência de elementos novos em cada agrupamento.

RESULTADOS

Apresenta-se, a seguir, um recorte de entrevista de um escolar de 6 anos com anemia falciforme, após a transcrição e aplicação do método colorimétrico.

Após a codificação colorimétrica e o agrupamento dos temas relacionados (Quadro 1), buscou-se mostrar como se distribuiu a ocorrência de novos enunciados. Elegeu-se o tema hidratação corporal para prosseguir na descrição dos passos procedimentais percorridos para obtenção da saturação teórica.

No que diz respeito à hidratação corporal, o item relacionado às eliminações apresentou novos elementos até a segunda entrevista. Quanto aos tipos de líquidos ingeridos, não houve identificação de novos elementos a partir da quarta entrevista, e no que se refere à importância dos líquidos, os elementos novos surgiram até a décima primeira. No quadro 2, exemplifica-se o agrupamento dos tipos de líquidos ingeridos que emergiu da entrevista (letra E) de cada criança (letra C).

Quadro 2 Constatação da saturação teórica no tema hidratação corporal: tipos de líquidos ingeridos (Passo 5) 

Escolar Relato do escolar sobre os tipos de líquidos ingeridos
E1 leite com café...chá. Eu gosto de camomila, achocolatado... É que eu não gosto muito de leite...tomo refrigerante...suco natural. Na escola, água também... (C1, 12 anos)
E2 Suco e leite...Água e suco... de cacau ... É... daquelas sacolinhas do gelo (polpa)... às vezes é leite...água...E refri também. Na escola eu bebo suco, um copo (C2, 7 anos)
E3 leite, água e o suco. Na escola eu tomo suco e achocolatado (C3, 10 anos)
E4 às vezes eu tomo café... tem vez que eu bebo suco... Água, leite, chá. Na escola, suco... às vezes, porque tem suco que eu não gosto...tomo vitamina de leite com banana. Um copo cheio, mas eu chego beber tudo, não. (C4, 12 anos)
E5 Na escola eu tomo suco, achocolatado, água, café. Em casa, eu não tomo quase nada. Lá na casa da minha tia, eu tomo um copo de achocolatado (C5, 9 anos)
E6 água, um monte por dia porque minha casa não tem refri­gerante. Na escola eu bebo água, dois copos (C6, 6 anos)
E7 Água, refri, achocolatado, suco, pouco. Na escola, água, um pouquinho (C7, 6 anos)
E8 Na escola, tomo um copo de achocolatado, suco. No almoço da escola eles não dão nada, não. Aí, quando eu acabo de comer, eu tomo água no bebedouro. Em casa tomo café, uma caixinha de suco ou refrigerante (C8, 12 anos).
E9 Em casa eu tomo meio copo de café, meio copo de refrigerante. E na escola, bastante água, mas é sempre de meio copo (C9, 12 anos)
E10 café. Suco, leite com açúcar, água(C10, 12 anos)
E11 café, bebo água, achocolatado(C11, 10 anos)
E12 leite com café e suco na escola. (Em casa) chá émais de noite... primeiro eu tomo água, aídepois eu tomo café com leite. Às vezes, leite com achocolatado. Suco...suco e água(C12, 11 anos)
E13 leite com café na escola. Café, água, leite...chá, achocolatado, às vezes, em casa (C13, 12 anos)
E14 Leite ou achocolatado, suco quando acordo e depois água(C14, 11 anos)
E15 achocolatado, café, na escola. Suco e água em casa (C15, 6 anos)

Foram considerados apenas os tipos de líquidos ingeridos, como sucos e chás, independentemente do sabor mencionado. Ainda, no momento da transcrição dos dados, algumas citações dos escolares relacionadas a marcas comerciais foram substituídas por termos genéricos para atender aos critérios éticos da pesquisa.

Os escolares referiram ingerir vários tipos de líquidos como leite, café, chá, achocolatado, refrigerante, suco, água e vitamina. O último elemento novo encontrado na entrevista de C4, 12 anos, foi vitamina de leite com banana. Constatou-se, no quadro 2, que após a quarta entrevista nenhum novo elemento surgiu no que se refere aos tipos de líquidos ingeridos pelos escolares com doença falciforme e, neste ponto, determinou-se o adensamento teórico possível, de acordo com a análise dos dados empíricos pelos pesquisadores.

Em relação às brincadeiras e atividades físicas, se ativas ou passivas, a saturação teórica deste elemento foi atingida já na segunda entrevista. Quando questionados quanto aos tipos de brincadeiras ou atividades físicas desenvolvidas, elementos novos foram identificados nos enunciados até a nona entrevista.

Em relação ao manejo da doença falciforme, no que se refere ao uso de medicamentos de manutenção, de uso regular como hidroxiureia e ácido fólico, obteve-se a saturação dos dados já na segunda entrevista. Em relação à busca por serviços de saúde, não houve novos elementos desde a segunda entrevista. Quanto ao uso de medicamentos para recuperação da saúde, como analgésicos, antitérmicos e broncodilatadores, apresentou elementos novos até a quinta entrevista. Em relação à identificação dos fatores desencadeantes da crise, nenhum elemento novo foi verificado a partir da gravação do oitavo relato.

Levando-se em consideração que os alimentos ingeridos são diversificados, estes foram agrupados por frutas, carnes, massas, vegetal A (folhosos), vegetal B (legumes), vegetal C (batatas, aipim, cará, inhame, batata doce), cereais e leguminosas. Portanto, a ausência de elementos novos ocorreu na segunda entrevista. Na classificação dos alimentos prejudiciais à saúde segundo os escolares, dados novos surgiram até a quinta e, na classificação dos alimentos saudáveis, até a oitava. Em relação ao consumo de alimentos considerados não saudáveis para a criança, como doces, biscoitos, pipoca e frituras, dados novos foram observados até a nona entrevista.

No que diz respeito ao uso de roupas adequadas ao clima ou à temperatura ambiente, não foram identificados novos elementos a partir da segunda entrevista.

DISCUSSÃO

Inicialmente, para identificação da saturação teórica dos dados, faz-se necessário disponibilizar integralmente o material(3), o qual, para este estudo, foi obtido por meio da técnica de entrevista.

À medida que as entrevistas são realizadas, os pesquisadores devem explorá-las individualmente(3), uma vez que a avaliação da saturação teórica com base em uma amostra é realizada segundo um processo contínuo de análise dos dados, o qual se inicia na fase de coleta(8).

Na sequência, o pesquisador deve compilar e agrupar os temas identificados. Também pode marcar as transcrições nos parágrafos, facilitando o manejo desses trechos, o que o ajuda a identificar, imediatamente, o participante e o momento da entrevista em que foram proferidos(3). A utilização da codificação colorimétrica evidenciou os temas relacionados à criança com doença falciforme, aspecto que facilitou o agrupamento e a localização em cada trecho de entrevista.

Alocar os temas desta forma também permitiu visualizar os elementos analíticos e apreender o modo como se distribuem ao longo das entrevistas realizadas(3). Assim, foi possível destacar os temas que emergiram do material empírico.

Após esta etapa, a saturação teórica dos referidos temas foi representada pela ausência de elementos novos no material tratado. Em estudos qualitativos que utilizam entrevistas como estratégia de coleta de dados, a saturação é verificada quando os dados, após a análise, apresentam consistência em qualidade e densidade quantitativa(9).

Outro método para assegurar que a saturação de dados foi alcançada inclui o pesquisador construir uma grade de saturação, na qual os principais tópicos são listados, o que lhe permite observar a recorrência das informações. Outras recomendações incluem a possibilidade de um segundo pesquisador conduzir a codificação dos dados e identificar a repetição das ideias. E, por fim, se novas informações ainda forem obtidas, outras entrevistas devem ser conduzidas até que a saturação seja alcançada(9).

A codificação dos dados das entrevistas de modo indutivo permite a análise em profundidade. Além disso, a literatura recomenda o uso de dois pesquisadores para a codificação primária, e de um terceiro codificador para assegurar a saturação teórica e fidedignidade dos resultados. A codificação dos dados e sua posterior organização em temas emergentes são utilizadas na análise e obtenção da saturação(10).

Portanto, a saturação teórica ocorre quando novos elementos deixam de surgir dos dados coletados. Neste momento, com base nos dados empíricos disponíveis e nos atributos analíticos e interpretativos dos pesquisadores, infere-se ter chegado ao adensamento teórico(3).

Assim, os primeiros temas que alcançaram a saturação teórica foram: uso de roupas, na segunda entrevista; manejo da doença, na oitava; brincadeiras e atividades físicas, bem como alimentação, na nona entrevista; por fim, hidratação, que obteve a saturação teórica na décima primeira entrevista. Após, foram ainda realizadas mais quatro entrevistas, o que corresponde a um terço da amostra, para que o fechamento amostral por saturação teórica pudesse ser alcançado com segurança.

Quando o roteiro de entrevista é adequado, o ponto de saturação geralmente é atingido em, no máximo, 15 entrevistas. Sugere-se que, quando verificado o ponto de saturação, seja acrescido 1/3 de entrevistas, ou seja, se a saturação ocorrer na nona entrevista, outras três deverão ser realizadas(2).

Limitações do estudo

A limitação para a realização deste relato de experiência se relaciona ao fato das fontes primárias serem compostas por entrevistas com escolares que possuem um universo vocabular mais reduzido, tornando os dados restritos.

Contribuições para a pesquisa

O manuscrito apresentado traz contribuições para a pesquisa em enfermagem, uma vez que se constitui em referência para futuros estudos qualitativos na área, por ter descrito didaticamente os passos percorridos até obtenção da saturação teórica e fechamento da amostra, o que confere rigor à investigação científica. Contribui ainda com o acervo da literatura científica, tendo em vista a escassez de estudos atualizados que possam ser utilizados como referência metodológica.

CONCLUSÃO

Em pesquisas qualitativas, a identificação da saturação teórica é um critério determinante para interrupção da coleta de dados e definição do tamanho da amostra.

Este relato de experiência permitiu descrever os cinco passos percorridos sequencialmente para identificação da saturação teórica dos dados em uma pesquisa qualitativa desenvolvida com escolares.

Conclui-se ser fundamental explicitar, de modo transparente, a forma como se define uma amostra em investigações de natureza qualitativa. Por maior que seja a resistência dos pesquisadores qualitativos em utilizar números como critério para identificação da saturação teórica, este cuidado se faz necessário para a observância do rigor metodológico na produção de conhecimento científico. Sugere-se que os pesquisadores procurem sistematizar a análise dos dados obtidos em pesquisas qualitativas com amostras fechadas por saturação teórica.

REFERENCES

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Recebido: 20 de Dezembro de 2016; Aceito: 10 de Abril de 2017

AUTOR CORRESPONDIENTE Luciana de Cassia Nunes Nascimento E-mail: lcnnascimento@yahoo.com.br

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