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Revista Brasileira de Enfermagem

Print version ISSN 0034-7167On-line version ISSN 1984-0446

Rev. Bras. Enferm. vol.71 no.2 Brasília Mar/Apr. 2018

http://dx.doi.org/10.1590/0034-7167-2016-0604 

PESQUISA

O uso do Facebook na aprendizagem em saúde: percepções de adolescentes escolares

Joyce Mazza Nunes AragãoI 

Fabiane do Amaral GubertII 

Raimundo Augusto Martins TorresII 

Andréa Soares Rocha da SilvaIII 

Neiva Francenely Cunha VieiraI 

IUniversidade Federal do Ceará, Programa de Pós-Graduação em Enfermagem. Fortaleza-CE, Brasil.

IIUniversidade Federal do Ceará, Departamento de Enfermagem. Fortaleza-CE, Brasil.

IIIUniversidade Federal do Ceará, Departamento de Fisioterapia. Fortaleza-CE, Brasil.

RESUMO

Objetivo:

compreender as percepções de adolescentes escolares acerca do uso da mídia social Facebook na aprendizagem em saúde sexual e reprodutiva, na Estratégia Saúde da Família.

Método:

estudo qualitativo, descritivo, desenvolvido com 96 adolescentes de uma escola pública e outra particular de Fortaleza-CE que concluíram uma intervenção educativa mediada pelo Facebook. As informações foram coletadas no próprio ambiente on-line, bem como em um questionário aplicado presencialmente. Para coleta e análise dessas informações, utilizou-se a netnografia.

Resultados:

o Facebook contribuiu para o aprendizado em saúde sexual e reprodutiva, de maneira interativa, lúdica e prática, amenizando a vergonha de alguns adolescentes para dialogar sobre a temática, e aproximou os adolescentes do serviço de saúde, mediante o fortalecimento do vínculo com os profissionais de saúde.

Considerações finais:

os profissionais de saúde devem reconhecer que esses espaços virtuais na Internet podem ser territórios de produção do cuidado em saúde, especialmente com adolescentes.

Descritores: Enfermagem; Estratégia Saúde da Família; Educação em Saúde; Saúde do Adolescente; Saúde Sexual

INTRODUÇÃO

Na contemporaneidade, verifica-se que a Internet é um território virtual que tem a presença de forma contínua e acelerada da parcela mais jovem da população. Em todo o mundo, crianças e jovens usufruem de oportunidades sem precedentes para se conectar uns aos outros e compartilhar experiências e informações. Cerca de 10 milhões de adolescentes no mundo fazem uso diário da Internet, cujas principais atividades estão ligadas às redes sociais, ao entretenimento e à busca de informações(1). No Brasil, a pesquisa "TIC Domicílios", de 2013, apontou que 75% dos adolescentes de 10 a 15 anos e 77% dos jovens entre 16 e 24 anos são usuários da Internet e que, quanto maior a renda familiar, maior o acesso à rede(2).

Essa realidade favorece a utilização das Tecnologias Digitais de Informação e Comunicação (TDICs) nas práticas educativas em saúde com adolescentes, com destaque para as redes sociais, como Facebook, Twitter, Instagram etc.(3). Essas tecnologias podem ser utilizadas inclusive para discutir questões sobre saúde sexual e reprodutiva, haja vista que a adolescência é uma fase da vida exposta a diversas situações de vulnerabilidade, relacionadas ao inicio da atividade sexual.

Promover estratégias que forneçam conhecimentos sobre saúde sexual e reprodutiva para adolescentes é essencial para a vivência saudável da sexualidade, pois há barreiras ligadas às dificuldades da família e escola na abordagem de temas ligados à sexualidade, fazendo-o muitas vezes de forma superficial, destacando, assim, a importância do papel dos profissionais de saúde na educação sexual de adolescentes e no fortalecimento da relação família e escola(4).

Apesar das políticas públicas vigentes, tem sido um desafio para os profissionais de saúde, principalmente o enfermeiro, que é um dos principais implementadores do Programa Saúde na Escola (PSE), promover o acesso e a participação dos adolescentes nas ações clínicas e de Educação em Saúde, especialmente na Estratégia Saúde da Família (ESF). Os profissionais reconhecem que existem dificuldades em desenvolver atividades que despertem a atenção desse público, motivando-os a participar de atividades propostas pelos serviços de saúde(5).

Nesse sentido, para o processo educativo, o profissional de saúde pode utilizar as redes sociais on-line para ampliar os conhecimentos em saúde, facilitando o aprendizado individual a partir da interatividade com o coletivo, de maneira lúdica e interessante para o jovem. Além disso, essas mídias contribuem na superação de limitações de tempo e espaço, possibilitando um alcance maior de sujeitos que podem interagir a qualquer hora e em qualquer lugar, rompendo com o tempo determinado para a aprendizagem.

Estudos apontam que o Facebook é uma rede social que pode ser utilizada como ambiente virtual de aprendizagem (AVA)(6-7). Estudo internacional já demonstrou que novas mídias digitais (Internet, mensagens de texto e sites de redes sociais) oferecem ferramentas inovadoras para intervenções de saúde sexual entre os adolescentes, pois mudaram drasticamente a comunicação entre as pessoas em todo o mundo, favorecendo o diálogo sobre temas que presencialmente poderiam ser mais difíceis de abordar(8).

Associado ao uso de redes sociais, a escola, por congregar adolescentes, é espaço privilegiado para as ações de promoção da saúde(9-10), por isso deve ser valorizada pelos profissionais de saúde. Na literatura há inúmeras experiências positivas de prática educativa em escolas públicas, seja com a realização de oficinas, dinâmicas, utilização de jogos educativos, seja com outras tecnologias; no entanto, pesquisas conduzidas em escolas particulares e tendo como cenário as redes sociais on-line, como o Facebook, ainda são escassas(11-12).

A partir do exposto, emergem os seguintes questionamentos: é possível que o enfermeiro, integrante da equipe de saúde da família, utilize a rede social Facebook como AVA, com adolescentes de escolas públicas e privadas do território de abrangência, para a promoção da saúde sexual e reprodutiva?

Diante desse questionamento foi desenvolvida uma intervenção educativa mediada pela rede social on-line Facebook, como forma de (re)significação de conhecimentos, atitudes e práticas de adolescentes, sobre a saúde sexual e reprodutiva, valendo-se da aprendizagem digital como elemento atrativo e de fácil acesso a esse público jovem.

Com base nessa experiência, foi desenvolvido este estudo, que teve como objetivo compreender as percepções dos adolescentes escolares acerca do uso da mídia social Facebook na aprendizagem em saúde sexual e reprodutiva.

MÉTODO

Aspectos éticos

O estudo foi norteado pela Resolução 466/12(13) e obteve a aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal do Ceará. O anonimato dos adolescentes foi garantido; assim, eles foram identificados somente pelo sexo e tipo de escola em que estudavam, como, por exemplo, aluno(a) de escola pública (AEPU) ou aluno(a) de escola particular (AEPR).

A obtenção das informações acerca do uso do Facebook na aprendizagem em saúde, coletadas nos grupos do Facebook e/ou nos perfis dos adolescentes participantes, foi autorizada por eles, após a explicação dos objetivos do estudo. Os adolescentes ou seus responsáveis assinaram os Termos de Consentimento Livre e Esclarecido e de Assentimento para adolescentes.

No Facebook, cada participante pode controlar sua privacidade e segurança, sendo proprietário de todas as informações e conteúdos que publica, podendo controlar como serão compartilhados por meio de suas configurações de privacidade e de aplicativos.

Tipo de estudo

Estudo descritivo, com abordagem qualitativa, sobre as percepções de adolescentes escolares acerca do uso do Facebook, na aprendizagem em saúde sexual e reprodutiva.

Procedimentos metodológicos

A coleta de dados ocorreu em agosto de 2015, após a conclusão de uma intervenção educativa mediada pela mídia social Facebook, que teve duração de seis semanas, compreendendo os períodos de maio a junho de 2015. Para tal intervenção, inscreveram-se voluntariamente 135 adolescentes de uma escola pública e outra particular. Eles foram inseridos nos três grupos fechados (secretos), ou seja, grupos que é impossível serem acessados por outras pessoas, criados para a intervenção educativa. Todavia, 96 concluíram, sendo 28 alunos na escola particular e 68 alunos na escola pública em 2 grupos no Facebook.

Nessa rede social on-line, os grupos possuem ambientes de discussão, postagens de arquivos, vídeos, fotografias e criação de eventos. Foram conduzidos pela pesquisadora/facilitadora que também é enfermeira da ESF do bairro onde os adolescentes estudam e, em sua maioria, residem.

A escola pública funciona no horário das 7h às 21h30min, tendo sido inaugurada em 1986. Dispõe de dez salas de aula, sala de professores, entre outras dependências de apoio, uma biblioteca ligada ao laboratório de informática, que é equipado com 20 computadores com acesso à Internet banda larga. A escola particular fundou sua sede no bairro em 1997, com excelente estrutura física, dispondo de quadra de esportes, amplas salas de aula climatizadas, refeitórios, biblioteca e sala de vídeo para atividades educativas, funcionando nos turnos manhã e tarde.

As temáticas que nortearam a intervenção educativa no Facebook foram: Promoção da Saúde do Adolescente; Sexualidade e Gênero; O corpo que adoece - DST/HIV/AIDS; O corpo que se reproduz - Gravidez na Adolescência; Sexo mais seguro. O conteúdo utilizado contou com publicações dos Ministérios da Saúde e da Educação que indicam tecnologias e mídias educativas (vídeos, cartilhas, entre outros) para atuação com adolescentes na educação em saúde sexual e reprodutiva(14).

Essas tecnologias e mídias educativas foram utilizadas como instrumentos disparadores das discussões nos fóruns do Facebook, despertando a atenção do adolescente de forma atrativa e que não ficasse cansativo. Todas essas postagens usavam frases ou questionamentos provocativos e curtos, utilizando uma linguagem simples e adequada à realidade dos adolescentes, associada a imagens que ilustrassem a temática.

Por ser o tema saúde sexual e reprodutiva envolto por tabus, crenças, timidez e vergonha por parte dos adolescentes, possibilitou-se a utilização de mensagens inbox, permitindo que eles pudessem fazer perguntas secretamente à enfermeira, pois poderia acontecer de algum adolescente ficar constrangido em fazer perguntas diante de colegas, mesmo no próprio Facebook.

Nesse período, também foram realizados três encontros presenciais em cada uma das escolas, no horário das aulas, conforme o planejamento prévio entre os envolvidos, sendo o primeiro encontro no início da intervenção, o segundo na metade do período e o terceiro ao final da intervenção educativa.

Cenário do estudo

O estudo foi constituído pelos dois locais onde os adolescentes transitaram: o ciberespaço, representado pelo Facebook, como campo empírico da pesquisa, e as duas escolas onde eles estudavam, sendo uma particular e outra da rede pública estadual. As escolas foram selecionadas por ofertarem o Ensino Fundamental e Médio e estarem localizadas no território de abrangência da uma Unidade de Atenção Primária em Saúde (UAPS) de um bairro da periferia de Fortaleza-CE, cujo Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) era de 0,22, ocupando a 96ª posição dentre os 119 bairros do município(15). Além disso, é caracterizado por alto índice de gravidez na adolescência. A escola pública era integrante do PSE.

Fonte de dados

Participaram do estudo 96 adolescentes, sendo 45 do sexo masculino e 51 do feminino, que concluíram uma intervenção educativa mediada pelo Facebook. Eles cursavam o 9º ano do Ensino Fundamental ou o 1º ano do Ensino Médio e tinham em média 15 anos de idade. Na escola pública, a participação maior foi das meninas (39), enquanto na particular, foi dos homens (16).

Coleta e organização dos dados

Ao final da intervenção educativa, buscou-se compreender qual a percepção dos adolescentes envolvidos na utilização da rede social Facebook, com a finalidade educacional em saúde sexual e reprodutiva.

Para isso, os alunos puderam se expressar no próprio ambiente on-line, através de fóruns de discussão, bem como através de uma entrevista realizada no terceiro e último encontro presencial, que continha questões abertas, como: 1) Fale um pouco sobre sua experiência em participar de um grupo do Facebook para discutir sobre saúde sexual e reprodutiva com a enfermeira. 2) Qual a sua opinião sobre o uso do Facebook para a aprendizagem em saúde sexual e reprodutiva com adolescentes? Depois do início do grupo do Facebook, você se sentiu mais motivado a frequentar algum serviço de saúde?

Análise dos dados

Para coleta e análise das informações, utilizou-se a netnografia, que é uma pesquisa observacional baseada em trabalho de campo on-line, que usa comunicações mediadas por computador como fonte de dados para chegar à compreensão e à representação etnográfica de um fenômeno cultural ou comunal(16).

A netnografia é uma pesquisa observacional participante; sendo assim, prevê a imersão e o envolvimento do pesquisador com o grupo social estudado, como neste estudo. Nesse sentido, a coleta de dados que não acontece isoladamente da análise inclui dados da interação do pesquisador com os membros do grupo, dados de notas de campo, em que o pesquisador registra suas próprias observações, bem como dados arquivais pré-existentes, em que o pesquisador não está diretamente envolvido(16).

Essas informações foram analisadas de acordo com o referencial da netnografia, destacando-se os principais achados e agrupadas nos subtópicos: O Facebook como ambiente para o aprendizado em saúde sexual e reprodutiva; A praticidade de aprender pelo Facebook; Conversar pelo Facebook não "dá vergonha"; O Facebook aproximou os adolescentes do serviço de saúde.

RESULTADOS

O Facebook como ambiente para o aprendizado em saúde sexual e reprodutiva

Para os adolescentes, a interação no ambiente on-line favoreceu o compartilhamento de conhecimentos e experiências sobre saúde sexual e reprodutiva com seus pares e a enfermeira. No geral, todos os comentários foram positivos, com ênfase no aprendizado coletivo, dinâmico, facilitador e inovador, contribuindo no esclarecimento de dúvidas comuns da adolescência.

Os adolescentes reconhecem ainda que são multiplicadores do conhecimento adquirido no grupo do Facebook, pois podem ensinar outras pessoas.

Porque a gente nunca tinha aprendido coisas como está aprendendo agora e podemos ensinar para os outros, interagindo mais com as pessoas. (AEPU)

Eu acho que foi muito legal, até agora eu aprendi muitas coisas que nem passavam pela minha cabeça. (AEPR)

Eu adorei, pois pude tirar todas as dúvidas de adolescente graças a esse grupo. Hoje eu sei que fazer sexo sem camisinha pode trazer vários riscos para minha saúde. Espero que vocês não retirem esse grupo do Facebook. Obrigada, tia. (AEPU)

Despertou atenção o discurso de uma adolescente que refere não ter comentado em algumas postagens do grupo, mas que mesmo assim nunca deixou de acompanhar as atividades educativas no ambiente on-line, aprendendo e esclarecendo dúvidas.

Bom, amei participar, tirei minhas dúvidas e aprendi, posso até não ter comentado algumas publicações, mas com certeza nunca deixei de acompanhar nada e aprender bastante. (AEPU).

Os alunos da escola particular referiram ainda que essas iniciativas devem ser incentivadas em sua escola, haja vista que contribuíram para o seu aprendizado adquirido, pois, segundo o grupo, as atividades educativas nas escolas particulares desenvolvidas pela ESF ainda são restritas.

Foi muito bom pra tirar dúvidas e esclarecer o que eu não sabia sobre DST, uso da camisinha, etc. Acho que deveria ter mais iniciativas como a da senhora, obrigada por essa oportunidade. (AEPR)

A praticidade de aprender pelo Facebook

Os adolescentes enfatizaram que a praticidade e a facilidade do acesso ao Facebook, haja vista que essa forma de comunicação é amplamente conhecida e utilizada entre eles, facilitou o aprendizado em saúde sexual e reprodutiva no contexto da adolescência.

Eles sentiram-se motivados a participar das discussões nos grupos, pois poderiam esclarecer suas dúvidas no momento que desejassem.

Os adolescentes são mais focados no computador, e a pessoa se sente mais motivada, pela facilidade do acesso à informação, porque você tira dúvida quando quiser, é só perguntar. (AEPR)

Achei muito legal, mais prático para passar os ensinamentos para os adolescentes, porque a maioria dos adolescentes acessa o Facebook e pode aprender mais sobre o assunto e repassar para outras pessoas. (AEPU)

É bem mais fácil e prático para aprender, pois os jovens ocupam metade do tempo em redes sociais e é importante que aprendam sobre a saúde sexual. (AEPR)

Outros alunos, além do aprendizado no grupo do Facebook, adquirido de maneira descontraída e dinâmica, referiram que suas participações possibilitaram conhecer pessoas diferentes, interagindo e fazendo novas amizades.

Eu gostei muito, aprendi coisas que não sabia e foram importantes, que me levaram a ser mais prevenido e me ajudou a conhecer pessoas legais. Agradeço por essa experiência bacana. (AEPU)

Adorei essa experiência, foi muito boa, não sabia que no Facebook iria aprender tanta coisa importante e conhecer pessoas como a senhora, tia. Foi muito legal. (AEPU)

Conversar pelo Facebook não "dá vergonha"

Os adolescentes reconhecem que a timidez e a vergonha para discutir sobre saúde sexual e reprodutiva, presentes nessa fase da vida, podem ser minimizadas em ambiente on-line. Referem que no grupo do Facebook tiveram mais liberdade de falar sobre assuntos que causassem constrangimentos.

Por outro lado, muitas vezes, não têm com quem esclarecer suas dúvidas, pois muitos pais têm vergonha de falar sobre esses assuntos com os filhos. Esses achados enfatizam a relevância da discussão sobre saúde sexual e reprodutiva com adolescentes escolares.

Gostei muito, porque pelo Facebook não dá tanta vergonha e muitas pessoas ficam curiosas sobre o assunto. (AEPR)

Pelo Facebook as conversas foram muito legais, e a gente às vezes não tem com quem tirar dúvidas, e aqui temos a liberdade para perguntar as coisas que temos vergonha. (AEPU)

Achei bem legal, até porque muitos pais têm vergonha de falar com os filhos. (AEPU)

O Facebook aproximou os adolescentes do serviço de saúde

A interação nesse ambiente on-line entre adolescentes escolares e enfermeira da ESF favoreceu a criação de vínculos de confiança, minimizando o medo e despertando o interesse da maioria dos adolescentes em procurar o posto de saúde do bairro.

O Facebook fez com que os adolescentes perdessem o medo de ir ao posto de saúde, porque a pessoa acaba criando uma certa intimidade com a enfermeira, por ser um assunto muito íntimo. (AEPR)

O Facebook é um meio de comunicação que pode aproximar e fica mais fácil, pois obtive boas informações, e isso motiva cada um dos adolescentes, porque acabamos criando um vínculo com os profissionais. (AEPR)

Como ambos [enfermeira e alunos] se comunicam todos os dias, conversando mais sobre isso, e interagindo mais com as pessoas, isso incentiva e o adolescente sente-se mais à vontade. (AEPU)

Todavia, um adolescente ponderou que a iniciativa em procurar um serviço de saúde não depende somente da aproximação, interação e criação de vínculos com os profissionais de saúde, mas também do interesse individual de cada adolescente.

Aproxima mais ou menos, porque tem gente que se interessa, mas tem outros que não. (AEPU)

DISCUSSÃO

A experiência de adolescentes escolares sobre o uso do Facebook na aprendizagem em saúde sexual e reprodutiva foi relatada com ênfase no aprendizado adquirido, mediante a interação com seus pares e a enfermeira da ESF, de maneira dinâmica, participativa e inovadora.

Outro estudo demonstrou que a utilização de uma mídia social direcionada à educação sexual no contexto escolar contribuiu para ampliar os conhecimentos dos jovens sobre saúde sexual e, assim, pode ser prática complementar às aulas presenciais, integrando professores e profissionais de saúde(17).

Os adolescentes do estudo reconhecem a praticidade e a facilidade do uso do Facebook para a aprendizagem em saúde sexual e reprodutiva, pois já estão socialmente inseridos e são fiéis usuários que dominam o uso dessa tecnologia.

O Facebook contribui para a facilidade de entendimento dos estudantes já inseridos no mundo digital; por isso, a aprendizagem torna-se prazerosa, contribuindo para o aumento de sua autonomia, buscando conhecer aquilo que é necessário e ao mesmo tempo interessante e fundamental na sociedade atual(7).

No âmbito educativo, estudo aponta que o uso do Facebook tem um grande potencial, permitindo trabalhos grupais, o compartilhar interativo sobre as aulas ministradas, favorecendo o aumento da curiosidade e da motivação sobre os temas abordados, além de disponibilizar links para textos, vídeos e outras direções de interesse coletivo(18).

Para os adolescentes do estudo, dialogar pelo Facebook não "dá vergonha" e, por isso, sentem-se mais à vontade para discutir e compartilhar experiências com colegas e/ou com a enfermeira sobre temas sensitivos relativos a sexo e sexualidade. Percebeu-se que até os alunos mais tímidos, nos encontros presenciais, estabeleciam conversas on-line com os colegas e/ou com a enfermeira, algumas vezes secretamente pelo bate-papo dessa mídia social.

Os adolescentes consideram a Internet um meio de ligação com o mundo, indispensável na vida cotidiana, e as relações nas redes sociais funcionam como uma extensão das relações face a face. Sendo assim, esses jovens, na sua maioria, acreditam efetivamente que, em muitas situações de interação social, é mais fácil recorrer à comunicação on-line do que à comunicação no contexto face a face(19).

Já foi demonstrado que participantes do Facebook para fins educativos sentem-se mais "à vontade" para se comunicar em um grupo secreto no Facebook do que na sala de aula, sugerindo uma visão de que essa plataforma propicia a criação colaborativa de um espaço de interação que não é nem um espaço social usual nem, tampouco, o espaço formal de sala de aula(20).

Em outro estudo, os alunos mais tímidos conseguiam fazer seus questionamentos e participar ativamente das discussões nos grupos on-line; aqueles mais desatentos conseguiam acompanhar tudo que estava acontecendo, pois o conteúdo estava disponível permanentemente e poderia ser visto e revisto de acordo com as necessidades de cada um(21).

A proximidade entre a enfermeira e os adolescentes fortaleceu os vínculos de amizade e confiança, incluindo as escolas, favorecendo o aprendizado sobre saúde sexual e reprodutiva no contexto da adolescência. Acrescente-se ainda que, segundo os adolescentes participantes, essa estratégia colaborou para a sua aproximação com o serviço de saúde.

Nessa perspectiva, o uso do Facebook na prática educativa em saúde não se esgota num espaço de perguntas e respostas e compartilhamento de arquivos para aprendizagem, mas, ao romper com as fronteiras dos serviços de saúde, contribui significativamente para a aproximação com os adolescentes, mediante a construção e fortalecimento de vínculos entres estes e os profissionais de saúde.

Desse modo, confirma-se que as mídias sociais, na Internet, podem ser utilizadas como ferramentas pedagógicas pelo enfermeiro da ESF, conforme já constatado em um estudo, pois ajudam não somente a melhorar e ampliar as possibilidades de aprendizagem dos alunos, mas também possibilitam ao educador outras maneiras de se relacionar e interagir com eles, estreitando a relação e ampliando o espaço de aprendizagem, permitindo aos alunos tornar-se inclusive responsáveis por sua própria aprendizagem(22).

No âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS), a ESF é essencial para a reorganização da atenção básica, prevendo ações coletivas e de reconstrução das práticas de saúde a partir da interdisciplinaridade e intersetorialidade, em um território específico(23).

Nessa perspectiva, a parceria com escolas públicas e particulares presentes no território de abrangência da ESF torna-se imprescindível, pois constitui espaço privilegiado para práticas de promoção da saúde e prevenção de agravos à saúde e de doenças, sendo indispensável que os profissionais de saúde valorizem e ampliem ações de promoção à saúde sexual(10).

Diante do exposto, compreende-se que discutir saúde sexual e reprodutiva com adolescentes escolares deve ser algo interessante e significativo para os envolvidos, promovendo a participação e estimulando o adolescente a pensar com criatividade, pois trata-se de uma temática que envolve questões como: vergonha, tabus, mitos, crenças, entre outras. Desse modo, as estratégias educativas utilizadas com adolescentes devem ser dinâmicas, participativas e interativas, que estimulem a participação desse público, de maneira lúdica, tornando o processo de ensino-aprendizagem algo dotado de significado e alegria.

O uso de mídias sociais contribui para o alcance desses objetivos, pois fazem parte do cotidiano dos adolescentes, possibilitando a interação social e diversão; por isso podem ser utilizadas nas práticas educativas em saúde, desde que seja de forma planejada e direcionada, com mediação intencional do profissional de saúde.

Limitações do estudo

Citam-se as limitações de acesso e conectividade à Internet, mencionadas pelos adolescentes de ambas as escolas, principalmente na pública, e o absenteísmo dos alunos da escola pública nos encontros presenciais, que interferiram na coleta de informações.

Contribuições para a área da saúde pública e a Enfermagem

Os achados do estudo revelaram a pertinência e a necessidade de intervenções educativas em saúde junto a adolescentes de escolas públicas e particulares presentes no território da ESF, evidenciando, principalmente, que a mídia social Facebook pode ser utilizada pelos profissionais de saúde na prática educativa, pois contribui para a aprendizagem em saúde, mediante o interesse e a interatividade dos adolescentes, além de superar as distâncias geográficas e aproximá-los do serviço de saúde.

Nessa perspectiva, é necessário que os profissionais de saúde reconheçam que na atualidade esses espaços virtuais, como as redes sociais on-line, podem ser territórios de produção do cuidado em saúde, especialmente na ESF, dada a proximidade com o contexto social onde os sujeitos vivem, trabalham ou estudam.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

As percepções dos adolescentes escolares acerca do uso da mídia social Facebook na aprendizagem em saúde sexual e reprodutiva foram positivas, com ênfase no conhecimento adquirido e na praticidade dessa rede social, haja vista que muitos já estão inseridos e são assíduos nesse ambiente, o que favoreceu o vínculo entre todos os participantes. Destacam também que houve aproximação dos adolescentes com os profissionais de saúde e o serviço de atenção primária em saúde, a ESF.

É importante frisar que o enfermeiro como educador em saúde tem papel significativo na saúde sexual e reprodutiva dos adolescentes. Ele é agente transformador da realidade no momento em que planeja e executa atividades que favoreçam discussão, troca de experiências, debate, reflexão e modificação de atitudes dos adolescentes, atuando também como articulador entre equipe de saúde, família e escola.

Nessa perspectiva, a escola, pública ou particular, constitui espaço adequado para a implementação de programas educativos, levando-se em conta a participação dos pares (amigos) nessas ações. Com isso, este estudo reafirma que é possível e necessário "ir aonde os jovens estão", ou seja, buscar inserir-se no mundo dos adolescentes, com outras configurações e produções de sentidos próprios de cada geração, possibilitando compreender como outros saberes podem entrar em diálogos, mediante essas novas práticas de aprendizagem com o uso da Internet.

Sugere-se a realização de estudos posteriores que abordem o uso de outras mídias sociais na prática educativa em saúde junto a diversos grupos populacionais, trazendo novamente à tona a utilização das TDICs para as rodas de discussão entre os profissionais de saúde, com o intuito de aprimoramento dessa prática, a partir da descoberta desses novos campos de atuação profissional.

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Recebido: 12 de Novembro de 2016; Aceito: 11 de Abril de 2017

AUTOR CORRESPONDENTE:CORRESPONDENTE: Joyce Mazza Nunes Aragão. E-mail: joycemazza@hotmail.com

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