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Revista Brasileira de Enfermagem

Print version ISSN 0034-7167On-line version ISSN 1984-0446

Rev. Bras. Enferm. vol.71 no.3 Brasília May/June 2018

http://dx.doi.org/10.1590/0034-7167-2017-0151 

PESQUISA

Intervenção em habilidades sociais e bullying

Jorge Luiz da SilvaI 

Wanderlei Abadio de OliveiraII 

Diene Monique CarlosII 

Elisangela Aparecida da Silva LizziIII 

Rafaela RosárioIV 

Marta Angélica Iossi SilvaII 

IUniversidade de Franca. Franca-SP, Brasil.

IIUniversidade de São Paulo, Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto. Ribeirão Preto-SP, Brasil.

IIIUniversidade Tecnológica Federal do Paraná. Cornélio Procópio-PR, Brasil.

IVUniversidade do Minho, Escola Superior de Enfermagem. Braga, Portugal.

RESUMO

Objetivo:

Verificar se a melhoria de habilidades sociais reduz a vitimização por bullying em estudantes do 6º ano escolar após 12 meses da finalização da intervenção.

Método:

Estudo de intervenção quase-experimental com 78 estudantes vítimas de bullying. Realizou-se uma intervenção cognitivo comportamental baseada em habilidades sociais com o grupo intervenção. As oito sessões realizadas enfocaram habilidades de civilidade, fazer amizades, autocontrole e expressividade emocional, empatia, assertividade e solução de problemas interpessoais. Os dados foram analisados mediante regressão de Poisson com efeito aleatório.

Resultado:

O grupo da intervenção melhorou significativamente as habilidades sociais. A vitimização reduziu-se significativamente em ambos os grupos (intervenção e comparação), porém, em maior quantidade no grupo intervenção.

Conclusão:

As habilidades sociais são importantes em intervenções antibullying e podem fundamentar intervenções intersetoriais na área da saúde, visando favorecer o empoderamento das vítimas mediante a melhoria de suas interações sociais e qualidade de vida na escola.

Descritores: Violência; Bullying; Agressão; Habilidades Sociais; Saúde Escolar

INTRODUÇÃO

Ao longo da última década no Brasil houve um aumento de pesquisas direcionadas a um tipo específico de violência escolar denominado bullying, que envolve agressões intencionais, repetitivas e praticadas em uma relação de desigualdade de poder entre vítimas e agressores(1-2). As agressões geralmente ocorrem longe dos adultos e envolvem agravos físicos, verbais ou relacionais como, por exemplo, espalhar boatos e isolar socialmente a vítima(3). A Organização Mundial de Saúde aponta o bullying como um problema generalizado a nível mundial(4), com taxas de ocorrência que variam de 7% a 43% para vítimas e de 5% a 44% para os agressores(5-6), apresentando média geral de 26%(7). No Brasil, a Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar indicou uma média de ocorrência de 28%(8).

Por ser de difícil identificação pela equipe educacional, o bullying pode ocorrer por longos períodos e, assim, afetar negativamente a escolaridade, a saúde e a qualidade de vida dos estudantes envolvidos (vítimas, agressores e testemunhas)(9). Entretanto, as vítimas constituem um grupo mais vulnerável por sofrerem direta e indiretamente as agressões. Portanto, demandam intervenções que interrompam a violência que sofrem. Algumas consequências negativas para esse grupo de estudantes são a sensação de insegurança, o baixo desempenho escolar, a depressão, a insônia e o suicídio(10-12).

A maioria dos estudantes vitimizados, conhecidos como vítimas-típicas, apresentam características pessoais relacionadas à ausência de condições para autodefesa e para pedidos de ajuda a colegas e professores, tais como timidez, ansiedade e poucos amigos(10,12). Contudo, existe ainda um outro perfil referente às vítimas-agressoras, caracterizadas por apresentarem elevados índices de vitimização, bem como de agressão: possuem comportamento desorganizado e impulsivo, reagem ineficazmente nas agressões e carecem de habilidades de resolução de conflitos para resolverem adequadamente seus problemas relacionais. As vítimas-agressoras encontram-se em maior risco de rejeição social e de desenvolvimento de problemas psicossociais(13).

Os dois perfis possuem uma característica em comum que é a ausência de habilidades sociais. Habilidades sociais constituem comportamentos que permitem que uma pessoa seja julgada competente no desenvolvimento de alguma tarefa social. Uma pessoa socialmente habilidosa inicia e mantém amizades com facilidade, resolve problemas interpessoais de forma a não gerar mais conflitos e possui um bom controle emocional(14). A melhoria das habilidades sociais dos estudantes vitimizados é importante para promover neles maior competência social e emocional, auxiliando na redução da condição de vulnerabilidade ao bullying por facilitar a construção de amizades, resolução de conflitos, autocontrole emocional e estratégias de enfrentramento adaptativas(10,15).

Intervenções baseadas em habilidades sociais têm sido desenvolvidas em diferentes países e algumas delas seguem orientação da Organização Mundial de Saúde (OMS), que recomenda o desenvolvimento de intervenções direcionadas à prevenção e redução da violência escolar como iniciativa de promoção de saúde e melhoria da qualidade de vida dos estudantes(16-17). Esse tipo de intervenção apresentou sucesso na redução de vitimização nos Estados Unidos(18), país em que a maioria dos programas antibullying apresenta efeitos mínimos. Na Austrália, também houve redução significativa na vitimização para vítimas que apresentavam sintomas de ansiedade(19).

Alguns períodos da escolarização são marcados por mudanças que demandam dos estudantes esforços de adaptação potencialmente facilitados por níveis mais elevados de habilidades sociais(20). Na transição do quinto para o sexto ano, por exemplo, os estudantes precisam lidar com a mudança de escola, com a reestruturação das matérias escolares, com alterações na forma de interação com os professores, além de ainda se relacionarem com maior quantidade de colegas desconhecidos(20-22). Nesse contexto, a ausência de habilidades sociais das vítimas pode dificultar o estabelecimento de amizades, a autodefesa perante agressões e a adaptação em geral durante o período de transição escolar.

A literatura sinaliza a necessidade de intervir precocemente na violência, com vistas a preveni-la e promover comportamentos saudáveis, evitando o desenvolvimento de problemas escolares e de saúde dela decorrentes(23). Nesse contexto, é importante também verificar se os resultados das intervenções persistem no tempo ou ficam restritos a um pequeno período após a sua realização. Intervenções mais efetivas são aqueles que conseguem manter seus resultados por longos períodos após a sua implementação(10).

OBJETIVO

Verificar se a melhoria de habilidades sociais e emocionais reduz a vitimização por bullying em estudantes do 6º ano escolar após 12 meses após a finalização da intervenção.

MÉTODO

Aspectos éticos

O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo. A Diretoria Regional de Ensino e os diretores das escolas também autorizaram a realização da pesquisa. Os pais/responsáveis consentiram a participação dos estudantes por meio da assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido - TCLE. Os adolescentes assinaram o Termo de Assentimento. Em todas as etapas da investigação, foram seguidas as recomendações e orientações da resolução 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde.

Desenho, local do estudo e período

Trata-se de um estudo de intervenção com delineamento quase-experimental realizado em seis escolas públicas de uma cidade localizada no interior do estado de São Paulo. As avaliações de pré e pós-teste com os grupos de intervenção e os grupos de comparação ocorreram respectivamente nos meses de março e junho de 2015. Verificou-se a realização da intervenção baseada em habilidades sociais entre os meses de março e maio de 2015. A avaliação de seguimento (follow up) ocorreu um ano depois, no mês de junho de 2016.

População do estudo e critérios de inclusão

O quantitativo de 522 estudantes do sexto ano de seis escolas públicas foi convidado a participar da pesquisa, do qual 411 sujeitos aceitaram responder os questionários. Posteriormente, foram identificadas 85 vítimas, com 5 desistências de participação durante as sessões, sendo excluídas da amostra final, que contou com 78 participantes, 40 (51,3%) vítimas típicas e 38 (48,7%) vítimas-agressoras. Os critérios para inclusão foram os seguintes: ser um estudante frequente nas aulas, possuir autorização de um responsável para participação no estudo e ser vítima de bullying. Considerando-se a amostra com 78 sujeitos, com uma magnitude do efeito de 0.22 (entre baixo e médio), obtemos um “poder amostral” de 64%.

Protocolo

Foram realizadas oito sessões semanais nas escolas, com duração de 50 minutos cada. A composição de cada grupo foi de 8 a 10 participantes. As sessões se desenvolveram com conteúdos e atividades relacionados a habilidades de civilidade, fazer amizades, empatia, autocontrole e expressividade emocional, assertividade e solução de problemas interpessoais(14). A intervenção foi desenvolvida por um dos pesquisadores responsáveis pelo estudo, ocorrendo o desenvolvimento dos conteúdos e atividades de acordo com instruções específicas14, com o objetivo de assegurar a fidelidade na aplicação da intervenção.

A estrutura das sessões baseou-se em técnicas cognitivo-comportamentais: role-play, dramatizações, reforçamento positivo, modelagem, feedback, vídeos e tarefa de casa. Cada encontro se organizou em três momentos: 1) início - os participantes comentavam as tarefas de casa, recebendo feedbacks, orientações e apoio do grupo e coordenador, sendo realizado em seguida um resumo breve do encontro anterior; 2) meio - realização das atividades programadas para o encontro; 3) final - atribuição de tarefas de casa e feedback do encontro realizado pelos participantes e coordenador. As tarefas de casa eram estratégias destinadas ao oferecimento de apoio aos estudantes na generalização das habilidades sociais em outros contextos distintos do ambiente da intervenção. No processo interventivo, também foram incluídos estudantes não envolvidos em situações de bullying como um componente extra, com o objetivo de promover a interação das vítimas com pares pró-sociais e estimular a formação de amizades que aumentassem o apoio social e a ajuda a elas oferecida. Porém, os resultados apresentados neste artigo são referentes somente às vítimas que foram o foco do estudo.

Os participantes foram distribuídos nos grupos de intervenção e de comparação dentro das mesmas escolas, de modo a constituírem amostras comparáveis. Assim, as nove salas de aula do grupo de intervenção e as nove salas de aula do grupo comparação apresentavam quantidades semelhantes de estudantes vítimas, agressores e não envolvidos em situações de bullying. Todas as vítimas e não envolvidos das salas de aula do grupo de intervenção foram convidados a participar da intervenção. Todos aqueles que consentiram participaram da intervenção proposta. Os estudantes foram distribuídos nos grupos (intervenção e comparação) em proporção média de 40-50% vítimas e 50-60% de não envolvidos. O mesmo procedimento ocorreu para o sexo, pois havia mais meninas do que meninos.

A mensuração da quantidade de bullying praticado ou sofrido pelos estudantes, bem como a definição do perfil a que se enquadravam (vítimas, vítimas-agressoras, agressores e não envolvidos), foi obtida pela aplicação da Escala de Vitimização e Agressão entre Pares - EVAP(24), que forneceu a média de vitimização, agressão total, por participante dos grupos (intervenção e comparação) e a definição dos perfis. A dificuldade em praticar as habilidades sociais foi avaliada com o Sistema Multimídia de Habilidades Sociais para Crianças - SMHSC(25), que forneceu escores padronizados para cada sujeito, sendo utilizados para calcular as médias dos grupos. A Escala Sociométrica(26) forneceu os escores brutos dos participantes pela soma das indicações recebidas nas variáveis aceitação pelos pares, poucos amigos, resolução de conflitos e simpatia. Os grupos foram avaliados com os mesmos instrumentos antes da intervenção (pré-teste), após a intervenção (pós-teste) e um ano depois (follow up).

Análise dos resultados e estatística

As análises foram realizadas com o auxílio do programa SAS, utilizando o procedimento de modelos lineares generalizados (PROC GENMOD). Primeiramente, os resultados foram descritos em média e desvio-padrão. Em seguida, procedeu-se à comparação dos escores das variáveis de interesse com relação aos tempos (pré-teste e pós-teste) e aos grupos (intervenção e comparação). Essa etapa foi realizada mediante modelos de regressão de Poisson com efeito aleatório(27). Tendo em vista que o desvio padrão era maior do que a média para as variáveis dificuldade em habilidades sociais, poucos amigos, resolução de conflitos e simpatia, adicionou-se um componente de “over dispersion” para corrigir os resultados devido à variabilidade. Considerou-se para todas as análises um nível de significância de 5%, p<0,05.

RESULTADOS

Os dois grupos foram equivalentes em relação às características sociodemográficas, sendo a média de idade no grupo de intervenção de 11,28 anos e no grupo comparação de 11,21 anos. A proporção do sexo feminino no grupo de intervenção foi de 72,1% e no grupo de comparação foi de 58,8%, diferença não estatisticamente significativa (p = 0,07). A cor da pele foi semelhante nos grupos (p = 0,566): grupo intervenção contou com pardos (48,8%), brancos (38,4%), negros (8,1%) e outros (4,7%); no grupo controle, verificou-se proporcionalmente pardos (43,1%), brancos (42,2%), negros (8,8%) e outros (5,8%). Houve uma perda amostral de três sujeitos do grupo intervenção (7,3%) da avaliação pré-teste para a avaliação de follow up e de dois sujeitos do grupo de comparação (4,8%).

A Tabela 1 apresenta as diferenças obtidas pelo modelo de regressão de Poisson para as variáveis em relação ao grupo intervenção e ao grupo comparação nos tempos pré-teste e follow up.

Tabela 1 Comparação dos grupos (intervenção e controle) em relação ao tempo (pré-teste/follow up), via modelo de regressão de Poisson, Ribeirão Preto, São Paulo, Brasil 

Intervenção (n = 38) Comparação (n = 40)
Pré-teste Follow up Pré-teste Follow up
Vitimização total 26,63(4,92) 20,19(8,26)** 25,95(4,27) 20,15(6,37)**
Vitimização física 5,38(2,23) 4,62(2,67) 5,34(2,26) 4,06(2,03)*
Vitimização verbal 11,95(2,33) 9,15(4,01)** 11,63(2,02) 9,42(2,63)**
Vitimização relacional 9,30(2,40) 7,08(3,17)** 8,97(2,57) 6,67(2,77)**
Agressão total 20,50(5,38) 20,50(6,86) 19,89(6,71) 20,30(6,21)
Agressão física 5,23(2,02) 5,77(1,82) 5,55(2,37) 5,73(1,96)
Agressão verbal 7,15(2,26) 7,96(3,22) 7,24(2,87) 7,61(2,81)
Agressão relacional 8,18(2,91) 7,27(3,17) 7,11(2,81) 6,97(2,84)
Dificuldade em habilidades sociais 1,95(1,06) 1,23(1,18)* 1,26(0,92) 0,79(1,12)
Aceitação social 4,83(3,57) 5,70(4,14) 3,74(2,89) 3,84(3,73)
Poucos amigos 1,03(1,39) 0,44(1,05) 0,32(0,53) 0,31(0,54)
Resolução de conflitos 0,48(0,85) 0,89(1,25) 0,47(0,80) 1,00(2,18)
Simpatia 0,90(1,37) 0,85(1,06) 0,55(0,72) 0,84(1,35)

Nota: Dados apresentados em média (desvio-padrão);

*p<0,05

**p<0,01.

Os resultados indicaram redução significativa na vitimização total no grupo intervenção (β = 0,276, SE = 0,087, p <0,0001) e no grupo comparação (β = 0,252, SE = 0,062, p<0,0001). Apenas o grupo comparação apresentou redução significativa em relação à vitimização física (β = 0,274, SE = 0,056, p = 0,013). A vitimização verbal foi reduzida significativamente para ambos os grupos, no intervenção (β = 0,266, SE = 0,111, p = 0,0008) e no comparação (β = 0,210, SE = 0,065, p = 0,0045). A vitimização relacional igualmente apresentou redução significativa para as vítimas dos grupos intervenção (β = 0,273, SE = 0,090, p = 0,0024) e comparação (β = 0,297, SE = 0,086, p = 0,0006). Não houve diferenças significativas na variável agressão, embora a agressão total tenha aumentado em pequena quantidade no grupo comparação. Somente o grupo intervenção apresentou redução significativa na dificuldade em praticar as habilidades sociais (β = 0,514, SE = 0,231, p = 0,026). A aceitação pelos pares aumentou no grupo intervenção e diminuiu no grupo comparação, embora em níveis não significativos. A indicação de poucos amigos diminuiu não significativamente para o grupo intervenção. A resolução de conflitos aumentou para as vítimas dos grupos intervenção e comparação em níveis não significativos. A simpatia aumentou para ambos os grupos em quantidade não significativa.

DISCUSSÃO

O objetivo deste estudo foi verificar se a melhoria de habilidades sociais reduz a vitimização por bullying em estudantes do 6º ano escolar após 12 meses de intervenção. Os resultados demonstraram que a intervenção realizada atingiu seu objetivo ao reduzir significativamente a dificuldade que as vítimas de bullying possuíam em praticar as habilidades sociais, resultado mantido um ano após a intervenção. Isso pressupõe que os participantes passaram a agir com mais civilidade, empatia, autocontrole emocional, resolvendo os problemas interpessoais com os seus pares de forma não violenta, o que é essencial à construção de amizades, além de apresentarem aumento de apoio social e da capacidade para autodefesa de agressões(10,14).

A aprendizagem de estratégias de enfrentamento asser­tivas, aliada a um maior domínio emocional, configura-se como elemento que pode interromper o ciclo de agressões e assim aumentar a qualidade das interações sociais e da vida das vítimas(17). Esse empoderamento das vítimas, mediante a melhoria das habilidades necessárias à diminuição da condição de vulnerabilidade ao bullying, indica também que ao longo da vida poderão lidar de modo mais adequado com situações semelhantes. Tal aspecto configura-se como importante, pois estudos indicam que a ausência de habilidades sociais pode manter-se inalterada ao longo do tempo e implicar em baixa autoestima, ansiedade, timidez e passividade, características que predispõem os estudantes à vitimização e compromete-lhes o desenvolvimento saudável(12,28-29).

Apesar da melhoria das habilidades sociais dos estudantes vítimas participantes deste estudo, a vitimização foi reduzida significativamente em ambos os grupos (intervenção e comparação), o que sugere que outras variáveis não relacionadas às habilidades sociais podem ter influenciado os grupos e colaborado para diminuir a quantidade desse fator na vivência dos participantes. Uma possível explicação é que a avaliação pré-teste foi realizada no início do ano letivo, no período de transição escolar. Assim, a maior vitimização pode ter ocorrido devido aos inúmeros desafios enfrentados pelos estudantes para formarem novas amizades e se adequarem à nova organização escolar(20-21). A avaliação follow up ocorreu um ano depois, tempo suficiente para os estudantes estarem mais adaptados, terem feito amizades e, consequentemente, serem suas interações sociais assinaladas por menos situações de violência.

A mesma explicação, entretanto, não se aplica à variável agressão que não apresentou variação no grupo intervenção e aumentou não significativamente no grupo comparação. Apesar de geralmente as vítimas responderem de forma passiva às agressões sofridas (submissão, choro fácil, por exemplo), o que possibilita o reforço das agressões por sinalizarem aos agressores seu êxito com as ações(30), responder de forma agressiva também pode aumentar a frequência da intimidação ao longo do tempo(31). O aumento da agressão no grupo comparação sugere que esse fator pode estar sendo utilizado como forma de autodefesa ou resolução de conflitos. Assim, o melhor resultado para o grupo intervenção pode se relacionar à melhoria que apresentou em relação às habilidades sociais e não a variáveis desconhecidas, como ocorreu com a vitimização. O resultado do grupo comparação também pode ter ocorrido por uma busca de maior status ou aceitação social. O aumento da preocupação com status pode estimular a prática de agressões como forma de autoafirmação e busca por popularidade(32).

Os dados apresentados tratam-se de um resultado interessante porque, embora os estudantes do grupo comparação agridam mais os seus colegas, também foram indicados pelos pares com maior aceitação. Resultado semelhante foi apresentado em outro estudo no qual a prática de agressão pelos meninos contribuiu para a maior aceitação pelos pares(33). Isso pode ocorrer em contextos nos quais a violência é considerada normativa no grupo de pares ou promotora de maior status social para os estudantes agressores.

A aceitação pelos pares também aumentou para o grupo de intervenção e diminuiu a indicação de possuir poucos amigos. Apesar de não apresentar diferença significativa, o resultado demonstra melhorias da posição social das vítimas na percepção dos pares. A convivência entre vítimas e não envolvidos no bullying durante as sessões pode ter colaborado para o aumento da amplitude da rede de pares dos participantes da intervenção. Como o isolamento social é um aspecto de vulnerabilidade ao bulllying(10), todo resultado positivo deve ser valorizado. Malgrado não ser possível atribuir a diminuição da vitimização à intervenção realizada, outros resultados atestam a positividade do estudo, como a melhoria significativa nas habilidades sociais e a tendência de melhoria na aceitação pelos pares, assim como na indicação de poucos amigos, por exemplo.

Limitações do estudo

Este estudo apresenta algumas limitações. Primeiramente, o instrumento utilizado na coleta de dados sobre o bullying não avalia situações de cyberbullying, um tipo de agressão que tem aumentado na atualidade, devido ao maior acesso dos estudantes à internet e ao maior anonimato que essa prática agressora proporciona(34). A alocação dos participantes nos grupos de intervenção e de controle ocorreu por sala de aula e não por escola. O mais indicado seria distribuir as escolas, e não as salas de aula, entre os grupos, com vistas a evitar a possibilidade dos participantes da intervenção comentarem sobre o programa com colegas que integravam o grupo controle, por frequentarem a mesma escola, embora em salas de aula diferentes. Pesquisas futuras podem superar tais limitações ao separarem os grupos de intervenção e comparação por escola e ao utilizarem instrumentos que incluam também o cyberbullying, de modo a se avaliar a ocorrência de agressões via mensagens agressivas ou vexatórias divulgadas por celular, e-mails, redes sociais ou páginas da internet.

Contribuições para a área da Enfermagem e Saúde

Para a área da enfermagem, o estudo aponta para um tema ainda pouco explorado nos cenários de prática e atuação profissional do enfermeiro(35). Estudo recente demonstra que a atuação de profissionais da Atenção Primária à Saúde (APS) na área da violência contra crianças e adolescentes de forma articulada e intersetorial ainda configura-se como um desafio(36). Assim, olhar para as potencialidades com foco na promoção da saúde, superando modelos preventivos com foco em problemas e doenças, desvela-se como essencial e coerente ao cuidado em saúde e em enfermagem. O profissional de enfermagem apresenta-se como essencial nesse debate, pelo seu lugar privilegiado junto às equipes de saúde, especialmente na APS. As habilidades sociais podem ser associadas a Teorias de Enfermagem para o delineamento da sistematização da assistência junto a crianças e adolescentes, tendo em vista ações que possibilitem o empoderamento e o protagonismo juvenil.

Oferece-se, ainda, subsídios para a reflexão de equipes de saúde sobre a importância de serem adotas metodologias ativas e participativas para favorecer o desenvolvimento das habilidades sociais de estudantes que sofrem bullying nas escolas, como também sobre o auxílio prestado às famílias na escuta e no enfrentamento em rede da questão(35). Há subsídios que podem nortear práticas de prevenção e enfrentamento do bullying escolar por equipes de saúde em atuação intersetorial, em consonância, por exemplo, aos princípios do Programa Saúde na Escola(37), que incentiva atuações na atenção primária no país com foco em medidas de educação e promoção da saúde para prevenir violências, o bullying, além de estimular a construção de uma cultura da paz nas escolas(28).

CONCLUSÃO

A redução significativa na dificuldade de praticar habilidades sociais manteve-se ao longo do tempo, demonstrando o sucesso da intervenção em relação a essa variável que representa um aspecto importante na interação entre pares, especialmente nos períodos de transição escolar. Assim, as habilidades sociais podem fundamentar intervenções intersetoriais na área da saúde, visando favorecer o empoderamento das vítimas de bullying mediante a melhoria de suas interações e qualidade de vida na escola. Por outro lado, como a redução significativa da vitimização na amostra investigada não pôde ser atribuída exclusivamente à melhoria nas habilidades sociais, embora tenha havido maior redução no grupo de intervenção, sugere-se que outros modelos de intervenção sejam testados na realidade brasileira, com vistas à identificação das variáveis mais efetivas em relação à vitimização por bullying.

FOMENTO

O presente estudo foi financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), Processo n. 2013/22361-5 e Processo n. 2015/01794-6.

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Recebido: 21 de Março de 2017; Aceito: 07 de Junho de 2017

AUTOR CORRESPONDENTE: Jorge Luiz da Silva E-mail: jorgelsilva@usp.br

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