SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.71 issue4Brazilian Unified Health System and democracy: nursing in the context of crisis author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

Services on Demand

Journal

Article

Indicators

Related links

Share


Revista Brasileira de Enfermagem

Print version ISSN 0034-7167On-line version ISSN 1984-0446

Rev. Bras. Enferm. vol.71 no.4 Brasília July/Aug. 2018

http://dx.doi.org/10.1590/0034-7167-2017-0065 

REFLEXÃO

Contribuições da teoria de Jean Watson ao pensamento crítico holístico do enfermeiro

Fernando RiegelI 

Maria da Graça Oliveira CrossettiI 

Diego Silveira SiqueiraI 

IUniversidade Federal do Rio Grande do Sul. Porto Alegre-RS, Brasil.

RESUMO

Objetivo:

refletir acerca das contribuições da teoria de Jean Watson ao pensamento crítico holístico do enfermeiro.

Método:

trata-se de um artigo de reflexão teórica, para a qual serviram de base produções científicas sobre a teoria do cuidado humano de Jean Watson publicadas em periódicos nacionais e internacionais.

Resultados:

a teoria de Jean Watson e sua contribuição para o pensamento crítico holístico do enfermeiro; a interface do pensamento crítico holístico no ensino do processo diagnóstico de enfermagem à luz da teoria de Watson; contribuições do pensamento crítico holístico para o campo da enfermagem.

Considerações finais:

a teoria de Jean Watson baseia-se nos aspectos humanísticos e nas dimensões espirituais e éticas do cuidado, levando em conta as características de cada indivíduo e suas necessidades biopsicossocioespirituais, o que pode contribuir fundamentalmente para o desenvolvimento do pensamento crítico holístico e para a atuação do enfermeiro no campo do cuidado, do ensino e da pesquisa.

Descritores: Pensamento; Teoria de Enfermagem; Processos de Enfermagem; Diagnóstico de Enfermagem; Cuidados de Enfermagem

INTRODUÇÃO

Serviram de base a esta reflexão o estudo Delphi, desenvolvido por Facione, a teoria do cuidado humano, de Watson, os pressupostos de Capra acerca do paradigma holístico em saúde e a teoria das necessidades humanas básicas, de Wanda Horta, com destaque para as dimensões psicobiológica, psicossocial e, especialmente, psicoespiritual, contribuindo com a caracterização do cuidado holístico realizado pelo enfermeiro. Buscou-se incluir nesta reflexão a relação existente entre a teoria de Watson, a teoria de Wanda Horta e o referencial teórico de Facione sobre o pensamento crítico holístico. Evidenciaram-se os resultados positivos dessa associação teórica na formação de enfermeiros que capazes de pensar holisticamente e exercer o cuidado holístico em enfermagem.

Nessa direção, é importante destacar que o modelo de formação do enfermeiro no Brasil é orientado pelas Diretrizes Curriculares Nacionais (DCN)(1). Essas diretrizes definem os princípios, os fundamentos, as condições e os procedimentos estabelecidos pela Câmara de Educação Superior do Conselho Nacional de Educação para a formação de enfermeiros em âmbito nacional, bem como para a organização, o desenvolvimento e a avaliação de projetos pedagógicos dos cursos de graduação em enfermagem das instituições de ensino superior.

Segundo as DCN, o perfil do formando, quando egresso/profissional, deverá ser o de enfermeiro com formação generalista, humanista, crítica e reflexiva. O profissional deve estar qualificado para o exercício da enfermagem com base no rigor científico e intelectual e pautado em princípios éticos, sendo capaz de conhecer e intervir sobre os problemas ou situações de saúde-doença mais prevalentes no perfil epidemiológico nacional, com ênfase à região de atuação, identificando as dimensões biopsicossociais de seus determinantes. Consequentemente, o enfermeiro deve estar capacitado para atuar com responsabilidade social e compromisso com a cidadania, promovendo a saúde integral dos seres humanos(1).

Objetivando esse perfil de formação profissional, as DCN estão estruturadas nas seguintes competências e habilidades gerais: atenção à saúde, tomada de decisões, comunicação, liderança, administração e gerenciamento, e educação permanente. Para isso, os conteúdos a serem abordados no currículo dos cursos de graduação devem contemplar as ciências biológicas e da saúde, as ciências humanas e sociais e as ciências de enfermagem, incluindo os fundamentos da enfermagem, a assistência de enfermagem, a administração de enfermagem e o ensino de enfermagem(1).

Na atualidade, formar enfermeiros exige reflexão sobre as mudanças no perfil epidemiológico e sobre a complexidade do cuidado exigido pelos pacientes. Nesse cenário, ainda é possível perceber lacunas na formação dos enfermeiros, o que tem levado esses profissionais a aplicarem o processo de enfermagem com forte influência do modelo biomédico, centrado exclusivamente nas alterações fisiológicas, dando-se pouca ênfase aos aspectos humanísticos e à espiritualidade dos seres que são cuidados. Dessa forma, interfere-se substancialmente na recuperação dos pacientes.

Muitos currículos de enfermagem permanecem focados apenas na entrega de conteúdo e na demonstração de habilidades em lugar de apoiar o desenvolvimento humano de estudantes de enfermagem(2). No entanto, não se pode deixar de considerar que alguns cursos de formação no país têm buscado romper com esse paradigma dominante, incluindo em seu currículo disciplinas capazes de dar conta das demandas tão necessárias à formação dos enfermeiros no Brasil e no mundo.

Infere-se, portanto, que tais configurações curriculares também podem sofrer influências, estando associadas aos diferentes entendimentos da direção de cursos de formação quanto às DCN, tendo em vista que, embora traga em seu conteúdo terminologias como aspectos humanísticos e formação humanista, o documento não identifica essas terminologias a fim de nortear a abordagem das instituições formadoras.

Nesse sentido, identifica-se a importância das bases teóricas e filosóficas da profissão de enfermagem enquanto ciência e arte, as quais devem permear os fundamentos da formação dos enfermeiros, que devem conhecer e aplicar em sua prática profissional as teorias e a filosofia da enfermagem, temas importantes que dão os subsídios necessários ao processo de enfermagem em todas as suas etapas, com qualidade e segurança ao paciente.

A ausência de clareza no que se refere às teorias e à filosofia em enfermagem por parte dos cursos de formação pode contribuir para a desvalorização desse tema, que é de fundamental importância para o pensamento crítico holístico dos egressos dos cursos de graduação em enfermagem.

Com o intuito de agregar esse aspecto filosófico essencial à formação do enfermeiro – e não deixá-lo subentendido, ou que sua inclusão nos currículos fique a critério dos cursos –, sugere-se a modificação do texto das DCN. Não se pode perder de vista que as atuais diretrizes foram criadas há aproximadamente 15 anos e necessitam de revisão, a fim de darem conta da formação do enfermeiro para enfrentar as exigências e a complexidade do sistema de saúde brasileiro.

Para atender a essa demanda formativa destaca-se fundamentalmente a teoria do cuidado humano proposta por Watson, com vistas à valorização da filosofia da enfermagem e das dimensões humanísticas que permeiam o cuidado dos pacientes nos diferentes contextos e cenários da assistência em enfermagem. Essa teoria recebe ênfase especial no ensino do processo de enfermagem, sendo definida como um instrumento metodológico e uma valiosa tecnologia que deve ser utilizada para garantir segurança nas práticas de enfermagem e no processo diagnóstico de enfermagem (PDE). A teoria do cuidado humano caracteriza-se pela aplicação do pensamento crítico e pela contínua tomada de decisões em situações que exigem do enfermeiro o levantamento e a solução dos problemas de saúde dos indivíduos sob seus cuidados(2).

Para dar conta dessa dimensão de trabalho do enfermeiro, torna-se imprescindível o pensamento crítico (PC), definido como a arte de pensar sobre o pensar, o pensar estruturado por habilidades cognitivas, comportamentais e hábitos da mente(2).

Presume-se que os estudantes e enfermeiros que conhecem a teoria do cuidado humano de Watson (e que a aplicam em suas práticas) podem qualificar e desenvolver o pensamento crítico em uma perspectiva holística. Tal consciência se torna fundamental diante das mudanças no perfil epidemiológico dos indivíduos, da prevalência de doenças crônicas e dos crescentes avanços dos aparatos tecnológicos e do ambiente high tech, com a inserção da robótica e outras tecnologias de inteligência artificial. A utilização inadequada desses artifícios pode influenciar sobremaneira na execução de cuidados tecnicistas. Nesse contexto, reafirma-se a necessidade de se abordar aspectos relacionados a crenças e valores, à espiritualidade e a diferentes culturas, compreendendo o ser humano em sua totalidade, conferindo acurácia e fidedignidade ao PDE.

Nessa ótica, o paradigma holístico propõe a união entre corpo e mente; porém, a mente não deve ser educada ou compreendida, apenas controlada. Existem muitas possibilidades para (re)aprendermos a trabalhar com nosso corpo e mente conectados, visando ao ensino e aprendizado integral(3).

Na abordagem holística, acredita-se que os profissionais de enfermagem e saúde devem contextualizar a doença, mostrando ao paciente os múltiplos fatores que levaram à disfunção e ensinando-lhe sobre a natureza e o significado de sua doença. Também é fundamental que os profissionais mostrem ao paciente como ele pode mudar o estilo de vida que o conduziu à enfermidade. Essa abordagem tem como objetivo restaurar a saúde integral, e não puramente combater a doença eliminando seus sinais e sintomas(3).

A TEORIA DE JEAN WATSON E SUA CONTRIBUIÇÃO PARA O PENSAMENTO CRÍTICO HOLÍSTICO DO ENFERMEIRO

A teoria do cuidado humano de Watson prescreve que é essencial para a sociedade atual manter os ideais de cuidado humano. Isso é relevante, uma vez que, cotidianamente, há uma proliferação de tratamentos e técnicas de cura radicais que comumente desconsideram os aspectos humanos que envolvem o cuidado autêntico(4).

A lógica de pensamento proposta por Watson pode ser desenvolvida quando os espaços de formação disparam, por meio do ensino, a motivação para a modelagem do pensamento, de modo que este possa dar conta das dimensões humanísticas tão necessárias no cenário estanque e puramente técnico que prolifera. Além disso, o pensamento também pode fazer frente ao engessamento da interação humana nos estados de maior fragilidade, em que imperam o egocentrismo e o cuidado prescritivo, sem dar voz ao sujeito que suplica pelo cuidado.

Para embasar essa mudança de paradigma e romper com os padrões dominantes, pensando criticamente o cuidado, salienta-se a importância da teoria de Watson, da teoria de Wanda Aguiar Horta e das publicações de autores como Capra e Facione. Essas contribuições teóricas auxiliam na formação e modelagem do pensamento crítico holístico dos enfermeiros, premente para o atual momento.

Nesse sentido, Watson desenvolveu, em sua teoria do cuidado humano, dez fatores caritativos considerados necessidades de cuidado específicas às experiências humanas e que devem ser abordados pelos enfermeiros: sistema de valores humanísticos e altruístas; fé e esperança; sensibilidade para si e para os outros; desenvolvimento de relações de ajuda, confiança, cuidado; expressão de sentimentos e emoções positivas e negativas; processo de cuidado criativo e individualizado de solução de problemas; ensino-aprendizado transpessoal; ambiente sustentador, protetor e/ou corretivo, mental, físico, social e espiritual; assistência às necessidades humanas e forças existencial-fenomenológicas e espirituais(5).

Os fatores caritativos propostos por Watson vão ao encontro do que Wanda Aguiar Horta propôs em sua teoria das necessidades humanas básicas, principalmente no que tange às necessidades psicoespirituais do ser humano. Também dialogam com o que propõe Capra quando apresenta o ser humano como um sistema vivo e dinâmico, composto por sistemas maiores, interligados e interdependentes, nos quais as dimensões física, mental, social e espiritual devem ser consideradas(6).

Nesse âmbito, não raro o pensamento humano, bem como o hábito de pensar criticamente, podem ser influenciados pela teoria de Watson, conferindo-lhe o status de pensamento holístico, pois o ser humano passa a ser entendido como sistema vivo e maior, e os elementos que o constituem estão interligados e interdependentes.

Nessa perspectiva, como resultado positivo do pensar holisticamente, está o fato de os enfermeiros contextualizarem aos pacientes o arcabouço que envolve a doença, permitindo a visibilidade do real estado de saúde e dos fatores que o levaram a não estar saudável. Além disso, esse pensar holístico congrega os profissionais com o intuito de que não subestimem o estado degenerativo orgânico, mas que também incluam o estado espiritual nas práticas de cuidado, levando em consideração o equilíbrio entre corpo-mente-espírito ensinado por Watson(6).

Fonte: adaptado do site Estado de Direito. Disponível em https://goo.gl/x6KAe5. Acesso em 28 fev. 2018.

Figura 1 Modelagem do pensamento crítico holístico do enfermeiro baseada em Watson, Horta e FacioneNotas: *PE: processo de enfermagem; ** PDE: processo diagnóstico de enfermagem. 

INTERFACE DO PENSAMENTO CRÍTICO HOLÍSTICO NO ENSINO DO PROCESSO DIAGNÓSTICO DE ENFERMAGEM À LUZ DA TEORIA DE WATSON

O PDE é o elemento fundamental para a tomada de decisão do enfermeiro, pois evidencia as reais condições de saúde dos indivíduos, possibilitando a identificação do diagnóstico de enfermagem prioritário, incluindo as respectivas intervenções para o alcance dos resultados esperados(7).

O pensamento crítico é uma aptidão essencial no PDE, sendo definido como um julgamento intencional, que resulta na interpretação, na análise, na avaliação e na inferência, além da explicação das evidências sobre as quais o julgamento foi baseado. Tal ação exige habilidades mobilizadas pela razão, pelos hábitos mentais e pelos aspectos emocionais que envolvem as relações humanas diante da necessidade de tomar decisões clínicas imediatas, repercutindo na qualidade da assistência prestada(8).

No tocante ao ensino do PDE, a teoria do cuidado humano possibilita ao enfermeiro considerar a trajetória de vida e as experiências do paciente, incluindo o contexto ético, estético e pessoal. Para isso, o enfermeiro deve aprender a diagnosticar. O embasamento teórico de Watson auxilia no desenvolvimento de habilidades e hábitos da mente importantes para um bom pensador crítico holístico, tais como: compreensão, confiança, criatividade, intuição, perspectiva contextual e reflexão, os quais levam esse pensador a considerar o contexto biopsicossocial histórico e cultural do paciente, enxergando de modo holístico o ser humano sob seus cuidados. Com isso, os estudantes se sentem mais bem-sucedidos e expressam maiores níveis de satisfação(5).

Nesse âmbito, entende-se que a teoria do cuidado humano pode preencher as lacunas da formação holística do enfermeiro, uma vez que, no ensino de enfermagem, ainda existem carências especialmente no que se refere à aplicação da dimensão holística e espiritual. Essas carências seriam reflexo da abordagem atual do tema pelas DCN? Seriam reflexo da ausência de definições do que é essencial para a formação dos enfermeiros? Diante de tais questionamentos, torna-se cada vez mais necessária a elaboração de diretrizes que norteiem a inclusão desses temas como transversais nos projetos político-pedagógicos dos cursos de graduação em enfermagem no Brasil, ampliando a visão holística e humana dos egressos do campo da enfermagem.

A partir da análise do documento que baliza as orientações nacionais para os cursos de enfermagem (as DCN), identificou-se que os aspectos humanísticos que envolvem o cuidado de enfermagem estão presentes em alguns dos artigos que compõem o documento(1); porém, as DCN pulverizam o tema entre os parágrafos que a constituem. Com isso, a abordagem do tema humanização torna-se superficial, não apresentando definições para termos como "formação humanista", "dimensões humanísticas", "princípios humanísticos da profissão e inerentes ao cuidado", "compromisso humanístico" e "humanização do atendimento".

Dessa forma, é necessário discutir a proposta de educação holística como maneira de contribuir para a inclusão dos temas de natureza holística e espiritual no ensino de enfermagem. Essa inclusão é extremamente oportuna, já que esses temas procuram restabelecer o equilíbrio entre o pensamento linear e a intuição, o que se concretiza em sala de aula por meio de várias técnicas: estudos de casos, simulação realística e outras estratégias de metodologias ativas nas quais o estudante tem a oportunidade de experienciar situações reais em laboratórios de alta complexidade(2).

Acredita-se que as teorias de Watson e de Horta podem embasar o pensamento crítico de modo eficaz, conferindo-lhe o status de pensamento crítico holístico – um pensamento que deve ser modelado no processo formativo, de forma que o futuro enfermeiro esteja preparado para significar os achados relativos à espiritualidade, às crenças e aos valores dos indivíduos que assistirá em seu cotidiano de trabalho. Desse modo, é conferido a esse profissional um pensar com mais qualidade.

Nesse aspecto, as teorias ressignificam o PDE, evidenciando necessidades humanísticas básicas que em muitos momentos ficam em segundo plano por não estarem ligadas diretamente a um desajuste orgânico fisiológico, mas que, a médio e longo prazo, podem desencadear alterações fisiológicas visíveis.

CONTRIBUIÇÕES DO PENSAMENTO CRÍTICO HOLÍSTICO PARA O CAMPO DA ENFERMAGEM

Considerando-se a natureza da enfermagem, caracterizada por ser uma disciplina social e humanística que alia ciência e arte no cuidado de indivíduos portadores de problemas complexos, exige-se dos enfermeiros e estudantes de enfermagem a introdução do pensamento crítico holístico na aplicação do processo diagnóstico. Isso assume primordial relevância pois diagnósticos e intervenções de enfermagem devem estar voltados para o ser humano em sua totalidade.

O pensamento crítico holístico pode ser definido como o pensar com qualidade, ou seja, trata-se do processo de julgamento centrado em decidir no que acreditar ou no que fazer; para isso, o pensador crítico não deve ser negativo ou cínico, mas reflexivo e equilibrado, exigindo que as pessoas expressem algum tipo de razão ou base para o que quer que estejam dizendo(9).

Facione afirma que a aplicação do PCH exige conhecimento, experiência e pensamento crítico, somados a características cognitivas e comportamentais. Entre essas características destacam-se: análise, aplicação de padrões, discernimento, explanação, inferência, interpretação, predição, transformação do conhecimento, autoconfiança, mente aberta, investigação e hábitos da mente que incluem intuição, compreensão, confiança, criatividade, curiosidade, integridade intelectual, perseverança, perspectiva contextual e reflexão, além de outras habilidades de natureza emocional e relacional(9).

Observa-se, pois, que a abordagem holística contribui para o desenvolvimento do pensamento crítico. Desse modo, entende-se que a mudança nos paradigmas dominantes, no que tange ao pensamento linear, pode representar uma interface no campo da enfermagem, tanto no cuidado/assistência, como no ensino e na pesquisa, qualificando as diferentes linhas de atuação do enfermeiro no sentido de dar vazão às dimensões humanas que envolvem o ser e o fazer em enfermagem (Figura 2).

Figura 2 Interface do pensamento crítico holístico no cuidado, ensino e pesquisaNotas: *PCH: pensamento crítico holístico; ** PDE: processo diagnóstico de enfermagem. 

Ao se pensar holisticamente, é necessário disposição para prosseguir com a mente aberta e honestidade intelectual na identificação de razões e provas para a tomada de decisões objetivas e resoluções de problemas complexos, de alto risco ou mal estruturados, antecipando possíveis consequências e sendo prudente(9).

A habilidade para a utilização desses hábitos da mente será decisiva na aplicação do PDE, pois tais hábitos são capazes de ponderar a integralidade do cuidado com uma visão ampliada da realidade e da singularidade dos indivíduos. Trazendo essa discussão para o campo prático, significa dizer que, no cotidiano do cuidado, o indivíduo será assistido genuinamente, atendendo-se a todas as suas necessidades, incluindo as dimensões humanas e espirituais.

Pode-se considerar o PC como um julgamento intencional e autorregulável que resulta da interpretação, da análise, da avaliação e da inferência, bem como da explanação das evidências, das considerações conceituais, metodológicas e contextuais ou de critérios nos quais o julgamento foi baseado(10). Nessa perspectiva, entende-se que o PCH possa qualificar ainda mais as práticas nos diferentes cenários em que os enfermeiros estão inseridos. Essa ressonância pode ser visualizada na figura abaixo:

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Finaliza-se esta reflexão teórica com a certeza de que a teoria de Jean Watson, associada a outras teorias, tais como a de Wanda Horta e a de autores como Capra e Facione, possui fundamental importância na constituição do pensamento crítico holístico (PCH) do enfermeiro. Além disso, vê-se que essa teoria pode contribuir decisivamente para o preenchimento das lacunas de conhecimento relacionadas à dimensão holística na aplicação do PDE e à tomada de decisão clínica dos estudantes e enfermeiros.

No entanto, a teoria de Watson precisa ser explorada com mais profundidade nos espaços de formação, não apenas qualificando e dando sustentação ao ensino da enfermagem, mas principalmente contribuindo para a modelagem do pensamento dos futuros enfermeiros, de modo a refletir diretamente no processo de cuidar em diferentes contextos de formação/ensino, assistência e pesquisa. Dessa forma, os espaços de cuidado e ensino tornam-se mais humanos, éticos, estéticos e solidários.

Nessa direção, é preciso ainda demonstrar a importância de se pensar criticamente, incluindo a dimensão holística do cuidado na reflexão de docentes, acadêmicos de enfermagem e enfermeiros, repensando os paradigmas dominantes na área da saúde e da educação. Para tanto, deve-se desenvolver pesquisas que identifiquem a qualidade do processo diagnóstico mediante a aplicação do pensamento crítico holístico, comprovando a acurácia e a assertividade na seleção de diagnósticos prioritários, que façam sentido para os seres envolvidos no processo de cuidar.

E ainda mais premente é a reavaliação das atuais Diretrizes Curriculares Nacionais, preconizando o enfoque necessário do pensamento holístico a fim de corrigir equívocos e deficiências tão presentes nos dias atuais. Quando se analisa a configuração curricular dos diferentes cursos de formação em enfermagem, evidencia-se a ausência de uniformização e a limitada abordagem das teorias e da filosofia da enfermagem nas práticas de cuidado.

REFERENCES

1 Brasil. Resolução CNE/CES n° 3, de 7 de novembro de 2001: Institui as Diretrizes Curriculares Nacionais do Curso de Graduação em Enfermagem, 2001. [ Links ]

2 Crossetti MGO, Goes MGO. Habilidades de pensamento crítico no processo diagnóstico de enfermagem. In: Herdman TH, (Org.). PRONANDA: Programa de Atualização em Diagnósticos de Enfermagem. Porto Alegre: Artmed Panamericana; 2016;4(1):9-34. [ Links ]

3 Capra F. Ponto de mutação. São Paulo: Cultrix; 2006. [ Links ]

4 McEwen M, Willis EM. Bases teóricas de Enfermagem. 4 ed. Porto Alegre: Artmed; 2016. [ Links ]

5 Clark CS. Watson's human caring theory: pertinent transpersonal and humanities concepts for educators. Humanities[Internet]. 2016 [cited 2017 Jan 02]; 5(21):1-12. Available from: http://www.mdpi.com/2076-0787/5/2/21Links ]

6 Watson J. The Philosophy and science of caring. Boulder, CO: University Press of Colorado; 2008. [ Links ]

7 Crossetti MGO, Lima AAA. Aplicação do modelo teórico de pensamento crítico no ensino do processo diagnóstico em enfermagem: uma experiência na prática clínica. Invest Qual Saúde[Internet]. 2016 [cited 2017 Jan 02];(2):552-61. Available from: http//proceedings.ciaiq.org/index.php/ciaiq2016/article/download/794/780Links ]

8 Menezes SSC, Corrêa CG, Silva RCG, Cruz DALM. Clinical reasoning in undergraduate nursing education: a scoping review. Rev Esc Enferm USP[Internet]. 2015 [cited 2017 Jan 02]; 49(6):1037-44. Available from: http://www.scielo.br/pdf/reeusp/v49n6/0080-6234-reeusp-49-06-1037.pdfLinks ]

9 Facione PA, Gittens CA. Think Critically. Chapter 1. Califórnia, CA: Pearson Education; 2016. [ Links ]

10 Facione PA. Critical Thinking: A Statement of expert consensus for proposes of educational assessment and instruction [Internet]. California Academic Press. 1990[cited 2017 Jan 02];(1):1-20. Available from: https://assessment.trinity.duke.edu/documents/Delphi_Report.pdfLinks ]

Recebido: 14 de Março de 2017; Aceito: 20 de Agosto de 2017

AUTOR CORRESPONDENTE: Fernando Riegel. E-mail: friegel@hcpa.edu.br

Creative Commons License This is an Open Access article distributed under the terms of the Creative Commons Attribution License, which permits unrestricted use, distribution, and reproduction in any medium, provided the original work is properly cited.