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Revista Brasileira de Enfermagem

versão impressa ISSN 0034-7167versão On-line ISSN 1984-0446

Rev. Bras. Enferm. vol.72  supl.1 Brasília jan./fev. 2019

http://dx.doi.org/10.1590/0034-7167-2017-0361 

REFLEXÃO

Cotidiano de trabalho em enfermagem sob a ótica de Michel de Certeau

Hosana Ferreira RatesI 
http://orcid.org/0000-0002-2907-827X

Ricardo Bezerra CavalcanteI 
http://orcid.org/0000-0001-5381-4815

Regina Consolação dos SantosI 
http://orcid.org/0000-0002-7393-3210

Marilia AlvesII 
http://orcid.org/0000-0002-4695-0787

IUniversidade Federal de São João Del Rei, Curso de Enfermagem. Divinópolis-MG, Brasil.

IIUniversidade Federal de Minas Gerais, Escola de Enfermagem. Belo Horizonte-MG, Brasil.

RESUMO

Objetivo:

refletir sobre o cotidiano de trabalho em enfermagem a partir da teorização de Michel de Certeau.

Resultados:

o cotidiano de trabalho em enfermagem é permeado por táticas dos sujeitos que praticam o lugar; seus movimentos operam escapes a normas, protocolos e regras, ressignificando o sistema cultural definido a priori. Há um fazer próprio dos profissionais, que (re)inventam o cuidar a partir de suas intencionalidades e pressões. Pacientes/usuários também se movimentam, criam o próprio itinerário e, assim como os profissionais, operam estratégias com vistas a alcançar determinados resultados no processo terapêutico.

Conclusão:

refletir sobre o cotidiano de trabalho em enfermagem como um objeto de pesquisa exige considerar a (re)invenção do cuidado em cada ato no sentido de fazer saúde. É preciso mergulhar na dimensão invisível das táticas incontroláveis de sujeitos que ressignificam o sistema social.

Descritores: Trabalho; Enfermagem; Pesquisa em Enfermagem; Cuidado de Enfermagem; Teoria Social

INTRODUÇÃO

No contexto da enfermagem, a palavra "cotidiano" frequentemente é utilizada em várias abordagens de pesquisa, como pano de fundo para reflexões relacionadas ao processo de trabalho, e não como objeto de pesquisa(1-2). "Cotidiano", em tais estudos, ganha a roupagem de atividades rotineiras advindas de pouca reflexão teórica, atreladas ao dia a dia e à profissão(1). Endossando essas afirmações, o cotidiano de trabalho em enfermagem tem sido abordado como ações práticas e corriqueiras marcadas pela utilização de linguagens e simbologias, além do desenvolvimento de atividades direcionadas aos cuidados dos pacientes(2).

Apesar de o trabalho em enfermagem ser amplamente pesquisado, seu cotidiano precisa se tornar objeto de investigação com vistas a iluminar as reais práticas de cuidado que efetivamente ocorrem nos ambientes de trabalho. Assim, cuidado e cotidiano se fundem a partir de ações passíveis de serem (re)inventadas a cada instante, além de protocolos e normas, dependentes de relações de poder, bem como circunstâncias que pressionam os sujeitos partícipes do processo. Para Certeau(3), o cotidiano abarca "situações circunstanciais" que despertam nos sujeitos novos modos de fazer, artes de escapar à lógica do que lhes é imposto. Tais situações seriam acontecimentos que impelem os indivíduos à necessidade de criação e adaptação da própria realidade, constituída pela dinamicidade da vida(3).

Contudo, cabe destacar que a especificidade das práticas e suas descrições, bem como a apropriação do saber, têm construído maneiras de se "fazer" o cuidado em saúde. Para apreendermos a "realidade" da vida cotidiana, em qualquer dos espaços/tempos nos quais ela se dá, é preciso aprender além do que já sabemos, estar atentos a tudo o que se passa, se acredita, se repete, se cria e se inova. Com base no conceito de cotidiano em Certeau(3), é necessário entender que o fazer do indivíduo no contexto da enfermagem, em qualquer cenário onde se realize, exigirá o estabelecimento de múltiplas redes de relações entre os sujeitos, seus valores e preconceitos com os quais constroem espaços e tempos habituais.

A busca de compreensão do cotidiano de trabalho em enfermagem como objeto de pesquisa e dos movimentos nele silenciados pode se apoiar na teorização de Certeau(3), que destaca o cotidiano como aquilo que nos é dado e nos pressiona dia após dia, mas não um simples cenário rotineiro de trabalho. É o locus onde as relações de poder se manifestam e estão imbricadas em práticas que se materializam por meio de táticas, astúcias do fazer que ressignificam o lugar e estimulam movimentos próprios de cada sujeito ali circunscrito. Nesse sentido, o cotidiano vivido é inerente ao setor de saúde, dependente de movimentos e ações estabelecidos na relação entre profissionais, instituição e usuários desses serviços. É importante captar o cotidiano, entendê-lo, entrar em sua invisibilidade e participar do vivido. Assim, buscou-se com este trabalho refletir sobre o cotidiano profissional em enfermagem, a partir da teorização de Michel de Certeau.

O COTIDIANO EM MICHEL DE CERTEAU: BASES CONCEITUAIS

Para Certeau(3), o cotidiano pode ser compreendido como algo mais que um simples cenário rotineiro de trabalho, representando um espaço de produção e reprodução das práticas sociais. É um lugar onde os dominados são capazes de se apropriar da esfera simbólica constituída pelos dominantes e transformá-la, ressignificá-la de acordo com suas necessidades e possibilidades. O trunfo do sujeito está em inventar o cotidiano, atribuir novos sentidos ao que é posto como um fazer validado e legitimado, perante as normas estabelecidas pelos gestores da vida pública.

Certeau(3) também entende que o cotidiano é conformado a partir da relação entre dominantes e dominados, que não é fixa: ora dado sujeito, norma, estrutura social ou sistema emite elementos da dominação e tem a possibilidade de transmiti-los, ora essa relação se inverte. Há uma cultura estabelecida entre o dominante e o dominado, diferenciando-se apenas pela capacidade que um e outro têm de transmiti-la. Argumenta-se que a cultura dominante é de posse daquele que detém os meios de controle, produção e divulgação, os quais, por sua vez, moldam espaços de poder e criam visões de mundo próprias e autônomas. Em contrapartida, a cultura do dominado é daqueles que não possuem meios de impor suas práticas e torná-las oficiais. Entretanto, os dominados podem se apropriar da esfera simbólica dos dominantes e transformá-la(3).

Nesse sentido, como o cotidiano é construído a partir de movimentos da relação dinâmica entre dominantes e dominados, valorizam-se os sujeitos como homens ordinários (heróis comuns), aqueles que conseguem usar de astúcias nos espaços de poder em proveito de seus interesses e aproveitar ocasiões e cochilos de um olhar vigilante(4). Portanto, há uma invisibilidade no cotidiano que perpassa o fazer de cada sujeito e as composições estabelecidas nas redes de relações interpessoais e com o sistema a ser consumido.

Na construção do cotidiano, Certeau(3) define dois tipos de comportamento do sujeito: o estratégico e o tático. O autor constrói esses termos a partir da observação do contexto militar e lhes atribui novos significados.

Descreve as instituições, em geral, como "estratégicas", organizadas pelo postulado de uma autoridade. Uma estratégia pode ter o status de ordem dominante ou ser sancionada pelas forças dominantes e se engaja no trabalho de sistematizar, de impor ordem. A estratégia delimita um lugar que é uma configuração instantânea de posições e implica indicação de estabilidade. Aqueles que utilizam estratégias dominam o tempo para conquistar e preparar expansões, de modo a obter independência em relação ao outro; dominam os lugares a partir de observação e medida para melhor controlar, prever e antecipar leituras do território. Finalmente, definem o poder pelo saber, pela capacidade de transformar incertezas em espaços legíveis(4-5).

Por outro lado, as táticas configuram uma ação calculada e operam golpe por golpe, lance por lance. Aproveitam as "ocasiões" e falhas que as conjunturas vão abrindo na vigilância do poder. Uma tática infiltra, não tenta dominar, não tenta vencer. Ciente de seu status de "fraco", o sujeito tático não faz nenhuma tentativa de enfrentar a estratégia, mas procura preencher suas necessidades, enquanto se esconde atrás da aparência de conformidade. Na dificuldade de identificar a tática está uma parte significativa de seu poder(3).

Nesse espaço das táticas, Certeau(3) destaca um sujeito "ordinário", aquele que consegue, mesmo que momentaneamente, se desviar dos encontros com "o poder", escapar a um olhar totalizante, a um enquadramento disciplinar, a lugares fixos e preestabelecidos. Nesse sentido, o homem ordinário (herói comum) é capaz de usar astutamente esses lugares e enquadramentos em proveito de outros interesses. Ao procurar viver da melhor forma possível, com astúcias anônimas das artes de fazer, o homem ordinário vai criando, (re)inventando o cotidiano a partir de suas táticas(3).

O espaço como invenção da prática é o lugar praticado, oposto ao determinado pela ordem. A rua, o aeroporto, uma praça ou um serviço de saúde são transformados em espaços pelas pessoas, pedestres, viajantes, pacientes, profissionais de saúde que por ali circulam e dão vida aos cenários. São as ações dos sujeitos que definem os espaços; já os lugares estão ali, estáticos, na inércia(3).

Assim, no lugar-espaço como invenção das táticas, o herói comum cria modos inventivos de escape e confrontação em cada situação, não apenas rompendo com o caráter normativo da ação social cotidiana, como também realçando as relações de poder que incidem na construção social da vida. Enfim, a tática é o movimento dentro do campo de ação do outro e no espaço por ele controlado; aproveita as ocasiões e capta no voo as possibilidades oferecidas por um instante.

O conceito de tática é utilizado para explicar de que forma os indivíduos, categorizados como consumidores pelo sistema dominante, subvertem os produtos "fechados" que pululam incessantemente nos espaços sociais periféricos, a fim de massificá-los e dominá-los(4,5). Exemplifica Certeau(3) que, na América Colonial, a dominação portuguesa fracassou no intento desejado, pois ainda que os indígenas deixassem transparecer dominação completa, na verdade subvertiam as ações impositivas, não as rejeitando, mas modificando-as de acordo com suas práticas, sem se deixar dominar pelo poder. Faziam "bricolagens" com os produtos determinados pelos colonizadores, segundo seus interesses e regras. A bricolagem é a forma de o sujeito insubmisso fugir da ordem, "escapar" e formar um novo conhecimento, uma nova cultura pela síntese dos vários fragmentos da cultura imposta.

Nesse sentido, Certeau(3) aprofunda a questão de usuário/consumidor, considerando que ele faz uma bricolagem com e na ordem dominante, utilizando inúmeras metamorfoses da lei. O consumidor estabelece procedimentos populares (também "minúsculos" e cotidianos) que jogam com os mecanismos da disciplina e não se conformam com eles, a não ser para alterá-los. Enfim, há "maneiras de fazer" que formam a contrapartida, do lado dos consumidores dos processos mudos, que organizam a vida sociopolítica. Tecem em redes de ações reais, cuja tessitura não é mera repetição de uma ordem social preestabelecida, mas se dá por meio de táticas dos praticantes que inserem na estrutura social criatividade e pluralidade, modificadores de regras e relações entre o suposto poder das estruturas e dos dominantes e a vida dos que a ele estão presumivelmente submetidos.

O COTIDIANO DE TRABALHO EM ENFERMAGEM: SUBJETIVIDADES, CRIATIVIDADE E (RE)INVENÇÃO DO CUIDADO

Quando profissionais de saúde estão em situação de trabalho, em relação com o usuário, o cuidado é definido a partir de encontros carregados por subjetividades e trajetórias, tanto do trabalhador como do usuário(6). Por isso, há uma produção subjetiva do cuidado em saúde, o que torna a subjetividade uma das dimensões do modo de produção em saúde(6-7). No contexto da enfermagem, tais subjetividades estão presentes e movimentam o trabalho, definem os atos de cuidar, as práticas de enfermeiros, bem como o autocuidado assumido ou não pelos próprios pacientes/usuários(8-9). A construção das subjetividades no trabalho de enfermagem se manifesta mediante percepções e comportamentos na prática do profissional dessa área, tendo relação com sua produtividade e despertando-o para a necessidade de reinventar o cotidiano, transformar o ambiente de trabalho para atender o indivíduo(8-9).

Há que se considerar as diversas situações circunstanciais que também influenciam as subjetividades no trabalho em saúde e enfermagem. Nesse contexto, profissionais e usuários são reconhecidos como sujeitos inseridos em um sistema de saúde deficitário, com diversos bloqueios em seu percurso (padrões de modelo de gestão, normas e rotinas das instituições, infraestrutura precária e sucateada)(9). Assim, o improviso e a recriação do fazer, no que tange à equipe de enfermagem em seu cotidiano, podem ser correlacionados à ressignificação legítima do cuidado, fortalecendo sua importância e representando a liberdade de atuação.

No cotidiano profissional de enfermagem existe diferença entre o trabalho praticado, que é prescrito pela normatização, e o trabalho real, ressignificado pelo indivíduo no seu contexto de atuação. Nem sempre o que é praticado é o que foi prescrito e normatizado; o cuidar vai além da normatização, empodera e confere autonomia ao profissional, mesmo na invisibilidade de suas ações(8).

No trabalho em enfermagem espera-se envolvimento de pacientes/famílias/comunidades como copartícipes do cuidado, atentando para a necessidade de reconhecer as táticas e (re)invenções do próprio cuidado. Usuários e trabalhadores nos serviços de saúde empreendem "ações táticas", a partir do sofrimento e enfrentamento da doença, criando modos de habitar o sistema interligado de serviços e equipamentos. Esses modos de habitar fazem menção ao estilo de enfrentamento das situações dentro das normas operacionais emitidas pelas instituições(7).

Percebe-se que, por um lado, no cotidiano de trabalho em enfermagem existe uma lógica dada pela razão instrumentalizadora da estratégia; e por outro, opera subjetividades que alimentam ações táticas. Se a razão é facilmente organizável por meio de protocolos/diretrizes, o ato de cuidar é dado por táticas, carregadas de intencionalidades que celebram os encontros entre trabalhadores e usuários. Esse cenário é determinado por variadas singularidades, diferentes sujeitos e pela complexidade com que se produz de fato o cuidado. Dessa forma, abre-se para o agenciamento de novas práticas e para a criatividade dos próprios trabalhadores, caracterizando o trabalho criativo(7).

Tomando como referência o conceito de liberdade em Spinoza(10), um pilar importante para o debate sobre criatividade, Franco(7) define o trabalho criativo em saúde como uma criação de vias inovadoras e alternativas de cuidado, expandindo possibilidades e responsabilidades que alimentam os anseios por liberdade do trabalhador. A liberdade se configura como uma expectativa do trabalho criativo, sendo uma força propulsora das vontades dos indivíduos que se realiza a partir da ideia de cada um sobre o que seja cuidado(7-8). Desta feita, o alcance de um estado de liberdade pelo trabalhador depende de sua ação em "romper com os signos do mercado, da moral e da ciência, como agenciamentos sobre sua subjetividade, e, portanto, como linhas de captura que agem na modelagem da sua prática"(7). O alcance da liberdade pressupõe criar fugas, desvios, ressignificar o mundo do trabalho, operando um cuidado que se realiza a partir da relação com o usuário, nas subjetividades presentes nos encontros do trabalho em saúde. Assim, a ciência intuitiva, ou seja, o conhecimento que identifica o corpo afetivo como fonte de saber, ganha status de alternativa de cuidado(7).

Nesse contexto, o cotidiano, como descrito por Certeau(3), é operado pela criatividade, gerando linhas de fuga na área da saúde. Desta feita, é possível dizer que o trabalho criativo do profissional de enfermagem é uma realidade incontrolável do cotidiano. Sua ação é capaz de alterar, de forma significativa, a produção do cuidado, operando rotas de fuga capazes de modificar os processos terapêuticos e dar novos rumos ao cuidado e à defesa da vida.

O trabalho criativo, nessa perspectiva, reordena os espaços (lugar vivido) por meio da atribuição de novos sentidos, o que possibilita ao sujeito se reapropriar de suas práticas cotidianas e ressignificá-las para produzir um fazer coeso com sua maneira de agir, (re)inventando o cuidado(7,9). Nesse sentido, a (re)invenção do cuidado é um ato próprio de cada sujeito, com práticas embasadas em um cuidado que parte do trabalho relacional, valoriza a sensibilidade, a singularidade e a produção subjetiva.

Nessa abordagem, o cuidado não é uma prática só de cunho científico, mas é arte do fazer, consequência do trabalho criativo de cada profissional que se reinventa diariamente, a partir de situações circunstanciais que o pressionam. O contexto impulsiona o sujeito a um cuidar para além da cultura dos livros, que é validado e legitimado. Cuidar, nesse sentido, ganha a vida criativa que está no ser humano, pois é próprio de sua racionalidade se interessar pelo outro, pelo sofrimento do outro, numa responsabilização que busca acolhê-lo.

Não apenas por mecanismos formais, o cuidado exercido pelo sujeito ordinário se utiliza de vias próprias, às vezes invisíveis, para sua realização. E aqui falamos não só do cuidado que o profissional (re)inventa, mas do cuidado que o paciente também experimenta quando decide, escolhe e cria maneiras próprias de se autocuidar, assumindo certo protagonismo no processo saúde/doença/tratamento(11). O cuidado assumido pelo próprio paciente significa a produção de práticas de liberdade que objetivam a constituição de um eu como governador da própria vida, em vez de viver em constantes processos de assujeitamento. Isso implica, para o indivíduo, compreender as relações que o constroem e também o influenciam. Não é o caso de se dividir e fazer de si um objeto separado que seria preciso descrever e estudar, mas de permanecer totalmente presente e estar atento às próprias capacidades(11). Essa questão é percebida principalmente quando se identifica o uso da criatividade pelo trabalhador nas várias circunstâncias de sua atividade profissional , pois a partir disso o usuário também manifesta criatividade e sensibilidade para o autocuidado.

Portanto, o cotidiano de trabalho em enfermagem é repleto de vida, é conflituoso, suas vozes são de homens ordinários – aqueles que moldam uma ordem própria do lugar. Profissionais e usuários, nesse lugar, constroem seus movimentos, conformam suas características, (re)inventam o cotidiano e (re)criam modos de operar a produção do cuidado.

Não é possível reduzir o cotidiano de trabalho em enfermagem a um protocolo mecanizador, a um saber hegemônico e instrumentalizador da estratégia. O sistema cultural, nesse lugar, é consumido a partir da concepção e dos desejos de que cada sujeito está impregnado. Cria-se o embate: por um lado, a norma intenta a padronização e um atendimento despersonalizado; por outro, os sujeitos buscam ser ouvidos, acolhidos e ajudados. A saída para esse embate talvez esteja na potencialização do fazer criativo, na (re)invenção do cotidiano de cada sujeito. Mas, para isso, o rótulo da "norma" não pode abafar a vida, as vozes e os clamores que ecoam nesse cotidiano. O fazer não deve ser condenado ao proibido que transgride a regra, representada pelo protocolo, pois esse é o fazer característico do lugar, é um cuidar próprio dos sujeitos que ali se inserem e que assim o fazem para dar conta da complexa realidade. O cuidar com criatividade evoca, nesse sentido, a valorização dos saberes, interação, multiplicidade, participação do usuário e a responsabilização pelo outro em um momento difícil, tornando-se um espaço de relações. A norma confere a diretriz, mas não é a verdade absoluta e depende do saber fazer dos indivíduos criativos.

Limitações do estudo

Como limitações deste estudo reconhecemos que a dinamicidade conformadora da rotina de trabalho do enfermeiro deixa em aberto a necessidade de novas pesquisas sobre o cotidiano de serviços de saúde, em sentido mais amplo. Há novos lugares e espaços a serem desvelados, assim como estratégias e táticas na (re)invenção de um cotidiano complexo e repleto de intencionalidades.

Contribuições para área de enfermagem

Destacamos como contribuições deste estudo para a área de enfermagem o reconhecimento do fazer próprio de cada sujeito, destacando o cotidiano não apenas como pano de fundo, mas como objeto de pesquisa a ser considerado. Além disso, o estudo traz à tona as subjetividades que permeiam o trabalho em enfermagem e que extrapolam a norma burocratizadora dos serviços de saúde. Assim, o cotidiano de trabalho em enfermagem, como objeto de pesquisa, ganha o status de uma nova ordem, de (re)invenção do cuidado a partir das situações circunstanciais.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Ao refletir sobre o cotidiano de trabalho em enfermagem, o percebemos como (re)invenções singulares do cuidado, articulado ao habitual, não rotineiro, um fazer carregado de conhecimentos próprios do sujeito. O trabalho, nesse cotidiano, intenciona escapar às situações circunstanciais e relações de poder de um sistema cultural previamente estabelecido. Nesse sentido, inova-se para burlar as mazelas de um sistema de saúde, mas também com vistas a forjar os próprios escapes, atrelados ao processo de ressignificação do sistema cultural. São adaptações do modelo assistencial hegemônico articuladas para prestar o cuidado ao usuário dia após dia. Nessa ótica, não se aceita a reprodução da norma como criada, e tanto o sistema de saúde como o modelo assistencial são ressignificados em cada fazer intencionado e em cada cuidado promovido. Enfim, o cotidiano dos sujeitos, profissionais de enfermagem, heróis anônimos, pouco a pouco ocupa o centro das cenas científicas. Suas práticas invisíveis se tornam fenômenos de grande interesse e admiração.

FOMENTO

O estudo contou com apoio financeiro da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de nível Superior (CAPES).

REFERÊNCIAS

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Recebido: 14 de Junho de 2017; Aceito: 06 de Outubro de 2017

Autor Correspondente: Ricardo Bezerra Cavalcante E-mail: ricardocavalcante@ufsj.edu.br

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