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Revista Brasileira de Enfermagem

versão impressa ISSN 0034-7167versão On-line ISSN 1984-0446

Rev. Bras. Enferm. vol.73 no.2 Brasília  2020  Epub 09-Mar-2020

https://doi.org/10.1590/0034-7167-2018-0792 

ARTIGO ORIGINAL

Qualidade de vida no trabalho numa central de materiais e esterilização

Gliccia Morguethe Vieira RegoI 
http://orcid.org/0000-0002-4991-4888

Isaura Letícia Tavares Palmeira RolimI 
http://orcid.org/0000-0002-8453-2543

Aurean D’Eça JúniorI 
http://orcid.org/0000-0002-7675-412X

Ana Hélia de Lima SardinhaI 
http://orcid.org/0000-0002-8720-6348

Geysa Santos Góis LopesI 
http://orcid.org/0000-0002-6801-1940

Nair Portela Silva CoutinhoI 
http://orcid.org/0000-0002-2050-026X

IUniversidade Federal do Maranhão. São Luís, Maranhão, Brasil.


RESUMO

Objetivos:

avaliar a qualidade de vida dos profissionais de enfermagem que atuam em uma central de materiais e esterilização (CME).

Métodos:

estudo exploratório, descritivo, quantitativo, realizado com 82 profissionais da enfermagem que atuavam na central de materiais e esterilização de um hospital universitário, no período de setembro a novembro de 2017. Foi aplicado um instrumento semiestruturado e um questionário, “Medical Outcomes Study Short-Form 36”.

Resultados:

os participantes eram, em maioria, do sexo feminino, casados, na faixa etária de 31-40 anos; 47,6% tinham de 6-10 anos de profissão e 82,9% referiram tempo de serviço em CME de 1-5 anos. Os domínios de qualidade de vida mais atingidos foram Dor, Vitalidade, Estado Geral de Saúde e Aspectos Sociais.

Conclusões:

O estudo mostrou que é preciso repensar e recriar a dinâmica do trabalho em CME na perspectiva de melhorar a qualidade de vida desses profissionais de enfermagem.

Descritores: Qualidade de Vida; Trabalho; Equipe de Enfermagem; Esterilização; Saúde do Trabalhador

ABSTRACT

Objectives:

to evaluate the quality of life of nursing professionals who work in a central sterile processing department.

Methods:

a descriptive, quantitative, exploratory study, conducted with 82 nursing professionals working in the Central Sterile Processing Department of a University Hospital, from September to November 2017. A semi-structured instrument and the questionnaire “Medical Outcomes Study Short-Form 36” were used. Results: most of the participants were female, married, aged 31-40 years; 47.6% with 6-10 years of profession, and 82.9% reported working in CSPD for 1-5 years. The most affected quality of life domains were Pain, Vitality, General Health Status and Social Aspects.

Conclusions:

This study showed a need for rethinking and re-creating the labor dynamics in CSPD to improve the quality of life of these nursing professionals.

Descriptors: Quality of Life; Work; Nursing Team; Sterelization; Occupational Health

RESUMEN

Objetivos:

evaluar la calidad de vida de los profesionales de enfermería que actúan en una central de materiales y esterilización.

Métodos:

estudio exploratorio, descriptivo, cuantitativo, realizado con 82 profesionales de enfermería que actuaban en una central de materiales y esterilización (CME) de un Hospital Universitario, en el período de septiembre a noviembre de 2017. Se utilizó un instrumento semiestructurado y el cuestionario Medical Outcomes Study Short-Form 36. Resultados: los participantes eran, en su mayoría, del sexo femenino, estaban casados y en el grupo de edad de 31-40 años; El 47,6% tenía entre 6-10 años de profesión y el 82,9% mencionó el tiempo de servicio en CME de 1-5 años. Los Dominios de calidad de vida más frecuentes fueron Dolor, Vitalidad, Estado General de Salud y Aspectos Sociales.

Conclusiones:

El estudio reveló que es necesario repensar y recrear la dinámica del trabajo en CME para que se mejore la calidad de vida de esos profesionales de enfermería.

Descriptores: Calidad de Vida; Trabajo; Equipo de Enfermería; Esterilización; Salud del Trabajador

INTRODUÇÃO

A qualidade de vida no trabalho é complexa e envolve inúmeros aspectos, como: satisfação com o trabalho executado, a possibilidade de futuro na organização, o reconhecimento pelos resultados alcançados, a remuneração, os benefícios adquiridos, o relacionamento humano dentro da equipe e da organização, o ambiente psicológico e físico de trabalho, a liberdade de atuar tendo responsabilidade de tomar decisões, e a possibilidade de estar engajado e de participar ativamente na organização(1-2).

Ao se discutir a relação do sujeito com o seu ambiente de trabalho é preciso considerar que as pessoas passam a maior parte das suas vidas envolvidas com o trabalho, convivendo nas instituições com seus colegas de profissão. O ambiente hospitalar deve ser um ambiente saudável, já que a prática da saúde é caracterizada por atividades que exigem alta interação entre os profissionais que compõem a equipe. Neste caso, os relacionamentos e a motivação para exercer suas atividades surgem como aspectos fundamentais na busca de mais eficiência e qualidade na assistência prestada ao paciente, o que não deve estar dissociado da satisfação dos trabalhadores com seus afazeres(3).

A Central de Material e Esterilização (CME) é o setor do hospital de fornecimento de produtos essenciais para o cuidado assistencial. Está subordinada ao serviço de enfermagem e é considerada uma unidade de apoio técnico, que tem como finalidade o fornecimento de produtos para a saúde (PPS), adequadamente processados, proporcionando, assim, condições para o atendimento direto e a assistência à saúde dos indivíduos hospitalizados(4).

Definida como uma unidade funcional destinada ao processamento de produtos para a saúde a CME é uma unidade vital e fundamental no contexto hospitalar, tendo como função prover materiais livres de contaminação para serem utilizados nos mais variados procedimentos. Sua missão é abastecer os serviços assistenciais e de diagnóstico com produtos de saúde esterilizados, garantindo a quantidade e a qualidade necessárias para uma assistência segura(5-6).

A equipe de enfermagem que trabalha na CME enfrenta uma série de desafios, principalmente para gerenciar recursos humanos e materiais, de forma a aperfeiçoar resultados que atendam à demanda dos diversos setores da instituição(7).

Na CME, a função do enfermeiro tem início na fase de planejamento da unidade, cabendo-lhe a escolha adequada tanto de recursos materiais quanto humanos, bem como a seleção e o treinamento de pessoal levando-se em conta o perfil do setor. Além disso, ele é o responsável por atividades de coordenação, orientação e supervisão de todas as etapas do reprocessamento dos produtos e estabelecimento de interfaces com as unidades consumidoras(8).

Os trabalhadores da CME seguem um ritmo acelerado de trabalho, com exigências físicas e mentais, expostos a riscos químicos, físicos e biológicos, além de trabalharem em um espaço físico muita das vezes desfavorável. Todos esses fatores geram desgaste, ansiedade e medo, comprometendo não só a sua saúde como a qualidade do serviço(9).

Considerando que a qualidade de vida do trabalhador influencia diretamente na qualidade do serviço oferecido, observa-se cada vez mais estudos abordando esse tema, contudo ainda se faz necessário outros estudos que possibilitem uma reflexão ampliada desse assunto em um setor crítico, fechado e de domínio exclusivo da enfermagem, que é a CME.

OBJETIVOS

Avaliar a qualidade de vida dos profissionais de enfermagem que atuam em uma Central de Materiais e Esterilização.

MÉTODOS

Aspectos éticos

O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Hospital Universitário da Universidade Federal do Maranhão, cumprindo a Resolução 466/12, onde os participantes tiveram conhecimento dos objetivos do estudo e assinaram o termo de consentimento livre e esclarecido (TCLE) no momento da coleta de dados.

Desenho, local e período do estudo

Estudo exploratório, descritivo, com abordagem quantitativa, realizado no período de setembro a novembro de 2017 em uma central de material e esterilização de um hospital universitário do Nordeste brasileiro. A instituição que abrigou o estudo é pública e de referência no Estado, tem por objetivo integrar assistência, ensino, pesquisa e extensão na área de saúde, além de compor a estrutura orgânica do Sistema Único de Saúde (SUS).

População, critérios de inclusão e exclusão

A população foi composta por um total de 15 enfermeiros e 67 técnicos de enfermagem. Entraram no estudo os profissionais que aceitaram participar e atenderam aos critérios de inclusão. Os critérios adotados foram: ser membro da equipe de enfermagem e trabalhar na CME por, pelo menos, um ano. As perdas referentes à população foram relacionadas aos profissionais que, no momento do estudo, se encontravam afastados de suas atividades por motivo de férias ou licenças.

Protocolo do estudo

A pesquisa foi realizada em duas etapas: inicialmente foi aplicado um instrumento semiestruturado produzido pelos próprios pesquisadores para coleta de dados sociodemográficos (sexo, idade, raça, situação conjugal, ocupação, renda) e profissionais (categoria profissional, tempo de profissão, tempo de serviço na CME, carga horária e turno de trabalho). Posteriormente, para avaliar a qualidade de vida, foi utilizado o questionário “Medical Outcomes Study 36-Item Short-Form Study Health Survey” (SF-36), uma medida genérica amplamente utilizada no mundo todo em diversos tipos de população.

O SF-36 é composto por 36 questões, que derivam em oito escalas ou domínios de saúde: capacidade funcional, aspectos físicos, dor corporal, estado geral de saúde, vitalidade, aspectos sociais, aspectos emocionais e saúde mental.

Para a avaliação dos resultados, após sua aplicação, é dado um escore para cada questão que posteriormente é transformado numa escala de zero a 100, onde zero corresponde a um pior estado de saúde e 100 a um melhor estado, sendo analisado cada domínio em separado, não havendo um único valor que resuma toda a avaliação, resultando em um estado geral de saúde melhor ou pior. Dessa forma, obtém-se um escore médio: o maior escore indica melhor estado de saúde ou qualidade de vida e os escores menores, pior situação ou qualidade de vida prejudicada. O cálculo dos escores do SF-36 produz um resultado chamado de Raw Scale, pois o valor final não apresenta nenhuma unidade em medida(10-11).

Análise dos resultados e estatística

Os dados foram tabulados no Microsoft Excel 2013® e a análise estatística dos resultados foi realizada no programa estatístico SPSS (Versão 22). Os dados foram apresentados em frequência relativa e absoluta, média e desvio padrão.

RESULTADOS

Foram entrevistados 82 trabalhadores da equipe de enfermagem, distribuídos em enfermeiros e técnicos de enfermagem. A Tabela 1 apresenta os resultados em relação à identificação da amostra quanto à categoria profissional, sexo, estado civil, faixa etária, tempo de serviço na enfermagem, tempo de serviço na CME, horário e turno de trabalho.

Tabela 1 Caracterização sociodemográfica e laborais de profissionais de enfermagem que atuam em uma Central de Materiais e Esterilização, São Luís, Maranhão, Brasil, 2017 

Variáveis n %
Categoria profissional
Enfermeiro 15 18,3
Téc. em Enfermagem 67 81,7
Sexo
Feminino 59 72,0
Masculino 23 28,0
Idade (anos)
20 a 30 15 18,3
31 a 40 38 46,3
41 a 50 21 25,6
51 a 60 5 6,1
Acima de 60 3 3,7
Estado civil
Casado 39 47,6
Divorciado 4 4,9
Solteiro 37 45,1
Viúvo 2 2,4
Tempo de profissão (anos)
1 a 5 14 17,1
6 a 10 39 47,6
11 a 15 14 17,1
16 a 20 11 13,4
Mais de 20 4 4,9
Tempo de CME (anos)
1 a 5 68 82,9
6 a 10 9 11,0
Mais que 11 5 6,1
Horário de trabalho
Diurno 41 50,0
Misto 36 43,9
Noturno 5 6,1
Total 82 100,0

A Tabela 1 mostra que os profissionais estudados são em sua maioria técnicos de enfermagem (81,7%), do sexo feminino (72%), casados (47,6%), na faixa etária de 31 a 40 anos (46,3%), que atuam de 6 a 10 anos na profissão (47,6%) e o tempo de atuação na área de CME variou de 1 a mais de 11 anos, sendo que 82,9% possuem entre 1 e 5 anos. Quanto à variável horário de trabalho, 50% dos profissionais exercem suas funções laborais no turno diurno (manhã ou tarde) e 43,9% (n=36) trabalham em turno misto ou alternados, ou seja, trabalham tanto durante o dia, quanto durante a noite.

A Tabela 2 traz a relação dos escores obtidos de acordo com as respostas do questionário SF-36 utilizado para avaliar a qualidade de vida dos trabalhadores de enfermagem da central de materiais e esterilização.

Tabela 2 Caracterização de qualidade de vida a partir do SF-36 de profissionais de enfermagem que atuam em uma Central de Materiais e Esterilização, São Luís, Maranhão, Brasil, 2017 

Domínios Média Desvio padrão Mediana Mínimo Máximo
Dor 62,2 20,6 61,0 0,0 100,0
Vitalidade 60,2 18,9 65,0 10,0 100,0
Estado geral de saúde 69,0 20,7 72,0 15,0 100,0
Aspectos sociais 72,7 23,3 75,0 25,0 100,0
Saúde mental 75,0 15,8 76,0 28,0 100,0
Capacidade funcional 81,1 17,5 85,0 30,0 100,0
Limitação por aspectos físicos 73,5 34,8 100,0 0,0 100,0
Limitação por aspectos emocionais 74,8 37,2 100,0 0,0 100,0

No estudo foi realizado apenas uma aplicação do questionário SF-36 e, pela Tabela 2, fica evidente que todos os valores obtidos na pontuação dos oito domínios avaliados chegam ao valor máximo que é 100 (melhor estado de saúde), correspondendo a uma melhor avaliação do estado de saúde pela população estudada. Observa-se ainda que, em todos os domínios, pelo menos um sujeito apresenta prejuízo da saúde, justificado, em todos, pelo valor mínimo menor que 50, chegando a um valor 0 (pior estado de saúde).

A Tabela 3 exibe a porcentagem de participantes que cada domínio apresentou, com escores inferiores ou superiores a 50, evidenciando os domínios de qualidade de vida mais atingidos. O domínio mais afetado foi a dor, seguido da vitalidade e estado geral de saúde. O domínio que apresentou maior escore foi o aspecto emocional.

Tabela 3 Caracterização de qualidade de vida a partir do SF-36 de profissionais de enfermagem que atuam em uma Central de Materiais e Esterilização, São Luís, Maranhão, Brasil, 2017 

Domínios Escore
50 ou mais Menos que 50
n % n %
Dor 54 65,9 28 34,1
Vitalidade 61 74,4 21 25,6
Estado geral de saúde 63 76,8 19 23,2
Aspectos sociais 67 81,7 15 18,3
Saúde mental 68 82,9 14 17,1
Capacidade funcional 69 84,1 67 81,7
Limitação por aspectos físicos 76 92,7 6 7,3
Limitação por aspectos emocionais 76 92,7 6 7,3

DISCUSSÃO

Buscando uma melhor contextualização dos resultados, ressalta-se que o local escolhido para estudo (CME) é um dos poucos setores em uma instituição hospitalar que é exclusivo da enfermagem, lugar próprio da categoria, atribuindo à equipe de enfermagem a responsabilidade para um bom funcionamento de um hospital.

Foi constatado que o sexo feminino foi predominante entre os trabalhadores pesquisados (72%), fato já esperado e que foi ratificado neste estudo, evidenciando que a enfermagem continua sendo uma profissão com hegemonia feminina. Esse achado corrobora com vários estudos como um realizado em Cuiabá, em 2014 e outro realizado em 2017 em um hospital em Palmas-TO(12-13).

A prevalência de mulheres na enfermagem é constatada não apenas no Brasil, mas também em outros países, como mostrou estudo realizado em Andaluzia, na Espanha, onde 66% de um total de 676 enfermeiros eram do sexo feminino e outro realizado em Arequipa, no Peru, onde de um total de 81 enfermeiros 96,3% eram do sexo feminino(14-15).

Estudos relatam que a predominância feminina de mulheres na enfermagem é explicada em função de seu paradigma, construído desde um tempo longínquo, no período antes de Cristo, onde o ato de cuidar de outras pessoas e enfermos sempre esteve, culturalmente, mais próximo à mulher do que ao homem(16).

Deve-se ter uma atenção especial com esse alto número de profissionais do sexo feminino em uma área como central de materiais, uma vez que envolve atividades de grande esforço físico como a montagem e carregamento de caixas cirúrgicas pesadas e o manuseio com autoclaves. O uso excessivo de força muscular e gasto excessivo de força física tem causado problemas posturais e fadiga geral nos trabalhadores, tornando-se mais grave quando se tem o predomínio de mulheres na força de trabalho de um hospital(17).

A média de idade encontrada neste estudo assemelhou-se a pesquisa realizada em 2016, no município do Rio de Janeiro, e também estão próximos dos dados disponibilizados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, uma vez que é no intervalo etário entre 25 e 49 anos que se situa o maior quantitativo da população em idade produtiva, em todas as regiões do Brasil(18-19).

Esta investigação aponta o predomínio de idade média de jovens adultos (64,6%). Entretanto, deve-se ressaltar que há presença de pessoas acima dos 50 anos (9,8%) exercendo esse tipo de atividade, o que se constitui em aspecto preocupante. Na prática, observa-se que esses trabalhadores são designados para exercerem atividades que exigem menor esforço físico, mas devemos lembrar que praticamente todas as atividades de uma central de materiais, além de exigir força física, são afazeres repetitivos e/ou monótonos que cumprem uma sequência de processamento e o controle necessário para produtividade. Além disso, essas atividades demandam do trabalhador posições desconfortáveis por várias horas seguidas para a realização de seu trabalho. É importante lembrar também que, com o remanejamento desses trabalhadores para serviços “mais leves”, há uma sobrecarga dos funcionários mais jovens, que podem adoecer ainda mais cedo do que o esperado. A equipe sinaliza as cargas físicas como uma grande dificuldade na realização de seu trabalho, influenciando na sua qualidade de vida(20).

Em relação ao estado civil, os resultados mostram que a maioria dos trabalhadores eram casados (47,6%), corroborando com estudo realizado com 393 profissionais de enfermagem de três instituições hospitalares no município de Alfenas-MG, onde a maioria é casada ou convive com companheiros, correspondendo a 54,7% (215) dos participantes(21). Manter laços afetivos com outras pessoas, construir família (casar, ter e criar filhos), assim como compartilhar com os entes queridos atividades, interesses e opiniões são fatores que influenciam de maneira positiva a qualidade de vida de qualquer ser humano, uma vez que o homem é, por sua própria natureza, um ser social(22).

Com relação ao tempo de profissão e ao tempo de trabalho em CME, nesse estudo há profissionais (4,9%) que atuam há mais de 20 anos na profissão da enfermagem, sendo que 6,1% exercem atividades há mais de 11 anos apenas em CME. Em estudo realizado no interior do Paraná esse valor foi bem maior, pois 25% dos entrevistados possuíam mais de 10 anos apenas em CME(23).

Deve-se ter uma atenção especial ao tempo de trabalho em CME, pois quanto maior o tempo de atuação neste serviço, maiores são as chances de desenvolver lesões e doenças, uma vez que, como supracitado, as atividades desenvolvidas na CME são reiterativas e/ou enfadonhas, exigindo copioso esforço físico.

Em estudo realizado no Distrito Federal que analisou a prevalência das lesões osteomusculares nos servidores da central de material e esterilização, foi constatado que 61,3% dos entrevistados possuíam algum tipo de lesão osteomuscular, que é agravada com o passar dos anos ao exercer as mesmas atividades. Neste estudo não foi investigada a ocorrência de lesões osteomusculares, porém seria interessante considerar esta investigação, relacionando a ocorrência de lesões ao tempo de trabalho na enfermagem e na CME(24).

Quanto ao turno, 50% dos participantes desta pesquisa trabalhavam no turno diurno, 43,9% em turno misto (dia e noite) e 6,1% no período noturno, ou seja, a proporção de trabalhadores que exercem suas atividades de dia ou a noite é, de certa forma, equivalente, não corroborando com estudos onde 70,59% exerciam suas atividades em turno diurno(25).

O trabalho noturno suscita modificações na vida de qualquer pessoa, uma vez que a alteração do ciclo sono-vigília traz consequências negativas tanto no aspecto biológico, como, por exemplo, o surgimento de obesidade, úlceras, irritabilidade e cansaço, quanto no âmbito psicológico(26).

A privação do sono é cada vez mais habitual na atualidade, onde as pessoas diminuem a quantidade de horas dormidas com o intuito de realizar outras atividades. Os processos neurobiológicos que ocorrem no período do sono são essenciais para a manutenção da saúde física e cognitiva, já que indivíduos com transtornos de sono sofrem impactos na qualidade de vida sem estar trabalhando e na qualidade de vida durante o período de trabalho(27).

Em uma pesquisa realizada em Nova York, Estados Unidos, com 21 enfermeiros sobre o impacto do trabalho noturno na vida social e familiar mostrou que a maioria precisa fazer esforços para iniciar e manter o sono após o trabalho. A maioria planejava uma rotina para o cumprimento de responsabilidades diárias, na qual o repouso ficava em segundo plano. Outros enfermeiros preferiam dormir logo após o encerramento do seu período de trabalho para apenas depois cumprir as obrigações familiares. Todos os participantes, sem exceção, preferiam o sono noturno como o mais restaurador(28).

Na Tabela 3, ao analisar os dados da pesquisa observa-se que em todos os domínios do SF-36 pelo menos um trabalhador apresenta prejuízo da saúde, evidenciado pelo valor mínimo menor que 50. O domínio mais afetado foi a dor, seguido da vitalidade e do estado geral de saúde.

A dor foi o domínio mais prejudicado, onde 34,1% dos participantes apresentaram escores menores que 50, fato que pode estar relacionado ao desgaste físico a que esses trabalhadores são submetidos no ambiente de trabalho. Em estudo realizado em 2017, com 135 funcionários da equipe de enfermagem, evidencia-se que a dor lombar inespecífica é um dos problemas de saúde ocupacional mais comum e que trabalhadores que permanecem por mais tempo na posição em pé acusam mais dor lombar do que aqueles que permanecem por mais tempo na posição sentado(29).

Em outro estudo, 42% dos pesquisados fizeram uso de licença médica, tendo como fator gerador a ocorrência de lesões osteomusculares. A dor é a principal responsável pela falta ao trabalho, licenças médicas, aposentadorias por doenças, indenizações trabalhistas e baixa produtividade laboral(24,30).

O segundo domínio mais afetado foi a vitalidade: 25,6% apresentaram escores inferior a 50. A vitalidade leva em consideração o nível de energia de cada indivíduo (cheio de vigor físico, muita energia), bem como o de fadiga (esgotado, cansado). Um estudo realizado em São Paulo -SP, mostrou como são frequentes as notificações das doenças do sistema osteomuscular e apontou que a exposição às cargas fisiológicas é gerada pelo uso do corpo enquanto instrumento de trabalho, e nessa exposição podem ocorrer processos de desgaste diversos, como distúrbios osteomusculares, fadiga, dores em geral e alterações do ritmo circadiano devido ao trabalho noturno(30).

O terceiro domínio afetado foi o Estado geral de Saúde que inclui questões referentes ao conceito do próprio trabalhador sobre sua saúde: 23,2% dos participantes apresentaram escores inferiores a 50. O estado geral de saúde é mais que a situação de saúde física propriamente dita, vai além da ausência de doença e vincula-se a uma percepção subjetiva do próprio indivíduo. Nesse domínio, quando o indivíduo se pergunta sobre a sua saúde, ele faz uma análise retrospectiva e abrangente.

Limitações do estudo

Mesmo sendo um instrumento amplamente utilizado em pesquisas nacionais e internacionais, o questionário SF-36 resulta em um estado geral de saúde melhor ou pior. Assim, não se pode predizer com mais rigor e profundidade sobre estado de saúde, e os impactos do trabalho e seus reflexos diretos na qualidade de vida dos profissionais. O questionário SF-36 tem uma importância fundamental na sinalização do estado de saúde dos trabalhadores, todavia, as influências das relações existentes no ambiente de trabalho na saúde dos profissionais requerem pesquisas de caráter qualitativo.

Contribuições para a área da enfermagem, saúde ou política pública

Pelo exposto, pode-se afirmar que a Dor e Vitalidade, que foram os Domínios mais prejudicados, por si só podem ser um alerta para a necessidade de identificar aspectos desapropriados no ambiente de trabalho.

Estima-se que os achados da pesquisa possam colaborar para uma reflexão por parte da equipe de enfermagem, comunidade acadêmica e dos usuários dos serviços de saúde sobre o cenário da qualidade de vida desses profissionais. Entende-se que os achados desta investigação são de extrema importância pois revelam pontos que podem ser melhorados pela gestão dos serviços de enfermagem.

CONCLUSÕES

Concluiu-se que os domínios de qualidade de vida mais atingidos foram Dor, Vitalidade, Estado Geral de Saúde e Aspectos Sociais.

Os resultados desse estudo ampliaram o entendimento acerca dos problemas que afetam a qualidade de vida da equipe de enfermagem de uma Central de Materiais e Esterilização. Atualmente muito se fala sobre qualidade vida e sobre qualidade de vida no trabalho, mas esses aspectos dependem do contexto que envolve cada pessoa na sua individualidade e da percepção que cada um tem sobre a temática. A presença da dor, o comprometimento da vitalidade, assim como do estado geral de saúde e aspectos sociais afetados irão interferir sobremaneira na qualidade de vida do trabalhador da CME.

Assim, faz-se necessário repensar as formas de trabalho e de interação entre as pessoas, usando tecnologias voltadas também para a saúde do trabalhador de enfermagem, principalmente de setores como a CME, um setor específico, onde há um enorme desgaste físico e emocional.

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Recebido: 20 de Outubro de 2018; Aceito: 20 de Março de 2019

Autor Correspondente: Isaura Letícia Tavares Palmeira Rolim E-mail: leticiaprolim@yahoo.com.br

EDITOR CHEFE: Antonio José de Almeida Filho

EDITOR ASSOCIADO: Hugo Fernandes

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