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Revista Brasileira de Enfermagem

versão impressa ISSN 0034-7167versão On-line ISSN 1984-0446

Rev. Bras. Enferm. vol.73 no.2 Brasília  2020  Epub 17-Fev-2020

https://doi.org/10.1590/0034-7167-2018-0997 

ARTIGO ORIGINAL

Estresse ocupacional em profissionais de enfermagem de um hospital universitário

Lucas Carvalho SantanaI 
http://orcid.org/0000-0002-7319-8527

Lúcia Aparecida FerreiraI 
http://orcid.org/0000-0001-6469-5444

Lenniara Pereira Mendes SantanaI 
http://orcid.org/0000-0003-1576-2342

IUniversidade Federal do Triângulo Mineiro. Uberaba, Minas Gerais, Brasil.


RESUMO

Objetivos:

Identificar a presença de estresse ocupacional nos profissionais de enfermagem de um hospital universitário do interior de Minas Gerais e analisar a influência das características sociodemográficas e ocupacionais neste agravo.

Métodos:

Estudo transversal, exploratório e quantitativo, realizado com 124 profissionais de enfermagem de um hospital universitário do interior de Minas Gerais. Para sua efetivação, foi utilizada a versão adaptada e validada para o português da escala Job Stress Scale (JSS).

Resultados:

A maioria dos profissionais era mulheres (87,9 %), com média de idade de 40,2 anos, 80,6 % eram técnicos de enfermagem e 71,8% da amostra apresentava algum grau de exposição ao estresse ocupacional.

Conclusões:

O índice de estresse ocupacional foi superior ao observado em estudos anteriores. Os dados obtidos no estudo apontam para a necessidade de implementar medidas institucionais de prevenção ao estresse ocupacional, sobretudo fortalecendo o apoio social no trabalho.

Descritores: Equipe de Enfermagem; Estresse Ocupacional; Hospital Universitário; Profissionais de Enfermagem; Saúde do Trabalhador

ABSTRACT

Objectives:

To identify the presence of occupational stress in nursing professionals of a university hospital in the inlands of the state of Minas Gerais and examine influence of sociodemographic and occupational characteristics in this disease.

Methods:

Cross-sectional, exploratory and quantitative study with 124 professional nurses from a university hospital in the inlands of the state of Minas Gerais. The adapted and validated Portuguese version of the Job Stress Scale (JSS) was used for the performance of the study.

Results:

Most professionals were women (87.9%) with a mean age of 40.2 years, 80.6% were nursing technicians and 71.8% of the sample had some degree of exposure to occupational stress.

Conclusions:

The occupational stress index was higher than that observed in previous studies. Data obtained in the study point to the need to implement institutional measures for the prevention of occupational stress, especially by strengthening social support at work.

Descriptors: Nursing Team; Occupational Stress; University Hospital; Nursing Professionals; Occupational Health

RESUMEN

Objetivos:

Identificar la presencia de estrés laboral en los profesionales de enfermería de un hospital universitario en el interior de Minas Gerais y analizar la influencia de las características sociodemográficas y ocupacionales en esta enfermedad.

Métodos:

Estudio transversal, exploratorio y cuantitativo con 124 profesionales de enfermería de un hospital universitario en el interior de Minas Gerais. Para su efectividad, se utilizó la versión portuguesa adaptada y validada de la escala Job Content Questionnaire (JCQ).

Resultados:

La mayoría de los profesionales eran mujeres (87,9%), con una edad media de 40,2 años, el 80,6% eran técnicos de enfermería y el 71,8% de la muestra tenía algún grado de exposición al estrés laboral.

Conclusiones:

El índice de estrés laboral fue mayor que el observado en estudios anteriores. Los datos obtenidos en el estudio apuntan a la necesidad de implementar medidas institucionales para prevenir el estrés laboral, especialmente el fortalecimiento del apoyo social en el trabajo.

Descriptores: Grupo de Enfermería; Estrés Laboral; Hospital Universitario; Profesionales de Enfermería; Salud Laboral

INTRODUÇÃO

O estresse tem se tornado um problema de saúde muito comum na sociedade atual, e sua ocorrência pode ser atribuída à mudança no estilo de vida das pessoas, que as tem deixado debilitadas e vulneráveis a inúmeros agravos(1).

Este termo tem sido utilizado de forma recorrente na vida cotidiana, associado a sensações de preocupação e desconforto. É crescente o número de pessoas que se definem como estressadas ou relacionam outros indivíduos na mesma situação. Na maioria das vezes, isto é visto como um fator negativo, que gera prejuízos no desempenho do ser humano(2).

Ao considerar o estresse como um processo e não uma reação única, não é apenas o tipo de estressor que determina se o estresse vai ou não ser desenvolvido. As atividades cognitivas usadas pelos indivíduos na interpretação dos eventos ambientais são fundamentais no processo do estresse(3).

Cada indivíduo responde a um estímulo de maneira diferente, o que ocasiona reações internas e externas para manter o equilíbrio e evitar que agravos se instalem no organismo.

A exposição ao estresse no ambiente de trabalho é um fato que deve ser considerado e investigado. Nas últimas décadas, pelas mudanças no estilo de vida dos trabalhadores, vem sendo discutido o estresse ocupacional, que está relacionado com desgastes decorrentes do ambiente de trabalho e atividade laboral. A ocorrência de situações em que o indivíduo vive agitado e de maneira pouco reflexiva vem crescendo, o que resulta em mais respostas ao estresse(4).

Uma vez que diferentes ocupações apresentam diferentes estressores, atenção especial deve ser dada aos estressores ocupacionais na área da saúde, como problemas de relacionamento, conflito de funções, dupla jornada de trabalho, pressões exercidas pelos superiores de acordo com a percepção do indivíduo e alterações sofridas dentro do contexto da atividade(2,5-6).

O estresse ocupacional é um fenômeno comum a todas as ocupações, apesar de mais facilmente identificado em alguns grupos específicos, onde as fontes de pressão dos postos de trabalho são mais altas em comparação com outras profissões(7-8).

A profissão de enfermagem se destaca dentre as passíveis ao desenvolvimento do estresse ocupacional. Esses profissionais são os responsáveis diretos pela assistência prestada ao paciente, organização do setor hospitalar e por atividades administrativas e burocráticas diversas(9). A enfermagem é uma das profissões mais expostas ao risco de tensão e adoecimento dentro da instituição hospitalar, pois os profissionais enfrentam condições de trabalho inadequadas, em ambiente insalubre, com sobrecarga de trabalho e repetição de tarefas(10).

O estresse ocupacional impacta o dia a dia dos profissionais de enfermagem, pois causa danos físicos, psíquicos, sociais e culturais e pode produzir inúmeras consequências para o indivíduo, sua família, a empresa em que trabalha e a comunidade onde vive.

OBJETIVOS

Identificar a presença de estresse ocupacional nos profissionais da equipe de enfermagem de um hospital universitário do interior de Minas Gerais e analisar a influência das características sociodemográficas e ocupacionais neste agravo.

MÉTODOS

Aspectos éticos

A pesquisa seguiu as normas estabelecidas pela legislação vigente que rege sobre a realização de pesquisas com seres humanos e foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal do Triângulo Mineiro (CEP/UFTM). Os participantes do estudo consentiram participar do estudo mediante assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), foram orientados previamente pelo pesquisador sobre os objetivos da pesquisa e que poderiam desistir de participar a qualquer momento. Os riscos e prejuízos causados pela participação no estudo foram mínimos. Entretanto, como as questões eram relacionadas ao ambiente de trabalho, os profissionais levaram os questionários para serem respondidos no domicílio de forma a minimizar possíveis desconfortos.

Desenho, local do estudo e período

Esta pesquisa foi extraída da dissertação de mestrado intitulada “Avaliação do estresse ocupacional na equipe de enfermagem em um hospital de ensino”. Foi um estudo transversal, exploratório e quantitativo, realizado em hospital universitário do interior de Minas Gerais entre os meses de julho e setembro de 2018. As etapas metodológicas do estudo foram norteadas pela ferramenta STROBE.

Amostra, critérios de inclusão e exclusão

A amostra foi composta por integrantes da equipe de enfermagem (enfermeiros, técnicos de enfermagem e auxiliares de enfermagem) dos diversos setores de um hospital universitário do interior de Minas Gerais. Atenderam aos critérios de inclusão, os profissionais atuantes no referido hospital que aceitaram participar do estudo, assinaram o TCLE e não estavam afastados de suas atividades laborais no período de coleta de dados.

O cálculo do tamanho amostral considerou uma prevalência de exposição ao estresse ocupacional de 56,5%, conforme estudo realizado em um hospital universitário da região sudeste do Brasil(11). Ao considerar a prevalência de 56,5%, uma precisão de 8% e um intervalo de confiança de 95% para uma população finita de 746 profissionais, obteve-se uma amostra de 124 profissionais.

Protocolo do estudo

A variável dependente avaliada neste estudo é a exposição ao estresse ocupacional, e as variáveis independentes são as características sociodemográficas e ocupacionais da amostra (sexo, idade, situação conjugal, filhos, nível de escolaridade, cargo exercido, tempo de formação, setor de atuação, turno de trabalho, carga horária semanal, tempo de trabalho na instituição, vínculo empregatício, remuneração recebida e presença de outro vínculo).

Foram utilizados dois questionários como instrumentos de coleta de dados; um para caracterização sociodemográfica e profissional da amostra, e outro para avaliar a exposição dos trabalhadores ao estresse ocupacional.

Para avaliar a exposição ao estresse ocupacional, foi utilizada a versão adaptada e validada para o português da Job Stress Scale (JSS). Esta escala foi elaborada originalmente na Suécia (Job Content Questionnaire), e após a adaptação cultural para o português e validação, ela foi denominada de Job Stress Scale, versão resumida. Este questionário foi utilizado por se tratar de uma escala internacionalmente reconhecida para avaliação do estresse ocupacional baseada no modelo teórico Demanda-Controle, além de ter sido adaptada e validada para língua portuguesa(12).

A JSS é uma escala do tipo Likert com 17 itens distribuídos em três dimensões da seguinte forma: cinco itens avaliam Demanda, seis avaliam Controle e seis a dimensão Apoio Social. Para cada dimensão da escala, quanto maior o escore, maior a demanda, controle ou apoio social percebidos(12).

A exposição ao estresse ocupacional foi avaliada a partir da combinação de níveis altos e baixos das dimensões demanda e controle, levando em consideração o modelo Demanda-Controle(13).

Para identificar os grupos de alta e baixa demanda e grupos de alto e baixo controle, foi seguida a recomendação dos pesquisadores que validaram a JSS, de adotar as medianas das referidas dimensões como ponto de corte, formando duas categorias para a dimensão demanda e duas para controle.

O profissional em situação de alta exigência (alta demanda e baixo controle) é o que apresenta reações adversas de maior desgaste psicológico. O trabalho ativo (alta demanda psicológica e alto controle) permite ao profissional ter uma ampla possibilidade de decisão sobre como e quando desenvolver suas tarefas, e como usar sua potencialidade intelectual com esta finalidade. O trabalho passivo (baixa demanda psicológica e baixo controle) produz uma atrofia gradual de aprendizagem de habilidades. A situação de baixa exigência (combina baixa demanda e alto controle) se configura em estado altamente confortável e ideal de trabalho(13).

Para estratificar a exposição ao estresse ocupacional, os profissionais de enfermagem foram classificados de acordo com a alocação em grupos descritos em estudo anterior(14). Esta sugere que trabalhadores em situações de alta exigência são considerados o grupo de maior exposição ao estresse ocupacional, aqueles em situações de trabalho ativo ou trabalho passivo são considerados o grupo de exposição intermediária, e aqueles em situações de baixa exigência são classificados como não expostos ao estresse no trabalho.

Ainda de acordo com os autores da escala, em casos de exposição ao estresse, a dimensão Apoio Social funciona como um modificador de efeito do estresse no trabalho(12).

Análise dos resultados e estatística

Os dados foram processados no software IBM® SPSS®, versão 21. As estatísticas descritivas foram calculadas através da utilização de medidas resumo de posição (média e mediana) e de variabilidade (amplitudes). A análise bivariada também foi utilizada através das medidas de associação com tabelas de contingência (risco relativo, razão de chances e respectivos intervalos de confiança), além da aplicação do teste Qui-quadrado de Pearson para grupos independentes para preditores demográficos e ocupacionais dicotômicos. Para identificar a associação entre as dimensões da JSS, as variáveis sociodemográficas e profissionais e a exposição ao estresse ocupacional, foi utilizada a análise de regressão logística binomial, ajustando-se para demais variáveis potencialmente relevantes.

RESULTADOS

A amostra foi constituída por 109 (87,9%) profissionais do sexo feminino com média de idade de 40,2 anos (mínimo de 22 e máximo de 68 anos), dos quais 66 (53,2%) eram casados ou em união estável e 90 (72,6%) tinham filhos.

As características profissionais da amostra estudada estão representadas na Tabela 1.

Tabela 1 Caracterização profissional da amostra (N=124), Uberaba, Minas Gerais, Brasil, 2018 

n %
Cargo exercido Auxiliares de enfermagem 15 12,1
Técnicos de enfermagem 85 68,5
Enfermeiros 24 19,4
Nível de escolaridade Ensino médio 46 37,1
Superior 38 30,6
Pós-graduação 40 32,3
Tempo de formação Até 5 anos 6 5,0
6 a 10 anos 39 32,5
11 a 15 anos 28 23,3
16 a 20 anos 25 20,8
Mais de 21 anos 22 18,3
Carga horária semanal* 36 horas 89 72,4
40 horas 34 27,6
Horário de trabalho Matutino 25 20,1
Vespertino 38 30,6
Noturno 61 49,2
Tempo de trabalho na instituição Até 5 anos 63 51,2
6 a 10 anos 16 13,0
11 a 15 anos 16 13,0
16 a 20 anos 13 10,6
Mais de 21 anos 15 12,2
Remuneração recebida** Até 2 salários 10 8,2
2 a 5 salários 79 64,7
5 a 10 salários 31 25,4
Mais de 10 salários 2 1,6
Presença de outro vínculo Sim 15 12,2
Não 108 87,8

Nota:

*Não há regulamentação do conselho de classe regional do estado sobre a carga horária máxima semanal;

**Salário mínimo vigente no período da coleta de dados.

A amostra foi analisada considerando as três dimensões propostas pela escala utilizada: demanda, controle e apoio social. Para a análise estatística bivariada, a mediana do escore total de cada dimensão foi utilizada como ponte de corte para sua dicotomização. Valores inferiores à mediana foram alocados nos grupos de baixa demanda, controle ou apoio social. Valores iguais ou superiores à mediana foram alocados nos grupos de alta demanda, controle ou apoio social.

De acordo com a dicotomização das dimensões da JSS, os profissionais foram alocados em quatro quadrantes conforme preconizado pelo modelo. Assim, foi observada a seguinte distribuição: 30,6% na situação de alta exigência; 28,2% na de baixa exigência; 21,8% de trabalho ativo; e 19,4% na situação de trabalho passivo.

Na Tabela 2, é possível observar que, apesar de sem significância estatística, a prevalência de exposição ao estresse na amostra estudada foi maior nos profissionais do bloco cirúrgico (88,9%), seguido pelas enfermarias (79,1%), pronto socorro (72,2%), central de material esterilizado (62,5%) e CTI - Centro de Terapia Intensiva (55,6%).

Tabela 2 Exposição ao estresse de acordo com o setor de atuação (n=123), Uberaba, Minas Gerais, Brasil, 2018 

Exposição ao estresse valor de p
Sim Não
n % n %
Setor de atuação 0,07
Enfermarias 34 79,1 9 20.9
CTI 20 55,6 16 44,4
Bloco Cirúrgico 16 88,9 2 11,1
Pronto Socorro 13 72,2 5 27,8
Central de Material Esterilizado 5 62,5 3 37,5

Nota: p: Nível de significância (p<0,05).

A influência das variáveis sociodemográficas e profissionais à exposição ao estresse está descrita na Tabela 3. Conforme os dados analisados, apresentar baixo apoio social e não trabalhar em CTI foram considerados fatores de exposição ao estresse estatisticamente significativos (p=0,01). Além disso, o estresse foi mais presente em homens, pessoas sem companheiros, com filhos, profissionais que exerciam cargo de nível superior, de regime trabalhista estatutário, indivíduos que possuíam outro vínculo empregatício, do turno noturno e com carga horária maior que 36 horas semanais, mas estas variáveis não apresentaram significância estatística.

Tabela 3 Influência das variáveis sociodemográficas e profissionais na exposição ao estresse (N=124), Uberaba, Minas Gerais, Brasil, 2018 

Exposição ao estresse RP (IC) RCP (IC) Valor de p
Sim Não
n % n %
Sexo Masculino 11 73,3 4 26,7 1,02 (0,74 - 1,42) 1,09 (0,32 - 3,69) 0,89
Feminino 78 71,6 31 28,4
Companheiro Não 42 72,4 16 27,6 1,02 (0,81 - 1,27) 1,06 (0,48 - 2,32) 0,88
Sim 47 71,2 19 28,8
Filhos Sim 66 73,3 24 26,7 1,10 (0,84 - 1,44) 1,37 (0,58 - 3,25) 0,47
Não 22 66,7 11 33,3
Escolaridade do cargo Superior 20 83,3 4 16,7 1,21 (0,97 - 1,51) 2,25 (0,71 - 7,12) 0,16
Médio 69 69,0 31 31,0
Regime de trabalho Regime Juríd. Único 29 80,6 7 19,4 1,18 (0,95 - 1,46) 1,93 (0,76 - 4,95) 0,16
Celetista 60 68,2 28 31,8
Outro vínculo Sim 12 80,0 3 20,0 1,14 (0,86 - 1,51) 1,68 (0,45 - 6,37) 0,44
Não 76 70,4 32 29,6
Turno de trabalho Noturno 45 73,8 16 26,2 1,06 (0,85 - 1,32) 1,21 (0,55 - 2,66) 0,63
Diurno 44 69,8 19 30,2
Carga horária semanal Mais de 36 horas 26 76,5 8 23,5 1,10 (0,87 - 1,38) 1,41 (0,57 - 3,52) 0,45
Até 36 horas 62 69,7 27 30,3
Setor de atuação Demais setores 68 78,2 19 21,8 1,41 (1,03 - 1,92) 2,86 (1,25 - 6,57) 0,01
CTI 20 55,6 16 44,4
Apoio Social Baixo 40 85,1 7 14,9 1,37 (1,10 - 1,70) 3,48 (1,37 - 8,82) 0,01
Alto 46 62,2 28 37,8

Nota: RP: Razão de prevalências; RCP: Razão de chances ou Odds ratio; IC: Intervalo de confiança de 95%; p: Nível de significância (p<0,05).

Apesar de não ter apresentado significância estatística, o profissional com outro vínculo trabalhista apresentou 2,24 mais chances de exposição ao estresse ocupacional comparado ao profissional com vínculo único. O profissional do turno noturno apresentou 1,56 mais chances de exposição ao estresse ocupacional comparado ao profissional do turno diurno.

A Tabela 4 apresenta o modelo final de regressão logística binomial para as variáveis associadas com a exposição ao estresse ocupacional. As variáveis descritas nesse processo foram selecionadas com base nas utilizadas em literatura específica do tema(8,15-18).

Tabela 4 Modelo final de regressão logística binomial para as variáveis de exposição ao estresse ocupacional (n=119), Uberaba, Minas Gerais, Brasil, 2018 

Variáveis RCP* (IC) Valor de p*
Sexo Masculino 1,50 (0,40 - 5,66) 0,55
Feminino
Escolaridade do cargo Superior 1,89 (0,55 - 6,47) 0,31
Médio
Outro vínculo Sim 2,24 (0,49 - 10,31) 0,30
Não
Turno de trabalho Noturno 1,56 (0,63 - 3,87) 0,34
Diurno
Setor de atuação Demais setores 3,91 (1,49 - 10,25) 0,01
CTI
Apoio Social Baixo 3,60 (1,34 - 9,68) 0,01
Alto

Nota: RCP*: Razão de chances ajustada ou Odds ratio ajustado; IC: Intervalo de confiança de 95%; p*: nível de significância ajustado às demais variáveis (p<0,05).

No modelo final de regressão logística, os fatores associados com a exposição ao estresse ocupacional em profissionais de enfermagem foram o setor de atuação (p=0,01) e o apoio social (p=0,01).

DISCUSSÃO

No presente estudo, a amostra foi representada majoritariamente por pessoas do sexo feminino (87,9%), dado corroborado por vários estudos que demonstram que a equipe de enfermagem brasileira é, estrutural e historicamente, feminina(15,19-21).

Em relação à idade, 60,7% dos profissionais têm menos de 40 anos, o que caracteriza a presença da força de trabalho jovem na equipe de enfermagem da instituição. Tais dados podem ser reforçados através da pesquisa Perfil da Enfermagem Brasileira, onde foi identificado que 61,7% dos profissionais de enfermagem estão na faixa etária de até 40 anos(21).

A equipe de enfermagem representada no estudo foi constituída por 80,6% de auxiliares e técnicos de enfermagem, e 19,4% de enfermeiros, o que está em linha com dados obtidos em outros estudos(19-21).

A proporção de enfermeiros/ auxiliares e técnicos de enfermagem pode ser explicada pelo fato dos enfermeiros serem responsáveis pela coordenação da equipe de enfermagem, e exercerem, prioritariamente, a função assistencial de pacientes graves(19).

Em um inquérito nacional realizado para caracterização da formação da equipe de enfermagem, foi observado que 80,0% dos enfermeiros brasileiros fizeram algum curso de pós-graduação e 34,3% dos auxiliares e técnicos de enfermagem eram graduados(22). Taxas superiores foram encontradas no presente estudo, em que 95,8% dos enfermeiros e 68,0% dos profissionais de nível médio possuíam nível de escolaridade acima do exigido para o cargo.

Neste levantamento, 71,8% dos profissionais de enfermagem da instituição apresentaram algum grau de exposição ao estresse e 30,6% dos profissionais estavam na situação de alta exigência no trabalho. Este valor está acima dos observados em estudos semelhantes(15,17,23).

Em uma investigação realizada num hospital universitário da cidade do Rio de Janeiro, foi identificado que 56,5% da equipe de enfermagem apresentava algum nível de estresse(11). Em estudo realizado em hospital universitário do sul do Brasil, 27,4% dos profissionais apresentaram estresse ocupacional(23). Em outro inquérito realizado na região nordeste do país, foi observado que 22,0% dos profissionais de enfermagem estavam expostos ao estresse(19).

A partir do modelo final de regressão logística, foi possível identificar que o setor de atuação e o apoio social influenciam na exposição ao estresse ocupacional, pois foram encontrados resultados de associação estatisticamente significativos (p=0,01). Os profissionais atuantes no CTI da instituição apresentaram 3,91 menos chances de exposição ao estresse ocupacional em comparação com os profissionais que trabalham nos demais setores do hospital.

Este achado diverge dos dados encontrados na literatura, que defendem uma maior exposição ao estresse ocupacional nos centros de terapia intensiva(11,24).

Estudos anteriores que investigaram fatores de estresse ocupacional em trabalhadores de CTI sugerem que o desgaste físico e emocional provocado pelas atividades laborais, o número reduzido de recursos humanos e a falta de apoio emocional podem desencadear esse quadro. Relatam ainda que o reconhecimento no trabalho, a cooperação entre os membros da equipe, o respeito profissional e o apoio psicológico podem ser elementos de proteção contra o adoecimento(25).

Deve-se levar em consideração que, nesta investigação, 60% dos profissionais atuantes no CTI relataram perceber alto apoio social e 55,6% afirmaram ter alto controle do trabalho a ser realizado. Tais fatores podem ser considerados como protetores à exposição ao estresse, de acordo com o modelo teórico utilizado no estudo.

Em estudo realizado no sul do Brasil, a estrutura física inadequada e a falta de recursos materiais foram identificadas como fatores estressantes, principalmente em setores fechados, como bloco cirúrgico e CTI. Outro aspecto mencionado como estressor foi a função gerencial do enfermeiro que, além das atividades técnicas inerentes à profissão, possui funções burocráticas, como responsabilidade sobre a equipe técnica, organização funcional da unidade, elaboração de escalas de trabalho, férias e planilhas para organização do setor(26).

Em relação à alta taxa de estresse ocupacional identificada em profissionais dos demais setores do hospital, deve-se considerar que na instituição em questão, o dimensionamento de pessoal está aquém do esperado e tem sido observado um alto índice de absenteísmo na equipe de enfermagem, o que favorece a sobrecarga de trabalho e a exposição ao estresse.

Conforme o modelo final de regressão logística, os profissionais que recebem menor apoio dos chefes e colegas de trabalho, apresentam 3,60 mais chances de exposição ao estresse em comparação com os que apresentam alto apoio social.

Tal dado pode ser corroborado por achados de um estudo realizado em hospitais públicos no sul do Brasil, no qual foi observado que quanto maior a percepção do apoio social recebido, menor o relato de trabalho desgastante(9).

Ainda no que diz respeito ao apoio social, são descritos diversos mecanismos pelos quais o apoio social no ambiente laboral pode impactar na saúde e no desenvolvimento de estresse no trabalhador. O apoio social atua como moderador da tensão e pode diminuir a sua potência ou aumentar as estratégias de enfrentamento(16).

Assim, a presença do apoio social no ambiente de trabalho ameniza as cargas negativas do estresse ocupacional e pode contribuir para que o trabalhador estabeleça mecanismos de resiliência eficientes perante dificuldades comuns do cotidiano de trabalho.

O fato dos profissionais do turno noturno e com dois vínculos empregatícios apresentarem mais chances de exposição ao estresse ocupacional pode ser sustentado por um estudo realizado na região de Ohio-EUA. Neste estudo, foi demonstrado que o trabalho em turnos e longas jornadas aumentam o risco de desempenho reduzido no trabalho, obesidade, estresse, lesões e uma ampla gama de doenças relacionadas com comportamentos de saúde ruins(27).

Limitações do estudo

Algumas limitações devem ser consideradas na generalização dos resultados desta pesquisa. A alta prevalência do estresse ocupacional na amostra estudada e a baixa adesão da população em participar do estudo dificultaram a análise estatística, o que pode ter prejudicado maiores associações de causa e efeito do fenômeno estudado.

Contribuições para a área da saúde

Realizar estudos na área do estresse ocupacional em profissionais de enfermagem é primordial para a manutenção e promoção da saúde do trabalhador. Esta é uma problemática atual e relevante, pois os profissionais de enfermagem estão continuamente expostos a situações de pressão, sobrecarga de trabalho e condições de trabalho precárias. Além disso, foi identificada uma lacuna de conhecimento científico sobre essa temática entre os profissionais de enfermagem de hospitais universitários.

Sugere-se a condução de investigações futuras para identificar os possíveis motivos dos profissionais do CTI da instituição apresentarem menores índices de exposição ao estresse em relação aos demais setores.

Aprofundar nos estudos relacionados a esta temática também é importante pela natureza dos serviços prestados pelos profissionais de enfermagem, uma vez que a qualidade e eficácia do seu trabalho pode impactar de forma decisiva na saúde dos pacientes.

CONCLUSÕES

O estresse ocupacional em profissionais de enfermagem deve ser considerado como fator predisponente a diversos agravos à saúde, o que aumenta o índice de absenteísmo nas instituições e de insatisfação profissional.

Os dados obtidos neste estudo apontam para a necessidade de implementar medidas institucionais de prevenção do estresse ocupacional, sobretudo para fortalecer o apoio social no trabalho.

Diante do contexto, esta investigação poderá fornecer subsídios para os programas institucionais de prevenção do estresse ocupacional, a fim de promover a satisfação, o bem-estar e a qualidade de vida no trabalho

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Recebido: 12 de Fevereiro de 2019; Aceito: 15 de Junho de 2019

Autor Correspondente: Lucas Carvalho Santana E-mail: lucas_enfer@hotmail.com

EDITOR CHEFE: Antonio José de Almeida Filho

EDITOR ASSOCIADO: Mitzy Danski

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