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Revista Brasileira de Oftalmologia

Print version ISSN 0034-7280

Rev. bras.oftalmol. vol.69 no.6 Rio de Janeiro Nov./Dec. 2010

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-72802010000600003 

ARTIGO ORIGINAL

 

Avaliação do nível de conhecimento quanto ao uso de lentes de contato entre os estudantes de medicina da Faculdade de Medicina do ABC

 

Knowledge level evaluation as a contact lenses users, among medical students from ABC University

 

 

Giovana Arlene Fioravanti LuiI; Renato Galão LeçaII; José Ricardo Carvalho de Lima RehderIII; Adamo Lui NettoIV

IResidente de Oftalmologia do 3º ano da Faculdade de Medicina do ABC - FMABC - Santo André (SP), Brasil
IIChefe do Setor de Refração e Lentes de Contato da Faculdade de Medicina do ABC - FMABC - Santo André (SP), Brasil
IIIProfessor Titular e Chefe do Departamento de Oftalmologia da Faculdade de Medicina do ABC - FMABC - Santo André (SP) - Brasil
IVProfessor de Oftalmologia da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo - FCMSCSP - São Paulo (SP) - Brasil

Autor Correspondente

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Analisar o nível de conhecimento dos usuários de lentes de contato entre os estudantes de medicina da Faculdade de Medicina do ABC (SP) quanto aos cuidados, formas de uso, às complicações e à aquisição das lentes.
MÉTODOS: Foi aplicado um questionário a todos os alunos usuários de lentes de contato do 1º ao 6º ano de medicina da Faculdade de Medicina do ABC (SP), analisando-se por fim os resultados encontrados. Todos os questionários aplicados foram respondidos.
RESULTADOS: 61 estudantes responderam ao questionário. 52,5% afirmaram já terem tido algum tipo de complicação ocular decorrente do uso de lentes de contato. Apesar de a maioria (70,5%) estar satisfeito com o uso das lentes de contato, 67% dos que responderam ao questionário estão esperando o grau estabilizar para realizar cirurgia para correção de grau.
CONCLUSÃO: Observou-se uma adaptação inadequada, aquisição de lentes de contato em ópticas ou farmácias e complicações oculares graves ocorreram em usuários de lentes de contato considerados diferenciados. Podemos concluir que o médico oftalmologista deverá dar mais atenção ao tema, para que haja menos complicações ao realizar adaptações de lentes de contato.

Descritores: Lentes de contato; Infecções oculares; Estudantes de medicina; Ceratite; Ametropia; Questionários


ABSTRACT

PURPOSE: To analyze the care, complications and way of acquisition related to contact lenses wear among medical students from Faculdade de Medicina do ABC (Santo André -SP).
METHODS: Questionnaire applied to medical students from the first to the sixth year from Faculdade de Medicina do ABC (Santo André -SP) was analyzed.
RESULTS: 61 medical studants answered the questionnaire. 52,5% reported some ocular complications. Despite the majority (70,5%) contact lenses wear being satisfied about the contact lenses, 67% wants to operate their ametropy.
CONCLUSION: An inadequate adaptation and ocular complications occurs even in users knowledgeable about this issue. Ophthalmologist must be paid more attention to contact lens care in order to prevent ocular complications.

Keywords: Contact lenses; Eye infections; Medical students; Keratitis; Ametropy; Questionnaires


 

 

INTRODUÇÃO

Ouso de lentes de contato (LC) aumentou muito nos últimos anos. Um dos fatores que colaboraram para esse aumento foram as diversas indicações na oftalmologia, onde quase qualquer paciente amétrope pode ser considerado um eventual usuário de lentes de contato(1). Dentre essas indicações destacam-se as ópticas, onde se incluem 85-90% dos usuários de LC(1). Existem também as indicações médicas como, por exemplo, o ceratocone, onde o uso de LC melhora muito as condições visuais desse tipo de paciente, astigmatismo, anisometropias, afacia unilateral, nistagmo, entre outras; as indicações cosméticas vão desde a um paciente que deseja mudar a cor dos olhos a um paciente que apresente cicatriz corneana desfigurante. Por fim, ainda existem as indicações terapêuticas(1-3).

Outro fator que estimulou o aumento do uso de lentes de contato foi a modernização dos métodos de fabricação das lentes de contato, produzindo-se assim lentes com alta transmissibilidade de oxigênio, resistência a depósitos e baixo custo(4), resultando em LC com materiais que causam cada vez menos danos à fisiologia ocular e com desenhos cada vez mais compatíveis com a topografia corneana(4,5).

Mas juntamente com o maior número de usuários, o número de infecções oculares também cresceu(4,6). Estima-se que nos últimos 40 anos, a taxa de infecção tenha aumentado em 435% devido ao aumento do número de usuários(4).

O uso de LC pode alterar a fisiologia da córnea facilitando o aparecimento de infecções(4) e ainda, a formação de depósitos sobre as lentes facilita o desenvolvimento das reações inflamatórias e infecciosas(1,2). O comportamento inadequado de usuários em relação a cuidados de limpeza, desinfecção, utilização de soluções guardadas por tempo excessivo, higiene das mãos e do estojo das lentes, uso por períodos mais longos do que o recomendado e falta de controle médico regular têm sido apontados como causas de complicações e de insucesso na adaptação de LC(7). Um dos pontos básicos do sucesso da adaptação de lentes de contato é evitar complicações, o que depende da boa conduta do médico e do paciente. A seleção do paciente deve ser criteriosa, a adaptação deve ser adequada, o controle feito regularmente, a educação do usuário precisa ser rigorosa, de forma a obter uma boa adesão às recomendações médicas, prevenindo complicações e assegurando o uso confortável e seguro das lentes de contato(7).

Esse trabalho visa avaliar o nível de conhecimento dos usuários de lentes de contato entre os estudantes de medicina da Faculdade de Medicina do ABC (SP) quanto aos cuidados, formas de uso, às complicações e à aquisição das lentes.

 

MÉTODOS

Foi aplicado um questionário aos estudantes de medicina usuários de lentes de contato, do primeiro ao sexto ano da Faculdade de Medicina do ABC. Todos foram informados do caráter do trabalho. Como critérios de inclusão, foram considerados: o uso de lentes de contato, ser estudante de medicina da Faculdade de Medicina do ABC e a disponibilidade para responder ao questionário. O início do trabalho foi realizado em agosto de 2007, com a aplicação de questionário com 31 questões.

 

RESULTADOS

Dos 600 estudantes do curso de medicina, 61 (10,2%) responderam ao questionário aplicado. Desses, 78,7% eram do sexo feminino. Predominaram estudantes de 23 a 25 anos (54%) e do quarto ano da faculdade de medicina (53%).

A grande maioria dos usuários de LC respondeu que usava LC há mais de 5 anos (54,2%) e 93,5% usavam óculos também. A última consulta ao oftalmologista referida pelos alunos foi há menos de 1 ano, em 90% dos casos e dentre estes, 100% estava com seu exame de refração atualizado. O erro refrativo mais encontrado foi o astigmatismo (51%), seguido pela miopia (46%). E o maior motivo apontado para querer usar lentes foi a de que os óculos incomodavam, principalmente na prática de esportes (79,7%).

Dentre os que responderam ter abandonado o uso das lentes (apenas 8% dos estudantes responderam a pergunta), 60% alegou não ter conseguido se adaptar ao uso da LC (por intolerância) e 40% por já ter realizado cirurgia para a correção de grau.

A higienização da lente em 42,6% dos casos era realizada antes da sua colocação e em 38% dos casos antes e depois de seu uso. A maioria (78%) refere utilizar solução multiação para a limpeza da lente (Gráfico 1) e 57,5% informam que ao utilizar a solução multiação para a limpeza da lente, somente deixam as lentes em repouso na solução e 41% dizem friccioná-las nesta solução. A maioria (59%) limpa semanalmente o estojo e apenas 5% nunca as limpam. Quando questionados quanto à troca de estojo, 42,6% trocam anualmente. Durante o uso da lente, a maioria (65,6%) disse usar colírio lubrificante.

 

 

Quanto ao modo de uso das LC, 75,5% responderam usá-las todos os dias no período de 1 semana, por um tempo maior de 8 horas ao dia (86,9%), sendo o uso médio entre 8 a 16 horas por dia (75,4%). A grande maioria (78,7%) afirmou já ter dormido com as lentes e dentre esses, 52% dizem ter dormido apenas algumas horas seguidas (entre 2 a 20 horas) e 8% admitem ter dormido por mais de 1 semana seguida com as lentes.

Apesar de 70,5% dos entrevistados estarem muito satisfeitos em relação ao uso de LC, apenas 11,5% se consideram muito bem preparados em relação ao seu uso.

A lente mais utilizada (57,4%) foi a hidrofílica descartável com troca planejada para 1 mês (Gráfico 2), tendo sido escolhido esse tipo de lente, principalmente por indicação médica (48,4%). A maioria dos estudantes refere ter obtido a LC em casas de óptica (50%), sendo que nesses estabelecimentos, em 61,8% dos casos, a receita do grau não foi solicitada, enquanto 45% dos estudantes adquiriram suas lentes no consultório oftalmológico.

 

 

Em relação às complicações oculares (Gráfico 3), 52,5% informaram já ter tido algum tipo, sendo a complicação mais encontrada, o olho vermelho (40,4%), seguida por ceratite, não especificada em infecciosa ou não infecciosa (21,1%), e a complicação ocular menos encontrada (3,8%) foi a infecção.

 

 

A maioria dos entrevistados (83,3%) refere ter obtido informações quanto ao uso da LC em consultório médico oftalmológico. Os tipos de informações mais recebidas foram quanto à forma de desinfecção, de colocação e remoção das lentes e duração das mesmas (48,23%).

A maioria dos estudantes que respondeu a esse questionário refere já ter pensado em realizar cirurgia para a correção de grau (75%), sendo que 67% estão apenas esperando o grau estabilizar para que possam realizar a cirurgia.

 

DISCUSSÃO

Dentre os entrevistados, a maioria foi do sexo feminino, comparável com outros estudos baseados em entrevista com estudantes de medicina, onde a maioria também era do sexo feminino(6,8).

O erro refrativo mais encontrado em nosso trabalho foi o astigmatismo, seguido pela miopia, o mesmo encontrado em outro trabalho, também baseado em entrevista com estudantes de medicina usuários de LC, onde 49,7% apresentavam astigmatismo miópico e 49%, miopia(6). O tipo de lente mais usado foi a gelatinosa (94,9%), notando-se números semelhantes em outros trabalhos, onde em um deles, a porcentagem de estudantes usuários de lente gelatinosa foi de 94,8%(6) e em outro, 91,09%(9).

O maior motivo apontado para querer usar lente foi a de que os óculos incomodavam, principalmente para a prática de esportes; em outros trabalhos encontrados na literatura com a mesma finalidade deste, o maior motivo apontado foi o estético(6,9), enquanto que em nosso trabalho, apenas 4,3% começaram a usar LC por motivos estéticos.

O que nos chamou mais atenção foi que um trabalho realizado em 2006, com estudantes de medicina, apenas 18,6% adquiriram suas lentes em farmácias, casas de óptica e internet(6), sendo que em nosso trabalho, 55% admitiram ter adquirido suas lentes nesses estabelecimentos e dentre esses casos, 61,8% alegam que ao comprar as lentes não foi necessário a apresentação da receita médica.

 

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Quanto ao modo de uso das LC, a grande maioria respondeu usá-las todos os dias no período de 1 semana, por um tempo maior que o recomendável, excedendo 12 horas por dia.

Em relação às complicações oculares, pouco mais da metade dos estudantes responderam já ter tido algum tipo, sendo o olho vermelho a complicação mais encontrada. Já a complicação ocular menos encontrada foi infecção ocular, e dentre esses que apresentaram infecção, 100% adquiriram suas lentes em casa de óptica. Em outros trabalhos existentes na literatura, observamos um número bastante variável em relação a complicações oculares: em um trabalho realizado em 2000, 37,7% dos estudantes de medicina entrevistados apresentaram complicações oculares, não especificadas em infecciosas ou não infecciosas(8); em outro trabalho realizado em 2001, 51,49% responderam ter tido complicações com o uso de lentes(9); em trabalho realizado em 2006, 83,2% relataram complicações oculares(6). Devemos também nos atentar à porcentagem de 21% dos casos de ceratite encontrados em nosso trabalho, número bastante significativo se levarmos em consideração que estas representam a mais séria complicação do uso de LC que podem levar à cegueira(4).

A higienização da lente, em 42,6% dos entrevistados era feita somente antes da sua colocação e em 38% dos casos, antes e depois de seu uso, número menor que o encontrado na literatura, onde 46,5% responderam fazer a higienização das lentes antes e depois de usá-las(6). A maioria refere utilizar solução multiação para a limpeza da lente. Quando questionados quanto à troca de estojo, 42,6% responderam trocar anualmente, sendo o preconizado pelos médicos oftalmologistas que se faça uma troca trimestral ou então se realizada boa assepsia do estojo, a cada 6 meses(1-3). Durante o uso da lente, a maioria (65,6%) respondeu usar colírio lubrificante, 12,5% afirmaram pingar soro fisiológico. A maioria dos entrevistados (83,3%) refere ter obtido informações quanto ao uso da LC em consultório médico oftalmológico, apesar de 51% terem adquirido suas lentes em casas de óptica. Os tipos de informações mais recebidas foram quanto à forma de desinfecção das lentes (17,8%), forma de colocação e remoção (15,8%) e duração das lentes (13,7%), limpeza do estojo (13,3%) e número de horas de uso contínuo (10%).

A maioria (70,5%) dos entrevistados respondeu estar muito satisfeito em relação ao uso de LC, em contraste com uma minoria que se considera muito bem preparada em relação ao seu uso.

Observamos que neste grupo há um grande interesse na cirurgia refrativa, onde a maioria dos estudantes que respondeu a esse questionário refere já ter pensado em realizar a cirurgia para a correção de grau (75%), sendo que 67% estão apenas esperando o grau estabilizar para que possam realizar a cirurgia.

 

CONCLUSÃO

Observamos uma preocupação em relação às consultas oftalmológicas, onde a maioria dos pacientes estava com seu exame oftalmológico atualizado. Outro dado que nos chamou a atenção foi uma grande porcentagem de pacientes que obtiveram suas lentes de contato em óptica, farmácia ou internet, apesar de terem sido receitadas pelos seus médicos oftalmologistas.

Notamos que apesar de a grande maioria destes estudantes ter recebido as primeiras orientações em relação ao uso das lentes do médico oftalmologista, quase metade deles já havia tido algum tipo de complicação ocular.

Devemos atentar para o fato de que nossos entrevistados são estudantes de medicina, portanto indivíduos esclarecidos e que deveriam ter mais atenção ao cuidado e manuseio de suas lentes.

 

REFERÊNCIAS

1. Coral-Ghanem C, Kara-José N. Lentes de contato na clínica oftalmológica. 3a ed. Rio de Janeiro: Cultura Médica; 2005. p. 1-5, 142-4.         [ Links ]

2. Coral-Ghanem C, Kara-José N. Manual CBO lentes de contato. Rio de Janeiro: Cultura Médica; 2003. p. 253-60.         [ Links ]

3. Moreira SMB, Moreira H, Moreira LB. Lentes de contato. 3a ed. Rio de Janeiro: Cultura Médica; 2004. p. 51-5.         [ Links ]

4. Oliveira PR, Kara-José N, Alves MR, Temporini ER. Observância da orientação médica pelo usuário de lentes de contato. Arq Bras Oftalmol. 2004;67(4):607-12.         [ Links ]

5. José ACK, Cunha KG, Malta JBNS, Gomes ACM, De Novelli FJ. Condições de adaptação e venda de lentes de contato em óticas do estado de São Paulo. Arq Bras Oftalmol. 2001;64(5):429-35.         [ Links ]

6. Vidotti VG, Kamegasawa A. Perfil dos alunos usuários de lentes de contato do curso de Medicina da Universidade Estadual Paulista - UNESP - Botucatu. Arq Bras Oftalmol. 2006;69(2):197-201.         [ Links ]

7. Kara-José N, Bechara SJ, Bonatti JA. Complicações pelo uso de lentes de contato. In: Pena AS. Clínica de lentes de contato. Rio de Janeiro: Cultura Médica; 1989. p.125-34.         [ Links ]

8. Ghanem CC, Ghanem RC, Bertoli GWD, Yamazaki ES. Comportamento e características de usuários de lentes de contato entre estudantes universitários da área de saúde. Arq Bras Oftalmol. 2000;63(2):123-7.         [ Links ]

9. Holzchuh R, Preti RC, Holzchuh N, Alves MR, Arieta CEL, Kara-José N. Estudantes de Medicina usuários de lentes de contato. Rev Bras Oftalmol. 2001;60(4):304-8.         [ Links ]

 

 

Autor Correspondente:
Giovana Arlene Fioravanti Lui
Av. Min. Gabriel Resende Passos, n.300/Ap. 91
Fax: 5052-1685
E-mail: giovanalui@yahoo.com.br

Recebido para publicação em: 23/10/2009
Aceito para publicação em 21/9/2010

 

 

Trabalho realizado na Faculdade de Medicina do ABC - FMABC - Santo André (SP), Brasil.

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