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Revista Brasileira de Oftalmologia

Print version ISSN 0034-7280

Rev. bras.oftalmol. vol.71 no.4 Rio de Janeiro July/Aug. 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-72802012000400002 

ARTIGO ORIGINAL

 

Avaliação da eficácia do bimatoprosta 0,03% (Glamigan, Germed, Brasil) na redução da pressão intraocular em pacientes com glaucoma primário de ângulo aberto e hipertensão ocular

 

Bimatoprost 0,03% (Glamigan, Germed, Brazil) efficacy in intraocular pressure in patients with primary open angle glaucoma and ocular hypertension

 

 

Juliana Almodin; Luiz Fernando Santini Di Sessa; Flavia Almodin; Tadeu Cvintal

Centro de Oftalmologia Tadeu Cvintal – São Paulo (SP), Brasil

Autor correspondente

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Avaliar a eficácia do colírio bimatoprosta 0,03% (Glamigan, Germed, Brasil) na redução da pressão intraocular (PIO) em pacientes com glaucoma primário de ângulo aberto (GPAA) ou hipertensão ocular (HO), bem como avaliar os efeitos colaterais decorrentes do uso da droga no desenho epidemiológico randomizado, controlado.
MÉTODOS: Foram avaliados pacientes portadores de GPAA ou HO, acima de 18 anos de idade. Todos os pacientes receberam o colírio Glamigan® como primeira droga a ser introduzida no tratamento, tendo sido utilizada uma gota uma vez ao dia (à noite), e 30 dias após foram submetidos à tonometria de aplanação (Goldmann) para mensuração da PIO.
RESULTADOS: A amostra do estudo foi composta por 35 (66 olhos) pacientes portadores de GPAA e HO, sendo 16 do sexo masculino (45,7%) e 19, do feminino (54,3%). A média de idade foi de 66,7 anos, sendo a idade máxima 84 anos. A média de redução da PIO após 30 dias de uso do Glamigan® foi de 6,5mmHg. Em relação aos efeitos colaterais, 17 (26,6%) pacientes referiram hiperemia conjuntival, 10 (15,6%) a dor, 8 (12,5%) o ardor, 5 (7,8%) o prurido ocular e 2 (3,1%) o embaçamento visual.
CONCLUSÃO: A medicação Glamigan® foi eficiente na redução da PIO após 30 dias de uso contínuo, na dose de 1x/dia. Acerca dos efeitos colaterais, os mais observados foram hiperemia ocular (26,6%) e dor (15,6%), porém estudos com maior tempo de seguimento dos pacientes se fazem necessários a fim de investigar a importância daqueles na terapia com o Glamigan®.

Descritores: Glaucoma de ângulo aberto/quimioterapia; Hipertensão ocular/quimioterapia; Soluções oftálmicas/efeitos adversos; Soluções oftálmicas/uso terapêutico


ABSTRACT

OBJECTIVE: To evaluate how much decreases intraocular pressure (IOP) with bimatoprost 0,03%  (Glamigan, Germed, Brazil) in patiens with primary open angle glaucoma (POAG) and ocular hypertension (OH) and possible side effects. Study: Controlled and randomized study.
METHODS: There were evaluated 66 eyes of 35 patients with age of 18 years old or more diagnosed with POAG and OH. All the patients had Glamigan® as first drop for treatment used once daily (at night) and 30 days later they had IOP measured by Goldmann tonometry.
RESULTS: The study population had 35 (66 eyes) patients with primary open angle glaucoma (POAG) and ocular hypertension (OH), 16 male patients (45,7%) and 19 female (54,3%). The mean age was 66,7 years old and the maximum was 84 years old. The mean decrease in IOP was 6,5 mmhg after 30 days using the drops. Seventeen patients had conjunctival redness (26,6%), 10 (15,6%) had pain, 8 (12,5%) had burning, 5 (7,8%) had itch and 2 (3,1%) had blurring vision.
CONCLUSION: Glamigan® was efficient when evaluating IOP decrease. The most correlated side effects were conjunctival redness (26,6%) and pain (15,6%). We still need more studies to observe the real importance of those with Glamigan® therapy.

Keywords: Glaucoma, open angle/drug therapy; Ocular hypertension/drug therapy; Ophthalmic solutions/adverse effects; Ophthalmic solutions/therapeutic use


 

 

Introdução

O glaucoma primário de ângulo aberto (GPAA) é uma neuropatia óptica crônica, progressiva, caracterizada por alterações típicas do disco óptico (DO) e da camada de fibras nervosas da retina (CFNR), com repercussões características no campo visual (CV). É acompanhado, na maioria das vezes, de medidas de PIO acima de níveis considerados estatisticamente normais. Indivíduos com ângulo aberto, DO normal, sem defeito de CV e níveis pressóricos acima de 21mmHg são considerados HO(1). Dentre as medicações oculares hipotensoras atualmente disponíveis no tratamento do GPAA, os análogos de prostaglandina são os mais potentes, dentre elas a travoprosta (0,004%), a latanoprosta (0,005%) e a bimatoprosta (0,03%)(2).

A bimatoprosta, também chamada de AGN 192024 durante sua fase experimental, foi introduzida em 2001 para uso clínico. A presença do grupo etilamida na posição C1 torna a bimatoprosta uma prostamida que depende da hidrólise corneana para a sua forma ácida que terá efetivamente a atividade agonista ao receptor FP(3,4). Como toda a classe dos análogos de prostaglandinas, a principal atividade é o aumento do escoamento do humor aquoso (HA), tanto pela via trabecular quanto pela via úveo-escleral. Os mecanismos pelos quais esta atividade é alcançada ainda não são completamente conhecidos, mas observou-se, em estudos experimentais, um relaxamento do músculo ciliar e uma maior atividade das metaloproteinases da matriz extracelular e de colagenases(4).

Estudos comparativos mostraram, no tocante à redução da PIO, uma maior eficácia da bimatoprosta em relação ao maleato de timolol 0,5%(5-7), mesmo quando em associação a outras classes de hipotensores oculares(8,9). Quando comparam-se a outros análogos de prostaglandina, estudos evidenciam também maior redução da PIO(7,10,11).

Em relação aos efeitos adversos, os mais relacionados ao uso da bimatoprosta, assim como aos demais análogos de prostaglandina, são a hiperemia conjuntival, irritação ocular, prurido, dor ocular, ardor, alteração da coloração iriana, hiperpigmentação dérmica palpebral e alterações dos cílios(3,4).

Este estudo objetivou avaliar a eficácia do colírio bimatoprosta 0,03% (Glamigan, Germed, Brasil) na redução da PIO, em pacientes com GPAA ou HO, bem como os efeitos colaterais decorrentes do uso da droga.

 

Métodos

Este foi um estudo randomizado, controlado, conduzido pelo de Departamento de Glaucoma do Centro de Oftalmologia Tadeu Cvintal. Todos os pacientes eram pacientes do ambulatório de glaucoma do Centro de Oftalmologia Tadeu Cvintal, portadores de GPAA ou HO, acima de 18 anos de idade. Todos eles receberam o colírio Glamigan® como primeira droga introduzida no tratamento.

A droga foi instilada uma vez por dia (à noite) em todos os pacientes, sendo que após 30 dias foram submetidos à tonometria de aplanação (Goldmann) para mensuração da PIO, sempre pelo mesmo examinador. Além disso, os pacientes foram questionados quanto à percepção de alguma diferença ou incômodo notados após o início do uso do colírio.

Foram excluídos do estudo os pacientes que apresentaram: uso de corticosteróides tópicos ou sistêmicos no período do atendimento, uso de lágrimas artificiais, conjuntivite ativa infecciosa ou não infecciosa, ceratite, esclerite ou uveíte, história de cirurgia intraocular 120 dias antes da introdução da medicação ou durante o curso do estudo, história de doenças inflamatórias oculares, doenças retinianas progressivas como degenerações retinianas ou doença macular relacionada à idade, retinopatia diabética, descolamento de retina e história de hipersensibilidade ao uso de bimatoprosta 0,03%. A eficácia da medicação foi avaliada através da medida da PIO antes do uso da mesma e após 30 dias de uso contínuo.

As variáveis foram resumidas pelas estatísticas descritivas pertinentes: frequência absoluta (n) e relativa (%) ou média, desvio padrão (dp), mediana, valores mínimo e máximo. As medidas de PIO realizadas nas avaliações pré e após 30 dias de uso contínuo de colírio foram comparadas pelo teste t-pareado. Foi adotado o nível de significância de 0,05 (α = 5%) e utilizado o programa estatístico SPSS versão 15.0 para Windows para todas as análises estatísticas.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Resultados

A amostra do estudo foi composta por 35 (66 olhos) pacientes portadores de GPAA e HO, sendo 16 do sexo masculino (45,7%) e 19 do sexo feminino (54,3%). A média de idade foi de 66,7 anos, sendo a idade máxima 84 anos.

Foi observada variação estatisticamente significante entre as avaliações pré e após 30 dias de uso contínuo de colírio da PIO (p < 0,001).

A redução média observada foi de 6,5 mmHg (dp = 4,0 mmHg), variando entre um aumento de 1 mmHg até uma redução de 20 mmHg.

 

Discussão

O principal fator determinante na progressão do GPAA é a PIO elevada. Portanto, a manutenção desta em níveis considerados seguros para o paciente é crucial. Estudos mostraram que, em pacientes com HO, a redução da PIO reduz o risco de desenvolvimento de glaucoma(12,13), bem como a progressão da perda de CV em pacientes com glaucoma já estabelecido(14,15). Neste estudo, observou-se uma redução média de 6,5 mmHg com a utilização da bimatoprosta 0,03% 1x/dia, corroborando dados encontrados na literatura(16,17). DuBiner et al.(17), em estudo realizado em 2001, obteve reduções da PIO que variaram entre 5,9 e 8,9 mmHg com o uso prolongado da bimatoprosta. Ressalta-se, todavia, o fato de as aferições não terem sido realizadas todas no mesmo horário do dia.

Dentre os pacientes estudados, 17 (26,6%) apresentaram queixa de hiperemia conjuntival, incidência esta menor do que o encontrado por Brandt et al.(18), em cujo estudo achou-se 38,5% de ocorrência. Não foi observado crescimento dos cílios, sendo que isto pode se dever ao fato de os pacientes terem sido acompanhados por apenas 1 mês, tempo inferior ao encontrado na literatura para a observação do efeito(19-21).

Deve-se salientar que, em se tratando de um serviço público, que atende a pacientes que muitas vezes não têm condição de realizar exames complementares no tempo determinado, houve pacientes do estudo que não realizaram a perimetria computadorizada.

 

Conclusão

Conclui-se, através deste estudo, que o Glamigan® foi eficiente na redução da PIO após 30 dias de uso contínuo, na dose de 1x/dia. Acerca dos efeitos colaterais, os mais observados foram hiperemia ocular (26,6%) e dor (15,6%), porém estudos com maior tempo de seguimento dos pacientes se fazem necessários a fim de investigar a importância daqueles na terapia com a bimatoprosta.

 

Referências

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Autor correspondente:
Juliana Almodin

Rua Xavier Curado, nº 351 apto. 131
CEP 04210-100 - Ipiranga - SP
E-mail: Juliana_almodin@hotmail.com

Recebido para publicação em 28/2/2011
Aceito para publicação em 26/11/2011

 

 

Departamento de Glaucoma do Centro de Oftalmologia Tadeu Cvintal
Os autores declaram inexistir conflitos de interesse

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