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Revista Brasileira de Oftalmologia

versão impressa ISSN 0034-7280

Rev. bras.oftalmol. vol.72 no.3 Rio de Janeiro maio/jun. 2013

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-72802013000300011 

RELATO DE CASO

 

Tratamento de cistos conjuntivais em cavidade anoftálmica com injeção intralesional de ácido tricloroacético (ATA) a 25%

 

 

Fabricio Lopes da FonsecaI; Renata de Iracema Pulcheri RamosII; Suzana MatayoshiIII

IMédico Oftalmologista; Fellow do Setor de Plástica Ocular, divisão de Clínica Oftalmológica, Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina, Universidade de São Paulo (USP) - São Paulo (SP), Brasil
IIMédica Oftalmologista, preceptora da Divisão de Clínica Oftalmológica, Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina, Universidade de São Paulo (USP) - São Paulo (SP), Brasil
IIILivre-docente, professora associada e Chefe do Setor de Plástica Ocular, divisão de Clínica Oftalmológica, Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina, Universidade de São Paulo (USP) - São Paulo (SP), Brasil

Autor correspondente

 

 


RESUMO

Cistos conjuntivais em cavidades anoftálmicas podem ter implicações funcionais e estéticas negativas para os pacientes. Dentre as opções terapêuticas disponíveis, o uso do ácido tricloroacético é relativamente recente. Os casos relatados apresentaram boa evolução após 30 dias do tratamento, sendo bem tolerado pelos pacientes e possibilitando maior preservação de tecido conjuntival.

Descritores: Doenças da túnica conjuntiva/quimioterapia; Órbita; Ácido tricloroacético/uso terapêutico; Ácido tricloroacético/ administração & dosagem; Prótese ocular; Relatos de casos


 

 

INTRODUÇÃO

Cisto cojuntivais são complicações que ocorrem em cavidades anoftálmicas, podendo acarretar desconforto local e dificuldade na aposição da prótese ocular na superfície anterior da cavidade.

As opções terapêuticas incluem excisão, marsupialização e alcoolização (1,2). O uso de ácido tricloroacético (ATA) é relativamente novo nessa situação (3,4).

Relatamos o uso de ATA 25% em três casos de cistos conjuntivais.

 

MÉTODOS

Os pacientes foram posicionados em decúbito dorsal horizontal. Instilou-se uma gota de colírio de proximetacaína a 0,5% 5 minutos e imediatamente antes do procedimento. Após antisepsia, assepsia e colocação de blefarostato, o cisto foi puncionado com agulha 31 x 4 mm conectada a seringa de 3ml, contendo 1 ml de solução aquosa de ATA 25%. O conteúdo aspirado foi então reinjetado, até o cisto adquirir aparência esbranquiçada. O conteúdo foi então novamente aspirado até o colabamento das paredes do cisto.

Os pacientes utilizaram colírios de ofloxacino 0,3% e prednisolona 1%, uma gota a cada 6 horas, por 7 dias. Foram reavaliados após 1 semana e também após 1 mês do procedimento.

 

RELATO DE CASOS

Caso 1: Paciente de 54 anos de idade, sexo masculino, submetido à evisceração de olho esquerdo após perfuração ocular há 2 anos. Encaminhado ao Setor de Plástica Ocular do HCFMUSP com queixa de lesão conjuntival à esquerda de aumento gradual há 3 meses e dificuldade de uso da prótese ocular.

O paciente foi submetido à injeção de 1ml de ATA 25% intralesional (Figura 1), porém não retornou para seguimento ambulatorial.

 

 

Caso 2: Paciente de 56 anos de idade, sexo feminino, submetida a 2 transplantes de córnea tectônicos em olho esquerdo, sendo o último há 1 ano. Evoluiu com phitisis bulbi. Encaminhada ao Setor de Plástica Ocular do HCFMUSP com queixa de lesão conjuntival de aumento gradual há 6 meses. Relatava desconforto local ao piscar.

A paciente foi submetida à injecão de 1ml de ATA 25% intralesional. Em seguimento atual de 1 mês pós procedimento, apresenta-se sem queixas (figura 2) .

 

 

Caso 3: Paciente de 78 anos de idade, sexo feminino, submetida à evisceração de olho esquerdo há 3 anos por endoftalmite pós-operatória. Encaminhada ao Setor de Plástica Ocular do HCFMUSP com queixa de lesão conjuntival de aumento gradual há 9 meses e desconforto ao uso da prótese ocular.

A paciente foi submetida à injecão de 1ml de ATA 25% intralesional. Em seguimento atual de 1 mês pós-procedimento, apresenta-se sem queixas (figura 3) .

 

 

DISCUSSÃO

O procedimento foi bem tolerado por todos os pacientes, que relataram leve desconforto durante a aplicação do ATA 25%. Não houve complicações no período de estudo, com regeneração conjuntival adequada e ausência de recidiva nas 2 pacientes que retornaram para seguimento.

O tratamento dos cistos conjuntivais em cavidades anoftálmicas se faz necessário quanto dificulta o uso da prótese ocular, causa desconforto ou acarreta implicações cosméticas negativas para o paciente.

Dentre as opções terapêuticas descritas, as mais consagradas são excisão e marsupialização(1). Entretanto, é necessário novo procedimento cirúrgico e a ressecção completa do cisto pode ser difícil, o que aumenta o risco de recidivas.

Hornblass et al.(2) descreveram uma série de 4 casos tratados com injeção intralesional de álcool absoluto. Houve resolução em 2 casos, porém o tempo de seguimento não foi informado.

O uso de ATA é descrito por Owji et al.,(3) em série de casos de 4 pacientes com cistos conjuntivais anteriores gigantes em cavidades anoftálmicas. Foi realizada injeção intralesional de ATA 20% em todos os pacientes. O tempo médio de seguimento foi de 16 meses (variando de 8 a 33 meses). Nesse período nenhum paciente apresentou recidiva .

Sánchez et al.(4) utilizaram solução de ATA para tratamento de cisto conjuntival posterior em cavidade anoftálmica, observando resolução da lesão e ausência de recidiva em seguimento de 10 meses.

O uso de ATA 25% nos casos estudados se mostrou simples, seguro e eficaz no período de seguimento. Novos estudos são necessários para avaliação da eficácia a longo prazo, em maior número de pacientes.

 

REFERÊNCIAS

1. McCarthy RW, Beyer CK, Dallow RL, Burke JF, Lessell S. Conjunctival cysts of the orbit following enucleation. Ophthalmology. 1981;88(1):30-5.         [ Links ]

2. Hornblass A, Bosniak S. Orbital cysts following enucleation: the use of absolute alcohol. Ophthalmic Surg. 1981;12(2):123-6.         [ Links ]

3. Owji N, Aslani A. Conjunctival cysts of the orbit after enucleation: the use of trichloroacetic acid. Ophthal Plast Reconstr Surg. 2005;21(4):264-6.         [ Links ]

4. Sánchez EM, Formento NA, Pérez-López M, Jiménez AA. Role of trichloroacetic acid in treating posterior conjunctival cyst in an anopthalmic socket. Orbit. 2009;28(2-3):101-3.         [ Links ]

 

 

Autor correspondente:
Fabricio Lopes da Fonseca
Rua Xavier de Almeida, nº 1135 apto. 121 - Ipiranga
CEP 04211001 - São Paulo (SP), Brasil
E-mail: fabricio89@gmail.com

Recebido para publicação em: 14/10/2011
Aceito para publicação em: 21/12/2011
Os autores declaram não haver conflitos de interesse

 

 

Setor de Plástica Ocular - Divisão de Clínica Oftalmológica - Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) - São Paulo (SP), Brasil.

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