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Revista Brasileira de Otorrinolaringologia

Print version ISSN 0034-7299

Rev. Bras. Otorrinolaringol. vol.70 no.5 São Paulo Sept./Oct. 2004

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-72992004000500018 

RELATO DE CASO CASE REPORT

 

Pericondrite por piercing: relato de casos e revisão da literatura

 

Ear piercing perichondritis: case reports and literature review

 

 

Ernesto N. TakahashiI; Adriana G. ChavesII; Fernanda AkakiII; Anne K.S.L.NunesI; Maria Carmela C.BoccaliniIII; Cícero MatsuyamaIV

IMédicos otorrinolaringologistas do Hospital Cema
IIMédicas residentes de Otorrinolaringologia do Hospital Cema
IIIMédica Preceptora da Residência Médica de Otorrinolaringologia do Hospital Cema
IVCoordenador da Residência Médica em Otorrinolaringologia do Hospital Cema. Mestre e Doutor pela EPM/UNIFESP

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

A pericondrite é uma infecção que envolve o pericôndrio do pavilhão auricular. Desencadeada pelo piercing, é secundária a uma reação alérgica ao níquel. O diagnóstico é essencialmente clínico, porém a realização de cultura e antibiograma é fundamental. Os patógenos freqüentemente envolvidos são germes Gram negativos (Pseudomonas aeruginosa). Os autores apresentam 3 casos de pericondrite por piercing atendidos no ambulatório de otorrinolaringologia e realizam uma revisão da literatura.

Palavras-chave: pericondrite, piercing, alergia a níquel.


SUMMARY

Auricular perichondritis is a complication related to ear piercing, caused by the hypersensitivity to nickel. The diagnosis is essentially based on clinical findings. The most pathogen frequently involved is Pseudomonas aeruginosa. Culture is important to determine the antibiotic susceptibility. We report 3 cases of ear piercing associated perichondritis and present a literature review.

Key words: perichondritis, ear piercing, nickel allergy.


 

 

INTRODUÇÃO

As pericondrites são infecções de evolução lenta localizadas na cartilagem auricular e resultam em lacerações, contusões, cirurgias ou outras afecções.

A pericondrite do pavilhão auricular induzida pelo piercing vem se constituindo em uma afecção freqüente principalmente entre os jovens.1-4

Os primeiros sinais e sintomas surgem dias a semanas após a colocação do piercing. Os pacientes apresentam dor intensa, eritema, edema e endurecimento.1-3,5-8

O agente etiológico mais encontrado na pericondrite por piercing é a Pseudomonas aeruginosa e a sua inoculação decorre da exposição do pericôndrio e das cartilagens do pavilhão, durante ou após o procedimento.1,2,4-6 Outras bactérias podem também estar associadas, principalmente o Staphylococcus aureus.1,2,8,9

As principais complicações são: dermatite de contato e reação de hipersensibilidade ao níquel.2,6,7,9-12

É imperiosa a investigação etiológica através da cultura e antibiograma da secreção.1

O tratamento consiste em drenagem cirúrgica, antibioticoterapia e antiinflamatório sistêmico.

O presente estudo relata 3 casos de pericondrite por piercing atendidos no ambulatório de Otorrinolaringologia do Hospital Cema.

 

RELATO DE CASOS

Caso 1

D. M. C., 15 anos, feminino, branca, com piercing em orelha direita há 14 dias.

Há 10 dias passou a apresentar dor local, eritema e edema progressivos. Há 4 dias iniciou antibioticoterapia com Cefalexina via oral. Há 2 dias apresentou piora do quadro com drenagem espontânea de secreção purulenta. (Figura 1)

 

 

Atendida em nosso serviço, foi realizada punção com coleta de secreção purulenta, sendo encaminhada para cultura e antibiograma. Foi realizada drenagem cirúrgica com debridamento de tecido necrótico e colocação de dreno de Penrose. Iniciada antibioticoterapia endovenosa com Ciprofloxacina e antiinflamatório esteroidal. Paciente evoluiu com melhora do quadro, recebendo alta hospitalar (48 horas) e mantido tratamento via oral com Ciprofloxacina 500mg de 12 em 12 horas, por 10 dias.

No retorno ambulatorial foi observada mínima deformidade cicatricial.

A cultura demonstrou presença de Pseudomonas aeruginosa.

Caso 2

D. H., 15 anos, feminino, branca, com piercing em orelha direita há 9 dias.

Há cinco dias passou a apresentar dor local, edema e abaulamento em borda superior da hélice, mesmo em uso de Cefalexina há 4 dias. (Figura 2)

 

 

Procurou nosso serviço, onde foi realizada punção com coleta de secreção purulenta, a qual foi encaminhada para cultura e antibiograma.

Procedeu-se a drenagem cirúrgica com debridamento de tecido necrótico e colocação de dreno de Penrose. Internada e iniciada antibioticoterapia com Ciprofloxacina 500mg de 12 em 12 horas e antiinflamatório esteroidal. Apresentou boa evolução, recebendo alta hospitalar em 48 horas. Mantido tratamento com Ciprofloxacina via oral por 10 dias.

No acompanhamento ambulatorial nenhuma deformidade cicatricial foi observada.

A cultura demonstrou presença da Pseudomonas aeruginosa.

Caso 3

A. M. L., 14 anos, feminino, branca, atendida em nosso serviço com quadro intenso de edema, eritema, dor local e drenagem de secreção purulenta em orelha esquerda há 7 dias, após colocação de piercing. (Figura 3)

 

 

Foi realizada drenagem cirúrgica (material enviado para cultura e antibiograma). Iniciada antibioticoterapia oral com Ciprofloxacina 500mg de 12 em 12 horas por 10 dias.

Paciente apresentou boa recuperação, não demonstrando deformidades cicatriciais.

A cultura foi positiva para Pseudomonas aeruginosa.

 

DISCUSSÃO

A descrição do primeiro caso de pericondrite por Pseudomonas aeruginosa, após colocação de piercing é recente. Geralmente ocorre nos meses quentes (verão), em que a perspiração corporal é excessiva prejudicando a cicatrização e predispondo à infecção.2,4,10 A ausência de suprimento arterial exuberante no tecido cartilaginoso contribui para a perpetuação do processo infeccioso.2-4,8

As possíveis complicações ocorrem entre dias a semanas (em média: 1 semana).2,4,7

As complicações podem ser: locais (cistos, edema, granuloma, hematoma, deformidades, lipoma e abscesso) ou sistêmicas (choque tóxico, osteomielite, condrite, glomerulonefrite difusa aguda-GNDA e linfadenopatia cervical superficial).1-3,6,9,13

O principal material responsável pela reação de hipersensibilidade ao piercing parece ser o níquel.7,11-13 Ele induz fenômenos alérgicos contribuindo na formação de um complexo níquel-proteína capaz de desencadear uma resposta imunológica.12 Diversos autores apontam o ouro como sendo o segundo material envolvido.2,6,7,12

O diagnóstico é essencialmente clínico, devendo se realizar cultura e antibiograma da secreção. As culturas geralmente revelam bactérias Gram negativas, sendo a Pseudomonas aeruginosa a mais prevalente.

O tratamento clínico compreende a utilização de antimicrobianos (Cefalosporinas – Ceftazidima – Quinolonas) visando à erradicação da Pseudomonas aeruginosa.1,2,4,8,10

A internação hospitalar e a terapêutica endovenosa deve ser considerada nos casos refratários.2,10

A utilização do álcool isopropílico a 70% e a solução iodada na profilaxia demonstraram-se eficazes na assepsia local.2,6,8,10

A realização de ampla incisão cirúrgica com a remoção de tecido necrótico é determinante no aspecto cicatricial, evitando deformidades.2,4,8,10 A seqüela mais freqüente é a deformidade do pavilhão auricular, que apresenta aspecto característico de "couve-flor".1-3,5

A pericondrite por piercing apresenta grande morbidade evoluindo para complicações em até 35% dos pacientes, segundo Simplot e Hoffman.3

Devido ao risco de deformidades estéticas foi instituída terapia antimicrobiana imediata, drenagem cirúrgica e cuidados locais.

 

COMENTÁRIOS FINAIS

A utilização do piercing está relacionada a sérias complicações, principalmente em locais de baixo suprimento vascular (cartilagem auricular). Em nossa experiência e na literatura, o material envolvido na reação de sensibilização é o níquel. O tratamento é baseado na antibioticoterapia oral e endovenosa nos casos não responsivos a terapêutica oral. A drenagem cirúrgica é imperiosa na presença de abscesso pericondral. É importante que o otorrinolaringologista realize precocemente o diagnóstico e o tratamento efetivo a fim de minimizar as deformidades estéticas.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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3. Hanif J et al. High ear piercing and the rising incidence of perichondritis of the pinna. BMJ 2001; 322: 906-7.         [ Links ]

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Endereço para correspondência
Cema Hospital Especializado
A/C Dra. Adriana Gonzaga
Rua do Oratório 1369
Mooca São Paulo Brasil 03117-001
Tel (0xx11) 6602-4000 r.4225
E-mail: adrichaves@bol.com.br

Artigo recebido em 10 de abril de 2003.
Artigo aceito em 13 de maio de 2003.

 

 

Trabalho apresentado no 36º Congresso Brasileiro de Otorrinolaringologia, novembro de 2002, Florianópolis
Hospital Cema-São Paulo-Brasil.

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