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Revista Brasileira de Otorrinolaringologia

Print version ISSN 0034-7299

Rev. Bras. Otorrinolaringol. vol.71 no.1 São Paulo Jan./Feb. 2005

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-72992005000100019 

RELATO DE CASO CASE REPORT

 

Rinolitíase como causa de fístula oronasal

 

 

Gabriel Cesar DibI; Rodrigo P. TangerinaII; Carlos E.C.AbreuIII; Rodrigo de Paula SantosIV; Luiz Carlos GregórioV

IEspecializando do 3º ano em Otorrinolaringologia da Universidade Federal de São Paulo - Escola Paulista de Medicina
IIResidente do 3º ano em Otorrinolaringologia da Universidade Federal de São Paulo - Escola Paulista de Medicina
IIIPós-Graduando nível Mestrado em Otorrinolaringologia da Universidade Federal de São Paulo - Escola Paulista de Medicina
IVMestre e Pós-Graduando nível Doutorado em Otorrinolaringologia da Universidade Federal de São Paulo - Escola Paulista de Medicina
VChefe da Disciplina de Otorrinolaringologia e do Setor de Rinologia da Universidade Federal de São Paulo - Escola Paulista de Medicina

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

A Rinolitíase é uma doença na qual ocorre a deposição de compostos orgânicos e inorgânicos em torno de um núcleo na cavidade nasal, causando rinorréia, obstrução nasal unilateral, odor fétido, epistaxe, podendo haver complicações. Os autores apresentam um caso de rinolitíase com fístula oronasal e revisão de literatura.

Palavras-chave: rinolitíase, rinolito, fístula oronasal, obstrução nasal.


 

 

INTRODUÇÃO

Rinolitíase é uma doença incomum e muitas vezes assintomática, caracterizada pela presença de tumor mineralizado na cavidade nasal, podendo chegar a ter grandes dimensões, distorcendo as estruturas adjacentes1.

A presença de desvio e perfuração de septo nasal, destruição da parede lateral da cavidade nasal, envolvimento do seio maxilar e produção de fístula oroantral ou oronasal são complicações raras.

Apresentamos um caso de rinolitíase cursando com fistula oronasal e revisão da literatura.

 

RELATO DE CASO

Paciente do sexo feminino, 43 anos de idade, branca, solteira, do lar, natural de Jacaúna-CE, procedente de São Paulo-SP, com queixa de obstrução nasal esquerda há 11 anos, foi atendida no ambulatório de Otorrinolaringologia do Hospital São Paulo da Universidade Federal de São Paulo - Escola Paulista de Medicina.

Referia quadro de obstrução nasal de caráter progressivo, somente em fossa nasal esquerda, intermitente, que paulatinamente evoluiu para contínua, com presença de rinorréia purulenta anterior, posterior e cacosmia.

Há seis meses houve o aparecimento de perfuração em palato duro, com drenagem de secreção nasal para cavidade oral e regurgitação de líquidos da mesma para a cavidade nasal esquerda. Negava dor, sangramento nasal, cefaléia, febre, emagrecimento e sintomas alérgicos.

Referia que aos 2 anos de idade introduziu um grão de feijão na narina esquerda, o qual foi "retirado no dia seguinte", permanecendo sem queixas até o início do quadro atual.

À rinoscopia evidenciava-se a presença de secreção purulenta e tumor de superfície irregular, acinzentada, recoberta por tecido de granulação, pétrea ao toque com estilete, não-móvel, obstruindo fossa nasal esquerda, acometendo assoalho, septo nasal, concha inferior e média, com o septo nasal desviado para a direita. Apresentava durante o exame odor extremamente fétido.

À oroscopia apresentava perfuração em região anterior esquerda de palato duro, com 3 x 2 milímetros de diâmetro, bordas irregulares, com drenagem de secreção purulenta para cavidade oral (Figura 1).

 

 

Na tomografia computadorizada de seios paranasais evidenciava-se tumor de densidade óssea ocupando fossa nasal esquerda (Figura 2).

 

 

Não foi possível a realização de nasofibroscopia, pois o tumor não permitia a passagem do aparelho pela fossa nasal esquerda.

Com a hipótese diagnóstica de rinolitíase, a paciente foi submetida à cirurgia endoscópica nasal, sendo retirado rinolito de 4,5 x 2,5 x 1,5 centímetros, enviado para exame anatomopatológico, que evidenciou processo inflamatório crônico com tecido de granulação e presença de bactérias filamentosas sugestivas de Actinomices sp. Foi necessário fragmentar-se o rinolito para que o mesmo fosse retirado, devido à sua forma extremamente irregular e sua extensão (Figura 3).

 

 

Optou-se pelo não-fechamento da fístula oronasal no mesmo ato cirúrgico devido à presença de intenso processo inflamatório local.

 

DISCUSSÃO

A rinolitíase foi primeiramente descrita por Bartholin em 1654, tratando-se de afecção incomum, muitas vezes passando desapercebida pelos pacientes.

A etiologia muitas vezes não é descoberta, podendo ser de origem exógena (como grãos, pedaços de papel, pedras, peças plásticas, sementes, insetos, vidro, madeira e outros) ou endógena, esta decorrente de secreções ressecadas, coágulos, produtos de lise celular, necrose de mucosa e fragmentos de dentes, os quais funcionam como corpos estranhos2-4.

A rota de entrada dos corpos estranhos é geralmente anterior, mas podem mais raramente adentrar a cavidade nasal através da coana devido à tosse ou vômitos5.

O corpo estranho comumente é introduzido no nariz durante a infância, ocupando o assoalho nasal na maioria das vezes6. Sua presença causa reação inflamatória local, levando ao depósito de carbonato e fosfato de cálcio, magnésio, ferro e alumínio, além de substâncias orgânicas como ácido glutâmico e glicina, fazendo com que haja lento e progressivo aumento de tamanho4,7.

Os sintomas geralmente são obstrução nasal unilateral progressiva, rinorréia (usualmente purulenta e fétida), cacosmia e epistaxe. Outros sintomas menos comuns são cefaléia, dor facial e epífora8,9.

Pode haver complicações como perfuração e desvio do septo nasal, fistula oroantral e oronasal, sinusite crônica e destruição da parede nasal lateral.

No exame físico observa-se massa acinzentada ou enegrecida, com consistência pétrea e superfície irregular.

O diagnóstico geralmente é feito pela sintomatologia, história pregressa de introdução de corpo estranho no nariz, exame físico e exames subsidiários. A radiografia simples e a tomografia computadorizada de seios paranasais apóiam o diagnóstico, através da presença de tumor calcificado em fossa nasal, além de auxiliar no planejamento da abordagem cirúrgica10.

O diagnóstico pode ainda ser realizado ocasionalmente durante um exame de rotina ou revelado por exames de imagem efetuados por outros motivos, como, por exemplo, tratamento dentário9.

O diagnóstico diferencial deve levar em consideração tumores benignos (osteomas), seqüestro ósseo e tumores malignos (condrossarcoma, osteossarcoma, entre outros)2,11.

O tratamento consiste na remoção do rinolito e a abordagem cirúrgica escolhida depende da localização e tamanho do mesmo e da presença ou não de complicações, sendo a maioria passível de ser retirada por via endonasal. Abordagens externas podem ser necessárias nos casos de rinolitos gigantes, sendo o endoscópio de grande auxilio em ambas abordagens9.

O tratamento das complicações pode ser realizado no mesmo ou em outro ato cirúrgico8.

No caso de fistulas oronasais observa-se na literatura tendência de se deixar a correção para uma segunda intervenção, que deve ser realizada através da rotação de retalho palatal e nasal, promovendo um fechamento em duas camadas2,11.

 

COMENTÁRIOS FINAIS

A rinolitíase é uma doença incomum, que pode passar desapercebida por vários anos e pode apresentar complicações. O diagnóstico geralmente pode ser feito através da história clínica e exame físico, devendo ser sempre lembrado nos casos de obstrução nasal unilateral. O tratamento consiste na retirada do rinolito e correção das eventuais complicações.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1. Sharma, BG, Sahni RC. Unilateral rhinolithiasis. Australasian Radiol 1981; 25: 132-4.         [ Links ]

2. Aksungur EH, Binokay FB, Biçakçi K, Apaydin D, Oguz M, Aydogan, B. A rhinolith which is mimicking a nasal benign tumor. Eur J Radiol 1999; 31: 53-5.         [ Links ]

3. Ésiás A, Sugar AW. Rhinolith: A usual case and na update. Ann Otol Rhinol Laryngol 1997; 106: 135-8.         [ Links ]

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5. Polson CJ. On rhinolithiasis. J Laryngol Otol 1943; 58: 79-116.         [ Links ]

6. Chaker PG, Schwarz GS, Kole GL. Bilateral rhinilithiasis. Ear Nose Throat J 1978; 57: 50-2.         [ Links ]

7. Harbin W, Weber, AL. Rhinolithiasis. Ann Otol Rhinol Laryngol 1979; 88: 578-9.         [ Links ]

8. Aguayo AMV, Soto IAC. Rhinolithiasis. Presentación de un caso. Rev Med IMSS (Mex) 1996; 34(3): 207-9.         [ Links ]

9. Celikkanat S, Turgut S, Özcan I, Balyan AR, Ozdem C. Rhinolithiasis. Rhinology 1997; 53: 39-40.         [ Links ]

10. Price HI, Batnitzky S, Karlin CA, Norris CW. Giant nasal rhinolith. Am J Neuroradiol 1981; 2: 371-3.         [ Links ]

11. Flood TR. Rhinolith: an unusual case of palatal perforation. British J Oral Maxillof Surg 1988; 26: 486-90.        [ Links ]

 

 

Endereço para correspondência
Dr. Gabriel Cesar Dib
Rua Borges Lagoa 980 ap. 12 Vila Clementino
04038-002 São Paulo SP
Tel (0xx11) 9677-1212
E-mail: gcdib@hotmail.com

Artigo recebido em 07 de abril de 2003. Artigo aceito em 24 de abril de 2003.

 

 

Trabalho realizado na Disciplina de Otorrinolaringologia do Departamento de Otorrinolaringologia e Distúrbios da Comunicação Humana da Unifesp-EPM.

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