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Revista Brasileira de Otorrinolaringologia

Print version ISSN 0034-7299

Rev. Bras. Otorrinolaringol. vol.71 no.4 São Paulo July/Aug. 2005

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-72992005000400013 

ARTIGO ORIGINAL

Correção endoscópica de fístula liquórica rinogênica: experiência de 44 casos

 

 

Bernardo Cunha Araujo FilhoI; Ossamu ButuganII; Francini Grecco de Melo PáduaIII; Richard Louis VoegelsIV

IOtorrinolaringologista (residência no HCFMUSP), Especialista em ORL pela SBORL pós-graduando (doutorado) da Divisão de Clínica Otorrinolaringológica do HCFMUSP
IIProfessor Associado da Disciplina de Otorrinolaringologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo
IIIFellow em cirurgia endoscópica pela disciplina de Otorrinolaringologia da FMUSP; Fellow em cirurgia endoscópica pela Disciplina de Otorrinolaringologia da Universidade de Graz, Áustria; Pós-graduanda da Disciplina de Otorrinolaringologia da FMUSP
IVProfessor Associado da Disciplina de Otorrinolaringologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo

 

 


RESUMO

A comunicação entre o espaço subaracnóideo e a cavidade nasal ou seios frontal, etmoidal e esfenoidal denomina-se fístula liquórica rinogênica. A fístula liquórica rinogênica tem potencial de complicação com importante morbidade e mortalidade. Ela pode apresentar um verdadeiro desafio no diagnóstico, na sua localização e no seu tratamento.
FORMA DE ESTUDO:
estudo de série.
MATERIAL E MÉTODO: Entre 1993 a 2004, 44 pacientes com fístula liquórica rinogênica foram submetidos à abordagem endoscópica no Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo. Os prontuários de todos os pacientes tratados foram revisados.
RESULTADO:
Quarenta e quatro pacientes, 16 mulheres (36%) e 28 homens (64%) foram incluídos no estudo. A idade variou de 02 a 68 anos (média =40,3). A etiologia, o sítio da fístula, o diagnóstico, a técnica empregada e o seguimento pós-operatório foram discutidos.
CONCLUSÃO: Os autores concluíram que a técnica cirúrgica endoscópica endonasal para o tratamento de fístula liquórica rinogênica apresenta elevado sucesso, baixa morbidade e resultados em longo prazo confiáveis.

Palavras-chave: fístula liquórica, cirurgia endoscópica, endoscópio.


 

 

INTRODUÇÃO

A fístula liquórica (FL) foi descrita pela primeira vez por Galen, 200 AC1,2. Saintclair Thompson relatou a primeira série de pacientes com fístula espontânea em 18891. Várias tentativas de corrigir a FL foram realizadas no século XX, porém é atribuído a Dandy, em 1926, o primeiro sucesso cirúrgico na correção de uma fístula, no qual ele suturou a fáscia lata sobre o defeito dural, por trás da parede posterior do seio frontal, via intracraniana2. Em 1964, Vrabec and Hallberg descreveram o uso da cirurgia endonasal na correção cirúrgica de uma FL na lâmina cribriforme2,3.

A fístula liquórica pode apresentar diversos sintomas e/ou sinais, entretanto o mais freqüente é a rinorréia4. Além disso, a presença da FL representa um risco de vida ao paciente, podendo ser ponto de partida para infecções no sistema nervoso central, como as meningites2,4. Desta forma, sua correção deve ser realizada nos casos em que não ocorra uma resolução espontânea. Desde Wigand, em 1981, que utilizou o endoscópio para reparar as fístulas, seu uso tem sido amplamente difundido4.

Atualmente, com os avanços na cirurgia de base de crânio e a introdução da cirurgia endoscópica funcional dos seios paranasais na prática cirúrgica do otorrinolaringologista, têm proporcionado um aumento na incidência de complicações severas, como por exemplo, a fístula liquórica5. Neste contexto, a duroplastia endonasal tem sido usada na correção de um grande número de lesões na dura-máter com grande sucesso e baixo índice de morbidade ao paciente2,6,7.

Neste artigo apresentamos nossa experiência, de 44 casos, na correção de fístula liquórica com o uso do endoscópio.

 

CASUÍSTICA E MÉTODO

Entre 1993 e 2004, 44 pacientes, com diagnóstico de fístula liquórica rinogênica foram submetidos à cirurgia endoscópica endonasal no Hospital das Clinicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Os prontuários de todos os pacientes tratados em nosso serviço foram revisados. Quarenta e quatro pacientes, 16 mulheres (36%) e 28 homens (64%) foram incluídos no estudo. A idade variou de 02 a 68 anos (média: 40,3). Informações a respeito da causa, sítio da lesão dural, técnica de reparo, complicações e seguimento foram colhidas dos prontuários (Tabela 1).

 

 

Em todos os casos, a flurosceína foi aplicada por punção lombar, pouco antes da cirurgia, para facilitar a identificação da lesão dural e verificar o sucesso da correção durante o procedimento (Figura 1). Foi aplicada uma solução de flurosceína a 5%, estéril, na região intratecal por punção lombar. Nós utilizamos 0,1 ml de solução/ 10kg de massa corporal (não excedendo 1ml) diluída em água destilada até 10 ml. As técnicas "onlay" e "underlay" foram os procedimentos utilizados na correção do defeito dural. Todas as fístulas foram reparadas com tecidos conectivos, como os flaps de mucosa livre (Figura 2), flaps pediculados, dura liofilizada, pericárdio bovino ou fáscia lata e foram fixados utilizando cola de fibrina e Surgicel®. Para a verificação do sucesso ou insucesso do procedimento, exames clínicos, controles endoscópicos e quando necessária endoscopia nasal, com uso de flurosceína, foi realizada no pós-operatório tardio.

 

 

 

 

RESULTADOS

As causas de fístula liquórica e os sítios em nossa série estão listados na Tabela 1. O sítio mais freqüente de fístulas foi a área etmóide-cribriforme. A meningoencefalocele foi a causa mais prevalente de fístula.

A técnica "underlay" foi utilizada em 4 casos (9%), enquanto a técnica "onlay" foi realizada em 40 casos (91%) (Figura 3). Nos casos em que utilizamos a técnica "underlay" também foi utilizada a técnica "onlay". Quando a FL era localizada nos seio esfenóide, este era preenchido com Surgicel ®.

 

 

Utilizamos dura liofilizada em 27 casos e usamos flap mucoso em 39 casos. Fáscia lata foi utilizada em 2 casos. Foi realizada derivação lombar externa (DLE) em 35 pacientes.

Os pacientes permaneciam em permaneceram em repouso relativo e decúbito com inclinação máxima de 10 graus por 5 dias em média e a DLE foi mantida em média por 4 dias. Dieta laxativa e orientações contra Vasalva eram oferecidas aos pacientes. Não utilizamos tampões nasais e antibiótico profilático foi introduzido no momento da indução anestésica. Optamos pela utilização de ceftriaxona, cefalosporina de terceira geração com penetração na barreira hemato-encefálica.

O seguimento pós-operatório variou de 2 a 102 meses (média: 39,4 meses).

A primeira correção cirúrgica da FL falhou em 9 casos. Entre estes pacientes, sete foram submetidos à nova abordagem endoscópica, enquanto 2 casos, que apresentavam falha óssea ampla foram submetidos a craniotomia para correção da fístula, pelo serviço de neurocirurgia.

Apenas um paciente desenvolveu meningite no pós-operatório, porém melhorou completamente após tratamento com antibióticos. Um dos pacientes desenvolveu síndrome de hiper-drenagem de líquor, ocasionada pelo desnível da bolsa coletora em relação ao tronco corporal. Todos os outros pacientes evoluíram bem sem complicações maiores.

 

DISCUSSÃO

A comunicação entre o espaço subaracnóideo e a cavidade nasal denomina-se fístula liquórica rinogênica1,8. Esta comunicação pode ocorrer diretamente entre a fossa craniana anterior e a cavidade nasal, ou indiretamente da fossa média e posterior, através da tuba auditiva1. As FL podem ser classificadas em traumáticas e não-traumáticas1,9. Em nossa série, 14 (32%) das FL foram ocasionadas por trauma (6 traumas cirúrgicos e 8 traumas não-cirúrgicos), e o sítio mais acometido foi a lâmina cribriforme e a região do etmóide posterior, onde há um osso mais fino e onde a adesão da dura a este osso é maior1 (Figura 4). A presença de FL espontânea varia bastante na literatura, de 4 a 39%6. Nossos achados foram semelhantes aos de Wax et al. (1997), onde as fístulas espontâneas representaram 29,5% de nossa população. A origem das FL espontâneas não está bem esclarecida, existem alguns estudos que tentam explicar: como ser apenas um defeito congênito; representar uma pequena meningocele que é erodida pelo osso ou até mesmo ser derivada da atrofia focal de filamentos do nervo olfatório na lâmina cribriforme1,6. Durante a avaliação pré-operatória, todos os pacientes foram submetidos à tomografia computadorizada, com cortes axiais e coronais, dos seios paranasais, para localização do sítio de lesão. Não utilizamos a B2-transferrina, que é o teste mais sensível para confirmação da FL5, por não haver disponibilidade, e a ressonância magnética (RM) foi solicitada apenas nos casos suspeitos de meningoencefaloceles, diferentemente ao que foi proposto nos estudos de Nachtigal e Schick, que preconizam RM em todos os casos2,4. A tomocisternografia também não foi utilizada nos casos inconclusivos, optando-se pela realização de infusão de flurosceína intratecal e diagnóstico sob visualização endoscópica. Todos os pacientes apresentavam história de rinorréia com líquido tipo "água de rocha" por uma narina e a confirmação, sob visualização endoscópica, deste líquido drenando do teto nasal era diagnóstico da FL. Atenção deve ser dada ao diagnóstico diferencial com rinite, como sugerido por Ramsden (2000), que relatou o caso de uma mulher de 47 anos, sem história de trauma, com rinorréia bilateral, tratada como rinite por anos e que, na verdade, tratava-se de uma FL espontânea bilateral6.

 

 

A correção da FL pela técnica endonasal já é realizada em larga escala e a literatura mundial mostra que é um método seguro e eficiente4. A localização e visualização fornecida pelo endoscópio permitem ao cirurgião uma maior facilidade em remover o tecido fibrótico e escarificar os bordos da lesão permitindo uma maior aderência do enxerto nesta região, tendo desta forma, um excelente resultado1,10.

Existem várias técnicas endonasais diferentes para correção de FL, e todas tem sido realizadas com grande sucesso2,5. Além disso, há uma variedade de enxertos, autólogos e heterólogos, todos sendo formados por tecidos conectivos. Em nossa casuística, assim como na literatura referida, não observamos falha cirúrgica associada com nenhum tipo especifico de enxerto utilizado. Como observado por Schick (2001) e Hao (1996), a exposição incompleta e o largo defeito ósseo foram os fatores preponderantes nos seus insucessos terapêuticos.

Em nossa série, o sucesso durante a primeira intervenção foi de aproximadamente 80%, semelhante aos resultados de Schick et al. (2001), Burns et al. (1996), Hao et al. (1996) e Ryet et al. (1997). As falhas foram, provavelmente, decorrentes dos grandes defeitos, com herniacão do saco meningoencefálico, localizado na área cribriforme ou no seio esfenóide (Figura 5), ou por causa de fraturas frontobasais extensas. O não-reconhecimento de outro defeito dural, adjacente ao defeito principal, foi a causa do insucesso em um de nossos casos, o que também foi motivo de falha na série de casos de Hao et al. (1997). Nestes casos, devido ao alto débito das fístulas, o posicionamento do enxerto foi prejudicado e a aderência não foi suficiente. Em nossa observação as fístulas pós-operatórias de cirurgia endoscópicas acometeram a lâmina cribriforme e o etmóide posterior, região mais frágil da base do crânio4,10 e onde deve haver especial atenção quando a FL for suspeitada.

 

 

Meningite é a complicação mais temida para os pacientes que apresentam FL, representando um potencial risco de vida11. Estudos demonstram que pode incidir em até 40% dos pacientes. Tivemos apenas 1 caso de meningite, associado ao largo defeito ósseo, dado que corrobora a pequena morbidade da técnica endonasal. Cuidado especial deve ser dado aos pacientes no pós-operatório, visto que em um dos pacientes a não-observação do posicionamento correto da bolsa coletora de líquor foi a responsável pela síndrome de hiper-drenagem, associada a cefaléia importante.

O uso do antibiótico profilático é controverso11. Em todos os pacientes utilizamos antibióticos, porém Nachtigal (1999), que não utilizou profilaxia, não teve nenhum caso de meningite em sua série de 12 pacientes. Choi (1996), em 115 pacientes com FL acidental, observou maior incidência de meningite nos pacientes que utilizaram a profilaxia antibiótica, do que aqueles que não a utilizaram.

 

CONCLUSÃO

Concluímos que a elevada taxa de sucesso e a baixa morbidade da correção de fístula por via endonasal faz desta abordagem a técnica de eleição para o tratamento de fístula liquórica rinogênica. FL associada a largos defeitos, meningoceles e lesões secundárias devem ter atenção especial e modificações na técnica, algumas vezes, serão necessárias para garantir o fechamento contínuo da fístula.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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Artigo recebido em 08 de março de 2005. Artigo aceito em 08 de junho de 2005.