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Revista Brasileira de Otorrinolaringologia

versão impressa ISSN 0034-7299

Rev. Bras. Otorrinolaringol. v.72 n.2 São Paulo mar./abr. 2006

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-72992006000200016 

ARTIGO ORIGINAL

 

Microbiologia dos abscessos peritonsilares

 

 

Flavio Akira SakaeI; Rui ImamuraII; Luiz Ubirajara SennesIII; Bernardo Cunha Araújo FilhoIV; Domingos Hiroshi TsujiV

IMédico Pós-graduando em Otorrinolaringologia do Hospital das Clínicas da USP
IIDoutor em Otorrinolaringologia pelo Hospital das Clínicas da USP, Médico assistente do Hospital das Clínicas da USP
IIIProfessor livre docente do Hospital das Clínicas da USP, Professor associado do Hospital das Clínicas da USP
IVMédico Pós-graduando em Otorrinolaringologia do Hospital das Clínicas da USP
VProfessor livre docente do Hospital das Clínicas da USP

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

OBJETIVO: O objetivo deste estudo é avaliar a microbiologia dos abscessos periamigdalianos.
MATERIAIS E MÉTODOS: Trinta pacientes com diagnóstico de abscesso periamigdaliano, idade média de 24,2 anos, foram submetidos à punção na região periamigdaliana de maior abaulamento com aspiração do material purulento (volume maior que 3mL). O material foi separado para realização das culturas aeróbicas e anaeróbicas.
RESULTADOS: Houve um índice de positividade das culturas de 86,7%. Em 23,3% aspirados houve crescimento apenas de bactérias aeróbicas ou facultativas, 3,3% apenas de bactérias anaeróbicas e por fim em 60% aspirados houve crescimento de bactérias aeróbicas e anaeróbicas. Um total de 69 bactérias foi isolado (34 aeróbios e 35 anaeróbios). Os aeróbios predominantes foram Streptococcus sp, sendo o Streptococcus pyogenes em 23% dos casos. Os anaeróbios predominantes foram Prevotella sp e Peptostreptococcus sp. Pacientes receberam antibiótico prévio em 63% dos casos. Neste grupo foram isolados 1,8 bactérias por aspirado, menor número que nos paciente que não utilizaram antibiótico (3,0 bactérias por aspirado). Não houve diferença significativa no tipo de bactéria isolada nestes dois grupos.
CONCLUSÃO: Os abscessos periamigdalianos apresentam na maioria dos casos infecções polimicrobianas, sendo os organismos anaeróbicos agentes importantes. O número de agentes isolados é maior nos pacientes que não utilizaram antibioticoterapia prévia, mas o uso de antimicrobiano não interferiu no tipo de bactéria isolada.

Palavras-chave: microbiologia, abscesso peritonsilar.


 

 

INTRODUÇÃO

O abscesso peritonsilar caracteriza-se pela presença de uma coleção de secreção purulenta entre a cápsula fibrosa da tonsila palatina e o músculo constritor superior da faringe1,2. O tratamento adequado desta infecção tem por finalidade evitar complicações graves que incluem sua extensão aos espaços profundos do pescoço e sua ruptura com aspiração de secreções para as vias aéreas inferiores. O seu manejo varia na literatura de aspiração e/ou drenagem da coleção purulenta à tonsilectomia2,3.

A antibioticoterapia é uma parte fundamental no tratamento, porém a droga de primeira escolha a ser usada ainda é um assunto em discussão. As penicilinas eram consideradas o antibiótico de primeira escolha devido a sua ação sobre o Streptoccocus pyogenes, organismo tradicionalmente associado a esta infecção1. No entanto, com o avanço das técnicas microbiológicas de cultura, os organismos anaeróbicos passaram a ser isolados e considerados importantes nessa doença. O objetivo deste estudo é avaliar a microbiologia dos abscessos peritonsilares atendidos em um Pronto Socorro de Otorrinolaringologia.

 

MATERIAIS E MÉTODOS

Este estudo foi aprovado pela Comissão de Ética para Análise de Projetos de Pesquisa - CAPPesq da Diretoria Clínica do Hospital das Clínicas e da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.

Foi realizado um estudo prospectivo de 30 pacientes com diagnóstico de abscesso peritonsilar que foram seqüencialmente atendidos no Pronto Socorro da Divisão de Clínica Otorrinolaringológica do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo no período de junho a novembro de 2001. A idade dos pacientes variou entre 9 a 69 anos, com média de 24,2 anos. Houve predomínio do sexo feminino (66,7%). Dados quanto ao uso de antibiótico prévio foram obtidos pela anamnese realizada no Pronto Socorro.

Todos os pacientes foram submetidos à punção com gelco estéril número 14 na região peritonsilar de maior abaulamento, do lado com suspeita de abscesso, com aspiração do material purulento (volume maior que 3mL). Confirmada a presença de pus, realizou-se incisão da mucosa e dissecção com pinça tipo kelly para ampliação da drenagem da coleção. Foram incluídos no estudo 30 aspirados.

Após a punção, o material foi imediatamente colocado em tubo seco estéril a vácuo e enviado para o laboratório de microbiologia num período máximo de 30 minutos. Neste local, o material foi separado para realização das culturas aeróbicas e anaeróbicas. As culturas aeróbicas foram realizadas utilizando placas de ágar sangue, ágar chocolate e MacConkey incubadas numa atmosfera de 4% de CO2 a 37°C por 48 horas. As culturas anaeróbicas foram incubadas em placas em atmosfera anaeróbica a 37°C por 3 a 7 dias. Os organismos foram identificados pelos métodos convencionais.

Os aspirados foram analisados quanto ao índice de positividade das culturas, número total de bactérias isoladas por aspirado, separando segundo o uso ou não de antibiótico previamente à punção. Verificamos também, a proporção de aeróbios e anaeróbios isolados com a especificação de cada agente etiológico encontrado.

Separamos os microorganismos em três grandes grupos: Streptococcus sp, outros aeróbios e anaeróbios e comparamos suas freqüências de isolamento segundo o uso ou não de antibiótico previamente à punção.

 

RESULTADOS

Em 19 (63%) episódios de abscesso peritonsilar, os pacientes haviam feito uso de antibiótico antes de chegarem ao nosso serviço de emergência, sendo que todos tinham utilizado derivados de penicilina.

Dos 30 aspirados, em 26 houve crescimento de pelo menos um microorganismo, resultando num índice de positividade das culturas de 86,7%. Em 7 (23,3%) aspirados houve crescimento apenas de bactérias aeróbicas ou facultativas, em 1 (3,3%) apenas de bactérias anaeróbicas e por fim em 18 (60%) aspirados houve crescimento de bactérias aeróbicas e anaeróbicas.

Uma única bactéria foi isolada em 3 (10%) aspirados, com crescimento de Streptococcus pyogenes em dois aspirados e Veillonella parvula em um. Nos outros 23 (76,7%) aspirados houve crescimento de mais de uma bactéria.

Um total de 69 bactérias foi isolado, sendo, em média, 2,3 bactérias por aspirado (1,1 de aeróbios e 1,2 de anaeróbios). Nos pacientes que fizeram uso de antibiótico prévio à punção encontramos 1,8 bactérias por aspirado (0,7 de aeróbios e 1,1 de anaeróbios) e nos que não utilizaram, 3,0 bactérias por aspirado (1,7 de aeróbios e 1,3 de anaeróbios). Nos 4 aspirados em que as culturas foram negativas, os pacientes haviam feito uso de antibiótico previamente à punção.

Foram isoladas 34 bactérias aeróbicas ou facultativas (Quadro 1). Os aeróbios predominantes foram Streptococcus sp (26 isolados, incluindo 7 Streptococcus pyogenes) e Staphylococcus sp (4 isolados, sendo 3 Staphylococcus aureus). Foram isoladas 35 bactérias anaeróbicas como mostra o Quadro 2. Os anaeróbios predominantes foram Prevotella sp (14 isolados) e Peptostreptococcus sp (12 isolados).

 

 

 

 

Não houve diferenças estatísticas no tipo de bactéria isolada segundo os grupos definidos (Streptococcus sp, outros aeróbios e anaeróbios) com relação ao uso ou não de antibiótico previamente à punção (Quadro 3).

 

 

DISCUSSÃO

Em nosso estudo o índice de positividade das culturas foi de 86,7%, resultado semelhante encontrado por Mitchelmore1 (85%) e Jokipii4 (88,1%). Este alto índice de positividade sugere que a metodologia empregada foi adequada para favorecer o crescimento bacteriano, incluindo bactérias de difícil isolamento como os anaeróbios. Alguns fatores como o volume de secreção purulenta coletado maior que 3mL, utilização de tubos a vácuo e a rapidez no transporte podem ter favorecido o crescimento destes organismos.

O Streptococcus pyogenes, patógeno comumente implicado nos casos de tonsilite aguda, era considerado importante nos abscessos peritonsilares, pela suposta relação entre as duas doenças4. No entanto, na maioria dos casos de abscesso desse estudo este agente não estava presente, ocorrendo em apenas 7 (23,3%) amostras. Este resultado foi semelhante ao encontrado por Snow5 (23%), Flodstrom6 (24%) e Jokipii4 (23,8%).

Por outro lado, organismos anaeróbicos foram identificados isoladamente ou junto com outros organismos aeróbicos ou facultativos presentes na maioria de nossos pacientes (63,3% dos aspirados), confirmando a importância destes agentes no abscesso peritonsilar. Alguns autores descreveram freqüências de isolamento de anaeróbios ainda maiores, com taxas variando de 66,7% a 94%1,4,7.

Estes achados microbiológicos podem sugerir que os abscessos peritonsilares e as tonsilites agudas sejam processos evolutivos diferentes de uma mesma doença ou que talvez a patogênese do abscesso peritonsilar não tenha relação com uma tonsilite aguda, mas com outras afecções como a infecção das glândulas periamigdalianas de Weber conforme sugerido por Passy8.

Na maioria dos casos de abscesso peritonsilar, a infecção é polimicrobiana4,9. No nosso estudo, encontramos2,3 bactérias por aspirado, mas outros autores encontraram resultados ainda maiores como Jokipii4 (3,2 organismos por amostra), Jousimies-Somer10 (4,4) e Brook7 (3,1).

Em relação aos agentes etiológicos dos abscessos peritonsilares, a bactéria aeróbica mais comumente encontrada foi o Streptococcus sp, o que está de acordo com a literatura. Enquanto que entre os anaeróbios o Fusobacterium sp e Peptostreptococcus sp são os mais isolados4,10-12, porém neste este estudo os mais freqüentes foram a Prevotella sp e o Peptostreptococcus sp. Brooks et al.7 encontraram Bacterioides sp como o anaeróbio mais freqüente nos aspirados. Em nosso estudo não foi encontrado nenhum Bacterioides, que, aliás, constitui um agente presente na flora normal da cavidade oral e orofaringe, sendo que seu isolamento em cultura pode representar contaminação da amostra.

As variações nos resultados das culturas de diferentes estudos, tanto em freqüência de isolamento de anaeróbios como em número de organismos presentes por aspirado, pode ser explicado por alguns fatores. Primeiro, segundo Hall13, os resultados diferem-se refletindo as variações geográficas e das técnicas microbiológicas utilizadas. Além disso, sabemos que a superfície da amígdala é coberta por bactérias pertencentes à flora normal, sendo os mais comuns os Streptococcus, Nesseria dos aeróbicos e Peptostreptococcus, Veilonella, Actinomyces e Fusobacterium dos anaeróbicos, na proporção de 1 aeróbio para 100 anaeróbio14. Durante a aspiração, existe a possibilidade de contaminação por organismos da flora normal, logo os resultados das culturas devem ser interpretados com cautela quando esses organismos (aeróbicos e anaeróbicos) são isolados. E por fim, para a cultura dos organismos anaeróbicos é essencial um transporte e processamento adequado dos aspirados, ressaltando o meio utilizado e período de incubação, para um sucesso no isolamento dos agentes1.

Neste estudo, foi isolada maior quantidade de bactérias (3,0 por aspirado) nos pacientes que não usaram antibiótico previamente a punção, porém sem diferença significativa entre os organismos encontrados, comparando com os pacientes que usaram antibiótico antes da punção.

O tratamento dos abscessos peritonsilares é ainda controverso. A antibioticoterapia é realizada empiricamente, antes que qualquer cultura tenha sido obtida4. Geralmente, se o paciente está clinicamente melhorando, não se altera o antibiótico com medo de alterar a resposta ao tratamento. Cherukuri et al.15, em seu estudo, concluiu que o tratamento dos abscessos peritonsilares não requer realização da cultura do material porque nenhum tratamento foi modificado de acordo com o resultado das culturas. Embora 74% dos pacientes estivessem usando clindamicina como tratamento inicial.

A escolha da droga a ser utilizada nos casos de abscessos peritonsilares depende dos agentes etiológicos relacionados7, acreditamos com o nosso estudo que o mais adequado para o tratamento desta afecção seria utilizar uma antibioticoterapia ampla contra organismos aeróbios e anaeróbios. Além disso, a imediata incisão e drenagem é o tratamento de escolha, pois complicações graves decorrentes de abscessos peritonsilares são observados em pronto-socorros.

 

CONCLUSÃO

Os abscessos peritonsilares apresentam na maioria dos casos infecções polimicrobianas, sendo os organismos anaeróbicos agentes importantes. O S. pyogenes, germe frequentemente associado com estas infecções, foi isolado em apenas 23,3% das amostras. O número de agentes isolados é maior nos pacientes que não utilizaram antibioticoterapia prévia, mas o uso de antimicrobiano não interferiu no tipo de bactéria isolada.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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Endereço para correspondência:
Dr. Flavio Akira Sakae
Av. Dr. Enéas de Carvalho Aguiar 255 6°andar sala 6021
São Paulo SP 05403-000
Tel: (0xx11) 3069-6288 Fax: (0xx11) 270-0299
E-mail: sakaeflavio@yahoo.com.br

Este artigo foi submetido no SGP (Sistema de Gestão de Publicações) da RBORL em 18 de julho de 2005.
Artigo aceito em 16 de março de 2006.

 

 

Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.

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