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Revista Brasileira de Otorrinolaringologia

Print version ISSN 0034-7299

Rev. Bras. Otorrinolaringol. vol.72 no.6 São Paulo Nov./Dec. 2006

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-72992006000600012 

ARTIGO ORIGINAL

 

Adaptação para língua portuguesa do questionário Tinnitus Handicap Inventory: validade e reprodutibilidade

 

 

Letícia Petersen SchmidtI; Vanessa Niemiec TeixeiraII; Celso Dall’IgnaIII; Daniel DallagnolIV; Mariana Magnus SmithV

IMestranda do Programa de Pós-Graduação em Cirurgia da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Fellow em Otologia do Serviço de Otorrinolaringologia do Hospital de Clínicas de Porto Alegre, médica
IIMédica Residente do Serviço de Otorrinolaringologia do Hospital de Clínicas de Porto Alegre
IIIDoutor em Medicina. Professor Adjunto de Otorrinolaringologia da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Chefe do Serviço de Otorrinolaringologia do Hospital de Clínicas de Porto Alegre
IVAcadêmico de Medicina da Universidade Federal do Rio Grande do Sul
VMestranda do Programa de Pós Graduação em Ciências Médicas da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Fellow em Laringologia do Serviço de Otorrinolaringologia do Hospital de Clínicas de Porto Alegre, médica

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

O zumbido traz grande repercussões a qualidade de vida dos pacientes, e temos dificuldade em quantificá-los.
OBJETIVO: Determinar a reprodutibilidade e validade da tradução para língua portuguesa do Tinnitus Handicap Inventory (THI), um questionário auto-aplicável que avalia a repercussão do zumbido na qualidade de vida dos pacientes.
MATERIAL E MÉTODOS: Neste estudo do tipo transversal prospectivo foi traduzido e adaptado culturalmente o questionário THI para a população brasileira de acordo com metodologia internacionalmente aceita e, então, respondido por 180 pacientes com zumbido. A avaliação de reprodutibilidade foi feita através do cálculo do alfa de Cronbach, enquanto que a validade foi testada através da comparação do THI com escala de depressão de Beck, calculando o coeficiente de correlação de Pearson.
RESULTADOS: A tradução do THI apresenta boa validade interna, comparável com a demonstrada na versão original. Correlação alta foi observada entre o THI e a escala de Beck.
CONCLUSÃO: A versão para a língua portuguesa é um instrumento válido e reprodutível para ser utilizado para quantificar o impacto do zumbido na qualidade de vida dos pacientes brasileiros que nos procuram com esse sintoma.

Palavras-chave: thi, tradução português, zumbido.


 

 

INTRODUÇÃO

Tinnitus Handicap Inventory (THI) é um questionário que foi desenvolvido por Newman et al.1 em 1996, composto por 27 perguntas, com um escore que varia de 0 a 100 e quanto maior o escore, maior é a repercussão do zumbido na qualidade de vida do paciente. É uma medida rápida, de fácil aplicação e interpretação. Vem sendo usado de forma ampla no contexto clínico para avaliação dos pacientes com zumbido, para a quantificação do incômodo relacionado a este sintoma e para avaliação de respostas a tratamentos propostos. Como a maior parte dos questionários, foi formulado na língua inglesa, direcionado para a população que fala esse idioma. Portanto, para que possa ser utilizado em nosso país, devem seguir-se normas preestabelecidas na literatura para sua tradução e posteriormente suas propriedades de medida devem ser demonstradas num contexto cultural específico, como foi o caso de sua validação para o espanhol e o dinamarquês2,3.

A escolha desse instrumento está fundamentada na necessidade de termos traduzido para a língua portuguesa um questionário bem desenhado que avalie de forma rápida e concreta o incômodo que o zumbido acarreta na vida das pessoas, cuja reprodutibilidade e validade já tivessem sido demonstrados.

Esse trabalho tem por objetivo determinar a reprodutibilidade e validade da tradução portuguesa do THI.

 

MATERIAL E MÉTODOS

Foram avaliados 180 pacientes com queixa de zumbido associado ou não a perda auditiva em acompanhamento no ambulatório de otorrinolaringologia do Hospital de Clínicas de Porto Alegre no período de 2001 a 2004. A amostra foi composta por indivíduos de ambos os gêneros, sendo 64% mulheres. A média de idade foi de 55,85 anos, variando de 19 a 77 anos. Apenas 10% da nossa amostra apresentava limiares auditivos dentro da normalidade.

A utilização do questionário para a sua validação para a língua portuguesa foi previamente autorizada por Craig Newman, autor do original em língua inglesa.

Foi desenvolvido um protocolo para tradução baseado em trabalhos da literatura que abordam metodologia de tradução de questionário para outros idiomas, enfatizando a tradução conceitual e não estritamente literária (Figura 1).

 

 

Este projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética do HCPA (protocolo 06-027).

Foi realizada uma avaliação do percentual de respostas "sim", "algumas vezes" e "não", e então calculada a reprodutibilidade através do "alfa de Cronbach".

A validade do THI foi avaliada através da relação do seu escore, através do coeficiente de Pearson, com uma escala já amplamente utilizada: a escala de Beck (Beck depression inventory)4.

 

RESULTADOS

O coeficiente do "alfa de Cronbach" foi de 0.929 com uma correlação total dos itens variando de r= 0.924 a r= 0.931, demonstrando sua reprodutibilidade. O coeficiente de correlação entre o THI total e a escala de Beck foi de r= 0,68 (p<0,01), confirmando sua validade (Figura 2).

 

 

DISCUSSÃO

A percepção do zumbido e seu impacto na vida dos pacientes é de extrema importância. Até o momento, o instrumento para sua avaliação era encontrado apenas em inglês, espanhol e dinamarquês. Atualmente, concorda-se que uma tradução cuidadosa não é suficiente para a validação de um instrumento de avaliação, pois os termos lingüísticos utilizados devem ser adequados às condições sociais e culturais da população a ser testada. É necessário, também, que suas medidas psicométricas sejam testadas num contexto cultural específico, já que cada sociedade possui suas próprias crenças, atitudes, hábitos sociais, de forma a orientar seu comportamento e suas atitudes, refletindo na cultura de um país. Quando é proposta uma tradução de um questionário, este deve ter uma linguagem simples e clara sem perder a equivalência com relação aos conceitos culturais. É o que realizamos através dessa tradução. A coerência interna da versão portuguesa, através deste estudo, apresentou-se de forma forte.

A tradução para a língua portuguesa do THI e suas adequações às condições socioeconômicas e culturais de nossa população, assim como a demonstração de sua reprodutibilidade e validade tornam esse instrumento um parâmetro adicional útil que pode ser utilizado não só para uma avaliação inicial do paciente com zumbido, mas também no controle das respostas aos diferentes tratamentos.

 

CONCLUSÃO

A versão em português do THI é um instrumento válido e reprodutível para ser utilizado na avaliação dos pacientes brasileiros que nos procuram queixando-se de zumbido. Ela nos permite quantificar o impacto desse sintoma na qualidade de vida desses pacientes.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1. Newman CW, Jacobson GP, Spitzer JB. Development of the Tinnitus handicap Inventory. Arch Otolaryngol Head Neck Surg 1996;122(2):143-8.         [ Links ]

2. Herraiz C, Hernandez Calvin J, Plaza G, Tapia MC, de los Santos G. Disability evaluation in patients with tinnitus. Acta Otorrinolaringol Esp 200;52(6):534-8.         [ Links ]

3. Zachariae R, Mirz F, Johansen LV, Andersen SE, Bjerring P, Pedersen CB. Reliability and validity of a Danish adaptation of the Tinnitus Handicap Inventory. Scand Audiol 2000;29(1):37-43.         [ Links ]

4. Gorenstein C, Andrade L. Validation of a Portuguese version of the Beck Depression Inventory and the State-Trait Anxiety Inventory in Brazilian subjects. Braz J Med Biol Res 1996;29(4):453-7.        [ Links ]

 

 

Endereço para correspondência:
Leticia Petersen Schmidt Rosito
Rua Ramiro Barcellos 2350 zona 19 90035-903 Bairro Rio Branco
Porto Alegre RS
Tel.(0xx051) 2101.8314
E-mail: letischmidt@hotmail.com

Este artigo foi submetido no SGP (Sistema de Gestão de Publicações) da RBORL em 13 de setembro de 2005. cod 1425.
Artigo aceito em 25 de agosto de 2006.

 

 

Serviço de Otorrinolaringologia do Hospital de Clínicas de Porto Alegre Universidade Federal do Rio Grande do Sul.