SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.73 issue2The interference of voice change on structural vocal cords lesionsOccupational hearing loss in teachers: a probable diagnosis author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

Services on Demand

Article

Indicators

Related links

Share


Revista Brasileira de Otorrinolaringologia

Print version ISSN 0034-7299

Rev. Bras. Otorrinolaringol. vol.73 no.2 São Paulo Mar./Apr. 2007

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-72992007000200014 

ARTIGO ORIGINAL

 

Limiares de audibilidade em altas freqüências em crianças com história de otite média secretora bilateral

 

 

Mônica de Sá FerreiraI; Katia de AlmeidaII; Ciríaco Cristóvão Tavares AtherinoIII

IMestrado em Fonoaudiologia. Universidade Veiga de Almeida. Fonoaudióloga. Professora do Curso de Pós-Graduação em Audiologia da Universidade Estácio de Sá
IIDoutorado em Distúrbios da Comunicação Humana - Fonoaudiologia. Universidade Federal de São Paulo. Professora-Adjunto do Curso de Fonoaudiologia da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo e do Mestrado Profissionalizante em Fonoaudiologia da Universidade Veiga de Almeida
IIIDoutorado em Otorrinolaringologia. Universidade de São Paulo. Professor-Adjunto Doutor da Disciplina de Otorrinolaringologia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro e do Mestrado Profissionalizante de Fonoaudiologia da Universidade Veiga de Almeida. Chefe do Serviço de Otorrinolaringologia do Hospital Geral de Ipanema, Ministério da Saúde

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

Existem achados na literatura de limiares elevados em altas freqüências em crianças com história de otite média secretora.
OBJETIVO: Caracterizar os limiares de audibilidade nas altas freqüências em crianças normo-ouvintes com história de múltiplos episódios de otite média secretora bilateral.
MATERIAL E MÉTODO: Constituiu-se uma amostra de 31 crianças de ambos os sexos, sendo 14 com até 3 episódios de otite média secretora bilateral (Grupo 1) e 17 com quatro ou mais episódios (Grupo 2). Foi realizada a audiometria tonal por via aérea para as freqüências de 9.000 a 18.000Hz.
FORMA DE ESTUDO: Transversal prospectivo.
RESULTADOS: Não houve diferença entre os limiares de audibilidade das orelhas direitas e esquerdas dos indivíduos de ambos os grupos para todas as freqüências, porém, houve entre os limiares de audibilidade das orelhas direitas e esquerdas do Grupo 2 em relação ao Grupo 1 para todas as freqüências avaliadas.
CONCLUSÕES: 1- Houve uma elevação dos limiares de audibilidade com o aumento das freqüências apresentadas. 2- A audiometria de altas freqüências mostrou-se capaz de separar, em grupos, indivíduos com história de otite média secretora denotando que quatro episódios de otite média já são suficientes para determinar diferenças estatisticamente significantes nos limiares de audibilidade das altas freqüências.

Palavras-chave: audiometria, criança, otite média secretora.


 

 

INTRODUÇÃO

A deficiência auditiva, caracterizada pela perda total ou parcial da capacidade de ouvir, pode se manifestar em diferentes graus de severidade. Assim como a deficiência visual, a deficiência auditiva pode afetar o desenvolvimento pleno do indivíduo bem como interferir na aprendizagem de seus portadores.

Reconhece-se uma criança com dificuldades de audição quando ela não responde aos chamados à distância, solicita sempre a repetição do que foi dito, aumenta o volume do rádio ou da televisão. É desatenta, troca letras na fala ou na escrita e apresenta dificuldades no aprendizado escolar.1

A otite média é um dos problemas de saúde mais freqüentes na infância. O período mais curto de aleitamento materno, o ingresso precoce em creches e a convivência com grande número de crianças na mesma creche/escola são alguns dos fatores que aumentaram a incidência dessa doença.2,3 Outras causas, segundo Hirata4, seriam as condições de moradia com poucos cômodos e várias pessoas dormindo no mesmo local, hábito de chupar dedo ou chupeta e tabagismo passivo.

A audiometria tonal liminar é o método tradicional para avaliar a sensibilidade auditiva para a faixa de freqüências de 250 a 8.000Hz. Entretanto, há casos em que as freqüências convencionais não são sensíveis a alterações de orelha média, tais como na otite média crônica, dificultando o seu diagnóstico mais preciso. Em algumas situações, verificamos um audiograma com perfil descendente sugerindo uma queda também nas freqüências mais altas.

Apesar de alguns estudos35,36 relatarem achados que determinam uma perda auditiva condutiva, outros têm demonstrado comprometimento na espira basal da cóclea como conseqüência da otite média crônica, caracterizando, dessa forma, a existência de uma perda auditiva neurossensorial. Em muitos desses trabalhos, o instrumento de teste utilizado foi a audiometria de altas freqüências, o que foi de grande valia para o diagnóstico, já que este exame avalia, precocemente, o estado da cóclea para freqüências entre 9.000 e 20.000Hz, limite máximo de percepção humana.

Os estudos referentes à aplicação e uso da audiometria de altas freqüências começaram por volta de 1960, quando, até então, pensava-se que avaliar as freqüências na faixa de 300 a 8.000Hz seria o suficiente para a previsão da audição nas freqüências mais altas. Desde então, muitos autores têm demonstrado a importância deste exame no monitoramento da ototoxicidade e da perda auditiva induzida por níveis elevados de pressão sonora, além de relacionarem múltiplos episódios de otite média secretora com a elevação dos limiares de audibilidade nas freqüências mais altas (Dieroff & Schulmann5, Mair, Fjermedal & Laukli6, Sorri & Rantakallio7, Rahko et al.8, Mutlu et al.9 e Margolis, Saly & Hunter10).

Desse modo, o objetivo desta pesquisa foi estudar, comparativamente, os limiares de audibilidade de altas freqüências em crianças, face ao número de episódios de otite média secretora bilateral.

 

REVISÃO DA LITERATURA

Huang, Dulon & Schacht11 e Van Cauwenberge, Watelet & Dhooge12 demonstraram, por meio de estudos histopatológicos, que, em casos de otite média, há difusão de toxinas bacterianas e citocinas da orelha média para a cóclea através da membrana da janela redonda, e que, segundo Winter et al.13 e Tuomanen14 provocariam lesões ultra-estruturais na orelha interna, como a ruptura das membranas cocleares.

A perda auditiva neurossensorial em altas freqüências muitas vezes coexiste com a otite média secretora ou crônica.15,9 Para analisar melhor esse fenômeno, Huang, Dulon & Schacht11 criaram modelos experimentais de infecção da orelha média, permitindo o estudo eletrofisiológico e anatomopatológico da cóclea. Esses autores afirmaram que perdas auditivas neurossensoriais, permanentes ou não, poderiam ser o resultado de um processo inflamatório da orelha média. Eles observaram lesão nas células ciliadas externas na base da cóclea em casos de otite média, bem como evidências de uma permeabilidade da membrana da janela redonda para substâncias tóxicas da orelha média.

Na literatura, existem estudos que demonstram a relação entre as doenças de orelha média aos atrasos e déficits de linguagem, como também às habilidades a ela relacionadas.

Segundo Petinou et al.16, crianças com perdas auditivas na faixa etária de 1 a 3 anos têm maior dificuldade para aquisição da linguagem, menor percepção dos sons da fala que contenham consoantes surdas ou fricativas como /s/ e /z/, e incorrem freqüentemente em erros fonéticos na pronúncia de /l/ e /r/.17 A causa mais comum para isso, segundo os autores, é existência de uma perda auditiva condutiva leve - ainda que unilateral - provocada pelas otites médias. De acordo com Paradise18, durante essas infecções, a criança recebe estímulos sonoros distorcidos, o que explicariam os erros fonéticos.

Balbani & Montovani19 concluíram, em seu artigo de revisão, que as principais conseqüências das otites médias e da perda auditiva sobre a linguagem nessas crianças são os erros fonéticos e de articulação da fala, bem como a dificuldade para compreensão da leitura.

Alguns autores relataram que déficits e atrasos na linguagem ou nas habilidades relacionadas a ela são indícios de dificuldades de leitura subseqüentes e problemas com a linguagem escrita, pois o desenvolvimento da linguagem oral propicia a aquisição da linguagem escrita.20

Os estudos encontrados até o presente momento, em indivíduos audiologicamente normais, mostram evidências da excelente sensibilidade auditiva para sons de alta freqüência em crianças.21-23

Pedalini & Sanchez23 estudaram os limiares de audibilidade nas altas freqüências em 158 indivíduos com idades entre quatro e 60 anos, sendo 87 do sexo feminino e 71 do sexo masculino, com o objetivo de determinar um valor médio para limiares encontrados em indivíduos otologicamente normais. Fizeram parte desse estudo sujeitos com otoscopia normal e limiares à audiometria convencional, até 25dB NA em ambas as orelhas. Foram divididos em 6 grupos por faixa etária: o primeiro, dos quatro aos 10 anos; o segundo, dos 11 aos 20 anos; o terceiro, dos 21 aos 30 anos; o quarto, dos 31 aos 40 anos; o quinto, dos 41 aos 50 anos e o sexto, dos 51 aos 60 anos. Para a obtenção dos limiares nas freqüências de 10.000, 12.500, 14.000 e 16.000Hz, foi utilizado o audiômetro Madsen, modelo ORBITER OB922 com fones Sennheiser HDA 200, que fornece resultados em dB NA. Verificaram que os limiares mantiveram-se até 25dB nos três primeiro grupos (dos quatro aos 30 anos). Na quarta década, notou-se queda, apenas, na freqüência de 16.000Hz. Na quinta, em 12.500, 14.000 e 16.000Hz, nesta ordem. Finalmente, na sexta década, verificaram queda em todas as freqüências testadas. Os autores concluíram que os limiares de normalidade adotados para a audiometria tonal não podem ser os mesmos adotados para as altas freqüências.

Dentre as dificuldades encontradas na realização da audiometria de altas freqüências, o posicionamento dos fones torna-se um fator importante a ser considerado devido ao aparecimento de ressonâncias e ondas estacionárias em freqüências acima de 15.000Hz, o que pode provocar grande variabilidade individual, pois a metade do comprimento de onda já é o suficiente para produzir tais ressonâncias nas dimensões transversais ao meato acústico externo. Variações de 15 a 20dB nos limiares obtidos não são raras nesses casos24-26.

Estudos27-32,23,33,34 tentaram padronizar os limiares de audibilidade das freqüências acima de 8.000Hz, correlacionando seus achados com a faixa etária e sexo, buscando estabelecer valores normativos. A maioria deles concorda com o fato de que há interferência de fatores como a idade e freqüência na determinação da acuidade auditiva. A grande variabilidade individual das dimensões e configurações do meato acústico externo sempre foi um problema para a calibração dos fones utilizados na audiometria de altas freqüências. Atualmente, devido ao aperfeiçoamento dos fones e ao conhecimento pormenorizado dos conceitos mecanoacústicos, pode-se utilizar este exame como rotina na prática audiológica.

Hunter et al.37 associaram a perda auditiva em altas freqüências a múltiplos episódios de otite média secretora, após seu tratamento. Concluíram que dois ou mais episódios documentados foram o suficiente para determinarem limiares de audibilidade em altas freqüências elevados em comparação ao grupo controle.

Laitila et al.38, em um estudo semelhante, também encontraram diferenças nos limiares em crianças com história de otite média, sendo essa diferença maior em crianças com 8 ou mais episódios documentados, nas altas freqüências.

Apesar de existirem dúvidas quanto ao caráter irreversível da lesão coclear nas otites médias, Mutlu et al.9 mostraram que algumas crianças com perda auditiva neurossensorial em altas freqüências, associada à otite média secretora, apresentavam reversão dessa perda auditiva após o tratamento clínico ou cirúrgico.

 

MATERIAL E MÉTODO

Para cumprir os preceitos éticos em pesquisa, o presente protocolo foi submetido e aprovado pelo Comitê de Ética da Universidade Veiga de Almeida sob o número 13/04. Foi solicitado aos pais ou responsável o consentimento para participação da criança na pesquisa. Todos os que concordaram assinaram um termo de consentimento livre e esclarecido.

O presente estudo foi constituído de uma amostra de 31 crianças, na faixa etária de 7 aos 12 anos, de ambos os sexos, encaminhadas por médicos otorrinolaringologistas e atendidas em uma clínica particular, na cidade de Petrópolis, RJ, no período de março de 2004 a fevereiro de 2005. Do total, 14 crianças (6 meninos e 8 meninas) apresentaram até três episódios de otite média secretora bilateral (Grupo 1) e 17 crianças (9 meninos e 8 meninas) apresentaram quatro ou mais episódios de otite média secretora bilateral (Grupo 2).

Foram excluídas da pesquisa as crianças que apresentaram à audiometria convencional limiares superiores a 15dB NA40 e/ou à anamnese, história familiar de surdez congênita; com histórico de doenças sistêmicas, tais como a diabetes, hipertensão, cardiopatias, esclerose múltipla e insuficiência renal; que tenham sido submetidas a mais de 10 dias ininterruptos de drogas ototóxicas, assim como exposição prolongada a níveis elevados de pressão sonora ou trauma acústico.

Todas as crianças mantidas na amostra apresentaram perfis timpanométricos tipo A41 em ambas as orelhas.

Foi utilizado o audiômetro GSI 61 da Grason Stadler, calibrado segundo padrões internacionais, que permite a realização de audiogramas nas freqüências de 250 a 20.000Hz. Para a audiometria convencional (250 a 8.000Hz) foram utilizados fones Telephonics TDH 50P e, para as altas freqüências (9.000 a 18.000Hz), fones Sennheiser HDA-200. Ambos os exames foram realizados em uma cabina acusticamente tratada, segundo os padrões da norma ISO 8253-1.50

A bateria de testes foi dividida em 2 dias, para evitar que o cansaço e o aprendizado interferissem nos resultados. No primeiro dia realizou-se a anamnese; a meatoscopia; a obtenção dos limiares tonais por via aérea para as freqüências de 250 a 8.000Hz; as medidas da imitância acústica; e, um treino para a pesquisa dos limiares em altas freqüências (Sahyeb, Costa Filho & Alvarenga34) e, no segundo dia, foram pesquisados os limiares tonais nas altas freqüências. Para minimizar variabilidades que pudessem interferir nos resultados da audiometria de altas freqüências era realizado o reposicionamento dos fones audiométricos e confirmados os limiares tonais obtidos.

Para a análise estatística foi utilizado o teste t-student bi-caudal pareado para verificação da diferença entre as médias dos limiares de audibilidade (dB NA), entre orelhas do mesmo grupo, após o teste de normalidade da amostra (Kolmogorov-Smirnov). A comparação entre os limiares de audibilidade (dB NA) da mesma orelha de ambos os grupos foi realizada com o teste t-student bi-caudal para amostras de variâncias diferentes.

A tendência dos limiares de audibilidade ao longo das freqüências pesquisadas foi calculada por regressão linear (ajuste de reta), para quantificação do perfil audiométrico.

Todos os testes estatísticos foram calculados utilizando os programas Statistical Package for the Social Sciences (SPSS) e Microsoft® Office Excel 2003. O valor de significância estatística (p) adotado foi de 0,05.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Os limiares de audibilidade obtidos nas crianças que compuseram o Grupo 1 não ultrapassaram 25dB NA em nenhuma das freqüências pesquisadas na faixa de 9.000Hz a 18.000Hz (Tabelas 1 e 2).

 

 

 

 

Isto está em consonância com a literatura consultada, conforme demonstrado por Northern et al.27, Mutlu et al.9, Azevedo & Iorio32, Margolis, Saly & Hunter10 e Pedalini & Sanchez23.

Pedalini & Sanchez23, em sua amostra de 158 indivíduos com idades entre quatro e 60 anos, verificaram que os limiares de audibilidade mantiveram-se até os 25dBNA nos grupos etários mais jovens, com idades entre quatro a 30 anos.

Não houve diferenças estatisticamente significantes entre os limiares de audibilidade obtidos nas orelhas direitas e esquerdas dos indivíduos do Grupo 1 para todas as freqüências avaliadas (Tabela 3).

 

 

Tabela 3. Limiares de audibilidade (dB NA) para as freqüências de 9.000 a 18.000Hz, orelhas direitas e esquerdas, do Grupo 1 (valores mostrados como média ± desvio padrão [mediana]).

No que se refere ao Grupo 2 (Tabelas 4 e 5) foi observado que os limiares de audibilidade das freqüências de 9.000Hz a 18.000Hz encontrados ultrapassaram 25dBNA nas freqüências acima de 14.000Hz, sendo caracterizados como limiares mais elevados do que aqueles verificados no Grupo 1. Achados semelhantes a esses se encontram nos estudos de Lopponen et al.36, Sorri, Maki-Torkko & Alho39 e Laitila et al.38

 

 

 

 

Os limiares de audibilidade nas orelhas direitas e esquerdas do Grupo 2 não apresentaram diferenças estatisticamente significantes (Tabela 6). Esse fato se explica, talvez, pela história bilateral de otite média secretora, demonstrando que, quando há uma doença otológica pregressa, os limiares tendem a ser mais elevados e sem diferenças interaurais6.

 

 

A ausência de diferenças interaurais estatisticamente significantes também foi verificada também por outros estudos como de Frank & Dreisbach45, Hallmo, Borchgrevink & Mair43 e Mattews et al.44

Este resultado não apareceu em todas as pesquisas. Apesar de Sayeb et al.34 terem encontrado melhor sensibilidade auditiva à esquerda em todas as freqüências estudadas, não houve diferença estatisticamente significante com o método estatístico escolhido (ANOVA), enquanto Lopponen et al.36, Hunter et al.37, Margolis, Saly & Hunter10 encontraram diferenças estatisticamente significantes. Já Zeigelboim, Martinho & Marques46 encontraram diferenças estatisticamente significantes apenas na freqüência de 11.200Hz e no sexo feminino.

Os altos valores de desvio padrão encontrados se justificam pela metodologia empregada na avaliação audiométrica. Os passos de intensidade de 5dB não permitem uma avaliação mais precisa dos limiares de audibilidade. Segundo Vanden47, passos de 1dB fornecem uma maior sensibilidade. Dessa forma, sugere-se que pesquisas sejam realizadas utilizando incrementos menores de intensidade (1dB) para a padronização dos limiares de audibilidade das altas freqüências. Na rotina clínica torna-se difícil adotar essa metodologia face ao tempo gasto para execução do teste e por ser a audiometria um exame subjetivo, necessitando da atenção e colaboração do paciente.

Com relação ao perfil dos limiares de audibilidade, foi constatado que houve uma elevação dos limiares quanto mais alta a freqüência avaliada, nos Grupos 1 e 2. Esses achados são similares aos apontados por Zislis21; Green et al.42; Frank28; Hallmo, Borchgrevink & Mair43; Fouquet30; Mattews et al.44; Sakamoto et al.31; Azevedo & Iorio32; Pedalini & Sanchez23; Carvallo et al.33 e Sahyeb, Costa Filho & Alvarenga.34

Margolis, Saly & Hunter10 também encontraram perfis audiométricos descendentes, como os resultados obtidos no presente estudo. Outros estudos corroboram tais achados em casos de história de otite média secretora.6,7,36,39,37,48

Houve diferença estatisticamente significante entre os limiares de audibilidade entre as orelhas direitas e esquerdas das crianças do Grupo 2 em relação ao Grupo 1 para todas as freqüências avaliadas (9.000, 10.000, 11.200, 12.500, 14.000, 16.000 e 18.000Hz) (Tabelas 7 e 8) (Gráficos 1 e 2). Na literatura consultada5,6,49,39, vários autores encontraram diferenças estatisticamente significantes nos limiares de audibilidade em altas freqüências entre os grupos controle e experimental, sendo este último composto por crianças com, pelo menos, quatro episódios documentados de otite média secretora na infância.

 

 

 

 

 

 

 

 

Estes achados talvez se justifiquem pela difusão de toxinas bacterianas e citocinas da orelha média para a cóclea através da membrana da janela redonda11,12, provocando lesões ultra-estruturais na orelha interna, como a ruptura das membranas cocleares13,14, ocasionando uma elevação dos limiares de audibilidade em freqüências mais elevadas.

Outro fato que deve ser ressaltado é que essa doença otológica costuma se manifestar em sociedades menos favorecidas economicamente e pode-se supor que os distúrbios de aprendizagem que ocorrem nesta classe social podem ser, também, em função de prováveis déficits de linguagem e em habilidades auditivas que podem ocorrer face à privação sensorial e aos danos cocleares.

Face aos dados apresentados neste trabalho, pediatras, otorrinolaringologistas, fonoaudiólogos e educadores devem estar alertas no acompanhamento de crianças que apresentem múltiplos episódios de otites médias. É importante questionar os pais sobre o progresso da criança no que se refere à aquisição e desenvolvimento de linguagem e, em um segundo momento, indagar aos professores sobre o desempenho escolar do aluno. Possivelmente, muitas dessas crianças necessitarão de acompanhamento pedagógico e fonoaudiológico simultaneamente ao tratamento com antibióticos e cirurgias da orelha média.

 

CONCLUSÕES

A partir da análise estatística dos resultados obtidos na presente pesquisa que visou estudar, comparativamente, os limiares de audibilidade de altas freqüências em crianças face ao número de episódios de otite média secretora, pode-se chegar às seguintes conclusões:

1 - Não houve diferença estatisticamente significante entre os limiares de audibilidade entre as orelhas direitas e esquerdas em nenhum dos dois grupos estudados para todas as freqüências avaliadas (9.000, 10.000, 11.200, 12.500, 14.000, 16.000 e 18.000Hz).

2 - Houve diferença estatisticamente significante entre os limiares de audibilidade entre as orelhas direitas e esquerdas dos indivíduos do Grupo 2 em relação ao Grupo 1 para todas as freqüências avaliadas (9.000, 10.000, 11.200, 12.500, 14.000, 16.000 e 18.000Hz).

- O Grupo 2 apresentou coeficientes angulares maiores comparados ao Grupo 1, sugerindo uma elevação dos limiares de audibilidade com o aumento das freqüências apresentadas.

- A audiometria de altas freqüências mostrou-se capaz de separar, em grupos, indivíduos com história de otite média secretora denotando que quatro episódios de otite média já são suficientes para determinar diferenças estatisticamente significantes nos limiares de audibilidade das altas freqüências.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1. Northern JL, Downs MP. Audição na infância. 5ª ed. São Paulo: Manole; 2005.        [ Links ]

2. Northern JL, Downs MP. Audição em crianças. 3ª ed. São Paulo: Manole; 1989.        [ Links ]

3. Hubig DOC, Costa Filho O. A Otite média: considerações em relação à população de creche. In: Lichtig I & Carvallo RMM. Audição - abordagens atuais. São Paulo: Pró-Fono; 1997. p. 89-119.        [ Links ]

4. Hirata CHW. Detecção dos níveis séricos de imunoglobulinas IgA, IgM, IgG e de subclasses de IgG e de avaliação de possíveis fatores de risco em crianças com otite média recorrente [dissertação]. São Paulo: UNIFESP; 1996.        [ Links ]

5. Dieroff HG, Schulmann G. High frequency hearing following otitis media with effusion in childhood. Scand Audiol 1986;26:83-4.        [ Links ]

6. Mair IW, Fjermedal O, Laukli E. Air conduction thresholds and secretory otitis media: a conventional and extra-high-frequency audiometric comparison. Ann Otol Rhinol Laryngol 1989;98(10):767-71.        [ Links ]

7. Sorri M, Rantakallio P. Secretory otitis media and hearing loss. Acta Otolaryngol 1989;457:94-9.        [ Links ]

8. Rahko T, Laitila P, Sipila M, Manninen M, Karma P. Hearing and acute otitis media in 13-year-old children. Acta Otolaryngol 1995;115(2):190-2.        [ Links ]

9. Mutlu C, Odabasi AO, Metin K, Basak S, Erpek G. Sensorineural hearing loss associated with otitis media with effusion in children. Int J Pediatr Otorhinolaryngol 1998;46:179-84.        [ Links ]

10. Margolis RH, Saly GL, Hunter LL. High-frequency hearing loss and wideband middle ear impedance in children with otitis media histories. Ear and Hearing 2000;21(3):206-11.        [ Links ]

11. Huang M, Dulon D, Schacht J. Outer hair cells as potential targets of inflammatory mediators. Ann Otol Rhinol Laryngol 1990;148:35-8.        [ Links ]

12. Van Cauwenberge P; Watelet JB & Dhooge I. Uncommon and unusual complications of otitis media with effusion. Int J Pediatr Otorhinolaryngol 1999;49(Supl 1):119-25.        [ Links ]

13. Winter AJ, Comis SD, Osborne MP, Tarlow MJ, Andrew PW, Hill J et al. A role for pneumolysin but not neuraminidase in the hearing loss and cochlear damage induced by experimental pneumococcal meningitis in guinea pigs. Infect Immun 1997;65:4411-8.        [ Links ]

14. Tuomanen EI. Pathogenesis of pneumococcal inflammation: otitis media. Vaccine 2000; 19(Suppl1):38-40.        [ Links ]

15. Paparella MM, Morizono R, Le CT, Mancini F, Sipila P, Choo YB et al. Sensorioneural hearing loss in otitis media. Ann Otol Rhinol Laryngol 1984;93:623:29.        [ Links ]

16. Petinou KC, Schwartz RG, Gravel JS, Raphael LJ. A preliminary account of phonological and morphophonological perception in young children with and without otitis media. Int J Lang Commun Disord 2001;36:21-42.        [ Links ]

17. Borg E, Risberg A, Mcallister B, Undemar BM, Edquist G, Reinholdson AC, et al. Language development in hearing-impaired children. Establishment of a reference material for a Language Test for Hearing-Impaired Children, LATHIC. Int J Pediatr Otorhinolaryngol 2002;65:15-26.        [ Links ]

18. Paradise JL. Otitis media and child development: should we worry? Pediatr Infect Dis J 1998;17:1076-83.        [ Links ]

19. Balbani APS & Montovani JC. Impacto das otites médias na aquisição da linguagem em crianças. J Pediatr 2003;79(5):391-6.        [ Links ]

20. Bergamo OS, Scrochio EF, Avila CRB. Caracterização das alterações encontradas em histórias do desenvolvimento de escolares com queixas de dificuldade do aprendizado. Pró-Fono 1999;11:90-3.        [ Links ]

21. Zislis T. Relation of high frequency threshold to age and sex. J Aud Res 1966;6:189-98.        [ Links ]

22. Trehub SE, Schneider BA, Morrongiello BA, Thorpe LA. Developmental changes in high frequency sensitivity. Audiology 1989;28:241-9.        [ Links ]

23. Pedalini MEB & Sanchez TG. Média dos limiares tonais na audiometria de altas freqüências em indivíduos normais de 4 a 60 anos. Pró-Fono 2000;12(2):17-20.        [ Links ]

24. Tonndorf J, Kurman B. High frequency audiometry. Ann Otol Rhinol Laryngol 1984;93 (6 PT1):576-82.        [ Links ]

25. Stevens KN, Berkovitz R, Kidd G JR, Green DM. Calibration of ear canals for audiometry at high frequencies. J Acoust Soc Am 1987;81:470-84.        [ Links ]

26. Stelmachowicz PG, Beauchaine KA, Kalberer A, Kelly WJ, Jesteadt W. High frequency audiometry: test reability and procedural considerations. J Acoust Soc Am 1989;85:879-87.        [ Links ]

27. Northern JL, Downs MP, Rudmose W, Glorig A, Fletcher JL. Recommended high-frequency audiometric threshold levels (800 - 18.000Hz). J Acoustic Soc Am 1972;52:585-95.        [ Links ]

28. Frank T. High-frequency hearing thresholds in young adults using commercially available audiometer. Ear and hear 1990;11(6):450-4.        [ Links ]

29. Burén M, Solem BS, Laukli E. Threshold of hearing (125 - 20 KHz). J Audiol 1992;26:23-31.        [ Links ]

30. Fouquet ML. Limiares de audibilidade nas freqüências ultra-altas de 9 a 18 KHz em adultos de 18 a 30 anos [dissertação]. São Paulo: UNIFESP; 1997.        [ Links ]

31. Sakamoto M, Sugasawa M, Kaga K, Kamio T. Average Thresholds in the 8 to 20 kHz Range in Young Adults. Scand Audiol 1998;27:169-72.        [ Links ]

32. Azevedo LL, Iorio MCM. Estudo dos limiares de audibilidade nas altas freqüências em indivíduos de 12 a 15 anos com audição normal. Acta AWHO 1999;18(2):78-85.        [ Links ]

33. Carvallo RMM, Burguetti FAR, Peloggia AG. Limiares auditivos para altas freqüências em adultos sem queixa auditiva. Acta AWHO 2002;21(1).        [ Links ]

34. Sahyeb DR, Costa Filho AO, Alvarenga KF. Audiometria de alta freqüência: estudo com indivíduos audiologicamente normais. Rev Bras Otorrinolaringol 2003;69(1):93-9.        [ Links ]

35. Mcdermott JC, Fausti SA, Frey RH. Effects of middle-ear disease and cleft palate on high-frequency hearing in children. Audiology 1986;25(3):136-48.        [ Links ]

36. Lopponen H, Sorri M, Pekkala R, Penna J. Secretory otitis media and high-frequency hearing loss. Acta Otolaryngol Suppl 1992;493:99-107.        [ Links ]

37. Hunter LL, Margolis RH, Rykken JR, Le CT, Daly KA, Giebink GS. High frequency hearing loss associated with otitis media. Ear Hear 1996;17(1):1-11.        [ Links ]

38. Laitila P, Karma P, Sipila M, Manninen M, Rakho T. Extended high frequency hearing and history of acute otitis media in 14-year-old children in Finland. Acta Otolaryngol 1997;529:27-9.        [ Links ]

39. Sorri M, Maki-Torkko E, Alho OP. Otitis media and long-term follow-up of hearing. Acta Otolaryngol 1995;115(2):193-5.        [ Links ]

40. Northern JL, Downs MP. Hearing in Children. Baltimore: Williams & Wilkins; 1991.        [ Links ]

41. Jerger J. Clinical experience with impedance audiometry. Arch Otolaryngol 1970;92:311-24.        [ Links ]

42. Green DM, Kidd G Jr, Stevens KN. High-frequency audiometric assessment of a young adult population. J Acoustic Soc Am 1987;81(2):485-94.        [ Links ]

43. Hallmo P, Borchgrevink HM, Mair IWS. Extended high-frequency thresholds in noise-induced hearing loss. Scand Audiol 1995;24:47-52.        [ Links ]

44. Matthews LJ, Lee FS, Mills JH, Dubno JR. Extended high-frequency thresholds in older adults. J Speech Hear Res 1997;40:208-14.        [ Links ]

45. Frank T, Dreisbach LE. Repeatibility of high-frequency thresholds. Ear Hear 1991;12:294-5.        [ Links ]

46. Zeigelboim BS, Martinho T, Marques JM. Perfil audiológico nas altas freqüências em indivíduos de 30 a 40 anos com audição normal. Arquivos da Fundação Otorrinolaringologia 2005;9(1):18-25.        [ Links ]

47. Vanden Abeele D, Van De Heyning PH, Creten W, Graff A, Marquet JF. Psychoacoustical tuning curves. Normative data for clinical use. Scand Audiol 1992;21(1):3-8.        [ Links ]

48. De Beer BA, Graamans K, Snik AF, Ingels K, Zielhuis GA. Hearing deficits in young adults who had a history of otitis media in childhood: use of personal stereos had no effect on hearing. J Pediatrics 2003;111(4):304-8.        [ Links ]

49. Margolis RH, Hunter LL, Rykken JR, Giebink GS. Effects of otitis media on extended high-frequency hearing in children. Ann Otol Rhinol Laryngol 1993;102(1 Pt 1):1-5.        [ Links ]

50. International Organization For Standardization. Acoustics. Audiometric test methods. Basic pure tone air and bone conduction threshold audiometry (ISO 8253-1). Geneva: International Organization for Standardization; 1989.         [ Links ]

 

 

Endereço para correspondência:
Rua Ibituruna 108 Mestrado Tijuca
Rio de Janeiro RJ 20271-020.

Este artigo foi submetido no SGP (Sistema de Gestão de Publicações) da RBORL em 2 de março de 2006. cod. 1752.
Artigo aceito em 9 de maio de 2006.

 

 

Universidade Veiga de Almeida.