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Revista Brasileira de Otorrinolaringologia

Print version ISSN 0034-7299

Rev. Bras. Otorrinolaringol. vol.73 no.3 São Paulo May/June 2007

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-72992007000300011 

ARTIGO ORIGINAL

 

Estudo da audição de crianças de gestantes expostas ao ruído ocupacional: avaliação por emissões otoacústicas - produto de distorção

 

 

Eduardo Bezerra RochaI; Marisa Frasson de AzevedoII; João Aragão Ximenes FilhoIII

IEspecialista em ORL pela SBORL, Mestre em Distúrbios da Comunicação Humana pela UNIFESP-EPM/ UNIFOR, médico e professor
IIProfessora Doutora em Distúrbios da Comunicação Humana - UNIFESP, Professora Adjunta e vice-chefe da Disciplina dos Distúrbios da Audição do Depto. Fonoaudiologia da EPM
IIIDoutor em Otorrinolaringologia pela FMUSP, Professor Convidado da Pós-graduação em Cirurgia da FMUFC

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Detectar precocemente uma possível perda auditiva em crianças de mulheres expostas ao ruído ocupacional durante o período de gestação e verificar se há diferença nos resultados das amplitudes de resposta das emissões otoacústicas - produto de distorção - entre as crianças de mães expostas ao ruído ocupacional e as crianças de mães não-expostas ao ruído ocupacional.
MÉTODOS: Crianças de mulheres expostas ao ruído ocupacional durante a gestação e crianças de mulheres não-expostas foram avaliadas através das emissões otoacústicas - produto de distorção -, usando o equipamento GSI 60 DPOEA SYSTEM e empregando a razão de F2/F1 igual a 1,2 e a média geométrica de 2F1-F2. As intensidades das freqüências primárias mantiveram-se fixas, com valores de L1=65 dBNPS e L2=55 dBNPS para F1 e F2, respectivamente. Utilizou-se o teste t-Student em amostras emparelhadas e amostras independentes e o teste não-paramétrico de Wilcoxon.
RESULTADOS:
Não houve diferença nos valores das medidas das médias das amplitudes de resposta do produto de distorção entre os grupos controle e estudo. Também não houve diferença estatisticamente significante entre os sexos masculino e feminino nas amplitudes de respostas para os grupos controle e estudo, nem entre as orelhas direita e esquerda de cada grupo.
CONCLUSÃO: Não foi observado prejuízo auditivo nas crianças de mães expostas ao ruído ocupacional durante a gestação em comparação as crianças de mães não-expostas. Não houve diferença entre as orelhas direita e esquerda e entre os sexos masculino e feminino de cada grupo.

Palavras-chave: audição, perda auditiva provocada por ruído, ruído ocupacional/prevenção, controle.


 

 

INTRODUÇÃO

Apesar de temporária, a poluição sonora é responsável por grandes malefícios. Tal poluição, tratada como ruído, pode ser social e ocupacional. O ruído social é aquele provocado pelas discotecas, carros barulhentos, bandas de rock, geralmente de curta duração e que, se isolados e esporádicos, dificilmente ocasionariam problemas auditivos ao homem1.

Em linhas gerais, todos aqueles que trabalham expostos a ruídos superiores a 85dBNPS e com exposição prolongada devem ser monitorizados. A monitorização auditiva pode ser feita através da audiometria tonal liminar, que determina a menor intensidade sonora capaz de provocar a sensação auditiva em cada freqüência testada, utilizando-se como estímulo o tom puro, sendo esta a mais empregada nas indústrias.

Outro método é a emissão otoacústica evocada2-9 que é obtida em resposta a uma estimulação sonora prévia, que pode ser com tons puros - por produtos de distorção de freqüências preestabelecidas e que analisa a atividade coclear em freqüências específicas10-13 ou por um estímulo sonoro muito breve "clique" - transitórias e que representam uma resposta global da cóclea11. é um método objetivo, rápido, não invasivo e de fácil aplicação14-17, inclusive para triagem de crianças em berçário de alto risco18.

Até pouco tempo, a preocupação em avaliar a audição de expostos ao ruído limitava-se o sexo masculino, mas com a necessidade de contribuir financeiramente no lar, as mulheres, hoje, representam quase 50% da mão-de-obra e ocupam uma razoável fatia na indústria mundial e, na sua grande maioria, no período reprodutivo19. Sabe-se que existe uma maior susceptibilidade individual, porém não existem evidências clínicas que o homem ou a mulher seja mais susceptível ao ruído.

Sabe-se que, quando uma onda sonora passa do meio aéreo (orelhas externa e média) para o meio líquido (líquidos labirínticos), 99,9% dessa energia é perdida. Sabe-se, também, que o feto humano está protegido dentro do útero materno e os tecidos e líquidos que envolvem esse inofensivo ser podem, assim, atenuar o ruído ambiental20,21 e, conforme citação de Niemtzow22 (1982), essa atenuação será mais efetiva quanto maior for a freqüência. Conclui-se que as freqüências mais graves sofrem menos atenuação, daí serem as mais lesivas à cóclea fetal em formação.

Muitos são os trabalhos alusivos ao efeito do ruído ocupacional sobre o feto21-26, mas poucos abordam seu efeito sobre a audição desse feto27. Questiona-se que o ruído possa ocasionar baixo peso ao recém-nascido28,29 ou acarretar alterações no sistema imunológico30. Foi pensando no possível efeito devastador do ruído ocupacional sobre esse futuro comunicador, que se julgou pertinente investir nessa pesquisa, buscando-se estabelecer as relações de causa/efeito com relação a essas mulheres e seu ambiente de trabalho.

No presente trabalho, o público-alvo é, pois, as crianças de mulheres que, durante a gestação, foram expostas ao ruído ocupacional. Como a audiometria tonal limiar é um método impossível de ser usado em neonatos por exigir resposta comportamental por parte do examinado, as emissões otoacústicas têm as características ideais para ser o exame de escolha3,12.

Os objetivos deste estudo foram:

1. Detectar precocemente uma possível perda auditiva em crianças de mulheres expostas ao ruído ocupacional durante o período gestacional;

2. Verificar se há diferença nos resultados das amplitudes de resposta das emissões otoacústicas - produto de distorção - entre as crianças de mães expostas ao ruído ocupacional e as crianças de mães não-expostas ao ruído ocupacional.

 

CASUÍSTICA E MÉTODOS

Casuística

O trabalho foi desenvolvido no setor de fonoaudiologia do Núcleo de Atenção Médica Integrada (NAMI), da Universidade de Fortaleza (UNIFOR), no período de agosto de 2002 a junho de 2003, sendo realizado exame otorrinolaringológico, seguido do registro das emissões otoacústicas - produto de distorção (EOAPD), após esclarecimento do responsável e obtido anuência. O estudo foi aprovado pelo comitê de ética de duas universidades, a Universidade de Fortaleza e Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP-EPM) com CEP número 0330/03.

O objeto em estudo são crianças com idade de 0 a 6 meses, de ambos os sexos e sem nenhum fator de risco para perda auditiva, segundo recomendações estabelecidas pelo grupo pré-liminar de triagem auditiva neonatal, formado pela Sociedade Brasileira de Otorrinolaringologia em maio de 2000. Excluiu-se do estudo crianças que apresentaram algum indicador de risco para perda auditiva.

As mulheres (mães) pertencem a um mesmo grupo socioeconômico (renda familiar equivalente a 1-2 salários mínimos). Também foram excluídas aquelas mulheres que trabalharam expostas a produtos químicos e que eram tabagistas durante a gestação26.

Um questionário foi respondido através de entrevista com o próprio pesquisador sobre as condições da gestação e do parto, considerando-se o peso e estatura ao nascimento, antecedentes da mãe, dos familiares e da criança objeto de estudo, além do tipo de atividade profissional da mãe durante a gestação. Dessa forma, todas as variáveis acima foram eliminadas e as crianças selecionadas.

Todas as crianças foram submetidas a uma avaliação otorrinolaringológica no sentido de investigar malformações crânio-faciais e afastar comprometimento das orelhas externa e/ou média, através de uma otoscopia. Aquelas crianças com problemas de orelha externa e/ou média foram tratadas clinicamente e depois reavaliadas. Quando estavam dentro da normalidade, eram liberadas para o estudo.

O estudo foi realizado em 80 crianças que foram distribuídas em dois grupos: grupo estudo e grupo controle. O primeiro foi constituído por 35 crianças com idade de 0 a 6 meses de ambos os sexos, nascidas de mulheres expostas ao ruído ocupacional superior a 80dBNPS (faixa de intensidade maior que 80dBNPS e inferior a 90dBNPS), em jornada de trabalho de 8 horas diárias e perfazendo 40 horas semanais durante a gestação, e cuja gravidez e partos transcorreram dentro da normalidade. As crianças aqui alocadas são de mulheres trabalhadoras de uma fábrica de beneficiamento de castanha, localizada na cidade de Cascavel, no estado do Ceará, e distante da cidade de Fortaleza 60 Km. Todas essas mulheres usaram equipamento de proteção individual (EPI) tipo plugue de inserção durante a jornada de trabalho e ficaram trabalhando expostas ao ruído ocupacional até, no mínimo, o 8º mês de gestação, sendo que a maioria saiu de licença-maternidade 15 dias antes do parto (Tabela 1).

 

 

O grupo controle foi formado por 45 crianças, também de ambos os sexos, e com a mesma faixa etária do grupo estudo, nascidas de mulheres sem exposição ao ruído ocupacional durante a gestação e oriundas da comunidade do Dendê e que são acompanhadas no NAMI e sem os mesmos fatores de risco para a perda auditiva das crianças do grupo estudo, mantendo-se o mesmo procedimento de avaliação (Tabela 1).

Método

Todas as mulheres de ambos os grupos receberam assistência pré-natal e conceberam as crianças em maternidade da rede pública de saúde sob assistência de um profissional da saúde. Os dados sobre as condições do parto e da criança no período perinatal foram colhidos do cartão de vacina ou do registro de nascimento concedido pela maternidade assistente.

Avaliação Otoscópica

Os equipamentos utilizados para a avaliação otorrinolaringológica foram um fotóforo da marca Kole e um otoscópio da marca Heine. Essa avaliação se faz necessária para checar a integridade das orelhas externa e média, cuja função normal é imprescindível para a captação adequada das emissões otoacústicas.

Emissões Otoacústicas Evocadas - Produto de Distorção

As crianças que estavam aptas após o exame otorrinolaringológico foram submetidas à análise auditiva por meio das emissões otoacústicas evocadas - produto de distorção.

Para o registro das EOAPD foi utilizado um medidor e analisador das EOAPD da marca GSI 60 DPOEA SYSTEM. Os registros foram feitos a partir da geração de 2 tons puros, F1 e F2, onde F2 sempre foi maior que F1 e chamados de freqüências primárias. F2 variou de 593 Hz a 6031 Hz e sua média geométrica (GM) obedeceu ao padrão 2F1-F2 e na razão de F2/F1 igual a 1,2. As intensidades de estímulo das primárias F1 e F2 (L1 para F1 e L2 para F2) permaneceram fixas em 65dBNPS e 55dBNPS, respectivamente, ou seja, L1 era maior que L2 em 10dBNPS. As medidas das EOAPD foram feitas das baixas para as altas freqüências.

No aparelho medidor era acoplada uma sonda eletrônica (acoustic probe) composta por 2 receptores (micro alto-falantes) responsáveis pela emissão dos sinais acústicos (F1 e F2) e 1 microfone em tamanho miniatura de alta sensibilidade com a finalidade de captar as EOAPD, sendo todo esse conjunto de transdutores montados em uma pequena sonda similar à utilizada na imitanciometria e que era acoplada ao meato auditivo externo através de uma oliva de borracha de tamanho adequado para cada criança testada.

Sua calibração era feita todas as vezes que o aparelho era ligado, utilizando-se um simulador de cavidade de 2cm3, onde era efetuada uma verificação da correta vedação e funcionamento dos referidos transdutores e os ajustes necessários para a calibração eram feitos pelo próprio equipamento.

Foram registradas e analisadas as amplitudes dos produtos de distorção e do ruído de fundo em relação às freqüências sonoras, conforme mostrado na Tabela 2.

 

 

As EOAPD foram consideradas presentes sempre que o valor da amplitude do produto de distorção era positivo, com diferença igual ou superior a 6dBNPS em relação ao ruído de fundo, ou seja, a diferença sinal/ruído igual ou superior a 6dBNPS. Amplitudes negativas com diferença inferior a 6dBNPS foram consideradas ausentes. Procurou-se manter sempre os valores de ruído inferiores a zero (negativos). Casos em que o ruído estava excessivo, encobrindo a resposta, não foram interpretados.

O exame foi realizado em uma cabina e sala acusticamente tratadas, nas crianças selecionadas que, depois de alimentadas, encontravam-se em estado de sonolência ou em sono leve e no colo da mãe ou do responsável.

Análise estatística

A metodologia estatística utilizada para a análise dos dados foi baseada no teste t-Student para comparação de médias em: (i) amostras emparelhadas (dependentes) e (ii) amostras independentes.

O nível de significância adotado na conclusão dos testes foi de 0,05 em todas as tabelas e está apresentado o nível descritivo dos testes (p-valor), ou seja, o nível de significância mínimo a ser adotado para se rejeitar a hipótese H0. Os dados foram analisados através do software estatístico SPSS versão 8.0.

 

RESULTADOS

Estudo das amplitudes do produto de distorção e do ruído de fundo em função da variável lado da orelha nos grupos controle e estudo

São apresentados os resultados do estudo das amplitudes das emissões otoacústicas evocadas - produto de distorção - e do ruído de fundo das crianças de mulheres não-expostas ao ruído ocupacional durante a gestação (grupo controle), analisando suas amplitudes de resposta para cada orelha e, em seguida, comparando-as entre si (tabelas 3, 4 e 5). Foi aplicado o teste t-Student para amostras emparelhadas (significativo para p < 0,05) e não houve diferença estatisticamente significante entre as orelhas direita e esquerda para as médias das amplitudes do produto de distorção e do ruído de fundo no grupo controle. No grupo estudo, a orelha direita apresentou diferença estatisticamente significante na freqüência de 1500 Hz em relação à orelha esquerda, ou seja, a orelha direita apresentou melhor média de amplitude do produto de distorção do que a orelha esquerda. Em relação ao ruído de fundo, não houve diferença estatisticamente significante entre as orelhas direita e esquerda do grupo estudo (tabelas 6, 7 e 8).

Estudo das amplitudes do produto de distorção e do ruído de fundo em função da variável sexo para os grupos controle e estudo

Analisou-se as medidas da média com desvio-padrão das emissões otoacústicas evocadas - produto de distorção - e do ruído de fundo em relação ao sexo masculino e sexo feminino por cada grupo estudado - controle e estudo (tabelas 9, 10, 11 e 12).

As crianças do sexo masculino apresentaram amplitudes média de resposta do produto de distorção melhores que o sexo feminino nas freqüências F2 de 1187 KHz e 1500 KHz para o grupo controle, enquanto as crianças do grupo estudo do sexo feminino apresentaram amplitude média de resposta do produto de distorção melhor que do sexo masculino na freqüência F2 de 2406 KHz. Não houve diferença estatisticamente significante para o ruído de fundo em relação ao sexo para os dois grupos.

Estudo comparativo das amplitudes do produto de distorção e do ruído de fundo entre os grupos controle e estudo

Consideraram-se as orelhas direita e esquerda juntas para grupo avaliado (tabelas 13 e 14). Não houve diferença estatisticamente significante entre os dois grupos em relação às médias das amplitudes de resposta do produto de distorção. Tanto para o grupo controle como para o grupo estudo, o ruído de fundo apresentou valores positivos para as freqüências baixas e valores negativos para as freqüências (F2) a partir de 1500Hz para o grupo controle e de 1187Hz para o grupo estudo.

 

DISCUSSÃO

A escolha das emissões otoacústicas evocadas - produto de distorção - foi baseada em sua grande aplicabilidade clínica:

1) em avaliar a função das células ciliadas externas da cóclea11;

2) ser freqüência-específica;

3) recomendada para uso em bebês e

4) que podem detectar mudanças no limiar auditivo, mesmo antes da audiometria tonal convencional9.

Para se obter uma melhor amplitude de resposta e uma menor interferência do ruído de fundo, as emissões otoacústicas evocadas - produto de distorção - foram aplicadas na população estudada, obedecendo os seguintes critérios: razão de F2/F1 igual a 1,2, média geométrica das freqüências primárias F1 e F2 em 2F1-F2 e as intensidades de estímulo de F1 e F2 foram de 65 dB NPS e 55 dB NPS (ou seja, L1=L2-10), respectivamente4.

A amplitude de resposta dos produtos de distorção das orelhas direita e esquerda do grupo controle variou de acordo com a freqüência F2, apresentando sempre valores positivos em todas as freqüências testadas, sendo os valores maiores observados nas freqüências de 1500 Hz, 1906 Hz, 2406 Hz, 3031 Hz e 3812 Hz em ambas as orelhas. Pico máximo de amplitude de resposta foi observado em 1906 Hz e 2406 Hz, com valores de 15,62 dBNPS e 14,51 dBNPS para a orelha direita, e valores de 14,73 dBNPS e 14,44 dBNPS para a orelha esquerda nas mesmas freqüências, respectivamente.

Autores, tais como Bonfils et al.14 (1993) e Abdala12 (1996) também encontraram amplitude média de resposta dos produtos de distorção em crianças normais, com valores positivos em todas as freqüências F2 testadas.

Quanto aos picos máximos de amplitude de resposta, a literatura mostra valores de 17,8 dBNPS em 2 KHz, de 16 dBNPS em 1,5 KHz12, de 17,26 dBNPS em 2 KHz, de 16,8 dBNPS em 1,5 KHz e de 17,4 dBNPS em 2 KHz. Os resultados do presente estudo, em relação ao pico máximo da amplitude de resposta do produto de distorção estão em concordância com a literatura, ou seja, encontram-se na faixa de freqüência de F2 em torno de 2 KHz.

Observou-se que as medidas da média do ruído de fundo, para ambas as orelhas do grupo controle, apresentam valores positivos e elevados nas freqüências mais baixas e decrescem à medida que as freqüências se tornam mais altas, assumindo valores negativos a partir da freqüência 1187 Hz para a orelha direita e 1500 Hz para a orelha esquerda. O pico máximo de valores negativo para o ruído de fundo foi observado nas freqüências 3031 Hz e 3812 Hz com valores de -9,82 dBNPS e -9,73 dBNPS para a orelha direita e com valores de -8,84 dBNPS e -9,09 dBNPS para a orelha esquerda.

Os resultados do presente estudo concordam com os trabalhos que observaram o ruído de fundo assumindo valores mais elevados nas freqüências baixas. Bonfils et al.14 (1993) referem que o ruído de fundo apresenta valores maiores nas freqüências baixas e menores nas freqüências altas. O mesmo foi observado pelos autores do presente estudo.

No que diz respeito à dificuldade de registrar as respostas dos produtos de distorção nas freqüências de F2, no presente estudo se observou que abaixo da freqüência F2 de 1500 Hz, apesar dos valores positivos para as amplitudes médias de resposta, o ruído de fundo foi elevado e prejudicou a interpretação da resposta.

Em relação às amplitudes médias, dada pela diferença da amplitude de resposta do produto de distorção (sinal) com a amplitude do ruído de fundo (Tabela 7), observou-se que valores igual ou acima de 6dBNPS estavam presentes a partir da freqüência F2 igual ou superior 1187 Hz para as orelhas direita e esquerda, evidenciando picos máximos em 1906 Hz e 2406 Hz com valores de 21,36 dBNPS e 22,67 dBNPS para a orelha direita, e em 2406 Hz e 3812 Hz com valores de 21,89 dBNPS e 19,07 dBNPS para a orelha esquerda, respectivamente.

Pode-se ver que as melhores médias de amplitude da diferença sinal/ruído são obtidas na faixa de freqüências de F2 onde as melhores amplitudes de resposta do produto de distorção estão presentes, coincidindo com os valores mais baixos para o ruído de fundo.

Ao aplicar o teste t-Student (amostras emparelhadas) para comparar as respostas das amplitudes dos produtos de distorção e do ruído de fundo das orelhas direita e esquerda, não foi observada diferença estatisticamente significante (p < 0,05) em nenhuma das freqüências F2 testadas.

No presente estudo, as amplitudes médias dos produtos de distorção das orelhas direita e esquerda do grupo estudo variaram de acordo com a freqüência F2, apresentando valores positivos em todas as freqüências testadas, sendo os valores maiores observados nas freqüências de 1187 Hz, 1500 Hz, 1906 Hz, 2406 Hz e 3031 Hz e 3812 Hz da orelha direita e nas freqüências de 593 Hz, 1500 Hz, 1906 Hz, 2406 Hz e 3812 Hz da orelha esquerda. Pico máximo de amplitude de resposta foi observado em 1906 Hz e 2406 Hz com valores de 15,03 dBNPS e 15,34 dBNPS para a orelha direita, e valores de 14,09 dBNPS e 14,34 dBNPS para a orelha esquerda, respectivamente.

Aplicando o teste t-Student (amostras emparelhadas) para comparação das medidas das médias das amplitudes de resposta do produto de distorção avaliadas nas orelhas direita e esquerda do grupo estudo, observou-se diferença estatisticamente significante entre as orelhas apenas na freqüência F2 de 1500 Hz, tendo a orelha direita apresentado amplitude média de resposta melhor que a orelha esquerda. Como visto no quadro acima, existem controvérsias em relação ao lado da orelha que apresenta melhores amplitudes de resposta, ou seja, autores referem ter encontrado melhores amplitudes de resposta para a orelha direita, enquanto outros observaram amplitudes médias de resposta semelhantes entre as orelhas direita e esquerda. No presente estudo, apenas uma freqüência de F2 (1500 Hz) apresentou amplitude média de resposta melhor para a orelha direita em relação à orelha esquerda no grupo estudo.

Observou-se que as medidas da média do ruído de fundo para as orelhas direita e esquerda do grupo estudo apresentaram valores positivos nas freqüências baixas, com valores elevados na freqüência F2 de 593 Hz. Observou-se, também, que o ruído de fundo decresceu à medida que as freqüências se tornaram mais altas, assumindo valores negativos a partir da freqüência F2 de 1187 Hz para ambas as orelhas (Tabela 9). Pico máximo de valor negativo para o ruído de fundo ocorreu nas freqüências de 3031 Hz e 3812 Hz, com valores de -10,23 dBNPS e -9,14 dBNPS, para a orelha direita, e com valores de -9,20 dBNPS e -9,31 dBNPS, para a orelha esquerda.

Ao aplicar o teste t-Student (amostras emparelhadas) para comparação das médias do ruído de fundo avaliado nas orelhas direita e esquerda, não foi encontrada diferença estatisticamente significante entre as orelhas, corroborando com alguns autores já citados anteriormente.

As medidas das amplitudes médias da diferença sinal/ruído do grupo estudo para as orelhas direita e esquerda apresentaram valores iguais ou maiores que 6 dBNPS a partir da freqüência F2 de 937 Hz, evidenciando picos máximos de 20,60 dBNPS, 23,21 dBNPS e 20,74 dBNPS nas freqüências de 1906 Hz, 2406 Hz e 3031 Hz, para a orelha direita e de 19,66 dBNPS, 22,23 dBNPS e 19,66 dBNPS nas freqüências 1906 Hz, 2406 Hz e 3812 Hz, para a orelha esquerda, respectivamente (Tabela 10).

Observaram-se melhores médias de amplitude sinal/ruído na faixa de freqüências onde as amplitudes de resposta do produto de distorção eram mais amplas e o ruído de fundo assumia valores menores.

Ao comparar as medidas das médias das amplitudes de resposta pelo teste t-Student (amostras independentes) em relação ao sexo para o grupo controle, observou-se diferença estatisticamente significante (p>0,05) apenas em duas freqüências de F2 (1187 Hz e 1500 Hz), tendo o sexo masculino apresentado valores médios melhores (11,44 dBNPS e 14,46 dBNPS) que o sexo feminino (8,44 dBNPS e 10,44 dBNPS).

Em relação ao ruído de fundo, as medidas da média não apresentaram diferença estatisticamente significante entre os sexos masculino e feminino para o grupo controle.

Para as medidas das médias das amplitudes de resposta do grupo estudo (Tabela 13), o teste t-Student (amostras independentes) para comparação em relação ao sexo, observou-se diferença estatisticamente significante em apenas uma freqüência F2 (2406 Hz), tendo o sexo feminino apresentado valor médio melhor (16,28 dBNPS) que o sexo masculino (13,28 dBNPS).

Não foi observada diferença estatisticamente significante entre as medidas das médias do ruído de fundo entre os sexos masculino e feminino (Tabela 14), ao ser aplicado o teste t-Student (amostras independentes).

De acordo com o que foi apresentado, pode-se ver que, enquanto o sexo masculino apresentou melhores médias de amplitude de resposta do produto de distorção em duas freqüências para o grupo controle, o mesmo não ocorreu para o grupo estudo, no qual o sexo feminino apresentou melhor média de amplitude de resposta do produto de distorção em apenas uma freqüência.

Pode-se observar que a exposição ao ruído ocupacional durante a gestação não afetou a audição das crianças das mães expostas. é escassa a literatura em relação ao estudo da audição de crianças recém-nascidas e lactentes, cujas mães se expuseram ao ruído ocupacional durante a gestação. Lalande et al.27 (1986), em seu estudo, afirmaram que a proporção de crianças que tem perda auditiva significante em 4 KHz era 3 a 4 vezes maior quando as mães tinham estado expostas a níveis de pressão sonora de 85 a 95 dBNPS em comparação a doses de ruídos mais baixos, além de que as freqüências baixas são mais prejudiciais.

Ando e Hattori23 (1970) referiram maior habilidade da criança em se adaptar ao crescente ruído ambiental quando suas mães se expuseram ao ruído durante a gestação, porém não avaliaram possível perda auditiva. Gerhardt e Abrams21 (2000) referiram perda auditiva nos fetos cujas mães se expuseram ao ruído durante a gestação. Nosso estudo, entretanto, não identificou perda auditiva em fetos de mães expostas a ruído ocupacional.

 

CONCLUSÃO

Não foi observado efeito nocivo do ruído na audição das crianças de mulheres que trabalharam expostas ao ruído ocupacional durante a gestação, avaliadas através das emissões otoacústicas - produto de distorção -, quando comparadas a crianças de mulheres não-expostas ao ruído ocupacional durante a gestação.

 

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Artigo aceito em 18 de abril de 2007.

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