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Revista Brasileira de Otorrinolaringologia

Print version ISSN 0034-7299

Rev. Bras. Otorrinolaringol. vol.73 no.4 São Paulo July/Aug. 2007

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-72992007000400004 

ARTIGO ORIGINAL

 

Avaliação auditiva em alcoolistas abstêmios

 

 

 

Sandra Beatriz Afonso RibeiroI; Lilian Cassia Bornia JacobII; Kátia de Freitas AlvarengaIII; Jair Mendes MarquesIV; Rafaela Mocellin CampêloV; Samira Natacha TschoekeVI

IMestre em Disturbios da Comunicação pela Universidade Tuiuti do Paraná
IIDoutor em Disturbios da Comunicação Humana pela USP, docente do Curso de Fonoaudiologia e do Mestrado/Doutorado em Disturbios da Comunicação da Universidade Tuiuti do Paraná
IIIDocente do Departamento de Fonoaudiologia da Faculdade de Odontologia de Bauru da Universidade de São Paulo (FOB–USP–BAURU)
IVDocente do Curso de Fonoaudiologia e do Mestrado/Doutorado em Disturbios da Comunicação da Universidade Tuiuti do Paraná
VMestre em Disturbios da Comunicação pela Universidade Tuiuti do Paraná
VIDiscente do Mestrado em Disturbios da Comunicação da Universidade Tuiuti do Paraná

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

O alcoolismo é considerado a toxicomania de maior relevância na escala mundial e a perda auditiva neurossensorial relacionada ao uso abusivo do álcool vem sendo reportada em alguns estudos, porém com resultados contraditórios.
OBJETIVO: Analisar o efeito do álcool no sistema auditivo em indivíduos alcoolistas abstêmios, considerando as variáveis tempo de uso de álcool e exposição associada a ruído.
MATERIAL E MÉTODO: A casuística foi constituída por 75 indivíduos divididos em dois grupos, de estudo e controle. Como procedimentos de avaliação audiológica foram utilizados a audiometria tonal liminar, pesquisa das emissões otoacústicas evocadas por estímulo transiente e timpanometria. Para a análise estatística dos dados foram utilizados os testes de Wilcoxon e de Mann-Whitney.
RESULTADOS: Os grupos expostos ao álcool apresentaram resultados estatisticamente piores nas avaliações audiológicas. A exposição associada ao álcool e ruído não potencializou o efeito dos mesmos sobre o sistema auditivo.
CONCLUSÃO: O uso excessivo do álcool por longo período de tempo pode causar prejuízo à função coclear, especificamente às células ciliadas externas.

Palavras-chave: alcoolismo, audição, diagnóstico, perda auditiva.


 

 

 

INTRODUÇÃO

O alcoolismo tem sido considerado um problema sério na América Latina, nos Estados Unidos e em algumas partes da Europa1. O uso abusivo do álcool já vem sendo objeto de discussão pela Organização Mundial de Saúde, desde o início dos anos 50 e o alcoolismo foi incorporado à Classificação Internacional das Doenças em 1967 (CID - 8), a partir da 8ª Conferência Mundial de Saúde2.

Lukomski et al.3 observaram um aumento no número de sujeitos dependentes de várias substâncias químicas em todo o mundo, dentre elas, o álcool. Nessa perspectiva, estudos divulgaram o efeito prejudicial do álcool no organismo, quando utilizado com freqüência e em altas concentrações, e registram que o alcoolismo é uma condição observada em todas as idades4,5.

Na literatura da área, as investigações realizadas enfocando os efeitos do alcoolismo crônico na audição apresentaram resultados conflitantes, não havendo consenso quanto ao potencial tóxico do álcool sob o sistema auditivo. Além disso, a análise da literatura acerca dessa temática evidenciou a escassa produção nacional.

A perda auditiva neurossensorial relacionada ao alcoolismo foi documentada em inúmeros estudos1,3,5-22, porém as metodologias apresentadas nesses estudos permitem questionar se variáveis como idade, tempo de uso da bebida e exposição pregressa ou atual a ruído, influenciaram na ocorrência de perda auditiva constatada.

Por outro lado, Brajevic et al.23 e Alpert e Bogorad24 demonstraram correlação significativa entre duração de alcoolismo e a ocorrência da perda auditiva na população estudada. Apenas nos estudos de Nordahl25 e Jones et al.26 não foi encontrada perda auditiva relacionada ao uso de álcool. Nordahl25 atribuiu a perda auditiva encontrada à exposição a ruídos.

Outra sintomatologia auditiva descrita foi o zumbido, levando Spitzer e Ventry13, Spitzer15, Gross et al.27 e Quick28, a confirmarem o álcool como um agente tóxico ao sistema auditivo.

A análise da literatura nacional e internacional a respeito da relação entre o uso abusivo do álcool e alterações auditivas evidenciou ausência de investigações realizadas com delimitação da casuística (grupos de controle e de estudo) semelhante à proposta na presente pesquisa. Porém, considerando a realização da pesquisa das emissões otoacústicas evocadas por estímulo transiente (EOET), cabe ressaltar que Niedzielska et al.5 realizaram este procedimento em 30 alcoolistas, observando ausência das EOET em 77% dos indivíduos avaliados e atribuíram esses resultados ao efeito deletério do álcool na funcionalidade das células ciliadas externas.

Assim, o objetivo deste estudo foi o de analisar o efeito do álcool no sistema auditivo em indivíduos alcoolistas abstêmios, considerando as variáveis tempo de uso de álcool e exposição associada a ruído.

 

MATERIAL E MÉTODO

O projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa (Of. CEP nº 102/2003). Todos os indivíduos receberam informações referentes aos procedimentos a serem realizados durante a pesquisa e assinaram o termo de consentimento livre-esclarecido.

Foi realizado um estudo transversal de incidência, caso-controle, com 75 indivíduos, divididos, por pareamento, em dois grupos de estudo (GE1 e GE2) e dois grupos de controle (GC1 e GC2). A subdivisão em quatro grupos foi necessária devido à alta ocorrência de indivíduos alcoolistas com atividade profissional onde o nível de ruído elevado estava presente no ambiente de trabalho.

Os indivíduos com o diagnóstico de alcoólatra foram encaminhados pelo médico responsável do Centro de Apoio Psicossocial ao Alcoólatra sediado em Curitiba-PR. Para este diagnóstico, a equipe multidisciplinar deste centro utiliza os critérios estabelecidos na Classificação Internacional de Doenças (CID 10).

Os critérios de inclusão do GE1 foram:

1. indivíduos com o diagnóstico de alcoólatra que ingeriam mais de um litro de bebida por dia;
2. indivíduos em período de abstinência do álcool;
3. ausência de afecções de orelha externa ou média;
4. histórico negativo de exposição a ruído ou agente químico, prévia ou atual;
5. indivíduos sem dependência de outras drogas que não o álcool
6. otoscopia normal e timpanograma Tipo A bilateralmente.

Assim, o GE1 foi constituído por 18 indivíduos, sendo 12 do sexo masculino e seis do sexo feminino, com faixa etária de 34 a 60 anos (média de 46,3 anos).

Os critérios de inclusão do GE2 seguiram os mesmos estabelecidos para o GE1 exceto pelo histórico de exposição ao ruído. Portanto, o GE2 foi constituído por 22 indivíduos, sendo 21 do sexo masculino e um do sexo feminino, com faixa etária variando de 29 a 59 anos (média de 45,7 anos).

Os critérios de inclusão do GC1 foram os mesmos estabelecidos para o GE1, exceto pela ingestão de álcool, e este grupo totalizou 12 indivíduos, sendo seis de cada sexo, com faixa etária variando de 35 a 57 anos (média de 45,4 anos).

O GC2 foi constituído por 23 indivíduos, sendo 19 do sexo masculino e quatro do sexo feminino, com faixa etária de 29 a 67 anos (média de 45,5 anos), seguindo os mesmos critérios de inclusão do GC1, exceto pelo histórico de exposição ao ruído.

Dessa forma, todos os grupos foram equiparados quanto à idade e os grupos expostos ao ruído (GE2 e GC2) foram equiparados também quanto ao tempo de exposição ao ruído e ao tipo de ocupação profissional proporcionando semelhante nível de pressão sonora entre os mesmos, que variou entre 85 a 92dBNPS.

Cabe ressaltar que o nível de ruído presente no ambiente de trabalho foi obtido a partir da análise da documentação da empresa do trabalhador.

As informações relativas ao tempo de consumo de álcool, período de abstinência alcoólica, e, tempo e nível de exposição ao ruído dos grupos de estudo (GE1 e GE2) e de controle (GC1 e GC2) estão apresentadas no Quadro 1.

 

 

Foram excluídos da casuística aqueles que faziam uso de medicamentos (antidepressivos, psicotrópicos ou algum ototóxico), apresentavam alguma doença sistêmica ou intercorrência otológica pregressa.

Método de Avaliação

Os procedimentos utilizados para a avaliação audiológica foram:

- Audiometria tonal liminar (ATL)

Realizada por via aérea nas freqüências de 0,25 a 8kHz e por via óssea nas freqüências de 0,5 a 4kHz e limiar de reconhecimento de fala. Os testes foram realizados em cabina acústica, utilizando-se um audiômetro da Interacustics, modelo AC40, fone TDH-39 e coxim MX-41, com calibração segundo norma ISO 8253/ IEC 645/ ISSO 389.

- Emissões Otoacústicas Evocadas por Estímulo Transiente (EOET)

Foi utilizado o equipamento da Otodynamics Ltda ILO96 Research OAE System. A pesquisa foi realizada na faixa de freqüência de 1 a 5kHz, porém para a análise dos dados considerou-se os registros obtidos na faixa de freqüência de 1 a 4kHz, visto que a prática clínica demonstra ausência freqüente do registro das emissões otoacústicas por estímulo transiente em 5kHz em indivíduos adultos e idosos, sem queixa auditiva ou histórico de risco para a deficiência auditiva. O estímulo aplicado foi do tipo clique, não-linear, com intensidade em torno de 80dB. A estabilidade da sonda foi sempre superior a 80% e a calibração foi diária.

É importante ressaltar que a timpanometria foi realizada no mesmo dia da realização da pesquisa das EOET, a fim de garantir que alterações de orelha média não ocasionassem registros alterados por razões não provenientes da cóclea29. Foi considerada normal a curva imitanciométrica do tipo A, de acordo com a classificação proposta por Jerger30. Para tanto, utilizou-se um analisador de orelha média digital Interacustic AZ26, calibrado segundo norma ISO 8253/ IEC 645/ ISSO 389-1991.

Análise dos Dados

Na ATL, foi utilizada a média das freqüências de 0,5, 1 e 2kHz, sendo considerado como normais os limiares até 25dB, e audiograma alterado os que apresentaram limiares a partir de 30dB. Para a perda auditiva nas freqüências a partir de 3kHz avaliou-se o rebaixamento do limiar, considerando as curvas em entalhe ou descendente, com registro do limiar máximo.

Na pesquisa das EOET, a resposta foi considerada presente quando a reprodutibilidade foi igual ou maior a 50%, com amplitude de resposta igual ou maior a 3dBNPS acima do ruído, em pelo menos três das freqüências consecutivas avaliadas31.

Comparou-se também as amplitudes de respostas das mesmas, ou seja, a relação sinal/ruído (S/R), em dBNPS, nas faixas de freqüências avaliadas pelo clique (de 1 a 4kHz). Para tanto, aplicou-se o teste de Wilcoxon para análise comparativa dos resultados por freqüência, entre as orelhas direita e esquerda. Para comparação entre os grupos dos resultados obtidos nos testes, foi utilizado o teste de Mann-Whitney. Vale ressaltar que todos os testes estatísticos foram realizados ao nível de significância de a = 0,05 (5%).

 

RESULTADOS

A partir dos resultados obtidos no teste de Wilcoxon, verificou-se diferença estatisticamente significante, no grupo controle, entre os limiares auditivos das orelhas direita e esquerda na freqüência de 2kHz (p=0,027715). Dessa forma, a análise dos resultados audiológicos foi realizada considerando as orelhas separadamente.

Nas Tabelas 1 e 2 podem ser visualizados os resultados da análise estatística descritiva (mediana, percentis 25% e 75%, mínimo e máximo) dos limiares obtidos na ATL dos grupos GC1/GE1 e GC2/GE2, respectivamente, bem como os resultados do teste de Mann-Whitney aplicado com o objetivo de comparar os limiares tonais obtidos entre os grupos. Os valores da mediana de cada freqüência e orelha avaliada estão apresentados nos Gráficos 1 e 2, para os grupos de controle e de estudo 1 e 2, respectivamente.

 

 

 

 

Na comparação dos limiares da ATL entre os grupos de controle e de estudo, nos quais não há exposição ao ruído (GC1 e GE1), utilizando-se o teste de Mann-Whitney, pôde-se observar diferenças estatisticamente significantes para as freqüências de 3kHz (p=0,027777) e 6kHz (p=0,040476) na orelha direita e 3kHz (p=0,048406) e 4kHz (p=0,037887) na orelha esquerda. Na comparação entre os grupos, nos quais há exposição ao ruído (GC2 e GE2), encontrou-se diferença significante apenas na freqüência de 0,5kHz (p=0,029870) da orelha direita.

A análise dos limiares tonais obtidos nos 4 grupos permitiu a classificação dos audiogramas e a caracterização das alterações auditivas encontradas nessa população. Os resultados dessa análise estão apresentados na Tabela 3.

 

 

Os resultados da análise estatística descritiva (mediana, percentis 25% e 75%, mínimo e máximo) realizada para as respostas das EOET, obtidas na faixa de freqüência entre 1 e 4kHz, das orelhas direita e esquerda, dos grupos GC1/GE1 e GC2/GE2, podem ser visualizados nas Tabelas 4 e 5, respectivamente, bem como os resultados do teste de Mann-Whitney. O referido teste foi aplicado com o objetivo de comparar as respostas das EOET entre os grupos. Os valores da mediana de cada freqüência e orelha avaliada estão apresentados nos Gráficos 3 e 4, para os grupos de controle e de estudo 1 e 2, respectivamente.

 

 

 

 

 

 

 

 

Na comparação das respostas das EOET entre os grupos GC1 e GE1, por meio do teste de Mann-Whitney, não houve diferença estatística significante e, para os grupos GC2 e GE2, houve diferença significativa na freqüência de 2KHz (p=0,004565) na orelha esquerda.

A Tabela 6 apresenta a análise comparativa dos resultados obtidos nas EOET, para os grupos GC1, GC2, GE1 E GE2, considerando a presença ou ausência de respostas.

 

 

Na análise realizada dos resultados da ATL, comparando-se os limiares obtidos nos grupos GE1 e GE2, por meio do teste de Mann-Whitney, não foi observada diferença significante (Tabela 7). Análise semelhante foi realizada para comparar as respostas das EOET, nos grupos de estudo GE1 e GE2, por meio do teste de Mann-Whitney, não havendo diferença significativa (Tabela 8).

 

 

 

 

Os coeficientes de correlação do tempo de bebida com os limiares tonais, e também com os registros das EOET, para GE1 e GE2 estão apresentados nas Tabelas 9 e 10, respectivamente.

 

 

 

 

DISCUSSÃO

Na literatura específica, os estudos que discorrem a respeito da ototoxidade do álcool não demonstram com clareza o potencial tóxico do álcool sob o sistema auditivo e, no caso, qual o provável local da lesão. Enquanto os achados de Itoh et al.32 demonstraram que a ingestão contínua de álcool não provoca aumento de risco auditivo, Nakamura et al.33 encontraram relação significativa entre o uso de álcool e perda auditiva de origem idiopática e Popelka et al.34 revelaram que indivíduos com histórico de consumo de álcool diário possuem maior risco de desenvolveram perda auditivas nas altas freqüências.

A pesquisa nesta área é limitada, talvez, não apenas pelo fato de a perda auditiva encontrada na população alcoolista ser considerada o menor problema para estes indivíduos, mas também pela dificuldade de excluir a interferência de outros fatores de risco para a audição, como por exemplo o ruído, referido por Nordhal25.

Na comparação dos limiares da audiometria tonal entre os grupos, utilizando-se o teste de Mann-Whitney, pôde-se observar por meio das medianas, valores mínimos e máximos (Tabela e Gráfico 1) que, os indivíduos alcoolistas (GE1) apresentaram limiares auditivos maiores que os indivíduos do grupo de controle (GC1) nas freqüências mais agudas, com diferença estatisticamente significante. Por outro lado, nos grupos onde a exposição associada ao ruído ocupacional foi uma variável a ser analisada não foi possível afirmar, pela análise estatística descritiva realizada (Tabela e Gráfico 2), que os limiares auditivos dos indivíduos alcoolistas (GE2) são maiores que dos indivíduos apenas expostos ao ruído (GC2). Assim, a comparação dos resultados obtidos nos indivíduos alcoolistas sem exposição ao ruído ocupacional com os indivíduos do grupo de controle (GC1 e GE1), sugere a ação tóxica do álcool na porção basal da cóclea, onde ocorre a vibração máxima da membrana basilar para os sons agudos. Cabe ressaltar que estes grupos foram equiparados quanto à idade e o álcool foi o único fator provável de risco para a audição a ser considerado. Porém, quando analisados os grupos com exposição ao ruído (GC2 e GE2) esta ação não é clara, visto que a ação lesiva do ruído no sistema auditivo foi constatada nos dois grupos, fazendo com que as diferenças encontradas entre os grupos GC2 e GE2, não fossem tão predominantes quanto às verificadas entre os com histórico apenas de consumo de álcool.

O efeito ototóxico do álcool também fica caracterizado quando a análise da audiometria tonal liminar é realizada por indivíduo, de acordo com os grupos.

Nos grupos sem exposição ao ruído, constatou-se maior ocorrência de perda auditiva nos indivíduos alcoolistas quando comparado com o grupo de controle, considerando limiar normal até 25dBNA (Tabela 3). Os resultados obtidos reforçam os achados anteriores que demonstram que as freqüências comprometidas são as médias e as altas, com predominância das freqüências altas (a partir de 3kHz) nos indivíduos alcoolistas. Para os grupos com exposição associada ao ruído, a ocorrência de perda auditiva foi muito semelhante (Tabela 3). A diferença constatada não permite análises conclusivas sobre a toxidade do álcool sob o sistema auditivo destes indivíduos.

Entretanto, os achados obtidos no presente estudo nos indivíduos que apresentavam como único fator de risco para audição o consumo excessivo do álcool confirmam a suposição inicial da existência de relação entre alcoolismo e perda da acuidade auditiva.

Ao realizar um paralelo entre os achados do presente estudo e de outros autores, constatou-se que, com exceção do estudo de Nordahl25 que atribuiu a perda auditiva encontrada à exposição a ruídos, os demais trabalhos descreveram a ocorrência de perda auditiva nas freqüências altas em indivíduos com histórico de consumo abusivo do álcool, entretanto estes estudos não apresentavam controle de variáveis como idade e exposição a outros agentes tóxicos, como realizado no presente estudo1,3,5-22. Na comparação das respostas das EOET entre os grupos, foi observada diferença estatisticamente significante apenas na freqüência de 2kHz na orelha esquerda, entre os indivíduos com exposição ao ruído, sendo que a R/S das EOET foi menor nos indivíduos alcoolistas (Tabela 5). Entretanto, não existem dados no presente estudo que possam justificar este achado. Não foram encontrados, na literatura consultada, estudos que analisaram o registro das emissões otoacústicas evocadas por estímulo transiente, entre grupos de controle e alcoolista que pudessem ser confrontados com os achados do presente estudo.

Ao contrário da análise da resposta média, os resultados das EOET de cada indivíduo considerando todos os grupos vêm reforçar o observado na audiometria tonal liminar, ou seja, o efeito ototóxico do álcool.

Constatou-se nos indivíduos alcoolistas não expostos ao ruído maior ocorrência de ausência de EOET unilateral e bilateralmente, sendo o mesmo observado nos indivíduos alcoolistas com exposição ao ruído (Tabela 6). É importante ressaltar que a ausência de EOET no GC1, pode ter ocorrido em função do envelhecimento, visto que os indivíduos, do grupo de controle, apresentavam idades entre 40 e 57 anos.

Assim, existe um número maior de ausência nas EOET nos indivíduos alcoolistas com exposição ao ruído ou não em relação aos indivíduos que não consomem álcool. Esta observação é mais nítida na análise dos registros das EOET dos indivíduos alcoolistas sem exposição ao ruído (GE1), no qual o único fator de risco auditivo a ser considerado é o álcool, uma vez que os grupos foram equiparados quando à idade. Foi encontrado na literatura da área apenas o estudo de Niedzielska et al.5, que também utilizou as EOET como método de avaliação, constatando resultado semelhante ao do presente estudo.

Outro dado, importante, diz respeito à localização da alteração. Apesar de os estudos realizados com alcoolistas constatarem a perda auditiva nas freqüências altas, muito se questiona sobre qual estrutura do sistema auditivo estaria alterada, uma vez que o procedimento de avaliação utilizado nos mesmos foi a audiometria tonal liminar. Os achados do presente estudo sugerem que, nos indivíduos alcoolistas, existe o comprometimento coclear, visto que as emissões otoacústicas demonstram a funcionalidade de células ciliadas externas do Órgão de Corti. Esta suposição vem de encontro ao descrito por Ylikoski14 o qual, em estudos com ossos temporais e tronco encefálico em indivíduos alcoolistas, constatou que a perda de neurônios coclear normalmente encontrava-se acompanhada por avançada perda das células ciliadas.

Na análise realizada dos resultados da audiometria tonal liminar e emissões otoacústicas, para comparar os achados entre os grupos GE1 e GE2, por meio do teste de Mann-Whitney (Tabelas 7 e 8), a fim de observar se a exposição simultânea a estes dois agentes nocivos à audição potencializaria o efeito dos mesmos sobre o sistema auditivo, não foi observada diferença significante. Sendo assim, esta hipótese não foi confirmada neste estudo.

Na Tabela 9 é possível verificar que a análise do coeficiente de correlação, entre as variáveis tempo de uso do álcool e os resultados dos limiares audiométricos, é relativamente baixa, quando calculada em relação aos grupos com ruído e sem ruído associados. Entretanto, estas correlações aumentaram quando calculadas separadamente nos dois grupos, onde houve resultado significante para as orelhas direita e esquerda do grupo GE2, porém, apenas para os indivíduos expostos ao ruído associado. Este achado sugere que na casuística estudada, o tempo de bebida aumentou a probabilidade de perda auditiva nas freqüências altas. Os achados deste estudo estão condizentes com o descrito por Wheeler et al.12, Golabek e Niedzielska18 e discordando de Rossi22 que não observou correlação entre tempo de consumo de álcool e perda auditiva constatada na audiometria tonal liminar.

Ao realizar a mesma análise, porém enfocando a amplitude de resposta das emissões otoacústicas evocadas por estímulo transiente (Tabela 10), observou-se correlações baixas, sendo que quando negativas indicam relações inversas entre o tempo de uso do álcool e o resultado das EOET. Dessa forma, o aumento do tempo de uso do álcool implicou em decréscimo na amplitude, apesar de não ter sido encontrada correlações estatisticamente significantes. As maiores correlações ocorreram no grupo de estudo sem ruído (Tabela 8). Não foram encontradas na literatura consultada pesquisas com emissões otoacústicas evocadas em indivíduos alcoolistas, em que o tempo de consumo de álcool e perda auditiva fossem analisados.

De forma geral, os resultados obtidos na audiometria tonal liminar e pesquisa das emissões otoacústicas evocadas por estímulo transiente demonstraram a possível relação existente entre alcoolismo e perda auditiva neurossensorial coclear em indivíduos alcoolistas.

 

CONCLUSÃO

Os resultados obtidos neste estudo permitiram concluir que, na casuística estudada, existe uma provável relação entre alcoolismo e perda auditiva, sendo a mesma do tipo neurossensorial coclear, acometendo as freqüências altas. A exposição associada ao álcool e ruído não potencializou os efeitos dos mesmos sobre o sistema auditivo e a ototoxidade do uso excessivo e abusivo do álcool, por longo período de tempo, pode causar prejuízo à função coclear, especificamente, às células ciliadas externas.

 

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Endereço para correspondência:
Lilian Jacob
Rua Prof. Pedro Viriato Parigot de Souza 1100 bl.04 apto. 703
Curitiba PR 81200-100.

Este artigo foi submetido no SGP (Sistema de Gestão de Publicações) da RBORL em 9 de maio de 2006. cod. 1909
Artigo aceito em 19 de junho de 2006.
Bolsa CAPES.

 

 

Universidade Tuiuti do Paraná.

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