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Revista Brasileira de Otorrinolaringologia

Print version ISSN 0034-7299

Rev. Bras. Otorrinolaringol. vol.74 no.1 São Paulo Jan./Feb. 2008

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-72992008000100023 

RELATO DE CASO

 

Laringocele: uma causa de obstrução de vias aéreas superiores

 

 

Jose Antonio de Paula FelixI; Felippe FelixII; Luiz Fernando Pires de MelloIII

IProfessor Adjunto de Otorrinolaringologia da Universidade Federal Fluminense
IIResidente de Otorrinolaringologia do 2o. ano do Hospital Universitário Clementino Fraga Filho da Universidade Federal do Rio de Janeiro
IIIMédico Chefe do Serviço de Cabeça e Pescoço do Hospital Geral de Bonsucesso

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

Laringoceles são dilatações anormais do sáculo do ventrículo de Morgani da laringe, localizando-se entre a falsa prega vocal e a face interna da cartilagem tireóide. Relevância clínica é rara, sendo o achado de laringoceles assintomáticas em necropsia muito alto. Algumas vezes, pode se apresentar já como uma grande massa cervical, levando à obstrução de vias aéreas e necessitando de intervenção de urgência. Neste trabalho, os autores relatam um caso de laringocele levando à obstrução de vias aéreas superiores, necessitando de traqueostomia de urgência e fazem uma revisão da literatura sobre o tema. Complicações de laringocele incluem infecção (formação de piocele), aspiração de patógenos e subseqüente bronquite e pneumonia, infecção do espaço lateral da faringe (depois de ruptura) e obstrução de vias aéreas superiores, como no caso apresentado. A laringocele, apesar de ser uma doença benigna, é uma causa potencial de obstrução respiratória que pode ameaçar a vida do paciente. O correto diagnóstico e manejo adequado precoce podem evitar que situações de emergência, como a do paciente do caso relatado, levem à morte.

Palavras-chave: laringocele, massa cervical, obstrução de vias aéreas superiores.


 

 

INTRODUÇÃO

O sáculo ou apêndice do ventrículo laríngeo está presente, normalmente, na maioria das laringes humanas. Ele sai pela borda anterior do ventrículo e estende-se superiormente pelo espaço paralaríngeo, tendo a falsa corda medialmente e a cartilagem tireóidea lateralmente. Laringoceles são dilatações do sáculo do ventrículo de Morgani, contendo ar, que se comunicam com a luz laríngea e podem se tornar temporariamente distendidas por muco.

Relevância clínica é rara, sendo o achado de laringoceles assintomáticas em necropsia muito alto. Outras vezes, pode se apresentar já como uma grande massa cervical, levando à obstrução de vias aéreas e necessitando de intervenção de urgência.

Neste trabalho, os autores relatam um caso de laringocele levando à obstrução de vias aéreas superiores, necessitando de traqueostomia de urgência e fazem uma revisão da literatura sobre o tema.

 

RELATO DE CASO

Paciente feminina, 45 anos, do lar, atendida em maio de 2002 com queixa de disfonia há aproximadamente 40 dias associada a ronco. Negava tabagismo e doenças pulmonares ou laríngeas prévia. Ao exame físico, apresentava massa em região cervical direita (Figura 1) e ao exame laringoscópico mostrava presença de tumefação próxima a prega ventricular e prega ariepiglótica direita (Figura 2). Solicitada Tomografia Computadorizada (TC) e Ressonância Nuclear Magnética (RNM) (Figuras 3 e 4) que revelou grande lesão cística preenchida por ar em seu interior, confirmando o diagnóstico de laringocele.

 

 

 

 

 

 

 

 

No final de junho de 2002, enquanto realizava exames pré-operatórios, evoluiu com dispnéia intensa, sendo necessário realizar traqueostomia de emergência. Com a estabilidade do quadro clínico, foi submetido à ressecção da lesão por via externa (Figuras 5 e 6). Evoluiu sem complicações no pós-operatório, com melhora total dos sintomas e exame laringoscópico normal (Figura 7).

 

 

 

 

 

 

DISCUSSÃO

Virchow, em 1867, foi o primeiro a nomear a dilatação anormal do vestíbulo laríngeo de laringocele, mas o primeiro relato desta entidade vem de 1829, de um cirurgião militar francês, Dominique Larrey.

As laringoceles podem se expandir medialmente resultando em diminuição do espaço supraglótico sendo chamada laringocele interna. Outras vezes, podem expandir-se lateralmente saindo pela membrana tireóidea próximas ao ramo interno do nervo laríngeo superior, causando tumoração cervical, e recebendo o nome de laringocele externa. Metade das laringoceles é mista, apresentando componente interno e externo, a grande maioria é unilateral e apenas 15% são bilaterais.

Laringoceles são encontradas mais comumente em homens numa relação de 5:1, na quinta ou sexta década. Sua causa é desconhecida, mas é associada com tosse crônica, prática de instrumentos de sopro, sopradores de vidro e carcinoma de laringe. Histologicamente, em seu interior, encontramos epitélio cilíndrico pseudoestratificado ciliado contendo variado número de células caliciformes sobre uma fina membrana basal1-3.

Existe grande controvérsia sobre a etiologia das laringoceles4. Sua origem envolve fatores congênitos, como as laringoceles dos neonatos e fatores adquiridos. Em adultos, um defeito congênito ou variação anatômica do sáculo pode ser a causa, assim como fatores adquiridos como no caso de carcinomas de laringe ou faringe, e pessoas cuja ocupação ou lazer envolvem aumento de pressão intralaríngea como tocadores de instrumentos de sopro. Entretanto, alguns fatos não corroboram esta afirmação, como diversos pacientes não apresentarem qualquer fator predisponente e a maioria dessas alterações ser unilateral. O carcinoma de laringe, provavelmente, está associado ao aumento de pressão intraluminal, tanto pela obstrução de vias aéreas superiores, esforço fonatório, tosse excessiva e condições mecânicas locais. Assim, é importante realizar uma investigação em pacientes com laringocele para excluir malignidade associada. Thomé et al., em 1995, descreveram nove casos de laringoceles e cistos saculares e encontraram como possíveis etiologias para as alterações: um corneteiro do exército, dois tabagistas com tosse crônica e dois pacientes que apresentavam fonação através das pregas vestibulares.

Os sintomas podem ser divididos de acordo com o tipo de laringocele. Nas internas, podem interferir na fonação e levar à rouquidão ou a ronco, até à obstrução de vias aéreas como no caso apresentado. Outros sintomas são: sensação de corpo estranho, dor de garganta e tosse. No caso das laringoceles externas, vamos ter uma massa cervical com ou sem sintomas laríngeos associados, caso sejam do tipo mista.

Tomografia computadorizada pode distinguir entre cistos preenchidos com ar ou preenchidos com líquido e pode detectar uma laringocele mista onde apenas um dos componentes, interno ou externo, foi clinicamente suspeito.

Diagnóstico diferencial inclui cisto sacular, cisto branquial, abscesso cervical e linfadenopatia. O cisto sacular não possui comunicação com a luz da laringe e é, geralmente, preenchido por material fluido6,7,8.

Complicações de laringocele incluem infecção (formação de piocele), aspiração de patógenos e subseqüente bronquite e pneumonia, infecção do espaço lateral da faringe (depois de ruptura) e obstrução de vias aéreas superiores, como no caso apresentado. Pinto et al., em 1997, descreveram caso semelhante ao relatado de laringocele evoluindo com obstrução de vias aéreas superiores, mas a paciente descrita apresentava doença pulmonar obstrutiva crônica, o que agravava ainda mais o quadro de insuficiência respiratória9.

O tratamento das laringoceles vai depender do tamanho e repercussão da doença. Casos de laringoceles internas pequenas e cistos saculares podem ser removidos endoscopicamente ou excisadas transendoscopicamente através de laser, que evolui com menos edema e formação de adesão pós-operatória que o método convencional. Laringoceles internas pequenas e recorrentes, que podem ter associação com malignidade, e laringoceles externas e internas grandes são removidos por via externa. Laringoceles pequenas assintomáticas são acompanhadas e só removidas em caso de se tornarem sintomáticas ou provocarem alteração estética10,11.

 

COMENTÁRIOS FINAIS

A laringocele, apesar de ser uma doença benigna, é uma causa potencial de obstrução respiratória que pode ameaçar a vida do paciente. O correto diagnóstico e manejo adequado precoce podem evitar uma situação de emergência como a do paciente do caso relatado.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1. Pennings RJE, van den Hoogen FJA, Marres HAM. Giant laryngoceles: a cause of upper airway obstruction. Eur Arch Otorhinolaryngol 2001;258:137-40.        [ Links ]

2. Soler EM, Vecina VMZ, Vintro XL, Agusti MQ, Vila JB, Juan M. Laringoceles: estudio clínico y terapêutico de 60 casos. Acta Otorrinolaring Esp 1995;46(4):279-86.        [ Links ]

3. Holinger L, Barnes D, Smid L. Laryngocele and Saccular Cyst. Ann Otol 1978;87:675-85.        [ Links ]

4. Ingrams D, Hein D, Marks N. Laryngocele: an anatomical variant. J Laryngol Otol 1999;113:675-7.        [ Links ]

5. Thomé R, Thomé DC. Laringocele e cisto sacular primário. Tratamento cirúrgico por via externa: ressecção através da membrana tíreo-hióidea. Rev Bras Otorrinolaringol 1995;61(6):427-36.        [ Links ]

6. Griffin J, Ramadan HH, Wetmore SJ. Laryngocele: a cause of stridor and airway obstruction. Otolaryngol Head Neck Surg 1993;108:760-2.        [ Links ]

7. Micheau C, Luboinski B, Lanchi P, Cachin Y. Relationship between laryngoceles and laryngeal carcinomas. Laryngoscope 1978;88:680-8.        [ Links ]

8. Amin M, Maran AGD. The aetiology of laryngocele. Clin Otolaryngol 1988;13:267-72.        [ Links ]

9. Pinto JA, Coser PL, Neto AF. Laringocele e laringopiocele. Rev Bras Otorrinolaringol 1977;43(3):175-83.        [ Links ]

10. Isaacson G, Sataloff RT. Bilateral laryngoceles in a young trumpet player: case report. ENT Journal 2000;272-3.        [ Links ]

11. Szwarc BJ, Kashima HS. Endoscopic Management of a Combined Laryngocele. Ann Otol Rhinol Laryngol 1997;106:556-9.        [ Links ]

 

 

Endereço para correspondência:
Jose Antonio de Paula Felix
Rua Cel. Moreira Cesar 229/1815 Icaraí
Niterói RJ 24220-120
E-mail japfelix@globo.com

Este artigo foi submetido no SGP (Sistema de Gestão de Publicações) da RBORL em 10 de março de 2005. cod. 92.
Artigo aceito em 24 de maio de 2005.

 

 

Trabalho realizado em clínica privada.

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