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Revista Brasileira de Otorrinolaringologia

versión impresa ISSN 0034-7299

Rev. Bras. Otorrinolaringol. v.74 n.6 São Paulo nov./dic. 2008

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-72992008000600024 

RELATO DE CASO

 

34 corpos estranhos auto-inoculados em seio maxilar

 

 

Márcio Meira LimaI; Camila Alencar MoreiraII; Viviane Carvalho da SilvaIII; Marcos Rabelo de FreitasIV

IMédico Otorrinolaringologista, Médico Otorrinolaringologista do Hospital Geral do Exército de Fortaleza
IIMédica Residente, R2. do Serviço de Otorrinolaringologia do Hospital Universitário Walter Cantídio - Universidade Federal do Ceará
IIIMestre em Saúde Pública pela Universidade Federal do Ceará, Médica Assistente do Serviço de Otorrinolaringologia do Hospital Universitário Walter Cantídio - Universidade Federal do Ceará
IVDoutor em Medicina pela Universidade Federal do Ceará, Professor Assistente da Disciplina de Otorrinolaringologia da Universidade Federal do Ceará

 

 


Palavras-chave: corpo estranho, seio maxilar, sinusite.


 

 

INTRODUÇÃO

Corpos estranhos (CE) são motivos freqüentes de consultas em Otorrinolaringologia. Os sítios mais comumente acometidos são cavidade nasal, orelhas e faringe. Nestes locais os corpos estranhos apresentam sintomas característicos e a remoção destes não representa grande dificuldade para o especialista. A forma de inoculação pode ser voluntária ou acidental1,2.

A ocorrência de corpos estranhos em seios paranasais é rara, sendo mais usualmente introduzidos de forma acidental (25%) ou iatrogênica (60%). Esta última decorre de procedimentos dentários, oftalmológicos e otorrinolaringológicos. O seio mais acometido é o maxilar (75%), seguido pelo frontal (18%)3,4.

Na literatura médica, poucos casos de corpos estranhos auto-inoculados em seios paranasais foram descritos. O objetivo deste trabalho é relatar um caso de rinossinusite crônica secundária a múltiplos corpos estranhos auto-inoculados em seio maxilar.

 

RELATO DE CASO

M.C., 49 anos, procurou atendimento otorrinolaringológico com queixa de obstrução nasal, halitose, cacosmia, rinorréia purulenta e secreção pós-nasal há 3 anos. A nasofibroscopia mostrou concha média hipertrófica à direita e desvio do septo ( /4 ) em área III de Cottle com convexidade para a esquerda. Em meato médio esquerdo havia pequena quantidade de pólipos e secreção purulenta espessa. À oroscopia não havia sinais de fístula oroantral. Foi feito diagnóstico de rinossinusite crônica e prescrito tratamento com levofloxacina, 500mg/dia V.O. durante 21 dias, prednisona, 40mg/dia por 6 dias com regressão da dose até o décimo dia, além de lavagem nasal com solução fisiológica.

Pouca melhora foi observada. Uma tomografia computadorizada (TC) de seios paranasais foi realizada após preparocom as mesmas medicações e posologiasanteriores. A mesma evidenciou velamento completo de ambos os seios maxilares e concha média bolhosa à direita. Foi proposta cirurgia endoscópica funcional nasossinusal.

Na antrostomia maxilar esquerda foram encontrados múltiplos pedaços de madeira e plástico no interior do seio, levando à conversão da cirurgia para uma abordagem externa pela técnica de Caldwell-Luc, visando melhor exploração do antro. Foram removidos 34 corpos estranhos do interior do seio maxilar esquerdo, alguns dos quais partiram-se na manipulação cirúrgica, razão pela qual aparecem em maior número na Figura 1. Não foram encontrados corpos estranhos em seio maxilar direito. No dia seguinte à cirurgia, o paciente relatou que há 5 anos havia se submetido a uma extração dentária, após a qual passou a introduzir voluntariamente os corpos estranhos no seio, via fístula oroantral. O mesmo não demonstrava sinais evidentes de transtorno mental importante e a capacidade de comunicação era normal. Após a cirurgia ele evoluiu com melhora importante dos sintomas, persistindo apenas com queixa de secreção pós-nasal por mais algumas semanas.

 

 

DISCUSSÃO

Corpos estranhos em seios paranasais, apesar de raros, fazem parte do diagnóstico diferencial das rinossinusites, principalmente quando a ocorrência desta é unilateral. Quando os sintomas aparecem tardiamente, as queixas mais freqüentes são sugestivas de rinossinusite crônica 5.

No caso apresentado havia acometimento de ambos os seios maxilares. Os corpos estranhos precipitaram a sinusopatia à esquerda.Na TC evidenciou-se falha óssea no assoalho do seio maxilar esquerdo, a qual provavelmente relaciona-se com a fístula oroantral prévia. No lado direito não foram encontrados corpos estranhos e provavelmente a alteração anatômica do paciente (concha média bolhosa) foi a causa do acometimento deste seio.

A cirurgia de Caldwell-Luc complementada pela via endoscópica é descrita como padrão ouro para o tratamento de diversas afecções do seio maxilar, incluindo corpos estranhos, especialmente quando não é possível a abordagem completa pela cirurgia endoscópica funcional6.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Corpos estranhos em seios paranasais são de ocorrência rara. Fístulas oroantrais são a via mais comum de inoculação, principalmente em procedimentos dentários. A cirurgia de Caldwell-Luc é o procedimento de escolha para a abordagem desta afecção, principalmente se não é possível tratá-la pela via endoscópica.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1. Marques MPC, Sayuri MC, Nogueira MD, Nogueirol RB, Maestri VC. Tratamento dos corpos estranhos otorrinolaringológicos: um estudo prospectivo. Rev Bras Otorrinolaringol 1998;64:42-7.         [ Links ]

2. Tiago MPC, Salgado DC, Correa JP, Pio MRB, Lambert EE. Corpo estranho de orelha, nariz e orofaringe: experiência de um hospital terciário. Rev Bras Otorrinolaringol 2006;72:177-81.         [ Links ]

3. Krause HR, Rustemeyer J, Grunert RR. Foreign body in paranasal sinuses. Mund Kiefer Gesichtschir 2002;6(1):40-4.         [ Links ]

4. Liston PN, Walters RF. Foreign bodies in the maxillary antrum: a case report. Aust Dent J 2002;47(4):344-6.         [ Links ]

5. Tingsgaard PK, Larsen PL. Chronic unilateral maxillary sinusitis caused by foreign bodies in the maxillary sinus. Ugeskr Laeger 1997;7(28):4402-4.         [ Links ]

6. Friedlich J, Rittenberg BN. Endoscopically assisted Caldwell-Luc Procedure for Removal of a Foreign Body From the Maxillary Sinus. J Can Dental Assoc 2005;71:200-1.         [ Links ]

 

 

Este artigo foi submetido no SGP (Sistema de Gestão de Publicações) da RBORL em 10 de fevereiro de 2007. cod. 3659.
Artigo aceito em 28 de março de 2007.