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Revista Brasileira de Otorrinolaringologia

versão impressa ISSN 0034-7299

Rev. Bras. Otorrinolaringol. vol.75 no.1 São Paulo jan./fev. 2009

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-72992009000100025 

RELATO DE CASO

 

Infecção por pseudomonas aeruginosa em tumor odontogênico queratocístico

 

 

Alvimar Lima de CastroI; Evanice Menezes Marçal VieiraII; Lívia Trevelin ArêdeIII; Elerson Gaetti Jardim JuniorIV

IProfessor Adjunto da disciplina de Estomatologia da Faculdade de Odontologia de Araçatuba/UNESP, Chefe de departamento de Patologia e Propedêutica Clínica
IIDoutoranda do Programa de Pós-Graduação em Odontologia - Área de Concentração Estomatologia - Faculdade de Odontologia da Unesp/Araçatuba, Professora da Faculdade de Odontologia da Universidade de Cuiabá-UNIC/MT
IIIAcadêmica da Faculdade de Odontologia de Araçatuba/UNESP
IVProfessor Adjunto da disciplina de Microbiologia e Imunologia da Faculdade de Odontologia de Araçatuba/UNESP, Coordenador da disciplina de microbiologia da Faculdade de Odontologia de Araçatuba/UNESP

Endereço para correspondência

 

 


Palavras-chave: cistos ósseos, infecção focal dentária, pseudomonas, resistência a drogas.


 

 

INTRODUÇÃO

A cavidade bucal pode ser um reservatório de Pseudomonas aeruginosa, especialmente em pacientes com periodontite, o que dificulta o tratamento e, em caso de infecções oportunistas, pode comprometer pacientes debilitados, como idosos e imunossuprimidos1,2. O presente trabalho tem por objetivo discutir, através de caso clínico, a possibilidade de infecção secundária de um tumor odontogênico queratocístico por P. aeruginosa multirresistente a antimicrobianos.

 

RELATO DE CASO

Paciente, 24 anos, feminino, apresentou-se portando radiografia panorâmica que evidenciava a presença do terceiro molar superior esquerdo incluso associado à lesão radiolúcida (Figura 1a), diagnosticada posteriormente como tumor odontogênico queratocístico (Figura 1b).

 


 

Duas semanas após enucleação da lesão, houve o aparecimento de fístula (Figura 1c), com comunicação bucossinusal e drenagem de material fluido de cor amarelada que foi aspirado e enviado para cultura, que foi realizada em ágar sangue em aerobiose e anaerobiose, a 37ºC, por 48 horas e 15 dias, respectivamente. A identificação dos microrganismos isolados foi realizada através de provas bioquímicas, evidenciando apenas a presença de Pseudomonas aeruginosa.

O microrganismo foi submetido a testes de susceptibilidade aos antimicrobianos: amicacina, amoxicilina, amoxicilina/ácido clavulânico, azitromicina, cloranfenicol, ciprofloxacina, clindamicina, doxiciclina, eritromicina, espiramicina, estreptomicina, imipenem, lincomicina, norfloxacina, penicilina G, rifampicina, tetraciclina, tobramicina, vancomicina, sendo que o mesmo se mostrou resistente a todos, com resistência variando de 64mg/ml a 512 mg/ml, muito acima do que clinicamente poderia ser atingido. A bactéria produziu b-lactamase(s) capaz(es) de degradar todas as drogas b-lactâmicas.

No período de 72 horas entre a coleta do espécime clínico e o retorno do antibiograma, a paciente foi medicada com amoxicilina, sem resultados satisfatórios. Optou-se por suspender a antibioticoterapia e realizou-se a cirurgia, persistindo a fístula.

Na busca de fatores capazes de colaborar para a manutenção do processo infeccioso, identificou-se através de análise radiográfica comprometimento pulpar do segundo pré-molar superior esquerdo, que foi tratado endodonticamente. Através da fístula, restos orgânicos foram removidos do local utilizando peróxido de hidrogênio/água (partes iguais) com resultados satisfatórios (Figura 1d).

 

DISCUSSÃO

A ocorrência de pseudomonados na boca não constitui raridade, porém a múltipla resistência e o envolvimento de sistemas de canais radiculares não é comum, visto que as infecções endodônticas normalmente estão associadas a uma microbiota mista com predomínio de bactérias anaeróbias e Pseudomonas aeruginosa é aeróbia3.

Contudo, nas infecções endodônticas assintomáticas, a microbiota mostra-se constituída predominantemente por bactérias aeróbias e anaeróbias facultativas4, de forma que a origem da infecção secundária do tumor queratocístico possivelmente está ligada à afecção dental. Entretanto, desde que não se observou comunicação entre o sistema de canais radiculares e o ambiente externo ou presença de periodontite, não se pode determinar, com segurança, como a microrganismo atingiu os tecidos pulpares e periapicais. Contudo, o trauma cirúrgico, a despeito dos cuidados de assepsia, possibilitou a disseminação em direção aos tecidos bucais e seio maxilar.

Deve-se tomar excepcional cuidado com a disseminação sistêmica desses bastonetes multirresistentes, sendo que o principal fator que colaborou para o sucesso do tratamento foi a boa condição sistêmica de saúde da paciente e a realização de adequado tratamento endodôntico. Bactérias do gênero Pseudomonas freqüentemente apresentam diversos mecanismos de resistência, sendo que no caso dos b-lactâmicos, deu-se pela produção de b-lactamases e, possivelmente, também está associada ao desenvolvimento de barreiras de impermeabilidade5,6.

 

COMENTÁRIOS FINAIS

A infecção por pseudomonados na boca é incomum e o exame microbiológico deve ser sempre realizado na suspeita clínica de infecção dessa natureza visto que, em função da multirresistência, inexiste um esquema medicamentoso unanimemente aceito e de eficácia universal. A observação das características presentes neste relato permite ressaltar que o clínico deve estar atento à possibilidade de infecções com características incomuns na cavidade bucal e à disseminação dessas infecções devido a procedimentos cirúrgicos.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1. Santos SSF, Loberto JCS, Martins AP, Jorge AOC. Prevalência e sensibilidade in vitro de enterobacteriaceae e Pseudomonas isoladas na cavidade bucal e bolsa periodontal de pacientes com periodontite crônica. PGRO-Pós Grad Rev Odontol 2002;5:74-84.         [ Links ]

2. Bact MB, Arce R, Botero J, Mag AJ, Cruz C, Contreras A. Microorganismos inusuales em surcos y bolsas periodontales. Colomb Med 2006:6-14.         [ Links ]

3. Barnes L, Eveson J, Reichart P, Sidransky D. WHO. Histological classification of odontoge-nic tumours. WHO Classification of tumours. Pathology & genetics: head and neck tumor. Lyon, France: IARCPress; 2005.         [ Links ]

4. Gomes BP, Lilley JD, Drucker DB. Association of endodontic symptoms and signs with particular combinations of specific bacteria. Int Endod J 1996;29:69-75.         [ Links ]

5. Guzmán-Blanco M, Casellas JM, Sader HS. Bacterial resistance to antimicrobial agents in Latin America. The giant is awakening.         [ Links ]

6. Guzmán-Blanco M, Casellas JM, Sader HS. Bacterial resistance to antimicrobial agents in Latin America. The giant is awakening. Infect Dis Clin North Am 2000;14:67-81.         [ Links ]

7. García PC. Resistencia bacteriana en Chile. Rev Chil Infect 2003;20:11-23.         [ Links ]

 

 

Endereço para correspondência:
Elerson Gaetti Jardim Júnior
R. José Bonifácio,1193
16015-050 - Caixa postal 261 - Araçatuba/SP
Faculdade de Odontologia de Araçatuba - UNESP
Departamento de Patologia e Propedêutica Clínica

Este artigo foi submetido no SGP (Sistema de Gestão de Publicações) da RBORL em 4 de março de 2007. cod. 3722
Artigo aceito em 28 de março de 2007.