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Revista Brasileira de Otorrinolaringologia

Print version ISSN 0034-7299

Rev. Bras. Otorrinolaringol. vol.75 no.2 São Paulo Mar./Apr. 2009

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-72992009000200010 

ARTIGO ORIGINAL

 

Estudo da mortalidade por câncer de laringe no estado de Pernambuco - 2000-2004

 

 

Leandro de Araújo PernambucoI; Mirella Bezerra Rodrigues VilelaII

IEspecializando em Disfagia pela Faculdade Integrada do Recife - FIR. Fonoaudiólogo do Hospital de Câncer de Pernambuco e do Centro de Reabilitação e Fisioterapia Distrito I do município do Jaboatão dos Guararapes - PE
IIMestre em Saúde Coletiva pelo Centro de Pesquisas Aggeu Magalhães - Fundação Oswaldo Cruz. Professora substituta do curso de graduação em Fonoaudiologia da Universidade Federal de Pernambuco e Chefe da Divisão de Informação em Saúde da Prefeitura Municipal do Jaboatão dos Guararapes - PE. Universidade Federal de Pernambuco

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

A laringe é considerada o sítio de maior ocorrência de neoplasias na região de cabeça e pescoço, e para os estudos do câncer a mortalidade constitui-se um dos indicadores de saúde mais confiáveis
OBJETIVO: Estudar a mortalidade por câncer de laringe em Pernambuco no período 2000-2004.
FORMA DE ESTUDO: Estudo de coorte contemporânea com corte transversal.
MATERIAL E MÉTODOS: Considerou-se o universo dos óbitos por câncer de laringe, em residentes do estado de Pernambuco entre 2000 e 2004, extraídos do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM/SUS). A análise dos dados foi realizada através de estatística descritiva com resultados expressos em tabelas, gráficos e mapa, utilizando o software Excel versão 2000 e o software EpiInfo, versão 6.04b.
RESULTADOS: Existiu pouca variação do coeficiente de mortalidade entre os anos estudados. A mesorregião do Sertão concentrou o agregado com o maior número de óbitos e Fernando de Noronha apresentou a maior taxa de mortalidade. O perfil encontrado foi de homens entre 60-69 anos, pardos, casados, com baixo grau de escolaridade, cujo óbito aconteceu em ambiente hospitalar.
CONCLUSÃO: Ocorreu estabilidade da mortalidade e heterogeneidade entre os municípios. O perfil da mortalidade segundo variáveis sociais corrobora com outros estados brasileiros, exceto pela raça/cor.

Palavras-chave: epidemiologia, mortalidade, neoplasias laríngeas.


 

 

INTRODUÇÃO

Acompanhando o período de reorganização global ocorrido no século passado, a saúde coletiva entrou em um processo denominado transição epidemiológica1. Este fenômeno é caracterizado basicamente por três eventos: a queda nas taxas de mortalidade por doenças infecciosas e parasitárias (DIP) concomitante ao aumento do número de doenças e agravos não-transmissíveis (DANT), como as doenças cardiovasculares e o câncer; transmissão da carga de morbimortalidade dos grupos mais jovens para o grupo de indivíduos idosos; alteração do perfil de dominância da mortalidade para um perfil onde a morbidade é soberana2.

Nos países desenvolvidos a transição epidemiológica já foi completada, porém nos países em desenvolvimento ela ainda está acontecendo. No Brasil, assim como em outros países da América Latina, verifica-se que ocorreu aumento no número de mortes por DANTs, no entanto, as taxas de mortalidade por DIPs ainda constituem um problema de saúde coletiva1.

Atualmente, o câncer representa a terceira maior causa de morte na população masculina do Brasil, após as doenças cardiovasculares e causas externas. Ao serem considerados ambos os sexos e indivíduos acima dos quarenta anos, o câncer assume o segundo lugar como causa de morte, sendo precedido apenas pelas doenças cardiovasculares3-5. O câncer de laringe ocupa o primeiro lugar em ocorrência dentre os tumores de cabeça e pescoço e representa o segundo tipo de câncer respiratório mais comum no mundo, atrás apenas do câncer de pulmão6-9. Este tipo de neoplasia representa 2,8% dos novos casos de câncer em homens no mundo, correspondendo à décima neoplasia maligna mais freqüente nesse sexo7.

Apesar da diversidade dos fatores de risco, o hábito de fumar e o consumo de bebidas alcoólicas são considerados seus principais agentes etiológicos10.

Em Pernambuco, o coeficiente de mortalidade para o câncer de laringe no sexo masculino no triênio 1979/1981 foi de 0,8/100.000, enquanto no triênio 1999/2001 esse coeficiente foi elevado para 1,9/100.00011.

As taxas de mortalidade correspondem a um importante subsídio para a grande maioria dos outros indicadores de saúde, representando o principal índice na caracterização da importância das doenças cardiovasculares e neoplasias malignas. Mesmo nos países mais desenvolvidos, cuja obtenção dos dados sobre morbidade é relativamente mais fácil, as taxas de mortalidade continuam sendo um dos principais, senão o principal, indicador de saúde12.

O Ministério da Saúde disponibiliza na internet, através do DATASUS, informações que podem servir de ferramenta para análise objetiva da situação sanitária, tomada de decisões baseadas em evidências e programação de ações de saúde no Brasil. No DATASUS é possível obter uma gama de informações, referentes tanto ao registro sistemático de dados de mortalidade e de sobrevivência, controle das doenças infecciosas, parasitárias e crônicas, dados de morbidade, incapacidade, quanto ao acesso a serviços, qualidade da atenção, condições de vida e fatores ambientais, informações sobre assistência a saúdeda população, cadastros das redes hospitalares, ambulatoriais e dos estabelecimentos de saúde, além de informações sobre recursos financeiros e informações demográficas e socioeconômicas13.

Assim, percebe-se que com esta ferramenta é possível estudar a mortalidade e esta pode nortear condutas e servir de base para o planejamento de ações estratégicas. Desta forma, o objetivo desse trabalho foi estudar a evolução da ocorrência de mortes por câncer de laringe no Estado de Pernambuco no qüinqüênio 2000-2004 e a prevalência comparativa entre seus municípios e regiões, bem como traçar o perfil predominante do paciente que vai a óbito.

 

MÉTODOS

A área de estudo foi composta pelo estado de Pernambuco, dividido em seus 185 municípios. Os municípios do estado agregam-se político-administrativamente em cinco mesorregiões, a saber: São Francisco, Sertão, Agreste, Zona da Mata e Metropolitana do Recife, além do Distrito Estadual de Fernando de Noronha. A população de estudo da pesquisa foi constituída pelo universo dos óbitos de residentes no estado de Pernambuco, ocorridos no período de 2000 a 2004 que tiveram como causa básica o câncer de laringe, classificado através da 10º revisão da Classificação Internacional de Doenças (CID 10), através do código C32.

Os dados foram coletados a partir das informações disponibilizadas pelo Ministério da Saúde em seu sítio de domínio público na internet, o DATASUS14, através do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM/SUS). Os dados populacionais foram obtidos através do IBGE, utilizando o Censo Nacional do ano 2000 e as estimativas populacionais para os anos intermediários por meio das Pesquisas Nacionais de Amostras Domiciliares (PNAD), conduzidas anualmente pelo próprio IBGE. As variáveis consideradas neste estudo foram ano, sexo, faixa etária, estado civil, escolaridade, raça/cor e local de ocorrência.

Trata-se de um estudo de coorte contemporânea com corte transversal. Não foram incluídos pacientes assistidos, portanto, não foi necessário enviar este trabalho para apreciação do comitê de ética. Foi resguardado o direito de divulgação das fontes (SIM/SUS e IBGE), não existindo danos ou prejuízos à saúde dos indivíduos, considerando que toda a coleta foi em base secundária.

A análise dos dados foi realizada através de estatística descritiva com resultados expressos em tabelas, gráficos e mapa. Para tanto, utilizou-se o software Excel versão 2000, produzido pela Microsoft Office, e o software EpiInfo, versão 6.04b, produzido pela Centers for Disease Control and Prevention (CDC). Como medida de associação, utilizou-se o risco relativo (RR), confirmado através do teste estatístico qui-quadrado corrigido de Yates, com significância estatística de 5% (p< 0,05).

Para o mapeamento dos dados, utilizou-se a fórmula já padronizada do coeficiente de mortalidade15, que consiste na divisão do número de óbitos por câncer de laringe numa área específica, no período em análise, pela população residente na mesma na área e no mesmo período, multiplicado por 100.000. O mapa temático foi criado a partir do software Terraview, versão 3.1.4, produzido pelo INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais).

 

RESULTADOS

Entre 2000 e 2004 foram registrados no estado de Pernambuco, 452 óbitos por câncer de laringe, o que representa 2,61% do total de óbitos em que a causa básica foi uma neoplasia maligna.

No Gráfico 1, é possível analisar a evolução da mortalidade por câncer de laringe em Pernambuco. Os coeficientes de mortalidade mostram que não existiu variação significativa entre os anos estudados.

 

 

Analisando a mortalidade por câncer de laringe nos 185 municípios do estado de Pernambuco no qüinqüênio compreendido entre 2000 e 2004, verificou-se que 103 municípios, ou seja, 55,7% apresentaram registros de óbitos por este agravo (Figura 1).

 

 

Ao agruparem-se os municípios por mesorregiões, observou-se que o Sertão foi aquele que demonstrou o agregado cujos coeficientes de mortalidade foram altos em relação aos demais, sendo composto pelos municípios de São José do Belmonte, Verdejante, Salgueiro, Cabrobó, Terra Nova, Serrita e Parnamirim.

Além desses cinco municípios, outros quinze apresentaram coeficientes altos de mortalidade. São eles: Ilha de Itamaracá, Itapissuma, Recife, Olinda e Moreno (mesor-região Metropolitana); Rio Formoso, Barreiros, Chã Grande e Itambé (mesorregião da Zona da Mata); São Caetano, Altinho, Lajedo, Angelim e Palmeirinha (mesorregião do Agreste); Afrânio (mesorregião do Vale do São Francisco). A ilha de Fernando de Noronha surgiu como o local que apresentou maior coeficiente de mortalidade no estado (46,9/100.000) (Figura 1).

Ao estudar a variável sexo, constatou-se que durante todo o período estudado, a magnitude das taxas do sexo masculino foi superior ao feminino (Gráfico 2). O risco relativo de morte por câncer de laringe foi 6,85 vezes maior para os homens em relação às mulheres (5,23 < RR < 8,98), sendo este dado estatisticamente significativo (X 2=262; p< 0,001).

 

 

Analisando os dados referentes às taxas de mortalidade segundo faixa etária (Tabela 1), observou-se que os indivíduos cuja idade variava de 60 a 69 anos de idade formaram o grupo com maior proporção de óbitos (28,10%).

Ao serem comparados com o grupo de 15 a 19 anos, cuja proporção foi a menor entre todos os grupos (0,22%), aqueles que se encontravam na faixa etária compreendida entre 60 e 69 anos apresentaram um risco relativo 293 vezes maior de ir a óbito por câncer de laringe (41,01 < RR < 299,05; X 2=285; p< 0,001). Já quando se avaliou o risco relativo em relação à faixa etária de 50 a 59 anos (20,58%), este caiu para 2,01 (1,54 < RR < 2,62; X 2=26,48; p< 0,001).

Com relação à variável raça/cor, encontrou-se no agrupado dos anos, maior proporção de óbitos por câncer de laringe entre os indivíduos pardos (42,04%), seguidos pelos indivíduos brancos (37,39%) e pretos (9,29%). A proporção de indivíduos classificados como ignorados foi de 9,51%.

Quanto à escolaridade (Tabela 2), verificou-se que a proporção de registros classificados como ignorado compôs mais da metade da amostra no agrupado dos anos (52,21%) e em cada ano pesquisado, isoladamente.

Se desconsiderarmos os ignorados, os grupos sem nenhum grau de escolaridade (20,58%) e com 1 a 3 anos de estudo (12,83%) representaram a maior porcentagem de casos, entretanto, esta variável não é apropriada para análise.

Dos 452 óbitos por câncer de laringe ocorridos entre 2000 e 2004 em Pernambuco, 51,11% aconteceram em indivíduos casados, seguidos por 24,34% de solteiros e 14,82% de viúvos. Em relação ao local de ocorrência, encontrou-se grande predomínio dos óbitos em ambiente hospitalar (69,47%), seguido pelo domicílio (28,76%). Os dados ignorados apresentaram proporção muito reduzida (0,22%), correspondendo a apenas um caso.

 

DISCUSSÃO

Em Pernambuco, a situação da mortalidade por câncer de laringe parece ser idêntica à realidade nacional, correspondendo a 2,61% de todas as mortes por câncer entre 2000 e 200416,17.

Não foram verificadas diferenças significativas nas taxas de mortalidade por câncer de laringe entre os anos estudados, diferente de um estudo de série histórica realizado em Pernambuco, apontando aumento dessas taxas em todas as mesorregiões do estado entre 1979 e 200111. Apesar de sugestiva tendência à estabilidade no qüinqüênio estudado, tal perfil merece atenção, pois aponta um agravo que ainda pode desenvolver coeficientes mais elevados futuramente, especialmente considerando o expressivo aumento da expectativa de vida da população.

Este mesmo estudo realizado em Pernambuco entre 1979 e 2001, também apontou o Sertão como maior área de concentração de mortes por neoplasias malignas da laringe, corroborando com o dado encontrado na presente pesquisa. Em 1979, a mesorregião Metropolitana detinha o maior coeficiente (1,8/100.000), enquanto o Sertão e o Agreste dividiam o segundo lugar. Ao chegar em 2001, esse quadro reverteu e a mesorregião do Sertão tornou-se o local onde mais ocorreram mortes pelo agravo estudado11.

Uma hipótese que possa justificar a concentração de óbitos na mesorregião do Sertão seria a dificuldade da população em conseguir acesso aos serviços de saúde, muitas vezes distantes do seu local de residência. Tal situação leva o indivíduo ao diagnóstico tardio, com conseqüente avanço da doença e menor eficácia do tratamento. Sendo assim, os coeficientes de mortalidade tendem a ser mais elevados.

Essa mesma hipótese também justificaria o fato de pertencer a Fernando de Noronha o maior coeficiente de mortalidade encontrado neste estudo. Por ser um local em que o acesso ao serviço de saúde especializado é precário e onde há dificuldade na continuidade do tratamento do câncer, a ilha passa a ser um local em que o risco de morte torna-se elevado. Além disso, o alto índice local de consumo de álcool reflete o cultivo de um importante fator de risco para o desenvolvimento de neoplasias malignas.

Pode-se supor também que a heterogeneidade entre os registros, assim como encontrado no estado do Pará18, aponte para possíveis diferenças na qualidade da notificação da neoplasia laríngea como causa básica de óbito. Vale destacar que, apesar das importantes melhorias observadasnos sistemas de informação em saúde no Brasil, estes ainda buscam uma maior cobertura de dados e qualidade da informação gerada1.

Os dados encontrados alertam para a necessidade da descentralização dos serviços oncológicos, permitindo a criação de centros de diagnose e terapia em localidades carentes deste tipo de serviço, objetivando não só o acesso da população ao tratamento global em seu local de residência, mas a redução de custos para os próprios municípios, que acabam gastando uma quantia importante de sua verba investindo no transporte de pacientes para tratamento fora de domicílio.

Em relação ao sexo, o predomínio do masculino já é destacado na literatura. O oeste e sul da Europa são regiões cuja mortalidade por câncer de laringe entre homens detém altos índices, seguidos por países da América do Sul, como Argentina, Uruguai e região Sul do Brasil16. Em Porto Alegre, as neoplasias de cabeça e pescoço (cavidade oral, orofaringe, laringe e hipofaringe) foram as mais freqüentes no sexo masculino, considerando os casos em tratamento nos Centros de Alta Complexidade em Oncologia (CACON) do município em 2000 e 200119. Entre 1979 e 1999, São Paulo foi o estado que apresentou maiores taxas de mortalidade por câncer laríngeo em homens (6,2/100.000)20. No estado do Pará entre 1980 e 1997 morreram muito mais homens que mulheres por este tipo de câncer18.

A tendência mundial enfatiza a redução de mortes por câncer de laringe no sexo masculino e a estabilidade das taxas de mortalidade no sexo feminino, relacionando este fato às mudanças nos hábitos de vida das mulheres, tais como a elevação no número de usuárias de tabaco17. No presente estudo, constatou-se estabilidade nos dois sexos, em relação à evolução entre os anos estudados. Tal estabilidade também existiu na primeira metade da década de 90, no Brasil, para todos os tipos de câncer relacionados ao tabaco (boca, faringe, esôfago, pâncreas, laringe, bexiga e rins), exceto pulmão4 e em São Paulo, entre 1969 e 199821.

Com relação à faixa etária, observamos que outras pesquisas também referem maior incidência de neoplasias a partir da quinta década de vida5,10,16,17,22. Sabe-se que o aumento na expectativa de vida faz crescer a freqüência de doenças e agravos não-transmissíveis, reflexo da transição epidemiológica2. Apesar do coeficiente de mortalidade para o câncer de laringe ter variado pouco entre 2000 e 2004, atenção especial deve ser dispensada ao agravo, considerando sua predominância na população idosa, e o ritmo acelerado de envelhecimento da população. Decorre desta situação, a necessidade da elaboração de políticas de combate aos fatores de risco e promoção do envelhecimento saudável da população.

A raça/cor é uma variável pouco considerada nos estudos realizados com câncer de laringe. Possivelmente por termos na região Nordeste do Brasil, mais indivíduos categorizados como pardos, encontramos nesta raça/cor uma maior freqüência de óbitos. Em um município do estado de São Paulo, a maior porcentagem de indivíduos com câncer de laringe tratados em um serviço da região eram homens brancos. Nos Estados Unidos, a maior incidência a população feminina encontra-se entre negras16. A proporção de indivíduos classificados como ignorados foi relativamente alta, considerando que está abaixo apenas dos pardos e brancos no agrupado dos anos. Contudo, percebe-se notória melhora no registro dessa variável, pois em 2000 a proporção de ignorados (17,14%) foi bem superior à encontrada em 2004 (2,97%).

Quanto à escolaridade, verificou-se ser esta uma variável de resultado não-confiável. Tal afirmação justificase pelo fato da proporção de registros classificados como ignorado compor mais da metade da amostra no agrupado dos anos (52,21%) e isoladamente, em cada ano pesquisado. Percebe-se, portanto, que a notificação deste dado parece ser falha, fato que poderia estar gerando viés nos resultados encontrados. Desconsiderando os ignorados, verificamos que quanto menor a escolaridade, maior o risco de morte por câncer de laringe. Este dado está em consonância com a literatura16,22,23.

Em relação ao estado civil, os maiores coeficientes de mortalidade encontrados estão entre os casados. As proporções sofreram discretas alterações ao longo dos anos pesquisados, contudo os indivíduos casados sempre detiveram os maiores índices em relação aos demais. Esse resultado está em consonância com os registros obtidos pela análise de Declarações de óbitos no Rio de Janeiro em 1990 e 199925,26. Assim como a escolaridade, o estado civil é considerado um importante influenciador na qualidade de vida global do indivíduo acometido por câncer de cabeça e pescoço24. Não foi encontrada na literatura nenhuma referência que faça algum tipo de relação direta entre o óbito e o estado civil do sujeito, estando este dado mais relacionado à qualidade de vida.

A pesquisa constatou o grande percentual de óbitos em ambiente hospitalar, o que pode ser justificado por ser o câncer um grupo de doenças que necessita de assistência especializada. Considerando as propriedades do agravo, preconiza-se a vigilância do enfermo em ambiente hospitalar com objetivo de monitorar a evolução da neoplasia. Portanto, é esperado que o óbito neste local de ocorrência seja bem mais freqüente em relação aos demais, como já constatado em outros estudos25,26.

Refletindo sobre os resultados da presente pesquisa, percebe-se que as informações coletadas por este tipo estudo são importantes para que se compreenda a situação epidemiológica de uma determinada região. Os resultados encontrados podem servir de instrumento para a busca de melhorias na assistência, abrangência e qualidade do atendimento ao paciente com neoplasia laríngea em Pernambuco. Sugere-se que pesquisas como essa também sejam realizadas em outros estados e regiões, possibilitando estabelecer um panorama mais detalhado e atual da realidade do câncer no Brasil.

 

CONCLUSÃO

Esta pesquisa constatou um perfil relativamente estável para a mortalidade por câncer de laringe em Pernambuco, no qüinqüênio compreendido entre 2000 e 2004, sugerindo que há uma tendência a mínimas variações anuais. Foram evidentes as desigualdades entre os municípios pernambucanos na distribuição de óbitos por câncer de laringe, com grande concentração de óbitos na região do Sertão e áreas distantes da capital.

As variáveis sociais revelaram o predomínio do seguinte perfil: indivíduo do sexo masculino na sexta década de vida, pardo, casado, com baixa escolaridade, cujo óbito ocorreu em ambiente hospitalar.

 

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Endereço para correspondência:
Leandro de Araújo Pernambuco
Rua Waldemar Lima 336 Salgadinho
Olinda PE 53110-630

Este artigo foi submetido no SGP (Sistema de Gestão de Publicações) da RBORL em 30 de setembro de 2007. cod. 4831
Artigo aceito em 13 de abril de 2008.