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Revista Brasileira de Otorrinolaringologia

Print version ISSN 0034-7299

Rev. Bras. Otorrinolaringol. vol.75 no.2 São Paulo Mar./Apr. 2009

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-72992009000200014 

ARTIGO ORIGINAL

 

Estudo comparativo das alterações celulares no líquen plano e no carcinoma epidermóide bucal

 

 

Fernando Augusto Cervantes Garcia de SousaI; Thaís Cachuté ParadellaII; Adriana Aigotti Haberbeck BrandãoIII; Luiz Eduardo Blumer RosaIV

IMestre em Biopatologia Bucal (Cirurgião-Dentista)
IIMestre em Odontologia Restauradora (Cirurgiã-Dentista)
IIIProfessora Doutora de Patologia Geral da FOSJC/UNESP (Médica)
IVProfessor Adjunto de Patologia Bucal da FOSJC/UNESP (Cirurgião-Dentista)

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

Atualmente, muito se discute a respeito da natureza pré-maligna do líquen plano bucal.
OBJETIVO: O presente trabalho tem como objetivo analisar as alterações das células epiteliais presentes no líquen plano bucal, comparando-as com aquelas observadas no carcinoma epidermóide.
MATERIAL E MÉTODO: Cortes histológicos de líquen plano bucal e carcinoma epidermóide, corados com hematoxilina-eosina, foram analisados por meio da microscopia de luz.
RESULTADO: As alterações mais frequentemente observadas no líquen plano bucal foram aumento da relação núcleo/citoplasma (93,33%), espessamento da membrana nuclear (86,67%) e bi-ou multinucleação (86,67%). O teste t de Student (alfa=5%) revelou haver diferença estatisticamente significante entre o número médio de alterações celulares no líquen plano bucal (5,87±1,57) e no carcinoma epidermóide (7,60±1,81). Quanto aos tipos de alterações, o teste de qui-quadrado também revelou haver diferença estatisticamente significante entre as lesões avaliadas em relação às seguintes alterações celulares: hipercromatismo nuclear, mitoses atípicas, pleomorfismo celular e diferenciação celular anormal (p<0,05).
CONCLUSÃO: Apesar de que, em alguns casos, alguns patologistas possam fazer confusão no diagnóstico histopatológico do líquen plano bucal, os resultados obtidos neste estudo mostram que as alterações presentes no líquen plano bucal diferem consideravelmente daquelas observadas no carcinoma epidermóide, evidenciando o quão distintas são estas duas doenças.

Palavras-chave: carcinoma epidermóide, líquen plano bucal, mucosa bucal.


 

 

INTRODUÇÃO

Desde 1910, quando o primeiro caso de câncer gengival num paciente com líquen plano bucal (LPB) foi relatado, esta doença tem se tornado alvo de muita controvérsia. A partir de então, diversos estudos vêm sendo realizados com o intuito de avaliar o possível potencial de transformação maligna do LPB. Tais estudos revelaram haver uma probabilidade de até 6,51% de uma lesão inicialmente diagnosticada como LPB sofrer transformação maligna ao longo dos anos1-5 e constituíram base para que a Organização Mundial da Saúde (OMS) classificasse o LPB como uma condição cancerizável6.

Alguns autores, porém, acreditam que tal transformação ainda não foi suficientemente documentada para justificar esta classificação. De acordo com estes autores, faltam critérios mais precisos para se diagnosticar com exatidão o LPB, em particular do ponto de vista histopatológico. Assim, grande parte dos casos de transformação maligna não poderia ser considerada como tal, uma vez que, nestes, provavelmente já havia indícios histopatológicos sugestivos de malignidade no momento do diagnóstico inicial, o que afastaria a hipótese de LPB7-8.

Van der Meij e Van der Waal9 (2003), ilustraram bem a dificuldade em torno do diagnóstico do LPB. Estes autores verificaram que em 42% dos casos, nos quais houve plena concordância a respeito do diagnóstico clínico da doença, não existiu consenso em relação ao diagnóstico histopatológico. Isto provavelmente acontece porque o próprio processo inflamatório presente no LPB é capaz de levar ao aparecimento de alterações celulares semelhantes àquelas vistas na displasia epitelial, ou mesmo, no carcinoma epidermóide (CEC)10.

Neste contexto, o presente trabalho teve como objetivo analisar as alterações das células epiteliais presentes no LPB, comparando-as com aquelas observadas no CEC, buscando assim diferenças e semelhanças que facilitem o seu diagnóstico histopatológico e que melhor estabeleçam sua natureza inflamatória.

 

MATERIAL E MÉTODO

Após levantamento dos casos de LPB e CEC diagnosticados pelo Serviço de Patologia Cirúrgica da Faculdade de Odontologia de São José dos Campos UNESP, no período de 1995 a 2005, foram selecionados aleatoriamente trinta casos de cada lesão. Estes casos foram reavaliados por três examinadores independentes e previamente calibrados, visando confirmar o diagnóstico histopatológico inicial. Havendo dúvida, o caso em questão foi imediatamente substituído.

Nos casos de LPB foram adotados os critérios histológicos definidos por Eisenberg7 (2000) como essenciais para o seu diagnóstico, conforme descrito no Quadro 1. Além disso, só foram incluídos neste estudo os casos cujas características clínicas e a sua evolução não geravam dúvidas em relação ao diagnóstico de LPB e cujos pacientes não faziam uso de tabaco ou bebidas alcoólicas.

 

 

Os blocos de parafina contendo o material biopsiado referente a cada caso foram então separados. A partir deles foram feitos novos cortes com 5µm de espessura, os quais foram estendidos em lâminas de vidro previamente limpas e desengorduradas para posterior coloração pela hematoxilina e eosina (HE).

A seguir, os cortes histológicos foram observados em microscopia de luz por dois examinadores independentes e previamente calibrados. Os examinadores analisaram as alterações das células epiteliais presentes em cada caso, levando-se em consideração os seguintes critérios:

a) aumento da relação núcleo/citoplasma;

b) hipercromatismo nuclear;

c) distribuição irregular da cromatina;

d) espessamento da membrana nuclear;

e) perda da adesão celular;

f) aumento do tamanho e número dos nucléolos;

g) bi- ou multinucleação;

h) mitoses atípicas;

i) pleomorfismo celular;

j) diferenciação celular anormal.

Havendo discordância entre os examinadores quanto à presença ou não de alguns destes critérios, os casos foram analisados por um terceiro examinador, nas mesmas condições dos anteriores, prevalecendo a opinião da maioria.

Os dados obtidos foram tabulados e submetidos à análise estatística por meio dos testes t de Student e de qui-quadrado, ambos ao nível de significância de 5%.

Por fim, vale ressaltar que todos os procedimentos descritos foram previamente autorizados pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Faculdade de Odontologia de São José dos Campos-UNESP, sob o protocolo número 008/2006-PH/CEP de 14 de março de 2006.

 

RESULTADOS

Após análise dos casos selecionados, observou-se no LPB uma média de 5,87 (±1,57) alterações celulares por caso analisado, enquanto que nos casos de CEC esta média foi de 7,67 (±1,81). O teste t de Student revelou haver diferença estatisticamente significante entre o número médio de alterações celulares presentes nestas duas lesões (p<0,05).

Quanto aos tipos de alterações, as mais frequentemente observadas no LPB foram: aumento da relação núcleo/citoplasma (93,33%), espessamento da membrana nuclear (86,67%) e bi- ou multinucleação (86,67%). Não se observou em nenhum dos casos avaliados mitoses atípicas ou diferenciação celular anormal.

No CEC verificou-se, em geral, um aumento da frequência de todas as alterações analisadas, sendo que diferenciação celular anormal (100%), hipercromatismo nuclear (96,67%) pleomorfismo celular (96,67%) foram as alterações mais frequentemente observadas (Figura 1).

 

 

O teste de qui-quadrado mostrou haver diferença estatisticamente significante entre o LPB e o CEC em relação às seguintes alterações celulares: hipercromatismo nuclear, mitoses atípicas, pleomorfismo celular e diferenciação celular anormal (p<0,05).

 

DISCUSSÃO

Embora seja relativamente comum, o LPB sempre foi alvo de muita controvérsia, especialmente em relação ao seu potencial de malignização. Levantamentos de casos realizados recentemente em vários países estimulam ainda mais tal controvérsia, indicando haver uma taxa de transformação maligna entre 0,65% e 6,51%1-5.

Contudo, alguns autores acreditam que tal transformação ainda não foi suficientemente documentada para justificar a classificação do LPB como condição cancerizável, conforme propõe a OMS6. Para estes autores, faltam critérios tanto clínicos quanto histopatológicos que permitam diagnosticar o LPB com maior precisão, o que tornaria questionáveis os casos de transformação maligna relatados na literatura7-8.

De fato, este estudo revelou que alterações celulares como aumento da relação núcleo/citoplasma, distribuição irregular da cromatina, espessamento da membrana nuclear, perda da adesão celular, aumento do tamanho e número dos nucléolos e bi- ou multinucleação podem ser observadas tanto no LPB quanto no CEC.

Isto provavelmente acontece porque algumas alterações de caráter inflamatório são semelhantes àquelas vistas nas neoplasias malignas, em especial, as que sugerem uma maior atividade proliferativa em consequência da ação dos inúmeros fatores de crescimento liberados na inflamação crônica sobre as células epiteliais10. Mesmo assim, para Mignogna et al.11, tais alterações devem ser analisadas com maior cuidado, uma vez que atualmente existem evidências suficientes comprovando que processos inflamatórios crônicos criariam um microambiente baseado em citocinas capaz de influenciar a sobrevida das células, além do seu crescimento, proliferação e diferenciação, contribuindo consequentemente com a iniciação, promoção e progressão do câncer.

Portanto, não é difícil de entender porque mesmo os patologistas mais experientes podem confundir Quadros de displasia epitelial com o LPB, especialmente nos casos em que há um processo inflamatório crônico mais intenso. Tal situação infelizmente não é rara, tanto que nos últimos anos a OMS passou a definir uma condição à parte, conhecida como displasia liquenóide. Esta, além de apresentar características bastante semelhantes às observadas no LPB, exibe graus variados de displasia epitelial e, consequentemente, maior possibilidade de sofrer transformação maligna.7-8,10,12-15. Além disso, outras condições também podem apresentar características histopatológicas semelhantes às encontradas no LPB, incluindo reações liquenóides, lúpus eritematoso, leucoplasia, eritroleucoplasia e leucoplasia verrucosa proliferativa10.

Todavia, os resultados obtidos neste estudo indicam que mitoses atípicas e diferenciação celular anormal são alterações inerentes ao CEC e que a presença de hipercromatismo nuclear e pleomorfismo celular são mais frequentes observadas neste do que no LPB. Assim, tais alterações podem ajudar a distinguir o LPB de outras doenças de natureza displásica e, consequentemente, com potencial de transformação maligna.

Assim, se por um lado, os dados levantados neste estudo reforçam a hipótese de que muitos dos casos de transformação maligna descritos na literatura são resultados de falhas no diagnóstico inicial da doença, por outro lado, mostraram existir diferenças histopatológicas significativas entre estas duas lesões, uma vez que as alterações mais frequentemente observadas no LPB foram aumento da relação núcleo/citoplasma (93,33%), espessamento da membrana nuclear (86,67%) e bi ou multinucleação (86,67%); e no CEC foram diferenciação celular anormal (100%), hipercromatismo nuclear 96,67%) e pleomorfismo celular (96,67%).

Por fim, vale ressaltar que, embora estudos recentes proponham a utilização de metodologias mais avançadas ao se estudar o potencial de transformação maligna do LPB16-19, o conhecimento detalhado de suas características histopatológicas e, principalmente, o acompanhamento rigoroso de sua evolução clínica ainda são essenciais para se entender a verdadeira natureza desta doença.

 

CONCLUSÃO

Apesar de que, em alguns casos, alguns patologistas possam fazer confusão no diagnóstico histopatológico do LPB, os resultados obtidos neste estudo mostram que as alterações presentes no LPB diferem consideravelmente daquelas observadas no CEC, evidenciando o quão distintas são estas duas doenças.

 

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Endereço para correspondência:
Fernando Augusto Cervantes Garcia de Sousa
Rua Irmã Maria Demétria Kfruri 196
Jardim Esplanada II 12242-500
São José dos Campos São Paulo SP
CAPES

Este artigo foi submetido no SGP (Sistema de Gestão de Publicações) da RBORL em 17 de outubro de 2007. cod. 4876
Artigo aceito em 4 de março de 2008.