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Revista Brasileira de Política Internacional

Print version ISSN 0034-7329On-line version ISSN 1983-3121

Rev. bras. polít. int. vol.41 no.2 Brasília July/Dec. 1998

https://doi.org/10.1590/S0034-73291998000200012 

INFORMAÇÃO
RESENHAS

 

Hélio Marcos Doyle

 

 

BANDEIRA, Luiz Alberto Moniz. De Martí a Fidel: A Revolução Cubana e a América Latina. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1998, 687 p.

A revolução cubana, "inquestionavelmente o maior acontecimento da América Latina no século XX", como a qualifica o professor Luiz Alberto Moniz Bandeira, é o objeto da mais recente obra deste historiador e cientista político de invejável fôlego para pesquisar, refletir e escrever. É o 16º livro de Moniz Bandeira dedicado à pesquisa histórica, e, tal como os anteriores, um trabalho extenso e profundo.

Nos primeiros parágrafos da introdução, o autor, atualmente morando na Alemanha, diz que a motivação para realizar a pesquisa foi o contraste que ainda assombra muita gente: como Cuba conseguiu resistir ao desmerengamiento da antiga União Soviética e do bloco socialista europeu, tendo sua população um padrão de vida menor do que o da extinta República Democrática Alemã?

Para explicar isso, Moniz Bandeira analisa a revolução cubana e o contencioso que ela ainda provoca com os Estados Unidos. Mas, libertando-se da tendência de fazê-lo a partir de um ponto de vista norte-americano, propôs-se a comprovar suas hipóteses a partir de um ponto de vista latino-americano e brasileiro.

São cinco as hipóteses apresentadas pelo autor, que em resumo pretende comprovar que a revolução cubana, um movimento de caráter nacional e democrático, não foi uma operação soviética, mas resultado das contradições não-resolvidas entre os Estados Unidos e a América Latina. Não era inevitável, segundo Moniz Bandeira, que o movimento liderado por Fidel Castro se identificasse com o comunismo. Essa identificação foi uma contingência histórica resultante da política implementada pelos Estados Unidos, e não pela antiga URSS.

Moniz Bandeira pretende demonstrar, em sua volumosa obra, que a revolução cubana radicalizou-se para defender a nação ameaçada pelos governos de Washington e as conquistas obtidas pela população. O povo cubano, agora, não vê na mudança do regime uma possibilidade de melhorar sua vida – pelo contrário.

Diante de tão ambiciosas hipóteses, é natural que o autor, como é de seu estilo, tenha mergulhado no exame de volumosa e substancial documentação, fontes primárias e secundárias obtidas não só nos Estados Unidos, como no Brasil e na Alemanha. Lamentável que, conforme observa, não tenha podido pesquisar nos arquivos cubanos, embora tenha realizado entrevistas com personagens importantes dessa história. Valeu-se também, é claro, de sua própria vivência – como jornalista e militante político que foi – , o que o colocou como testemunha privilegiada de muitos dos momentos narrados.

O resultado é a uma análise histórica que começa em 1776, com a constituição dos Estados Unidos, e vem até nossos dias. O autor situa a revolução cubana no contexto da História e das relações entre Cuba, os Estados Unidos e a América Latina. Conta alguns episódios com minúcias, agregando fatos até agora desconhecidos. Tudo muito bem explicado e fundamentado em documentos e bibliografia.

As hipóteses vão se comprovando ao longo do texto, à medida em que os fatos vão sendo expostos, interrelacionados e analisados. Há, naturalmente, afirmações que podem gerar infindáveis polêmicas, como a de que o governo revolucionário converteu-se em uma ditadura, mas uma ditadura que favorecia a grande maioria do povo cubano e sem a qual não teria sido possível derrotar os esforços contra-revolucionários alimentados pelos Estados Unidos (p. 289). Ou a identificação que o autor faz, em vários momentos, entre as idéias de Fidel Castro e Ernesto Che Guevara e as defendidas por Leon Trotsky.

À medida que o trabalho vai abordando os temas mais contemporâneos, dos últimos dez anos, é que, porém, pode-se abrir uma polêmica maior. Ao abordar os episódios referentes à condenação à morte do general Arnaldo Ochoa, por exemplo, Moniz Bandeira envereda por afirmações perigosas, como a de que "Cuba se envolvera no tráfico de diamantes, marfim e armas" em Angola e que "a realização de negócios clandestinos e ilícitos terminou, provavelmente, por abranger o narcotráfico, com ou sem o conhecimento de Castro..." (p. 598/9).

Ora, foi justamente por ter se envolvido nesse tráfico que Ochoa e outros militares cubanos foram condenados à morte e a penas de prisão na célebre e traumática Causa 1/89. Fica claro, não só pelo que consta dos autos desse processo (que foi público) como por obras não editadas em Cuba, como "Los cubanos en Angola", do professor e diplomata boliviano Carlos Antonio Carrasco (La Paz: Centro de Altos Estudios Internacionales, 1997) que nem Fidel nem os principais dirigentes do governo cubano sabiam em que Ochoa, Heroe de la Revolución, estava metido.

Bastante discutível também é a afirmação do autor de que ocorreu "o completo restabelecimento em Cuba da economia de mercado" (p. 622). O autor cita a abertura ao capital estrangeiro, a privatização de algumas atividades econômicas e o fato de somente as atividades de educação, saúde e defesa terem permanecido monopólio do Estado.

Não há dúvida de que a revolução cubana teve, diante do novo quadro mundial, de recuar do objetivo de construir uma sociedade socialista nos marcos adotados por seus dirigentes, com ampla aprovação popular, desde os primeiros anos da década de 60. É inegável também que nos últimos anos ocorreu a progressiva adoção de mecanismos e instrumentos da economia de mercado.

Mas, daí para se falar em completo restabelecimento da economia de mercado vai uma boa distância. O Estado mantém a maior parcela do produção nacional e controla totalmente a política financeira e as atividades do capital estrangeiro. Não há a menor comparação entre as condições em que se recebe o capital estrangeiro em Cuba e em países como o Brasil e a Argentina. Os investidores obtêm em Cuba melhor retorno a seus investimentos, mas submetem-se às políticas traçadas pelo governo.

Questões como essas só contribuem para reafirmar a qualidade e a importância do livro do professor Moniz Bandeira, fundamental – como, aliás, são suas demais obras – para os que estudam as relações internacionais, a história das relações internacionais e a questão cubana. A relevância do trabalho deixa em segundo plano pequenos pecados como citar a "própria filha de Castro", Alina (profundamente contra-revolucionária e residente nos Estados Unidos) como fonte séria para falar da prostituição em Cuba e afirmar que a Petrobras suspendeu seus trabalhos em Cuba porque viu que não encontraria petróleo em quantidade comercial. Como se sabe, a Petrobras acaba de assinar um contrato para explorar petróleo em Cuba.

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