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Revista Brasileira de Política Internacional

Print version ISSN 0034-7329

Rev. bras. polít. int. vol.42 no.1 Brasília Jan./June 1999

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-73291999000100014 

INFORMAÇÃO
RESENHAS

 

 

José Flávio Sombra Saraiva

 

 

SUKUP, Víktor. Europa y la globalización. Tendencias, problemas, opiniones. Buenos Aires: Corregidor, 1998, 386 p.

A nova obra do austríaco que se fez latino-americano, nas expressões de Aldo Ferrer no prólogo de Europa y la globalización, evidencia o ângulo de quem, há mais de dez anos, trocou a Áustria pelo Extremo Ocidente. A Europa é revisitada por meio de uma linguagem solta, sem as amarras do excesso de rigor da pesquisa documental do historiador das relações internacionais e com a desenvoltura da tradição ensaísta da América Latina. O europeu converte-se às hostes daqueles que buscam, por intermédio da vontade integradora da explicação e do uso de uma certa sociologia das relações internacionais, uma maneira toda especial de ver a Europa na passagem do milênio.

O norte da obra é o da relação da Europa com o fenômeno da globalização. Encontrará a Europa um lugar próprio na ordem global? Vem a Europa explorando as oportunidades abertas pelas novas rotas produtivas e financeiras mundiais? Há riscos para a inserção competitiva na Europa, particularmente diante da hegemonia norte-americana neste final de século? São essas algumas perguntas essenciais, abordadas por Sukup com elegância e vontade de intervir no espaço das decisões políticas do seu tempo.

Dividida em três partes que apresentam, simultaneamente, relativa identidade própria, a obra tem unidade e consistência. Na primeira parte, discute-se os passos múltiplos que foram dados, em diferentes tempos, para a construção da Europa integrada econômica e culturalmente. A formação da União Européia, seus avanços e percalços, é abordada de forma evolutiva, desde os antecedentes dos Tratados de Roma, passando pelas crises do "euro-pessimismo" dos anos 1970 e 1980, até os desdobramentos recentes e polêmicos acerca da difícil armação da união monetária. Valioso balanço dos diferentes momentos dessa verdadeira saga européia é apresentado nas cem primeiras páginas do livro.

A segunda parte é mais investigativa. Aborda Sukup as relações da Europa Ocidental com sua porção oridental, especialmente com a União Soviética. A queda do muro de Berlim e a desintegração da União Soviética impõem desafios ao projeto da União Européia. A tensão entre o aprofundamento das regras societárias do clube europeu ocidental e, de outro lado, a vontade política de imaginar um projeto mais abrangente, mais amplo geográfica e culturalmente, que abarque toda a Europa, é questão que inquieta o autor. Sukup não sucumbe à sedução da solução fácil. Provoca e sugere nova abordagem para as relações entre a União Européia e a OTAN nas futuras relações entre a Europa Ocidental e Oriental.

A terceira parte da obra pode ser de interesse maior para o estudioso latino-americano dos assuntos europeus. As relações da Europa com o mundo são investigadas em quase cento e cinqüenta páginas cheias de dúvidas e perguntas. Os subtítulos do capítulo são curiosos. Perguntam mais do que afirmam. O Mediterrâneo é apresentado por meio de sua dimensão nova, assemelhada à do velho Muro de Berlim dos tempos da Guerra Fria, separando os europeus dos "novos bárbaros" que cruzam o Gibraltar para "tomar a Europa". A dimensão neocolonial da presença européia na África Negra é discutida na perspectiva do embate conceitual entre as noções de "ajuda" e "dominação". As relações da Europa com a Ásia são abordadas sob prisma particular: o autor afirma que as velhas histórias do passado colonial foram substituídas pelo diálogo da competição.

Há dois temas finais de particular interesse ao leitor brasileiro e latino-americano. O primeiro são as idéias de Sukup relativas às possibilidades de uma nova associação da América Latina com a Europa. Às vésperas da Cimeira da Europa, da América Latina e do Caribe, a matéria é angustiante. A América Latina, agarrada às novas formas de dependência em relação aos mercadores de Wall Street e aos gabinetes de Washington, necessita de um alento ou brecha que a Europa pode vir a oferecer. Sukup defende a nova associação, sustenta que ela tem lastro histórico e eficácia contemporânea. Insiste no fato de que os lados são sócios naturais no comércio internacional, apesar da assimetria e das flutuações dos fluxos. Apesar de falar de "perspectivas inciertas" da associação, Sukup, no fundo, ironiza a manchete do jornal norte-americano que reclamava da sonolência norte-americana diante da "invasão silenciosa" dos europeus no Mercosul. Este é o lugar mais preciso para se perceber a conversão latino-americana do autor.

Um segundo tema de grande relevância da obra escrita por Sukup é aquele relativo aos desafios para o exercício do poder neste mundo marcado por uma "única política", quase monótona, que se contenta em reproduzir, sem vontade própria, os desideratos dos vencedores da globalização. Em muito bem concebidas vinte páginas, o autor manifesta certo alento diante das vitórias eleitorais da "esquerda" (nas suas palavras) na Grã-Bretanha e na França, em 1997. Para ele, uma maneira nova de fazer política poderia estar emergindo. Será que Tony Blair está à frente de uma alternativa à Europa liberal-conservadora? Poucos acreditariam, inclusive os ingleses, nessa idéia. Em todo caso, há aqui um aspecto bastante criativo, e de grande atualidade, nas preocupações de Sukup. Quais são as possibilidade da política diante dos ventos liberais que tomaram conta do mundo, não apenas da Europa? A pergunta permanece. As respostas ainda são tímidas.

As razões expressas nessa resenha sugerem a leitura do livro de Sukup. Obra de síntese, introdutória, mas escrita com um estilo arrojado e próprio; o autor soube localizar os problemas, as tendências e opiniões que ajudaram e continuam a contribuir à construção do projeto europeu.