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Revista Brasileira de Política Internacional

Print version ISSN 0034-7329

Rev. bras. polít. int. vol.43 no.2 Brasília July/Dec. 2000

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-73292000000200013 

INFORMAÇÃO
RESENHAS

 

Ione Oliveira

 

 

LOHBAUER, Christian. Brasil-Alemanha: fases de uma parceria (1964-1999). São Paulo, Fundação Konrad Adenauer/Edusp, 2000, 199 p.

O cientista político Christian Lohbauer, após a conclusão de seu doutoramento em 1999, junto à Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, reformula sua tese e elabora Brasil-Alemanha: fases de uma parceria (1964-1999). Publicado sob os auspícios da Fundação Konrad Adenauer e da editora da USP, o texto dedica-se ao estudo evolutivo das relações bilaterais do Brasil com a República Federal da Alemanha e, após 1990, com a Alemanha unificada. Ressalta as políticas nacionais e internacionais dos dois países, bem como suas abrangências no contexto internacional. Dentro da ordem internacional vigente no período, também prioriza as interações do Brasil e da República Alemã com os Estados Unidos.

Partindo do paradigma da "aliança especial com os Estados Unidos" e do paradigma "globalista" para explicar a atuação do Ministério das Relações Exteriores ao longo da história republicana do Brasil, Lohbauer adota o segundo, mesmo reconhecendo que o Brasil teve os Estados Unidos como aliado especial entre 1964 e 1967 e entre 1990 e 1992. O paradigma "globalista" tem como base a posição mais autônoma do Brasil no mundo, na busca de uma política externa visando sua melhor inserção no cenário internacional. Assim, as relações bilaterais entre o Brasil e a RFA destacaram e destacam-se por marcar a tentativa brasileira de obter uma maior autonomia no panorama mundial e de conquistar um expressivo poder de barganha frente aos países desenvolvidos, principalmente em relação aos Estados Unidos.

Brasil-Alemanha: fases de uma parceria é analisado em quatro etapas, caracterizadas pela aproximação ou pelo distanciamento entre os dois países de acordo com as injunções políticas internas e externas de cada um deles. Inicialmente, Christian Lohbauer expõe as condições históricas da aproximação, elaboração e implementação do intercâmbio entre Brasil e Alemanha até a década de 1960. Ressalta o aspecto da complementaridade entre os dois países no que se refere aos interesses econômicos. No primeiro capítulo, "O nascimento da parceria (1964-1973)", analisa o aprofundamento das relações Brasil-RFA e dá relevância ao caráter de cooperação do governo alemão para com o Brasil. Atribui à retórica diplomática de amizade entre os países uma importância significativa. No segundo capítulo aborda o pragmatismo do governo Ernesto Geisel e o estabelecimento de uma "aliança especial" (1974-1982) entre o Brasil e a RFA. Elabora uma interessante análise sobre a importância da indústria atômica para este país europeu e a necessidade de novos contratos para o setor, visando aumentar as exportações alemãs em decorrência da relativa crise econômica interna.

No terceiro capítulo disserta sobre o distanciamento das relações diante da crise dos anos 80, a chamada "década perdida". Aponta a ausência de uma política específica do governo alemão para o Brasil e para a América Latina desde 1949. No último capítulo analisa a reaproximação dos dois países na era da globalização (1990-1999), atribuindo a iniciativa da reaproximação da Alemanha com a América Latina ao melhor desempenho econômico e à abertura política no subcontinente. Além disso, o Brasil torna-se, na década de 1990, um país de relevância para a RFA, devido a sua importância regional no Mercosul e em virtude das possibilidades de realização de projetos para a preservação do meio ambiente.

De acordo com o autor, o objetivo do trabalho é "demonstrar que, da perspectiva brasileira, as relações com a RFA foram mais amplas do que a simples cooperação comercial e industrial" (p. 22). De forma subjacente, entretanto, fica clara a condução da análise pelo veio econômico enquanto ação externa dos governos brasileiros entre 1964 a 1999 para assegurar o desenvolvimento econômico brasileiro através de sua capacidade para atrair parcelas significativas dos empréstimos públicos e dos investimentos privados oriundos da RFA. Afirma que a política externa brasileira é exercida claramente a serviço do desenvolvimento econômico.

Pela perspectiva alemã, os fluxos e refluxos dessa parceria são marcados pelos índices de crescimento econômico do Brasil, pela possibilidade do mercado brasileiro de importar equipamentos e tecnologia e pela estabilidade político-financeira no país para os investidores alemães. Isto é, durante os períodos de crise da economia brasileira, as relações bilaterais entre Brasil-RFA sofrem um distanciamento, deixando de existir a complementaridade econômica.

A obra compila interpretações sobre as relações Brasil-RFA, baseando-se na análise de bibliografia e artigos de jornais encontrados, principalmente, nos diversos institutos de pesquisa da Alemanha sobre a América Latina. Contudo, o trabalho de reflexão de Lohbauer sobre a parceria entre dois países de realidades políticas e econômicas tão complexas só teria a ganhar se o esforço do autor tivesse sido estendido às análises das fontes diplomáticas. O trabalho, que possui uma perspectiva histórica, deixa de realizar uma discussão epistemológica importante para o relacionamento bilateral ao negligenciar a documentação diplomática. O estudo de Moniz Bandeira sobre o mesmo tema nos autoriza o comentário.

Conviria, enfim, corrigir algumas imprecisões do texto. Afirma-se, por exemplo, que "...final de outubro de 1968, ocorre a primeira visita de um ministro do Exterior alemão ao Brasil" (p. 42). Entretanto, Heinrich von Brentano, Ministro do Exterior da República Federal da Alemanha entre 1955 a 1961, visitou o Brasil entre 29 de agosto a 7 de setembro de 1960. Também quanto à titulação dos representantes dos órgãos constitucionais alemães, a obra pode provocar alguma confusão ao leitor desatento: o chanceler Helmut Schmidt é denominado equivocadamente de "presidente" Schmidt (p. 25), enquanto Willy Brandt, então Ministro das Relações Exteriores, de "chanceler" (p. 40). Ainda assim, a publicação ocupa uma posição relevante entre as análises sobre as relações bilaterais brasileiras.