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Revista Brasileira de Política Internacional

Print version ISSN 0034-7329

Rev. bras. polít. int. vol.43 no.2 Brasília July/Dec. 2000

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-73292000000200015 

INFORMAÇÃO
RESENHAS

 

Antonio José Barbosa

 

 

GARCIA, Eugênio Vargas. Cronologia das Relações Internacionais do Brasil. São Paulo/Brasília: Editora Alfa-Ômega/Fundação Alexandre de Gusmão/FUNAG, 2000, 222 p.

_____. O Brasil e a Liga das Nações (1919–1926). Porto Alegre/Brasília: Ed. da Universidade/UFRGS/Fundação Alexandre de Gusmão/FUNAG, 2000, 167 p.

Um jovem autor, Eugênio Vargas Garcia, lança quase que simultaneamente dois trabalhos de relevância para o estudo da política externa brasileira e da inserção do país no cenário internacional. O primeiro é Cronologia das Relações Internacionais do Brasil, um pequeno grande livro que consegue o prodígio de, em pouco mais de duzentas páginas, fixar, em seus marcos essenciais, a trajetória do Brasil em relação ao exterior, dos primórdios da colonização portuguesa ao ano de 1998.

Pode-se dizer que a mais expressiva contribuição oferecida por essa obra reside naquilo que, ao próprio autor, pode parecer algo menor, como se depreende de suas palavras apresentadas na Nota Introdutória. Refiro-me à recuperação do "fato histórico" como elemento insubstituível a um bem estruturado trabalho de interpretação. Com efeito, ao apontar os males de que padece qualquer cronologia, Garcia menciona o factualismo de origem, a arbitrariedade na seleção e no ordenamento dos fatos e a inevitável simplificação que acomete esse tipo de trabalho.

Quanto à arbitrariedade, impossível apontar um trabalho de investigação científica, independentemente da área, que não esteja contingenciado por esse fator. Somente os objetivos que presidem a montagem de um projeto e, sobretudo, o produto dele resultante ao ser oferecido ao exame do público, é que justificarão as opções feitas pelo autor. Portanto, não se trata de um problema exclusivo das cronologias.

No que tange o factualismo, penso que, em vez de ser sintoma de fragilidade, uma cronologia como a que produziu Eugênio Garcia é de superlativa importância, mormente nos dias de hoje. A propósito, vale lembrar que não existe História sem os fatos, a despeito da existência de uma corrente de historiadores, na atualidade, que praticamente não vê diferença entre história e literatura, para quem o passado é construído nas asas da imaginação e que abominam a pretensão científica do método histórico. Eis uma bela razão pela qual o livro de Garcia cumpre inclusive função pedagógica: aponta os fatos, encadeando-os no processo histórico brasileiro e mundial e, mesmo com a natural economia de palavras e de espaço que uma obra dessa natureza requer, contextualiza-os de maneira adequada, fornecendo aos estudiosos da área um excelente instrumento para subsidiar seus trabalhos.

O Brasil e a Liga das Nações (1919–1926) pertence a uma outra categoria de trabalho intelectual. Como assinalou Celso Lafer, que assina o Prefácio, o mérito indiscutível do livro é conferido de um lado, pelo rigor da pesquisa e pela pertinência da análise e, de outro, pela relevância do tema. Se concordamos ter sido a Grande Guerra de 1914 o início histórico do século XX, por representar o confronto final das contradições e rivalidades gestadas ao longo do século XIX, justo reconhecer na Liga das Nações a primeira tentativa de ordenamento do poder mundial na nova realidade que brotava ao fim do conflito. Só por isso o tema já seria relevante, importância que se amplia consideravelmente quando se leva em consideração o quão pouco ele é estudado entre nós.

Há outro aspecto a ser ressaltado. Reporto-me à precisa utilização do método histórico, a começar pelo minucioso levantamento de sete grandes arquivos, o manuseio de fontes impressas diversas – com destaque para a impressionante relação de jornais, do Brasil e do exterior –, sem falar na extensa bibliografia, que inclui sugestiva relação de teses acadêmicas. De pouco valeria a utilização de tão vasto material sem um esforço interpretativo bem fundamentado. É o que faz o autor, dando tessitura contextual à Liga das Nações e às tentativas de inserção internacional do Brasil, país periférico com enormes vicissitudes internas, de que a crise geral da República Velha, no transcurso da década de 1920, seria fiel reflexo. Nesse particular, o autor foi bastante feliz, especialmente quando focaliza o crítico quatriênio de Arthur Bernardes, quando "a imagem estática de um país tranqüilo e próspero, que se tentou passar nas comemorações do Centenário da Independência, já mal disfarçava o descontentamento crescente dos diversos movimentos oposicionistas que iam surgindo, inclusive das dissidências no interior das oligarquias dominantes" (p. 71).