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Revista Brasileira de Política Internacional

Print version ISSN 0034-7329

Rev. bras. polít. int. vol.43 no.2 Brasília July/Dec. 2000

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-73292000000200016 

INFORMAÇÃO
RESENHAS

 

Carlos Federico Domínguez Avila

 

 

LOVE, Joseph L. A construção do Terceiro Mundo. Teorias do subdesenvolvimento na Romênia e no Brasil. Tradução de Patrícia Zimbres. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1998; 643 p.

Como os economistas – e outros autores de persuasão estruturalista – do desenvolvimento têm teorizado os complexos e comuns problemas do atraso ou subdesenvolvimento na Europa centro-oriental e na América Latina e Caribe (durante o século XX), em comparação com as economias centrais, industrializadas e capitalistas do Ocidente, parece ser a questão central que orienta o recente trabalho do destacado historiador norte-americano Joseph L. Love.

Joseph Love é professor da Universidade de Illinois (EUA), especialista em história contemporânea e regional do Brasil. Seus primeiros trabalhos sobre a história de Brasil datam da década de 1970. Love oferece-nos no momento um sólido trabalho de pesquisa que podemos localizar especificamente no âmbito da história das idéias. De maneira mais específica, estamos diante de um estudo sobre a evolução das idéias do desenvolvimento em duas regiões consideradas atrasadas. Também as características e os fatores que definem a condição periférica e, ainda, a recuperação das contribuições dos autores romenos, brasileiros e de outras nacionalidades são postas em evidência. O conjunto é utilizado para compreender, interpretar, atuar e, eventualmente, sugerir vias de superação da situação de subdesenvolvimento econômico, sócio-político e tecnológico, no contexto de expansão do sistema capitalista mundial.

Estamos frente a uma temática multidisciplinar e de permanente atualidade. Magistralmente, Love recorre à evolução do pensamento estruturalista, marxista, populista, dependentista, entre outros. O autor adverte que, entre Europa centro-oriental e América Latina, existiriam muito mais semelhanças das que normalmente suspeitamos. Utilizando os casos da Romênia e do Brasil, Love identifica uma surpreendente relação entre autores, idéias e interpretações. Ambos os países – em suas respectivas regiões – constituíram-se nos primeiros laboratórios do que posteriormente se tem chamado Terceiro Mundo (Alfred Sauvy, 1952).

Antes de iniciar a revisão dos grandes temas de debate, parece importante apontar que a estrutura do trabalho inclui três partes (13 capítulos, prefácio, conclusão, referências, e índices). Na primeira parte, o autor analisa o debate sobre o subdesenvolvimento, suas causas, conseqüências e propostas para superá-lo na Romênia, entre 1880 e 1945. Na segunda parte, Love estuda a dinâmica das idéias, fazendo alusão à influencia, às pontes ou paralelismos que possibilitaram o intercâmbio das idéias, propostas e interpretações de importantes autores romenos (tanto como de outras nacionalidades da Europa centro-oriental, especialmente poloneses) para a América Latina, particularmente no que se refere ao surgimento do estruturalismo latino-americano, intimamente relacionado com o pensamento, a obra e a personalidade de Raúl Prebisch, Celso Furtado, Osvaldo Sunkel e outros funcionários da Comissão Econômica para América Latina (CEPAL, fundada em 1948). Finalmente, na terceira parte, Love explora o debate sobre o subdesenvolvimento no caso brasileiro, a partir da década de 1950.

Muitos dos autores romenos, brasileiros e de outras nacionalidades citados por Love, concentram sua atenção em três grandes grupos de problemas:

a) Problemas de Mercado, particularmente de mercado de trabalho: Em geral, argumenta-se que nos países do Terceiro Mundo existe: i) uma complexa relação de excesso de força de trabalho, mas relativa escassez de capital; ii) coexistência de atividades capitalistas e pré-capitalistas (economia dualista); iii) graves problemas de funcionamento dos mercados, particularmente no que se refere ao comportamento econômico do campesinato;

b) Problemas de Comercio Internacional e do Sistema Econômico Internacional: Em geral, a maioria dos autores estruturalistas, marxistas e dependentistas, questionam: i) o desequilíbrio na balança de pagamento devido – entre outras razoes – à tendência dos setores de mais altos ingressos em consumir produtos importados com alta tecnologia; ii) a rejeição da teoria do liberalismo econômico (vantagens comparativas do livre comércio) entre países centrais e periféricos, devido à persistência de uma histórica e evidente tendência à deterioração dos termos de intercâmbio entre produtos primários (agrícolas, minerais, florestais) e industriais (manufaturas) em beneficio – principalmente – dos segundos. Também argumenta-se que os preços dos produtos primários é muito mais volátil e instável que os preços dos produtos industriais, por essa razão os países agrícolas – como Romênia, Brasil e muitos outros na Europa centro-oriental e América Latina e o Caribe – tinham que se industrializar; iii) existe um só sistema Centro-Periferia tanto entre países (imperialismo) como ao interior de cada um deles (colonialismo interno em relação aos interesses dos habitantes das regiões rurais);

c) Desenvolvimento nacional autônomo, o papel do Estado e das burguesias nacionais no fomento ao desenvolvimento: Muitos autores citados por Love argumentam que a industrialização dos países agrícolas é condição necessária para promover padrões de desenvolvimento econômico similares aos observados nos países mais avançados do Ocidente. Dita indústria deveria ser apoiada pelos Estados mediante a introdução de novos critérios de racionalidade econômica, especialmente o planejamento estratégico. Dessa maneira o Estado converte-se em um novo instrumento para induzir o desenvolvimento econômico e sócio-político dos países subdesenvolvidos. O papel da empresa privada local ou burguesia nacional também é objeto de complexos e acalorados debates. Para alguns autores, as burguesias nacionais são progressistas e nacionalistas, sua principal tarefa ainda é industrializar seus países, portanto, os outros segmentos da sociedade deveriam apoiá-las mediante a compressão e a coalizão de classes; outros autores –especialmente de inspiração marxista – achavam que as burguesias nacionais dos países subdesenvolvidos eram reacionárias, conservadoras e aliadas do capital externo (teoria do imperialismo), portanto, as forças sociais progressistas deveriam unir-se e lutar contra ambas na busca do desenvolvimento nacional autônomo, nesse caso, entendido como socialista.

Antes de concluir, vale afirmar que A construção do Terceiro Mundo é uma obra realmente meritória e recomendável; não só pelo domínio que Joseph L. Love exerce em uma temática ampla, profunda e diversa, mas também por sua impecável qualidade técnica, sua facilidade de leitura, sua coerência interna e seu impressionante acervo referencial.