SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.43 issue2A construção do Terceiro Mundo: teorias do subdesenvolvimento na Romênia e no BrasilTodo império perecerá: teoria das relações internacionais author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

Revista Brasileira de Política Internacional

Print version ISSN 0034-7329

Rev. bras. polít. int. vol.43 no.2 Brasília July/Dec. 2000

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-73292000000200017 

INFORMAÇÃO
RESENHAS

 

Carlos Federico Domínguez Avila

 

 

RAPOPORT, Mario e colaboradores. Historia económica, política y social de la Argentina. Buenos Aires: Ediciones Macchi, 2000; 1148 p.

Como é sabido, a Argentina é um dos principais parceiros estratégicos do Brasil. Acadêmicos de ambos países lamentam, contudo, profundamente, o limitado conhecimento de que ainda se dispõe desse vizinho. Afortunadamente, essa tendência está sendo substituída por uma sistemática aproximação e intercâmbio de pesquisas, experiências e projetos. Nesse sentido, com grande satisfação, temos recebido um dos últimos trabalhos sobre a evolução histórica contemporânea da Argentina.

O texto, dirigido pelo reconhecido professor e pesquisador argentino Mario Rapoport, contou com a colaboração de três distintos pesquisadores, Eduardo Madrid, Andrés Musacchio e Ricardo Vicente, todos ligados ao Instituto de de Investigación de Historia Económica y Social da Universidade de Buenos Aires. O trabalho inspira-se nas idéias de totalidade e longa duração da influente escola francesa de história, particularmente das exemplares monografias de Fernand Braudel.

Esquematicamente, o livro divide-se em nove capítulos, estudando um período de 120 anos como se pode observar no título. Cada capítulo analisa uma série compacta de temas econômicos (modelos de crescimento, macroeconomia, relações comerciais), políticos (governabilidade, fenômenos especificamente argentinos como peronismo, evolução do sistema político), sociais (movimento operário, relações Estado-sociedade, problemas sócio-econômicos), assuntos internacionais e muitos outros que têm influenciado a evolução histórica de um país subdesenvolvido, dependente e periférico como é la nación del Plata.

Três aspectos da obra merecem particular destaque, à vista do leitor. Primeiro, a habilidade e o profissionalismo para articular em um discurso variáveis econômicas, políticas, sociais e internacionais, sem perder o devido rigor, a facilidade de leitura e a capacidade explicativa.

Segundo, o livro logra sintetizar equilibrada e objetivamente os desafios, condições e possibilidades que a nação argentina deveu superar durante o século XX. Obviamente, esse não é um tema menor, posto que se trata de um país que durante a primeira metade do século experimentou importantíssimas transformações estruturais, alcançando um inédito grau de crescimento econômico e prosperidade social. Os temas do pós-guerra também são tratados com muito profissionalismo, especialmente no que diz respeito ao peronismo, aos governos militares, à complexa redemocratização dos anos oitenta, culminando com a polêmica revolução (neo)liberal durante o governo de Carlos Saúl Menem.

E, terceiro, o leitor brasileiro certamente dispõe agora de um trabalho particularmente valioso. Rapoport expõe, desde a perspectiva argentina, de maneira sistemática, uma visão e uma avaliação geral do peso que as relações bilaterais tiveram sobre a formação nacional argentina. O capítulo nono é particularmente importante ao estudar o longo, dinâmico e animador processo de integração regional que ambos os países têm promovido durante o século XX, culminando com a criação do MERCOSUL.

Finalmente, cabe reconhecer tecnicamente que o trabalho de Rapoport e colaboradores é lúcido, objetivo, didático e extensamente documentado. Uma pequena limitação relaciona-se com as citações e referências à bibliografia, por vezes confusas. Porém, ao final, o balanço é muito positivo. Não resta senão elogiar o valioso e pertinente aporte de nossos colegas e hermanos del sur.