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Revista Ceres

Print version ISSN 0034-737X

Rev. Ceres vol.60 no.5 Viçosa Sept./Oct. 2013

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-737X2013000500003 

ENGENHARIA FLORESTAL

 

Estrutura florestal em projeto de assentamento, comunidade São Mateus, município de Placas, Pará, Brasil

 

Forest structure in settlement project, São Mateus community, municipality of Placas, Pará State, Brazil

 

 

Renato Bezerra da Silva RibeiroI; João Ricardo Vasconcellos GamaII; Sebastião Venâncio MartinsIII; Arlete MoraesIV; Clodoaldo Alcino Andrade dos SantosV; Adenomar Neves de CarvalhoVI

IEngenheiro Florestal, Mestre. Instituto de Biodiversidade e Florestas, Universidade Federal do Oeste do Pará, Rua Vera Paz, s/n, Salé, 68010-460, Santarém, Pará, Brasil. forestengineer_ren@hotmail.com (autor para correspondência)
IIEngenheiro Florestal, Doutor. Instituto de Biodiversidade e Florestas, Universidade Federal do Oeste do Pará, Rua Vera Paz, s/n, Salé, 68010-460, Santarém, Pará, Brasil. jrvgama@gmail.com
IIIEngenheiro Florestal, Doutor. Departamento de Engenharia Florestal, Universidade Federal de Viçosa, Campus Viçosa, Avenida Peter Henry Rolfs, s/n, 36570-000, Viçosa, Minas Gerais, Brasil. venacio@ufv.br
IVGeógrafa, Mestre. Instituto de Biodiversidade e Florestas, Universidade Federal do Oeste do Pará, Rua Vera Paz, s/n, Salé, 68010-460, Santarém, Pará, Brasil. arlete_ufra@yahoo.com.br
VEngenheiro-Agrônomo, Doutor. Instituto de Biodiversidade e Florestas, Universidade Federal do Oeste do Pará, Rua Vera Paz, s/n, Salé, 68010-460, Santarém, Pará, Brasil. clodoaldoandrade@hotmail.com
VIBiólogo, Doutor. Instituto de Biodiversidade e Florestas, Universidade Federal do Oeste do Pará, Rua Vera Paz, s/n, Salé, 68010-460, Santarém, Pará, Brasil. Adenomarc@yahoo.com.br

 

 


RESUMO

Este estudo teve por objetivo avaliar o potencial e a estrutura florestal de uma Floresta Ombrófila Densa de terra firme, da Comunidade São Mateus, município de Placas, Pará. A avaliação foi realizada em dois tipos de ambiente, sendo, um, em Floresta Manejada (FM) e, outro, em Floresta Não Manejada (FNM). Foram alocadas 20 unidades amostrais, sendo nove em FM e 11 em FNM. Em cada unidade amostral, os indivíduos foram inventariados em três classes de tamanho (CT): CT1 - 10 cm < DAP < 30 cm (subparcelas de 50 m x 25 m); CT2 - 30 cm < DAP < 50 cm (50 m x 50 m); e CT3 - DAP > 50 cm (50 m x 200 m). As formas de utilização de todas as espécies arbóreas registradas foram verificadas por meio de entrevistas com assentados, no comércio, nas feiras livres e no mercado municipal de Santarém. Foram amostrados 472,6 árvores/ha na FM, distribuídas em 134 espécies e, na FNM, 508,0 árvores/ha, distribuídas em 146 espécies. As espécies de maior valor de importância nos dois tipos florestais foram: Licania kunthianamm Hook. f. (Chrysobalanaceae) e Mezilaurus itauba Taubert ex Mez (Lauraceae). As espécies que mais se destacaram com diferentes possibilidades de uso foram: Protium cf. heptaphyllum (Aubl.) Marchand (Burseraceae), Hymenaea courbaril L. (Fabaceae) e Caryocar villosum (Aubl.) Pers (Caryocaraceae). Após quatro anos de colheitas, não ocorreu diferenciação estrutural entre FM e FNM.

Palavras-chave: Amazônia, fitossociologia, potencial florestal, produto florestal não madeireiro.


ABSTRACT

The objective of this study was to evaluate the potential and forest structure of the Ombrophylous Dense Forest in the São Mateus Community, municipality of Placas, Pará State, Brazil. The evaluation was conducted in two types of environment, one in Management Forest (MF) and the other in a Non-Management Forest (NMF). Were allocated 20 sampling units, 9 in MF and 11 in NMF. At each sampling unit, individuals were surveyed in three size classes (SC): SC1 - 10 cm < DBH < 30 cm (50 m x 25 m); SC2 - 30 cm < DBH < 50 cm (50 m x 50 m) and SC3-DBH > 50 cm (50 m x 200 m). The uses of the species were verified through interviews with local people in trade fairs, businesses and in the municipal market in Santarém. Were sampled 472.6 trees per ha in MF, distributed in 134 species and 508.0 trees per ha in NMF, distributed in 146 species. The species of highest importance value in the two forest types were Licania kunthiana Hook. f. (Chrysobalanaceae) and Mezilaurus itauba Taubert ex Mez (Lauraceae). The species that stood out with different possibilities of use were Protium cf. heptaphyllum (Aubl.) Marchand (Burseraceae), Hymenaea courbaril L. (Fabaceae) and Caryocar villosum (Aubl.) Pers (Caryocaraceae). After four years of harvest, there was no structural differentiation between MF and NMF.

Key words: Amazon, phytosociology, forestry potential, non-timber forest product.


 

 

INTRODUÇÃO

A avaliação do potencial florestal de um ecossistema parte, principalmente, do conhecimento dos produtos de valor econômico que a floresta pode proporcionar à sociedade (Gama et al., 2007). É por meio do inventário florestal que se tem a oportunidade de conhecer o potencial e a estrutura de uma floresta, os quais servirão de base para um bom planejamento e bom uso dos seus recursos (Péllico-Netto & Brena, 1993).

Vários estudos são voltados para o conhecimento e entendimento da estrutura da floresta amazônica, haja vista a complexidade dos diferentes fatores ambientais que influenciam a própria composição florística dos ambientes (Silva et al., 2011). Para Carvalho (1997), um bom planejamento florestal é proporcionado pelo conhecimento da estrutura e da sua relação com a diversidade e produtividade da floresta.

A partir de 1990, vários Projetos de Assentamento (PAs) foram planejados e concretizados, como os da BR-163, em Castelo de Sonhos, Novo Progresso e Itaituba, Pará. No início dos anos 2000, esse fenômeno chegou à região de Santarém e Placas, conformando um dos maiores PAs do Estado do Pará, o PA Moju I e II, que é formado por 21 comunidades rurais, dentre as quais está a comunidade de São Mateus, que possui área total de 152.686,07 ha, com capacidade para beneficiar 3.000 famílias, em lotes que variam de 85 a 100 ha (Gama et al., 2011).

A criação do PA Moju I e II foi importante para populações que viviam em busca de terras oriundas da reforma agrária, na região dos municípios de Santarém, Belterra e Placas, mas, assim como em algumas regiões do país, não se levaram em consideração os recursos naturais regionais, de modo que os aspectos físicos do local não foram analisados ou estudados. Esse fato influencia na dinamização das atividades econômicas previstas para gerar renda ao agricultor.

Diante do exposto, este trabalho teve o objetivo de avaliar a estrutura e o potencial florestal da comunidade São Mateus, no município de Placas, Estado do Pará.

 

MATERIAL E MÉTODOS

A área da comunidade São Mateus abrange 2.430,9641 ha e está localizada no Projeto de Assentamento Moju I e II, BR-163, vicinal do Km 145, município de Placas, Pará, Latitude Sul de 3°32'58,89" e Longitude Oeste de 54°43'57,11".

O cultivo da mandioca para produção de farinha, juntamente com a pimenta, é a principal fonte de renda dos comunitários de São Mateus, que executam agricultura de pequena escala (Mattos et al., 2010). A média da renda mensal está abaixo do salário-mínimo vigente, ou seja, R$ 482,00. Há famílias com renda de R$ 180,00 mensais e o máximo registrado atinge apenas R$ 930,00, sendo esses os casos em que há ingressos da pecuária (Gama et al., 2011).

O clima da região é do tipo Afi, de acordo com a classificação climática de Köppen, caracterizado como tropical úmido, sem estação fria, com temperatura mínima média anual de 16°C e máxima média anual de 34°C, com umidade relativa média de 91%. A precipitação é do tipo convectiva, em forma de pancadas de curta duração. Apresenta valores anuais oscilando em torno de 2.000 mm e o trimestre mais seco ocorre de setembro a novembro; o trimestre mais chuvoso vai de fevereiro a abril. O solo é ácido, profundo e de atividade físico-química muito baixa, constituído por material mineral, do tipo Latossolo Amarelo distrófico (FUNDAC, 2005).

A vegetação é do tipo Floresta Ombrófila Densa de terra firme, seguindo a terminologia proposta por Veloso et al. (1991). Nesse tipo de vegetação, ocorrem árvores de grande porte, trepadeiras lenhosas e epífitas em abundância, podendo ocorrer período seco de até 60 dias por ano (IBGE, 1992).

Foram selecionados dois tipos de ambiente, sendo um, em floresta manejada (FM) em 2005, que teve uma colheita de, aproximadamente, 16 m³.ha-1 de madeira, em toras, sendo Manilkara huberi a principal espécie (42% do volume colhido). E, o outro ambiente, uma área de floresta não manejada (FNM).

Foi empregada amostragem sistemática, com inícios aleatórios, e as unidades amostrais foram de área fixa de 50 m x 200 m. No total, foram alocadas 20 unidades amostrais, sendo nove em FM e 11 em FNM. Em cada unidade, as árvores foram inventariadas em três classes de tamanho (CT), a saber:

Classes de tamanho 1, em subparcelas de 50 m x 25 m, foram mensuradas todas as árvores com 10 cm < DAP < 30 cm. Classes de tamanho 2, em subparcelas de 50 m x 50 m, foram mensuradas todas as árvores com 30 cm < DAP < 50 cm. Classe de tamanho 3, em subparcelas de 50 m x 200 m, foram mensuradas todas as árvores com DAP > 50 cm. Além disso, as alturas, comercial e total, foram coletadas durante o inventário.

Os parâmetros qualitativos de cada floresta foram avaliados pela qualidade de fuste - QF (fuste reto, fuste pouco tortuoso e fuste tortuoso), presença de cipó - PC (presença na copa, fuste e copa + fuste ou ausência de cipós), presença de danos - PD (dano na copa, no fuste e copa + fuste) e causa de danos - CD (dano pelo abate, dano pela extração e sem nenhum dano). Os parâmetros PD e CD foram aplicados somente na floresta manejada, para avaliação dos efeitos das atividades de colheita sobre os indivíduos remanescentes.

Para a obtenção de dados sobre os usos, madeireiros e não madeireiros, das espécies arbóreas, foram realizadas entrevistas com assentados, no comércio, nas feiras livres e no mercado municipal de Santarém.

A identificação taxonômica foi realizada por meio de comparações, no acervo de plantas da Universidade Federal do Oeste do Pará, com auxílio de especialistas. Para apresentação dos táxons, o sistema de classificação botânica adotado foi o APG III (2009).

Para os dois sítios, foram analisados e calculados os seguintes parâmetros: composição florística, com base na distribuição dos indivíduos em espécies e famílias, Shannon-Weaver, Equabilidade de Pielou; Quociente de Mistura, de Jentsch e o Índice de Similaridade, de Sorensen (Brower & Zar, 1984).

Os parâmetros fitossociológicos da estrutura horizontal (densidade, frequência, dominância e valor de importância) foram calculados, segundo Mueller-Dombois & Ellenberg (1974). A estrutura diamétrica foi obtida por meio da distribuição de densidade absoluta por classe de diâmetro, com amplitude de 10 cm. A altura dominante foi dada pela média das dez maiores árvores por parcela e o volume de fuste foi estimado pela fórmula:

Vf = 0,00007854.dap2.Hc.ff

em que: Vf = volume de fuste com casca, em m3; dap = diâmetro a 1,3 m de altura, em cm; Hc = altura comercial, em m; ff = fator de forma, igual a 0,7 (Heinsdijk & Bastos, 1963).

Os dados de densidade (N.ha-1), altura dominante (Hd) e índice de Shannon-Weaver (H') foram analisados estatisticamente pelo teste t, a 5% de probabilidade, com a hipótese de que o manejo florestal aplicado foi de baixo impacto, em relação às variáveis da floresta não manejada. Para as variáveis em estudo, foram aplicados os testes de normalidade, de Lilliefors, e de homogeneidade das variâncias, de Cochran e Barllet. A distribuição diamétrica das florestas foi comparada pelo teste Qui-quadrado, a 5% de probabilidade.

Os softwares utilizados para tabulação e processa­mento dos dados foram o Microsoft Excel 2010 e o Statistica 7.0.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Composição florística

Foram registradas 659 árvores, na Floresta Manejada (FM), distribuídos em 134 espécies, pertencentes a 38 famílias. Na Floresta Não Manejada (FNM), foram inventa­riadas 903 árvores, distribuídas em 146 espécies, pertencentes a 39 famílias (Tabela 1). As famílias com maior riqueza específica, na FM, foram Fabaceae (33), Sapotaceae (13), Lecythidaceae (10) e Moraceae (7). As famílias mais importantes na FNM foram Fabaceae (36), Sapotaceae (13), Lecythidaceae (10) e Malvaceae (7). Essas famílias representaram, conjuntamente, 67,1% do total de indivíduos amostrados, confirmando os resultados de Barros et al. (2000), que concluíram que poucas famílias botânicas representam o maior número de indivíduos, em florestas de terra firme, na Amazônia.

O índice de equabilidade de Pielou (J) indicou que 85 e 86% da diversidade máxima foram registrados na amostragem realizada na FM e na FNM, respectivamente. O quociente de mistura de Jentsch (QM) foi de 1:4 e de 1:6, na FM e na FNM, respectivamente. Finol (1975) afirmou que, em florestas naturais tropicais, o quociente de mistura seria de aproximadamente nove indivíduos por espécie, indicando alta heterogeneidade, o que foi comprovado pelos valores encontrados nas áreas estudadas.

A similaridade florística entre FM e FNM foi alta (S > 0,75), ou seja, 75% das espécies ocorreram nas duas áreas, o que indica uma composição florística pouco diferenciada entre as áreas inventariadas. Os valores obtidos pelo índice de Shannon-Weaver (H') foram de 4,14 e 4,28, para a FM e FNM, respectivamente. Estatisticamente, não houve diferença significativa (p < 0,05) entre os valores de Shannon-Weaver, pelo teste t a 5% de probabilidade, concluindo-se que a diversidade na floresta manejada foi pouco afetada pela colheita seletiva. Na Floresta Nacional do Tapajós (FLONA Tapajós), mesma região de estudo, Gonçalves & Santos (2008) encontraram valor semelhante (H'= 4,22) e Ximenes et al. (2011), realizando estudos em um mesmo sítio, antes e após a colheita florestal, estimaram H' = 4,31 (pré-colheita) e H' = 4,30 (pós-colheita). De acordo com Knight (1975), o índice de diversidade de Shannon-Weaver para florestas tropicais de terra firme varia, normalmente, de 3,83 a 5,85.

A riqueza de espécies foi de 134, para FM, e 146, para FNM. Comparando-se esses resultados com os de outros estudos, verificou-se que, em Oriximiná, Pará (PA), Lima-Filho et al. (2004) estimaram 359 espécies; na FLONA do Tapajós, PA, Espírito-Santo et al. (2005) amostraram 190 espécies e Ximenes et al. (2011) identificaram 181 espécies, antes e após a colheita, por meio da exploração de impacto reduzido. Essas diferenças, provavelmente, ocorreram por causa dos diferentes tamanhos de amostras, aos níveis de inclusão adotados, ao tipo de solo e à situação antrópica do ambiente.

Potencial e estrutura da floresta

Foi possível verificar que 89,9% das espécies inventariadas apresentaram pelo menos um tipo de uso; 34,1%, dois diferentes usos; e 9,8%, três diferentes usos. As espécies com maiores alternativas de uso foram Protium cf. heptaphyllum, Hymenaea courbaril, Caryocar villosum, Inga alba, Inga paraensis, Brosimum acutifolium e Micropholis guianensis. Os usos mais comuns foram frutos para alimentação animal e madeira para serraria, identificados em 65,9 e 57,8% das espécies, respectivamente, para as FM e FNM.

Na FM foram estimados, considerando-se o DAP > 10 cm, 472,56 indivíduos/ha; 26,26 m² ha-1 de área basal e 324,13 m³ ha-1 de volume. Na FNM, constataram-se 508,00 indivíduos/ha; área basal de 28,88 m² ha-1 e volume de 389,76 m³ ha-1.

Dentre as 134 espécies identificadas na FM, 62 apresentaram densidade absoluta (DA) igual ou superior a 2,0 indivíduos/ha. As 10 espécies mais abundantes (DA > 9 indivíduos/ha) foram Licania kunthiana, Pouteria cladantha, Eschweilera coriacea, Protium cf. heptaphyllum, Nectandra sp., Pouteria guianensis, Bixa arborea, Tetragastris altissima, Chamaecrista scleroxylon e Richardella macrophylla, que, juntas, representaram 41,6% da densidade total absoluta (DTA). Dentre as 147 espécies identificadas na FNM, 52 apresentaram DA > 2 indivíduos/ha. As 10 espécies mais abundantes (DA > 9 indivíduos/ha) foram Eschweilera coriacea, Nectandra sp., Bixa arborea, Protium cf. heptaphyllum, Porocystis sp., Pouteria guianensis, Tetragastris altissima, Pouteria cladantha, Duguetia sp. e Richardella macrophylla, que, juntas, contribuíram com 37,1% da DTA. De acordo com Souza et al. (2006), a estrutura da floresta ombrófila densa de terra firme caracteriza-se por alta diversidade florística, poucas espécies dominantes e muitas espécies raras.

As 10 espécies mais importantes na FM (VI > 2) foram: Licania kunthiana, Pouteria cladantha, Mezilaurus itauba, Eschweilera coriacea, Manilkara bidentata, Pouteria guianensis, Manilkara huberi, Protium cf. heptaphyllum, Nectandra sp. e Chamaecrista scleroxylon, que, juntas, contribuíram com 34,3% dos valores totais de importância. As dez espécies mais importantes na FNM (VI > 2) foram: Mezilaurus itauba, Eschweilera coriacea, Manilkara bidentata, Nectandra sp., Pouteria guianensis, Manilkara huberi, Bixa arborea, Protium cf. heptaphyllum, Licania kunthiana e Tetragastris altissima, que, juntas, contribuíram com 31,0% dos valores totais de importância.

As principais espécies que se destacaram nos dois tipos florestais foram Licania kunthiana - sua madeira é utilizada para fabricação de cabos de ferramentas rústicas e varas; Mezilaurus itauba - usada na construção naval; Pouteria cladantha - frutos consumidos pela fauna e madeira usada para carvão; Eschweilera coriacea - frutos consumidos pela fauna, madeira utilizada em construção civil e movelaria. Gama et al. (2003) incluíram esta última espécie na categoria de construções rústicas, por sua casca poder ser usada na fabricação de cordas.

Manilkara bidentata - madeira utilizada em construção civil, normalmente comercializada como madeira de Manilkara huberi; Pouteria guianensis - madeira utilizada em construção civil, postes para energia, carvão e frutos consumidos pela fauna; Manilkara huberi e Protium cf. heptaphyllum - suas madeiras são usadas na construção civil e para energia (carvão). Esta última espécie possui resina oleosa, amplamente utilizada na medicina popular como analgésico, cicatrizante e expectorante, além de ter utilidade na indústria de verniz, cosméticos e como incenso (Cruz, 2011).

Nectandra sp. - madeira utilizada em construção civil e para carvão vegetal; Chamaecrista scleroxylon - madeira de alta densidade, usada na fabricação de instrumentos musicais; Tetragastris altissima - madeira utilizada em construção civil, carvão vegetal, seu exsudado é utilizado para essências e para uso medicinal; Bixa arborea - para esta, não houve citação de uso da espécie.

As espécies Manilkara huberi, Nectandra sp., Protium cf. heptaphyllum, Manilkara bidentata e Pouteria guianensis apresentaram maiores VI, em ambas as florestas, denotando que a exploração não afetou a ocorrência dessas espécies na área e, possivelmente, estarão compondo a lista de espécies selecionadas para o próximo ciclo de corte, principalmente a Manilkara huberi que foi e é muito explorada nessa região.

Estrutura diamétrica, densidade e altura dominante

As áreas estudadas apresentaram estrutura diamétrica com tendência a J-invertido, que é o padrão característico de florestas inequiâneas (Figura 1). O diâmetro máximo encontrado na FM foi 235,9 cm, de Buchenavia capitata, e 135,9 cm, de Aspidosperma sp. na FNM.

 

 

A comparação feita entre FM e FNM, considerando-se o número de árvores por hectare de cada centro de classe de diâmetro, não apresentou diferença significativas (p < 0,05) pelo teste Qui-quadrado a 5% de probabilidade, confirmando que a colheita ocorrida na área não alterou a estrutura da floresta. A floresta manejada apresentou uma densidade, com DAP > 10 cm, de 472,6 indivíduos/ha e, a floresta não manejada, 508,0 indivíduos/ha, valores que não diferiram estatisticamente, pelo teste t a 5% de probabilidade.

As alturas dominantes, na floresta manejada e na não manejada, foram de 25,9 m e 34,6 m, respectivamente. Houve diferença significativa (p > 0,05) entre as alturas dominantes das duas florestas pelo teste t a 5% de probabilidade. Este resultado indica que a colheita seletiva pode alterar a estrutura do dossel da floresta, haja vista, que as maiores árvores, normalmente, são extraídas.

Manilkara huberi foi a espécie mais explorada na área, correspondendo a 42% do volume de madeira colhida, e foi uma das espécies mais importantes, ecologicamente, nas duas áreas de estudo. Na Figura 2, é apresentada a distribuição diamétrica da espécie por classe, tanto na floresta manejada, quanto na não manejada.

 

 

O número de indivíduos nas classes acima do diâmetro mínimo de corte (DMC), estabelecido pela Instrução Normativa N° 5 de 11 de dezembro de 2006 (Brasil, 2006), na floresta manejada teve valores reduzidos, em relação aos dos indivíduos da floresta não manejada, exceto na classe com diâmetros superiores a 90 cm. Isso pode estar relacionado com as árvores matrizes, ou árvores que, por meio do teste de oco, acabaram não sendo colhidas. A redução equivaleu a 66,3% do número de indivíduos da floresta não manejada. A espécie é uma das mais exportadas na região (Schulze et al., 2005), por sua madeira pesada e com alta durabilidade natural (Gomes et al., 2005).

Costa et al. (2007), em um estudo de crescimento de M. huberi, na Floresta Nacional do Tapajós, concluíram que o manejo acelera as taxas de incremento da espécie, mas que, para isso, a espécie precisa de iluminação total ou parcial. De qualquer forma, é necessário ter bom senso na colheita e prezar pela sustentabilidade dessa importante espécie amazônica.

Parâmetros qualitativos

Em relação à qualidade de fuste, a floresta não manejada apresentou uma percentagem superior de indivíduos com fuste reto e pouco tortuoso à da floresta manejada, haja vista que ainda não sofreu corte seletivo. A percentagem de árvores tortuosas foi menor na floresta não manejada, o que denota melhor qualidade estrutural de fuste das árvores do estoque de colheita (Figura 3). Coelho et al. (2007) avaliaram a qualidade de fuste de quatro áreas exploradas, sob domínio de Floresta Atlântica, e não encontraram diferenças significativas, em comparação com a de suas respectivas reservas legais, após um tempo da exploração.

Os dois sítios não apresentaram alta incidência de cipós nas árvores, o que demandaria tratamento silvicultural, para diminuir os riscos de acidentes, durante as operações de colheita, e evitar grandes aberturas de clareiras, como também diminuir os custos totais do projeto de manejo. A incidência de cipós numa área florestal está, principalmente, ligada à abertura de clareiras provocadas por interferência antrópica (Coelho et al., 2007). Para Budowski (1966), a presença de cipós em uma floresta está relacionada com o estágio sucessional, sendo que, em áreas de estágios mais avançados de sucessão, a frequência de cipós é menor, em relação à de um estágio inicial.

Na floresta manejada, apenas 1,71% das árvores apresentaram danos oriundos da execução do projeto de manejo, sendo um indicativo de que houve um bom planejamento e boa execução das atividades relacionadas com a etapa de colheita. Pinto et al. (2002), analisando a colheita seletiva, em uma área na Amazônia Ocidental, também não evidenciaram a presença acentuada de danos nos indivíduos remanescentes com DAP > 5 cm. Entretanto, para Gomes et al. (2004), os danos encontrados em uma área de domínio de Floresta Atlântica, explorada convencionalmente, estiveram presentes em mais de 40% do número de indivíduos, com a presença do dano acentuada no tronco e na parte comercializável da madeira.

 

CONCLUSÕES

As espécies que mais se destacaram com diferentes possibilidades de uso foram Protium cf. heptaphyllum (Aubl.) Marchand, Hymenaea courbaril L., Caryocar villosum (Aubl.) Pers., Inga alba (Sandw.) Willd., Inga paraensis Ducke, Brosimum acutifolium Huber e Micropholis guianensis (A.DC.) Pierre.

Licania kunthiana Hook. f. e Mezilaurus itauba (Meisn.) Taubert ex Mez foram as espécies mais importantes, na FM e na FNM, respectivamente.

A colheita ocorrida na comunidade não provocou diferenciação na estrutura dos tipos de floresta avaliados, comprovando a hipótese de que o manejo florestal aplicado foi de baixo impacto, em comparação com as mesmas variáveis da floresta não manejada.

A colheita florestal, realizada e executada de acordo com critérios técnicos, dentro dos princípios do manejo florestal sustentável, pode minimizar os danos às árvores remanescentes e garantir a sustentabilidade da floresta.

 

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Recebido para publicação em 12/09/2012
Aprovado em 23/04/2013.

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