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Revista Ceres

Print version ISSN 0034-737XOn-line version ISSN 2177-3491

Rev. Ceres vol.62 no.5 Viçosa Sep./Oct. 2015

http://dx.doi.org/10.1590/0034-737X201562050001 

Ciência e Tecnologia de Alimentos

Avaliação do efeito antibacteriano de extratos de folhas de batata-doce (Ipomoea batatas L. frente a bactérias de interesse em alimentos e correlação com os compostos fenólicos ¹

Antibacterial effect of sweet potato (Ipomoea batatas L.) leaf extracts against food bacteria and correlation with phenolic compounds

António Elísio José ²   *  

Heloisa Helena Chaves Carvalho ³  

José Maria Wiest4 

2Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Instituto de Ciências e Tecnologia de Alimentos, Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil. Instituto Superior Politécnico de Gaza, Chòkwé, Gaza, Moçambique. aelisiojose@gmail.com

3Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Instituto de Ciências e Tecnologia de Alimentos, Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil. hhcarvalho@terra.com.br

4Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Instituto de Ciências e Tecnologia de Alimentos, Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil. jmwiest@ufrgs.br

RESUMO

A batata-doce (Ipomoea batatas L.) é um vegetal muito cultivado nos países tropicais, usado na alimentação humana e na animal, sendo uma boa fonte de energia, sais minerais e vitaminas. Constitui, ainda, fonte de polifenóis antioxidativos, entre eles, antocianinas e ácidos fenólicos. O objetivo deste estudo foi avaliar a atividade antibacteriana de diferentes extratos de folhas frescas de batata-doce, frente a bactérias de interesse alimentar, e correlacioná-la com os teores de polifenóis totais e de antocianinas. Foram avaliados teores de polifenóis totais e de antocianinas, bem como a atividade antibacteriana de extratos alcoólicos, de infusão e de decocção de folhas de dois acessos de batata-doce, em Porto Alegre, RS, frente a três agentes de interesse em alimentos e alimentação, quais sejam, inóculos padronizados de Salmonella Enteritidis (ATCC 11076), Staphylococcus aureus(ATCC 25923) e Escherichia coli (ATCC 11229). A avaliação da atividade antibacteriana, expressa em intensidade de atividade de inibição bacteriana (IINIB) e em intensidade de atividade de inativação bacteriana (IINAB), foi baseada em testes de diluição em sistema de tubos múltiplos; as antocianinas foram determinadas por meio de pH diferencial e os polifenóis pelo método de Folin & Ciocalteu. Os extratos alcoólicos inibiram e, ou, inativaram todos os inóculos testados, não obstante o Staphylococcus aureus ter sido significativamente mais resistente. Os extratos obtidos por decocção e infusão, além de apresentarem concentrações muito baixas de antocianinas e menores teores de polifenóis do que os seus correspondentes alcoólicos, não apresentaram atividade antibacteriana. A atividade antibacteriana dos extratos testados foi positivamente correlacionada com os compostos fenólicos e, ou, antocianinas.

Palavras-chave: polifenóis; antocianinas; atividade antibacteriana; inibição bacteriana; inativação bacteriana

ABSTRACT

Sweet potato (Ipomoea batatas L.) is a widely grown crop in tropical countries as food and feed, and a good source of energy, minerals and vitamins. It is a source of antioxidative polyphenols such as anthocyanins and phenolic acids. In this study, the concentrations of polyphenols, anthocyanins, and the antibacterial activity of alcoholic extracts, infusion and decoction of leaves of two accessions of sweet potato were evaluated against three agents of interest in food, which are standardized inocula of Salmonella Enteritidis (ATCC 11076), Staphylococcus aureus (ATCC 25923) and Escherichia coli (ATCC 11229), in Porto Alegre, RS. Evaluation of antibacterial activity, expressed as intensity of activity of bacterial inhibition (IINIB) and bacterial inactivation (IINAB), was based on tests of dilution in multiple tube system; anthocyanins were determined by differential pH and polyphenols by Folin & Ciocalteu. The alcoholic extracts inhibited and, or inactivated all inocula tested although Staphylococcus aureus were significantly more resistant. Decoction and infusion extracts, in addition to having very low concentrations of anthocyanins and lower polyphenol contents than their corresponding alcoholic extracts, showed no antibacterial activity. The antibacterial activity of the extracts tested was positively correlated to phenolic compounds and, or anthocyanins.

Key words: Polyphenols; anthocyanins; bacterial activity; inhibition; inactivation

Introdução

O consumo e a valorização de alimentos naturais, com substâncias que contribuem para a melhoria da saúde humana, têm ganhado crescente importância nos tempos atuais. Produzida em todo o Brasil, a batata-doce (Ipomoea batatas (L.) Lam( constitui um recurso natural renovável, com indicativo etnográfico medicinal, que pode diminuir a pressão sobre as substâncias de síntese química com interesse na alimentação e saúde. Considerada boa fonte de energia, sais minerais e vitaminas A, B e C, muitas partes desta planta são comestíveis, incluindo folhas, existindo variedades com uma ampla gama de cor da casca e da polpa da raiz, variando do branco até o amarelo-alaranjado e o roxo intenso, destacando-se, entre elas, as de polpa alaranjada, que podem desempenhar um papel fundamental no alívio da deficiência de vitamina A, comum entre crianças na Ásia e na África subsaariana (Dombroski et al, 2010).

Islam (2006) reporta que as folhas de batata-doce são excelentes fontes de polifenóis antioxidativos, entre eles as antocianinas e os ácidos fenólicos, como o cafeico, o monocafeoilquínico (ácido clorogênico), o dicafeoilquínico e ácidos de tricafeoilquínico superiores ao de outras hortaliças. Além de propriedades antioxidantes (Vargas et al., 2008), os polifenóis apresentam várias outras ações biológicas específicas, ainda pouco compreendidas (Manach et al., 2004). Os polifenóis formam grupos heterogêneos, que se dividem em dois subgrupos: os flavonoides e os não flavonoides, sendo ambos compostos de baixo peso molecular, denominados metabólitos secundários, presentes em frutas e vegetais. Os flavonoides englobam uma classe muito importante de pigmentos naturais e têm a estrutura química C6-C3-C6, sendo que as duas partes da molécula com seis carbonos são anéis aromáticos. Suas propriedades biológicas estão relacionadas com a atividade antioxidante que cada fenol exerce sobre determinado meio (Volp et al., 2008). Os flavonoides são amplamente distribuídos na natureza, embora não uniformemente. Portanto, grupos específicos de alimentos muitas vezes constituem fontes ricas de uma ou mais subclasses desses polifenóis (Beecher, 2003). A análise fitoquímica de folhas de batata-doce de polpa do tipo "amarelo", especialmente aquele de polpa cor de abóbora revelou, além do amido, quantidades de flavonoides livres e glicosídeos de renol e borneol e triterpenoides especiais (Matos & Lorenzi, 2002).

Este trabalho objetivou avaliar a atividade antibacteriana de diferentes extratos de folhas frescas de batata-doce, frente a bactérias de interesse alimentar, e correlacioná-la com os teores de polifenóis totais e de antocianinas.

Material e Método

Extratos

Folhas frescas de dois acessos de batata-doce, um de polpa branca (BDB) e outro de polpa amarela (BDA), foram colhidas em Porto Alegre, RS, numa propriedade agroecológica familiar, para análises no princípio de droga vegetal. A BDB caracterizou-se por apresentar folhas com nervuras de cor roxa e pecíolo longo e verde, enquanto a BDA apresentava folhas com nervuras de cor roxa e pecíolo muito longo, igualmente de cor roxa.

As folhas foram submetidas aos processos de extração alcoólica (alcoolatura), infusão, decocção simples e decocção sob autoclave, para obtenção das soluções antibacterianas, segundo Matos & Lorenzi (2002), Souza & Wiest (2007), Avancini & Wiest (2008) e Brasil (2010). Para a alcoolatura, amostras de folhas recém-colhidas foram trituradas finamente e colocadas em álcool etílico de cereais, a 96°GL (Farmaquímica, Porto Alegre/RS/BR), na proporção de 400 g de matéria fresca (MF) para 1000 mL. Após 60 dias de maceração com agitação regular, a mistura foi filtrada e submetida à destilação fracionada sob pressão reduzida, em sistema de Rotavapor, para eliminação da fase alcoólica. A infusão e a decocção foram feitas também na mesma proporção, sendo que a infusão consistiu na imersão imediata de folhas em água destilada estéril, recém-ebulida, deixando-as em extração por um período de 15 minutos. O decocto simples foi preparado, mantendo-se a fervura das folhas, durante 15 minutos, em água destilada estéril, enquanto, para o decocto sob autoclave, mantiveram-se as folhas em água destilada estéril e em autoclave, a 1 atm de pressão, por 15 minutos. A concentração dos extratos aquosos (infusão e decocto), nas condições deste experimento, foi de 40% (m/v) e, a dos alcoólicos, 60% (m/v), uma vez que a fase alcoólica foi separada, reduzindo-se o volume final. Os extratos foram padronizados como extratos totais (ET), a partir dos quais foram preparadas as respectivas diluições de trabalho, que corresponderam aos ET de 25, 50 e 75%, diluídos com água destilada estéril (E25, E50 e E75).

Polifenóis e antocianinas

Os polifenóis foram extraídos com a metodologia de Vinson et al. (2001), segundo a qual amostras de 100 μL de extrato foram acrescidas de 500 μL de solução de extração com metanol a 50% e ácido clorídrico a 1.2 M e colocadas em banho-maria, a 90 oC, por três horas, sendo posteriormente resfriadas até temperatura ambiente e centrifugadas a 5000 rpm, por cinco minutos, para obtenção de sobrenadantes que constituíram os extratos de polifenóis.

O teor de polifenóis totais foi determinado pelo método de Folin & Ciocalteu, no qual, baseando-se em Moyer et al. (2002), 60 μL de cada um dos extratos de polifenóis foram postos a reagir com 150 μL de Folin, 150 μL de carbonato de sódio e 840 μL de água destilada, por 30 minutos, sendo a absorbância lida a 750 nm no espectrofotômetro. O teor de fenóis totais foi determinado por interpolação da absorbância das amostras contra uma curva de calibração, construída com padrões de ácido gálico (10 a 150 µg/mL) e expressos como mg de equivalentes de ácido gálico (EAG) por 100 g de extrato (Bora et al.,2005).

As antocianinas foram determinadas pelo método de pH diferencial, conforme descrito por Giusti & Wrolstad (2001); 200 μL do extrato foram diluídos em 1800 μL de solução tampão correspondente: cloreto de potássio 0,025 M, pH 1 e acetato de potássio 0,4 M, pH 4,5. Após 15 minutos de repouso, sob temperatura ambiente (25 ± 2 °C), foram feitas as medições de absorbância, a 540 nm e 700 nm, em espectrofotômetro, em cubetas de 1 cm de largura. O teor dos pigmentos foi calculado, considerando-se a absortividade molar (e) de 26900 L/(cm* mol), o peso molecular de 449,2 g/mol da cianidina 3-glicosídeo. Os resultados foram expressos como miligramas (mg) de cianidina 3-glicosídeo 100/g, de acordo com a fórmula seguinte:

(Lima et al., 2007, Teixeira et al., 2008),

em que: A (absorbância) = (A540 - A700) pH 1,0 - (A540 - A700) pH 4,5; PM = peso molecular; FD = fator de diluição; E = absortividade molar; l = caminho óptico da cubeta (1 cm).

Atividade antibacteriana

Amostras de inóculos, padrões American Type Culture Colletion (ATCC): Salmonella Enteritidis (ATCC 11076), Staphylococcus aureus (ATCC 25923) e Escherichia coli (ATCC 11229), todas provenientes da coleção da bacterioteca do Laboratório de Higiene do Instituto de Ciência e Tecnologia de Alimentos, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Brasil, foram reativadas em meio de cultura Brain Heart Infusion (BHI - Oxoid(r)), a 37 °C, por 24 horas de incubação aeróbia, com vistas a atingir uma concentração ≥ 1,0 x 108 unidades formadoras de colônia (UFC) /mL, por meio de diluições seriais logarítmicas, em água peptonada (Avancini & Wiest, 2008). A avaliação da IINIB/bacteriostasia e da IINAB/bactericidia dos extratos alcoólicos de folhas do acesso branco (FBDB) e do acesso amarelo (FBDA), infusão de folhas do acesso branco (INFB) e do acesso amarelo (INFA), decocto simples de folhas do acesso branco (DECB) e do acesso amarelo (DECA) e o decocto sob autoclave de folhas dos acessos branco (DECBa) e amarelo (DECAa) centrou-se na técnica do sistema de tubos múltiplos, descrita por Avancini & Wiest (2008), confrontando-se, por 24, 48, 72 e 144 horas, 4,5 mL de extrato com 1,0 mL de cada uma das oito diluições seriais das diferentes amostras bacterianas inoculadas assepticamente em 4,5 mL do meio de crescimento (caldo BHI, Brain Heart Infusion Broth), para se obterem os valores de IINIB, bem como em 4,5 mL do mesmo meio com desestressores (lecitina (0,6%), Tween 80 (6%) e histidina (0,2%)) para se determinarem os valores de IINAB. Os resultados do confronto foram verificados por meio do crescimento, ou não, de colônias bacterianas, após o plaqueamento em ágar BHI (Brain Heart Infusion Agar), e representados por variáveis ordinais arbitrárias, que assumiram valores de 1 a 9, em que 9 representa atividade máxima dos extratos e, 1, ausência de atividade (n.a), conforme a Tabela 1.

Tabela 1: Valores ordinais arbitrários de intensidade de atividade correspondentes às variáveis intensidade da atividade de inibição bacteriana ou bacteriostasia e intensidade de atividade de inativação bacteriana ou bactericidia e suas respetivas diluições e doses infectantes dos inóculos 

Correlação entre o teor de polifenóis e a atividade antibacteriana

A relação entre os teores de polifenóis totais e, ou, antocianinas dos extratos e a atividade antibacteriana foi determinada por avaliação do coeficiente de correlação de Pearson, tomando-se valores de polifenóis e, ou, antocianinas de extratos totais e de extratos diluídos em água destilada estéril como variáveis independentes e avaliando-se as respectivas IINIB e, ou IINAB, definidas como variáveis dependentes, para estabelecer a relação.

Análise estatística

Os resultados obtidos em três repetições foram avaliados por meio de análise de variância (ANOVA) e, as médias com efeitos significativos, comparadas pelo teste de Tukey, a 5% de significância, utilizando-se o programa SAS 9.3 (Floriano et al., 2007; SAS Institute Inc., (2011).

Resultados e Discussão

Teor de polifenóis e antocianinas

Os conteúdos médios (mg/100g de MF) de polifenóis totais nas folhas dos dois acessos de batata-doce foram diferentes (Figura 1) conforme o método de extração, sendo que, nos extratos alcoólicos, os valores observados foram maiores que os obtidos com emprego da água e calor. Essas diferenças podem ser o resultado da solubilidade diferenciada das substâncias e, ou, princípios ativos nos solventes utilizados. O decocto sob autoclave de folhas teve conteúdos de polifenóis mais elevados que aqueles obtidos por decocto simples, independentemente do acesso, provavelmente porque o efeito combinado do calor e da pressão na autoclave teria facilitado a liberação de mais ativos do que no decocto simples. Manach et al. (2004) indicam que os métodos de preparação e de culinária também têm um efeito marcante sobre o teor de polifenóis dos alimentos, pois, em seu trabalho houve significativa redução do escore durante o cozimento, o que concorda com os resultados encontrados neste trabalho.

Figura 1: Teores de polifenóis (mg/100g MF) de diferentes extratos de dois acessos de batata-doce independentemente da forma de obtenção. FBDB (extrato alcoólico de folha de batata-doce acesso branco), FBDA (extrato alcoólico de folha de batata-doce acesso amarelo), DECB (decocto simples da folha de batata-doce acesso branco), DECBa (decocto sob autoclave da folha de batata-doce acesso branco), DECA (decocto simples da folha de batata-doce acesso amarelo), DECAa (decocto sob autoclave da folha de batata-doce acesso amarelo), INFB (infusão da folha de batata-doce acesso branco), INFA (infusão da folha de batata-doce acesso amarelo). 

Ishiguro et al.(2007) encontraram, usando o mesmo método, teores médios de polifenóis totais, em quatro variedades de batata-doce, que variavam entre 2, 3 e 31,2 mg/g do peso seco. Em análise e caracterização de teores de polifenóis totais de folhas de batata-doce, de genótipos coletados no mundo inteiro, Islam (2006) reporta uma concentração de 6,19 ± 0,14 g/100 g de peso seco, admitindo-se que o teor de umidade da folha de batata-doce varia e aproxima-se dos resultados obtidos neste trabalho. Pela análise de variância e o teste de Tukey, a 5%, o teor de polifenóis da maioria dos extratos diferiu significativamente entre si, sendo que as infusões (INFB e INFA) não apresentaram diferenças estatisticamente significativas (p > 0,05). Os extratos diluídos (E25, E50 e E75) apresentaram menores teores de polifenóis totais, em comparação com os dos extratos totais (ET) indicados na Figura 1, tendo-se obtido, em FBDB (folha de batata-doce branca), 184,3 ( 9,0; 143,2 ( 9,4; e 124,7 ( 6,4 mg/100g de MF, respectivamente, e, em FBDA (folha de batata-doce amarela), 234,2 ( 4,8 mg/100g de MF, para E25; 194,7 ( 7,3, para E50; e 176,9 ( 3,9, para E75. Isto pode significar que a adição de água interfere na molécula, resultando em redução dos teores de polifenóis nas diluições.

Manach et al.(2004) referem que os polifenóis são altamente solúveis em água e que quanto mais cor púrpura apresentar o vegetal, mais teores de polifenóis podem ser encontrados, o que, até certo ponto, vem ao encontro dos resultados deste trabalho, já que a folha da batata-doce amarela apresentava o pecíolo e nervuras da folha repletos de cor púrpura, ao contrário das estruturas da folha da batata-doce branca.

Na Figura 2, são indicados os conteúdos de antocianinas dos extratos examinados, em que os extratos alcoólicos (FBDA e FBDB) apresentaram valores mais altos, enquanto os demais, obtidos com o emprego do calor, quais sejam, decocção e infusão, mostraram teores mais baixos. Comparando-se as duas folhas, observou-se que, independentemente do tipo de extração, as folhas do acesso batata-doce amarela apresentavam concentrações antociânicas relativamente maiores que as do acesso batata-doce branca. Os resultados mostraram, ainda, um acentuado decréscimo de conteúdos de antocianinas em extratos obtidos termicamente, o que pode evidenciar a sensibilidade desses pigmentos a temperaturas elevadas. Antia et al. (2006), em seu trabalho sobre a avaliação nutritiva e antinutritiva de folhas de batata-doce, encontraram 30.24 ± 0.02 mg/100 g da concentração de cianidina, que, segundo Islam (2006), é uma substância que caracteriza as antocianinas presentes em batata-doce. Um dado não menos importante estaria relacionado com o fato de a decocção ter mostrado considerável teor de polifenóis e, em contrapartida, teores muito baixos de antocianinas, o que provavelmente pode estar relacionado com a maior sensiblidade das antocianinas ao calor, em comparação com outros fenólicos, ou, ainda, que elas se desnaturam quando expostas a temperaturas elevadas. Lopes et al.(2007) também afirmam que a temperatura é outro fator importante na estabilidade das antocianinas, porque, à medida que se submete a solução de antocianinas a uma temperatura superior à ambiente (25 °C), a sua degradação é maior, mesmo quando complexadas com ácido tânico. Malacrida & da Motta (2005) indicam que o uso de altas temperaturas durante a extração, pasteurização e estocagem pode acarretar perdas na quantidade de compostos fenólicos, principalmente, por causa da degradação de antocianinas.

Figura 2: Teores de antocianinas (mg/100g de MF) de diferentes extratos de dois acessos de batata-doce, de acordo com a sua forma de obtenção. FBDB (extrato alcoólico de folha de batata-doce acesso branco), FBDA (extrato alcoólico de folha de batata-doce acesso amarelo), DECB (Decocto da folha de batata-doce acesso branco), DECAa (Decocto autoclavado da folha de batata-doce acesso amarelo), INFB (Infusào da folha de batata-doce acesso branco), INFA (Infusão da folha de batata-doce acesso amarelo), DECA (Decocto da folha de batata-doce acesso amarelo), DECBa (Decocto autoclavado da folha de batata-doce acesso branco). 

A 5% de significância, não foram encontradas diferenças estatísticas entre os teores de antocianinas, nos extratos obtidos pela decocção simples, decocção sob autoclave e infusão de folhas de ambos os acessos e, analogamente, também não houve diferença entre os extratos alcoólicos, mas, sim, entre a extração por álcool e a extração por água (p < 0,05).

Atividade antibacteriana

Os extratos alcoólicos das folhas dos dois acessos (batata-doce branca e batata-doce amarela) apresentaram atividade antibacteriana, ainda que o tempo de exposição fosse diferente, consoante o tipo de micro-organismo confrontado. Por outro lado, os extratos obtidos com base no calor não evidenciaram atividade alguma. Assim, de acordo com os resultados apresentados na Tabela 2, enquanto a IINIB e IINAB de extratos obtidos por meio da alcoolatura assumiram valores máximos (9), para todos os inóculos confrontados, aqueles preparados por meio de infusão, decocção simples e decocção sob autoclave apresentaram valores mínimos (1), sugerindo que a atividade antibacteriana foi praticamente inexistente, provavelmente, por efeito do calor usado na preparação, que pode ter levado à degradação das substâncias ativas e, ou essenciais, relacionadas com a atividade antimicrobiana, conforme referido anteriormente. Souza & Wiest (2007), Girolometto et al. (2009) e Passos et al.(2009) também encontraram em seus trabalhos com outras plantas, utilizando os mesmos métodos de extração, valores de intensidade de atividade antibacteriana mais altos nos extratos alcoólicos do que no decocto e na infusão.

Tabela 2: Intensidade da Atividade de Inibição Bacteriana ou bacteriostasia (IINIB) e Intensidade da Atividade de Inativação Bacteriana ou bactericidia (IINAB) de extratos de folha de dois acessos de batata-doce, em diferentes tempos de exposição e em três repetições 

Em 24 horas de confronto, o extrato alcoólico de folhas de batata-doce branca inibiu (IINIB = 9) o crescimento de Staphylococcus aureus sem, contudo, inativá-lo (IINAB < 9). Isto significa que o extrato impediu a multiplicação de 107UFC/g e conseguiu destruir até 105 UFC/g. Com 48 horas de exposição, esse extrato apresentou efeito bactericida máximo (IINAB = 9) sobre o mesmo micro-organismo, cujos inóculos, ao contrário dos das demais bactérias testadas neste experimento, mostraram-se mais resistentes, na mesma situação de confronto. As bactérias Salmonella Enteritidis e Escherichia coli(Gram-negativas) foram mais sensíveis, inclusive nos extratos mais diluídos, seja em relação ao tempo de exposição, seja ao efeito do próprio extrato (Tabela 3). Tavares (2000) destaca o Staphylococcus dentre os micro-organismos que sofreram grandes modificações na sensibilidade aos antimicrobianos, com o decorrer dos anos, o que justifica até certo ponto a sua resistência.

Tabela 3: Intensidade da Atividade de Inibição Bacteriana ou bacteriostasia (IINIB) e de Inativação Bacteriana ou bactericidia (IINAB) de extratos alcoólicos diluídos, de folhas de dois acessos de batata-doce, em diferentes tempos de exposição 

Embora autores como Carvalho et al. (2005), Souza & Wiest (2007), Passos et al. (2009) e Girolometto et al. (2009) reportem diferenças significativas entre os valores de IINIB e IINAB, em seus trabalhos, neste estudo, essas diferenças não foram observadas (p > 0,05), o que pode estar relacionado com a diferença de poder de ação dos extratos sobre as bactérias avaliadas. A atividade antibacteriana em extratos diluídos apresentou diferenças significativas (Tabela 4).

Tabela 4: Avaliação da intensidade de atividade de inibição e, ou, inativação bacteriana (IINIB, IINAB), em extratos alcoólicos de folha de batata-doce do acesso branco (FBDB) e acesso amarelo (FBDA) 

Alinhando-se com os resultados deste estudo, Lima et al. (2009), no seu trabalho de perfil de sensibilidade, confirmaram a maior sensibilidade dos gêneros de Salmonella, perante as substâncias antimicrobianas testadas. Carvalho et al.(2005), Avancini & Wiest (2008) e Wiest et al. (2009), em seus estudos de triagem de atividade antimicrobiana, encontraram, igualmente, maior sensibilidade de Salmonella Enteritidis e maior resistência de Staphylococcus aureus, quando expostos aos extratos de seus experimentos.

Mesmo confirmando esta tendência de que o Staphylococcus aureus é uma bactéria resistente, os extratos alcoólicos das folhas dos dois acessos de batata-doce obtiveram escores bem melhores, em relação à atividade antiestafilocócica (valores arbitrários entre 9 e 6) do que as plantas testadas pelos autores já mencionados.

Islam (2008), testando a atividade antibacteriana de folhas liofilizadas de diferentes cultivares de batata-doce, verificou que os extratos aquosos a frio deste material suprimiam o crescimento de outras bactérias de intoxicação alimentar, como Staphylococcus aureus, Bacillus cereus e E. coli patogênica. Isto pode significar que, diferentemente dos extratos obtidos com o uso do calor, neste trabalho, os extratos que não passaram pelo processo térmico têm ação sobre os micróbios, provavelmente, porque os compostos antimicrobianos não se desnaturaram durante o processo de extração.

Correlação entre o teor de polifenóis, antocianinas e a atividade antibacteriana

O coeficiente de correlação linear de Pearson (r) foi de 0,945, entre a IINIB e, ou, IINAB e o teor de polifenóis, bem como de 0,962, em relação às antocianinas, sugerindo, portanto, uma correlação linear fortemente positiva entre os teores de polifenóis e, ou, antocianinas e a intensidade de atividade antibacteriana. Filho & Junior (2009) referem que, quanto mais próximo de 1 o coeficiente de correlação linear, mais forte é a relação entre as variáveis. Falcão et al.(2007), avaliando a atividade antioxidante em uvas, observaram uma relação positiva entre os resultados da atividade antioxidante e os índices de polifenóis totais e de antocianinas, sendo o coeficiente de correlação destas ligeiramente inferior, o que se assemelha às constatações deste trabalho.

Conclusões

Nas condições dos experimentos foram encontrados maiores teores de polifenóis totais e de antocianinas nos extratos alcoólicos do que nos extratos aquosos das folhas dos dois acessos de batata-doce, sendo que o calor da infusão e da decocção poderia ter degradado as substâncias ativas que tomam parte no processo. Os acessos de batata-doce estudados constituem-se em hortaliças cujos extratos alcoólicos inibem e, ou, inativam bactérias como Salmonella Enteritidis (ATCC 11076), Escherichia coli (ATCC 11229) e Staphylococcus aureus (ATCC 25923), não obstante esta última ser significativamente mais resistente, enquanto extratos obtidos por decocção e infusão não mostraram atividade antibacteriana. A intensidade de atividade de inibição e, ou, inativação está positivamente correlacionada com as concentrações de compostos fenólicos e de antocianinas, sendo que estes, provavelmente, são responsáveis por este indicativo da atividade antibacteriana dos extratos testados.

Agradecimentos

Ao CNPq e ao Ministério da Ciência e Tecnologia de Moçambique (MCT).

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Recebido: 26 de Outubro de 2013; Aceito: 07 de Agosto de 2015

*Autor para correspondência: aelisiojose@gmail.com

Extraído da Dissertação de Mestrado do primeiro autor. Trabalho financiado pelo CNPq.

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