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Revista de Administração de Empresas

Print version ISSN 0034-7590

Rev. adm. empres. vol.14 no.4 São Paulo July/Aug. 1974

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-75901974000400003 

ARTIGOS

 

Presença de Max Weber na sociologia brasileira contemporânea

 

 

Fernando Correia Dias

Professor do Departamento de Ciências Sociais, Fundação Universidade de Brasília

 

 

1. INTRODUÇÃO

Max Weber (1864-1920), universalmente reconhecido como um dos grandes clássicos da sociologia, tem exercido poderosa influência, nos últimos 25 anos, nos estudos sociológicos que se realizam no Brasil. Tal presença não se encontra, pelo menos com a mesma intensidade e freqüência, no pensamento das anteriores gerações brasileiras de cientistas sociais.1

Pode-se perguntar, desde logo, que motivos teriam acarretado o forte impacto, aparentemente um pouco tardio, do pensamento weberiano no Brasil. Há algumas respostas possíveis, ainda que em forma conjectural.

Antes de tudo, a influência de Max Weber não se processa, a esse tempo, apenas no Brasil, mas também em outros países, como Estados Unidos e México, por exemplo.

Em segundo lugar, assinale-se que toda uma geração de jovens sociólogos, recém-formados, toma conhecimento, no fim da .década de 40 e começo da década de 50, das teorias e pesquisas do sociólogo alemão por intermédio de traduções espanholas e inglesas. Lembramos, a esse respeito, a edição mexicana de Economia e sociedade, lançada em 1944, e a compilação feita por Hans Gerth e C. Wright Mills dos escritos sociológicos de Weber (From Max Weber), editada na Inglaterra em 1947. Essas edições, especialmente a primeira, são citadíssimas na moderna literatura sociológica brasileira. Antecipando o desdobramento deste ensaio, posso dizer que essa obra constitui um dos livros-chave da gênese do pensamento sociológico contemporâneo neste país.

Parece evidente que os idiomas inglês e espanhol são mais acessíveis, atualmente, aos scholars brasileiros do que o alemão. Este só muito restritamente e por períodos breves, constou, nas últimas décadas, dos currículos dos cursos médios. Tal situação, diga-se de passagem, não é a mesma que vigorou entre os fundadores da sociologia brasileira. A geração de Sílvio Romero e Tobias Barreto transitava tranqüilamente pelos textos alemães, tanto füosóficos como sociológicos.2

Finalmente, outra razão - e a mais relevante - para a voga de Max Weber entre nós: é que suas formulações se prestaram, adequadamente, segundo pretendo demonstrar, como ferramentas de trabalho intelectual para reflexão dos especialistas, em torno da realidade brasileira em mudança.

Não estamos, assim, diante de um fenômeno casual: não é simples moda ou capricho o apelo a Max Weber. É, antes, o reconhecimento do vigor de sua análise.

Esse empenho, a que aludo, de tomar a sociologia como instrumento para compreender o Brasil, não é algo que tenha surgido agora. Pode-se mesmo afirmar que tal intento constituiu a motivação básica para que surgisse a própria sociologia em nosso meio. Talvez o que tenha acontecido, nos últimos vinte e poucos anos, seja um aprimoramento nesse caminho. Aguçouse o espírito crítico; delimitaram-se nitidamente os temas de fato relevantes (a urbanização como tendência básica da mudança social ou as condições sociais da industrialização, por exemplo) , como focos de análise da estrutura da sociedade brasileira; aperfeiçoaram-se, enfim, as técnicas de pesquisa e análise.3

Para se chegar a esse estágio, houve um longo percurso, por vezes sinuoso, que começa no fim do século XIX. Ao nascer a sociologia, a esse tempo, beneficiava-se ela, no Brasil, da acumulação de materiais empíricos, que se vinha processando desde o início da colonização, pelo relato e pela descrição a cargo de diferentes tipos de narradores - os cronistas do governo português, os viajantes, os naturalistas, os missionários. Havia também interpretações pré-sociológicas.4

Uma viva influência européia, aceita às vezes de forma acrítica e dogmática, marca o início do pensamento sociológico brasileiro. Mas é também um tempo de exasperado esforço de autonomia de pensamento, esforço tumultuado e comovente, de que é paradigma Sílvio Romero. E por que não Euclides da Cunha? Surgem ambiciosas e, por vezes, bem sucedidas tentativas de interpretar sinteticamente a múltipla realidade social brasileira.

Depois, os primeiros estudantes nossos em contato com a moderna ciência social em universidades estrangeiras (leia-se: norte-americanas e européias). E ainda a consciência da importância do conhecimento científico da vida social para compreender os momento de crise (1930, dentre outros). Temos, então, a introdução da sociologia como disciplina acadêmica nos currículos escolares, primeiro no ensino normal, depois no secundário (1931-1942), a seguir, enfim, a criação dos cursos superiores de sociologia e política (1933) e ciências sociais, estes no âmbito das faculdades de filosofia, ciências e letras, especialmente a partir de 1934-35 (inicialmente Recife, Rio e São Paulo).

A figura exponencial desse período, se quisermos apenas um nome, é Gilberto Freyre, que se havia formado em universidades estrangeiras e se lança à construção de uma obra sociológica de cunho histórico-cultural à luz de uma nova e original metodologia.

Há uma fase de ascensão do prestígio das ciências sociais, seguida de uma etapa de declínio. Despertaram elas problemas sérios e focalizaram aspectos conflitivos da sociedade: daí o temor que suscitaram e a reação que provocaram entre os detentores do poder. Mas é nesse período - décadas de 30 e 40 - que se institucionaliza a pesquisa sociológica no âmbito das universidades brasileiras.5

Na década de 1950, fenômenos muito próximos de nossos observadores e estudiosos (a arrancada do desenvolvimento, com a respectiva ideologia, desenvolvimentista, e o debate sobre a representatividade da elite política do país) e fenômenos mais remotos, mas não menos relevantes (como o processo de descolonização, que muda a fisionomia econômica e política do mundo) condicionam um novo surto de interesse intelectual pela sociologia no Brasil. Essa etapa é marcada por acesa polêmica em torno de temas candentes como os que menciono a seguir em forma de interrogação. Qual o papel do cientista social na sociedade brasileira em mudança? São contraditórios os valores da participação concreta do cientista social na solução dos problemas coletivos e os do rigor científico? Que caminho é mais válido do ponto de vista da eficácia e da pureza das normas científicas:

o caminho do levantamento sistemático e rigorosamente empírico das realidades parciais representativas, a fim de compor um vasto mosaico sociocultural do Brasil, ou o caminho das construções panorâmicas e globalistas da realidade brasileira? Que grau de refinamento empregar: o exigido pela ciência ou o condicionado pela estrutura socioeconómica do país?6

Esse período marca o aparecimento da sociologia contemporânea no Brasil; de uma nova sociologia. Ela vem, a meu ver, de 1950, que não é uma data arbitrariamente escolhida. Exatamente nesse período - do confronto das análises críticas da sociologia brasileira e da superação prática7 dessa polêmica - que se observa a marcante influência de Max Weber no Brasil. Os protagonistas do reexame crítico da sociologia brasileira são vários, mas destaquemos três, pelo vigor polêmico e pela contribuição que então ofereceram: Alberto Guerreiro Ramos, que agita os problemas, Florestan Fernandes e L. A. Costa Pinto.8

Ao final dessa quadra de debates de idéias, encontraram a prática e o pensamento sociológicos o seu melhor destino, quanto à relevância dos temas e setores de estudo prioritários, quanto à escala ótima do objeto das pesquisas, quanto à eficácia metodológica. E foi dessa forma que alguns dos melhores sociólogos brasileiros se capacitaram para o entendimento correto da estrutura e da dinâmica da sociedade brasileira atual.

As contribuições mais destacáveis situam-se no campo da sociologia do desenvolvimento, em que no Brasil e em outros países da América Latina se trabalha hoje fecundamente. Esse entendimento do real a partir de dentro - aí incluída a particular situação existencial do sociólogo - tem-se feito de formr, a se criar um pensamento relativamente autônomo. Tal afirmação não significa que exista desprezo ou abandono das contribuições teóricas nascidas em outros contextos: por exemplo, nos países desenvolvidos. Tem havido, antes, um confronto de todos os modelos de análise propostos (para explicar o subdesenvolvimento). Dissecam-se os modelos consagrados, com a rejeição de aspectos menos aceitáveis e com a preocupação de encontrar alternativas válidas.

Na construção teórica dos esquemas de análise dos fenômenos de mudança social no Brasil, tem-se apelado amiúde para os clássicos. Dentre eles, Durkheim, Marx e Weber. Assim como a obra de Max Weber tem sido encarada pelos comentadores como permanente diálogo com Karl Marx, assim também grande parte d . produção sociológica brasileira, no campo da discussão do subdesenvolvimento, é um diálogo com Max Weber. Um diálogo sobre a aplicabilidade ou não de suas categorias analíticas, de seus tiposideais, de suas teorias, à realidade do capitalismo periférico atual. Curiosamente, ao mesmo tempo que se apela para um clássico como Weber, criticam-se, no meio universitário brasileiro, os sucedâneos de Weber; por exemplo, os defensores das teorias da "modernização" muitos deles marcados, de forma consciente ou não, pelo etnocentrismo e pelo estreito evolucionismo linear que postula sempre a mesma forma de passar do "tradicional para o moderno".

É um balanço não-exaustivo da presença de Max Weber na sociologia brasileira contemporânea que pretendo apresentar agora. Nem todos os nomes que citarei têm as preocupações inovadoras mencionadas. Mas alguns deles as têm em alto grau. O ponto de referência cronológico será 1950. Limitar-me-ei, com duas ou três exceções inevitáveis, ao exame apenas de livros, excluindo outros gêneros de publicação.

Um último registro, antes de efetuar o promotido balanço. A influência de Max Weber, evidentemente, não é a única, de sociólogo alemão, sobre o pensamento sociológico brasileiro em nossos dias. A corrente marxista é ponderável£, em certas matérias, como na teoria da estratificação social, essas duas orientações se defrontam e, em alguns autores brasileiros, interpenetram-se. Outro clássico, como Simmel, é conhecido e citado com certa freqüência. Alguns dos sociólogos brasileiros que se fundamentam em Max Weber (Florestan Fernandes, dentre outros) foram também marcados por Karl Manheim, o da sociologia do conhecimento, mas principalmente o da teoria da "reconstrução social". Dos mais recentes autores, assinale-se uma crescente presença, entre alunos e professores das ciências sociais, da obra de Darhendorf, já traduzido para o espanhol e um pouco para o português; os textos preferidos são os de suas contribuições à teoria do conflito e os de crítica ao funcionalismo parsoniano. Há também a presença dos autores da escola de sociologia crítica, especialmente Adorno. Esta última influência vem-se limitando, até agora, a pessoas interessadas em sociologia da arte e em teoria da informação, embora a conhecida pesquisa que Adorno dirigiu sobre o tema da personalidade autoritária seja igualmente citada em outros textos brasileiros.

 

2. TEXTOS TEÓRICOS E ENSAIOS

Tentarei arrolar as repercussões do pensamento weberiano em obras brasileiras de teoria social e ensaio. Os temas são variados, mas há alguns mais assíduos, o da burocracia como tipo-ideal, o das modalidades de poder, o das dimensões e tipos de estratificação social. E também o pressuposto teórico da racionalidade como traço da evolução do capitalismo ocidental. Darei especial relevo às repercussões que me parecem mais fortes, as que incidem na análise do sistema administrativo e da estratificação social. Não se pode esquecer, entretanto, a questão metodológica. Em geral, autores brasileiros apegam-se a um aspecto do esquema metológiço de Weber: o da construção de tipos-ideais. Raramente alguma referência a outros ângulos.

Talvez a mais antiga interpretação sistemática (e não simples citação casual ou de circunstância) de um tema weberiano seja um trabalho de Emílio Willems, aparecido em 1945 na revista Administração Publica,9 de São Paulo, e que trata de patrimonialismo e administração, assunto que se torna freqüente em ensaios sociológicos brasileiros mais recentes- Willems, de origem alemã, assume posição pioneira na pesquisa sociológica, no Brasil, nas décadas de 30 e 40. Seu Dicionário de sociologia, publicado em 1950, constitui pequena summa do conhecimento sociológico de até então, incluindo assuntos, então em voga, com definições muito criteriosas. Dentre tais assuntos, citem-se os temas ecológicos. Mas também os temas derivados da sociologia de Weber estão presentes. Ainda hoje é comum que especialistas de alta competência, em trabalhos bem estruturados, recorram aos verbetes redigidos por Emílio Willems.

Estou convencido, por indícios que exporei adiante, de que a primeira edição completa nãoalemã da obra de Max Weber, Economia e sociedade, representou, no Brasil, um marco histórico na evolução do pensamento sociológico. O panorama das idéias, nesse campo, na década de 40, poderia ser descrito como de mistura de tendências, das quais se destacariam as novas influências americanas ( via professores da Escola ds Sociologia e Política de São Paulo), a persistência dos padrões e estilos de trabalho ensaísticos do começo do século, com forte influência européia, os desdobramentos da escola francesa durkheimeana, as inovações da antropologia cultural. Nesse momento, ocorre o forte impacto do pensamento weberiano. Recebido com certa perplexidade, pela compacta erudição, pelo intrincado da análise, o livro Economia e sociedade, na edição mexicana de 44, passa depois a ser uma das bíblias do moderno sociólogo brasileiro.

Antes de comentar alguns ensaios em que essa presença é visível e nítida, vejamos os trabalhos de avaliação da obra weberiana que se produziram no Brasil.

Em 1946, Alberto Guerreiro Ramos, então com cerca de 30 anos de idade, tendo interrompido a carreira de professor de sociologia na Bahia, para iniciar, no DASP, a de técnico em administração, foi encarregado de- uma seção bibliográfica na Revista ao Serviço Público. Uma de suas resenhas, publicada nesse ano, destinase a registrar o aparecimento da edição mexicana de Economia e sociedade. O artigo contém visão panorâmica do pensamento weberiano, com base no livro analisado e outros textos do sociólogo alemão ou de alguns de seus comentadores.10

O objetivo da resenha de Guerreiro Ramos é chamar a atenção dos estudiosos brasileiros de administração para a relevância das categorias analíticas propostas no livro como instrumentos para exame dos problemas administrativos. Cita, a esse respeito, os trabalhos até então produzidos nessa linha, neles incluídos o de Emílio Willems e os de vários autores norte-americanos.

Vai muito além, entretanto, a resenha. Em outras palavras, para se tornar convincente, junto a seus colegas, estudiosos da administração, Guerreiro Ramos procede a extensa exposição da teoria weberiana, dedicando maior espaço à questão dos tipos-ideais de dominação. A exposição não possui mero caráter descritivo ou de resumo. Em várias passagens, como na da interpretação do tipo-ideal ("ficção heurística com a qual o cientista ordena uma série de aspectos recorrentes da realidade"), alcança alto grau de lúcida compreensão.

Aquilo que ele esperava, nessa primeira recensão brasileira de Economia e sociedade, de certa forma ss cumpriu. O fenômeno das diferenças, interpenetrações e eventual transição do modelo patrimonialista para o racional-burocrático, na sociedade brasileira, foi analisado por autores como Mário Wagner Vieira da Cunha, Juarez Rubens Brandão Lopes,11 Octavio Ianni. Por sua vez, L. A. Costa Pinto, em sua análise das classes sociais no Brasil, utiliza-se do conceito de burocratização como um subprocesso, decorrente da secularização e ligado ao fenônemo urbano, que constitui fator de passagem do antigo padrão de estratificação (bipolarizado no Brasil tradicional) para o padrão atual caracterizado pela diversificação. Até mesmo um antropólogo social, Roberto Cardoso de Oliveira, preocupou-se com um problema correlato, o da estrutura do poder em grupos tribais brasileiros, sob o ângulo dos tipos weberianos.12 Paradoxalmente, registra-se que as aplicações dessas idéias, feitas entre nós por cientistas políticos, têm sido mais convencionais e menos dinâmicas do que as realizadas pelos sociólogos.

Voltando aos estudos críticos da obra weberiana, efetuados por brasileiros, lembremos o de Juarez Brandão Lopes, intitulado "O processo histórico e Max Weber". Trata-se de conferência pronunciada a convite do Instituto de Sociologia e Política da Federação do Comércio do Estado de São Paulo, que organizou, em 1955, um ciclo de palestras sobre "quatro precursores brasileiros" das ciências sociais (Euclides da Cunha, Paulo Prado, Oliveira Vianna e Alberto Torres) e "três filósofos da História" (Karl Marx, Max Weber e Arnold Toynbee). É sob esse ângulo, da filosofia da história, que o conferencista procura estudar a obra weberiana. O texto contém informações biográficas, situa o sociólogo em seu tempo e resume depois o seu pensamento histórico e sociológico:

"Conscientes do risco, lançamo-nos à tarefa tratando: da concepção de Weber sobre a natureza das ciências sociais e dos métodos que lhes são apropriados; da visão weberiana da história pelos seus três tipos de dominação legítima; da tendência para a racionalização da estrutura social (em que cabe lugar destacado ao processo de burocratização) ; e, finalmente, da visão que nos dá da ordem capitalista do mundo moderno, à luz desses processos."

"Duas correntes de pensamento são especialmente importantes para a compreensão de Weber - a interpretação marxista dos fenômenos sociais e a tendência idealista do pensamento alemão, com a distinção entre as ciências físicas e as ciências sociais e culturais".13

A conferência de Juarez Brandão Lopes representa um dos poucos textos em que, ao se tratar de Weber, não se menciona a edição mexicana de Economia e sociedade. Citam-se especialmente From Max Weber, A ética protestante e The religión of índia. Recorre também o autor às informações biográficas e críticas de Gerth e Mills (na introdução da compilação que fizeram) e a Parsons, na introdução de The theory of social and economic organization. (Pergunto-me se seria esse livro de Parsons aquele cuja edição Guerreiro Ramos aguardava em 1946. Ver nota 10.)

Juarez Rubens Brandão Lopes, como logo se verificará, serviu-se amplamente de sua familiaridade com a obra de Max Weber para produzir ensaios e pesquisas sociológicas. É dos autores de maior influência weberiana no Brasil.

Sob o aspecto metodológico, a posição do autor de Economia e sociedade é exposta de forma acentuadamente superficial na maioria dos manuais brasileiros - trata-se de resumos rápidos e simplificados da proposta de tipos-ideais. Esse tema assume outra profundidade na obra de Florestan Fernandes. Em Fundamentos empíricos da explicação sociológica, expõe e compara as abordagens metodológicas de Emile Durkheim, Max Weber (a quem dedica um capítulo de 12 páginas) e Karl Marx, como "soluções fundamentais dos problemas da indução na Sociologia".14

Quanto a Weber, estudam-se, de início as raízes epistemológicas do pensamento alemão e se fazem referências a tentativas de caracterização do enfoque sociológico (notadamente as de F. Tõnnies e Simmel). O restante do capítulo é dedicado ao exame do método weberiano, restringindo-se a análise, entretanto, ao aspecto da construção dos tipos-ideais. Baseia-se Florestan Fernandes no texto contido em Economia e sociedade (ainda uma vez a edição mexicana de 1944). Empreende-se aí a análise crítica desse texto, análise que se completa mais adiante na comparação com a abordagem marxista.

Referindo-se, já no fim do capítulo, aos estudos de Weber sobre a ética calvinista e a religião da China, afirma Florestan Fernandes:

"Os estudos empíricos de Weber exemplificam o seu estilo de procedimento empírico na análise sociológica de fenômenos concretos, demonstrando, cabalmente, a coerência que nele havia entre o teórico e o pesquisador. Sua técnica consistia, como vimos, em abstrair o essencial com base na suposição lógica de que os caracteres essenciais tendem a repetir-se nos casos ou instâncias similares, e em admitir que a experiência permitiria comprovar qualquer conclusão a respeito. Essa técnica foi estritamente aplicada em suas investigações mencionadas e o rigor de procedimento muito contribuiu para disfarçar os pontos realmente fracos de sua teoria de investigação sociológica. Restaria, ainda, mencionar um aspecto de sua técnica indutiva: graças à solução que deu o problema da generalização, possui escasso interesse lógico, em seu esquema metodológico, o saber metodológico, o saber se a repetição de um fenômeno em várias sociedades podia ser ligada a uma fórmula explanatória comum (...)" 15

Talvez se possa afirmar que Florestan Fernandes é o sociólogo brasileiro mais próximo do paradigma de Weber como realização pessoal e política, naturalmente guardadas as profundas diferenças de época e contexto sociopolítico. Notável erudição histórica - vívida e não fria erudição, principalmente sobre o Brasil - e também epistemológica, ao lado de uma preocupação pessoal com a responsabilidade do sociólogo como cientista e cidadão, em face da vida pública, eis dois nítidos pontos,em comum. O que a Max Weber não foi dado, pela época em que viveu, e que o sociólogo brasileiro ostenta, é um vasto conhecimento crítico da sociologia empírica moderna.

Mas Florestan Fernandes tem plena consciência da diferença de perspectivas dos sociólogo atuais em relação ao clássico alemão:

"Weber demonstrou muito bem que a objetividade científica não impunha, necessariamente, nenhuma limitação ética ao cientista. Contudo, como sucedeu com outros cientistas sociais eminentes da época, ocupou-se com um modelo de explicação sociológica que não permite representar os fenômenos sociais em termos de relações de seqüência vistas no plano histórico, largamente irrelevante para discussão de questões práticas concernentes a processos macrossociais. Seria absurdo manter aquela atitude em nossos dias. De um lado porque sabemos que ela nada tem a ver com o espírito científico propriamente dito. Ela representa um dos efeitos intelectuais da acomodação do cientista à concepção liberal do mundo. De outro, porque os cientista sociais podem lidar com as 'questões práticas' de forma objetiva, desligando-se do substrato ideológico imanente à eclosão delas nas correntes e movimentos sociais. Em outras palavras, as tendências de desenvolvimento social constituem dados de fato. Acontece que esses dados de fato se impõem à análise como algo de interesse prático fundamental, seja para o conhecimento das exigências da situação, seja para a criação e a utilização de técnicas sociais apropriadas".16

O acréscimo de uma dimensão histórica dinâmica à tipologia e ao quadro de referência teórico de Max Weber é que tem revestido de significação particularmente fecunda a sua utilização entre nós, como nos casos, dentre outros, dos trabalhos de Juarez Brandão Lopes e Mário Wagner Vieira da Cunha.

No estudo da transformação industrial do Brasil, especialmente tal como o tem feito o grupo de discípulos paulistas de Florestan Fernandes, foge-se do esquema convencional praticado em outros centros intelectuais (norteamericanos e europeus), que dá especial ênfase às relações humanas na indústria. No Brasil, ao contrário, todo o empenho orientou-se para a compreensão profunda das condições sociais da industrialização, dos fatores exógenos e endógenos (à sociedade brasileira) que a determinaram e da dinâmica de classes que ela evidencia.

A raiz dessa compreensão está na atitude do sociólogo brasileiro. A visão de Guerreiro Ramos, a seguir transcrita, não corresponde à situação atual da sociologia no Brasil.

"Na prática, é raro o sociólogo brasileiro que não negue a essência mesma da visão sociológica - que é ser um saber integrativo da vida comunitária efetiva. Toda genuína sociologia emerge de suportes existenciais comunitários e, assim, contribui para aprofundar a inserção do homem no seu contexto nacional ou regional".

"Medite-se sobre o que fizeram os grandes sociólogos como Comte, Marx, Spencer, Durkheim, Max Weber, Small, Lester Ward e outros. Apesar de suas diferenças, cada um deles elaborou um saber compreensivo do presente e da circunstância que viveu".17

O mesmo Guerreiro Ramos, propondo a industrialização como categoria fundamental para os sociólogos brasileiros, afirma:

"Na estilização científica da industrialização, ter-se-á de proceder como Max Weber, ao cunhar as noções de dominação tradicional, carismática e racional - legal ou burocrática - ou como Fernando Tõnnies ao elaborar os conceitos de 'comunidade e sociedade'. Tais termos exprimem tendências efetivas da história alemã e européia e, com eles e outros análogos, a sociologia equipava o espírito dos estudiosos para a compreensão e o tratamento de situações concretas". "A industrialização constitui categoria cardinal da Sociologia, especialmente da latino-americana. (... ) ".18

O conteúdo dessas afirmações, que assumem o caráter programático ou normativo para o sociólogo brasileiro ou latino-americano, realizouse, insistamos nesta idéia, no Brasil, pela participante inserção dos estudiosos nos problemas concretos.

Em muitas dessas pesquisas, de que se falará adiante mais detidamente, aliou-se a competência metodológica na inv estigação empírica às amplas perspectivas abertas pelos sociólogos clássicos, dentre os quais Max Weber.

Pretendo agora mostrar de que modo a teoria da estratificação social formulada por Max Weber encontrou favorável repercussão no meio acadêmico brasileiro. Em duas passagens de sua obra, Florestan Fernandes trata mais explicitamente dessa concepção no capítulos "Análise sociológica das classes sociais" e "Sociedade de classes e subdesenvolvimento" do livro Ensaios de sociologia geral e aplicada.

No primeiro ensaio, oferece um balanço das contribuições sociológicas ao entendimento do fenômeno das classes, valendo-se, quanto ao conceito dessa coletividade, das abordagens de Max Weber. Deste último, toma sobretudo a idéia de situação de classe, tal como está definida em Economia e sociedade ("entendemos por 'situação de classe' o conjunto de probabilidades típicas: 1) de provisão de bens, 2) de posição externa, de destino pessoal que derivam, dentro de uma determinada ordem econômica, da magnitude e natureza do poder de disposição (ou ausência dele) sobre bens e serviços, para obtenção de rendas ou receitas": "entendemos por 'classe' todo grupo humano que se encontre em igual situação de classe". Por fim, dá um balanço (otimista) da contribuição sociológica, no sentido de que a sociologia tem acumulado conhecimentos muito úteis sobre as sociedades ocidentais modernas e, portanto, sobre o regime de classes, e que esse ramo do conhecimento dispõe de um equipamento conceituai adequado "para fornecer os instrumentos de trabalho e a necessária fundamentação científica para as investigações empírico-dedutivas e apriorísticas das classes sociais".19

No outro texto, Florestan Fernandes trata de buscar explicações para o subdesenvolvimento e a estrutura de classes em sociedades representativas do capitalismo dependente. Volta a encontrá-las em Karl Marx e Max Weber. Sobre este último, afirma:

"A definição de classe, adotada por Weber, é demasiado ampla. No entanto, sua caracterização formal da 'situação de classe' representa um verdadeiro marco na história da Sociologia. A ênfase posta na significação da existência do mercado e da posição ocupada no mercado, em termos de valorização socioeconómica de bens e trabalho, para a definição da situação de classe, confere a seu modelo de análise e de explicação uma utilidade ímpar no estudo sociológico das sociedades de classes subdesenvolvidas. Além disso, entre todos os sociólogos clássicos, Weber é o que oferece a explicação mais límpida e simples da ordem social inerente ao capitalismo e à estratificação em classes, como uma ordem de 'possuidores e não possuidores', fundada em interesse inequivocamente econômicos. Promovendo-se o que ele próprio pretendia como dupla adequação (de sentido e causal), seus conceitos e teorias podem lançar enorme luz sobre alguns aspectos centrais da organização da sociedade de classes subdesenvolvida".20

A partir dessa verificação, o sociólogo paulista propõe o uso das categorias de Weber (possuidores e não-possuidores, formas de dominação, etc.), para o entendimento das relações internas e externas de que participam as sociedades definidas como de capitalismo dependente. De modo geral, o pensamento de Florestan Fernandes orienta-se para a caracterização do Brasil moderno como sociedade competitiva e de classes. Sua abordagem, por exemplo, do fenômeno das relações raciais nas áreas urbanas do Brasil parte desse ângulo de análise, e por isso mesmo difere tão profundamente dos estudos que insistem em focalizar o assunto sob o ângulo da sociedade tradicional, em que era outro o padrão de estratificação.

Outros destacados sociólogos - dentre os quais Juarez Rubens Brandão Lopes e Maria Isaura Pereira de Queiroz - 21 trataram, igualmente, da questão das classes no Brasil com base no enfoque weberiano.

Em trabalho sobre planejamento, Luiz Pereira cita largamente idéias de Max Weber sobre política e ciência, contrapondo-as às concepções de Durkheim sobre o mesmo assunto.22

Outro brilhante ensaio em que Weber - A ética protestante - encontra-se muito presente é o de Viana Moog, Bandeirantes e pioneiros, confronto do desenvolvimento brasileiro e do norte-americano.23

 

3. COMO SUPORTE DE PESQUISAS

Vários sociólogos brasileiros valeram-se de categorias analíticas ou quadros de referência teórica propostos por Weber como suporte de pesquisas sobre a realidade brasileira.

Creio que o exemplo mais característico desse procedimento venha sendo o de Juarez Brandão Lopes. Seu interesse intelectual, como pesquisador, volta-se para os problemas da transformação da sociedade brasileira sob o impacto do processo de industrialização. Nesse sentido, tem examinado, à luz de dados agregados ou levantados em pesquisas de campo que dirigiu, aspectos muito relevantes como o da adaptação do migrante rural ao meio urbano, das relações sociais no âmbito das empresas (mais ou menos tradicionais), da burocratização e seus efeitos. No primeiro caso, da utilização de dados preexistentes, especialmente censitários, encontram-se os trabalhos de Desenvolvimento e mudanças sociais, livro fundamental para a comprensão do Brasil em transição nos dias de hoje. No segundo, de pesquisas diretas, encontramse o livro A crise do Brasil arcaico, tese acadêmica apresentada à Universidade de São Paulo, e alguns dos estudos de Sociedade industrial no Brasil. Ambos os livros expõem resultados de pesquisa feita sobre relações de trabalho em duas comunidades da Zona da Mata mineira. Tratava-se de parte de plano de pesquisa mais amplo, o Programa de Pesquisas em Cidades-Laboratórios, sob os auspícios do Centro Brasileiro de Pesquisas Educacionais e da Campanha Nacional de Erradicação do Analfabetismo do MEC. A partir do subtítulo inicialmente adotado na tese, verifica-se a presença do pensamento weberiano: "Estudo da mudança das relações de trabalho na Sociedade Patrimonialista". Em Sociedade industrial no Brasil são expostos também os resultados de pesquisa em uma fábrica da cidade de São Paulo, da qual estuda alguns aspectos da organização e da administração.

O tipo-ideal da burocracia, tal como exposto por Weber, constitui a categoria básica de análise nesse último caso. O resumo que o autor faz da proposta do sociólogo alemão me parece exemplar do ponto de vista da clareza:

"Nessa caracterização (da fábrica paulistana), a forma e os efeitos da administração industrial são vistos como decorrentes, em boa medida, da natureza da estrutura da autoridade. Comparou-se, assim, a fim de obter-se uma compreensão sociológica da empresa como estrutura social, a sua organização e administração com o modelo weberiano de burocracia. Nesta, para Max Weber, as tarefas a serem executadas dividem-se pelos 'cargos', cada qual com a sua 'esfera de competência' claramente delimitada. Os cargos acham-se dispostos numa estrutura hierárquica. Fundamental na burocracia, nesta concepção, é a organização característica da autoridade, com a correspondente distinção entre cargo e pessoa. A autoridade é do cargo, não da pessoa de seu ocupante, e é sempre uma autoridade circunscrita às atribuições desse cargo. Tudo é regido em tal organização por um sistema, deliberadamente estabelecido, de normas abstratas, gerais e impessoais, donde o caráter impessoal e a previsibilidade dos seus processos de administração. Este tipo-ideal de burocracia serviu-nos de instrumento de estudo. Foi pela comparação com o mesmo, comparação que fica apenas implícita, que nos guiamos na análise, adiante exposta, da organização e administração de uma empresa industrial".24

No estudo das duas comunidades mineiras, sedes de indústrias têxteis, Juarez Rubens Brandão Lopes valeu-se, principalmente, dos tipos-ideais de dominação patrimonialista e burocracia para caracterizar as relações de trabalho prevalecentes nas empresas; e, simultaneamente, as próprias relações sociais nessas localidades. Uma das originalidades da pesquisa reside neste último aspecto: depois de citar investigações que empregam o esquema weberiano de burocracia para exame de situações concretas no serviço público e em empresas, afirma:

"Nessas pesquisas entretanto a análise se limita à estrutura interna da organização, não se relacionando a sua hierarquia de autoridade com as relações de dominação no nível da comunidade, como é feito neste trabalho".25

O papel do sindicato operário, como mediador de relações impessoais o campo de trabalho, de forma a ser instrumento de implantação do modelo burocrático, é também analisado com muita propriedade pelo autor.

Utiliza-se ele ainda do esquema de Weber de estratificação, especialmente quanto às dimensões social, econômica e política de que se reveste (excelente resumo dessa perspectiva teórica é apresentado no capítulo 4 de Sociedade industrial no Brasil).

A distinção clássica entre grupo de status (derivado do grau de prestígio) e classe (com iniludível conotação econômica) é usada, por exemplo, neste trecho de A crise do Brasil arcaico:

"A solidariedade existente é comunal e não de classe. Decorre de um estilo de vida comum a toda a gente pobre da comunidade e não apenas ao operariado. Fortalecendo a constituição do sindicato é sua atuação, porém, tal solidariedade pode dar margem à sua transformação em algo diverso, com o despertar da consciência de interesses comuns, específicos dos assalariados industriais e opostos aos dos empregadores. Aquele estilo de vida inclui o respeito e a subordinação às pessoas da classe dominante, entre os quais os donos das industrias (... ) .26

O caso de Juarez Rubens Brandão Lopes não constitui, por certo, o único, mas o mais típico exemplo de utilização de conceitos weberianos em pesquisas sociológicas, no Brasil. Sua obra representa notável esforço para penetrar o significado mais profundo das transformações recentes do país, pela emergência de uma sociedade urbano-industrial. Vai do nível microssociológico do exame da adaptação do migrante à vida fabril ao nível macrossociológico das relações de produção. É evidente que foge conscientemente da pura transposição de esquemas de "relações humanas" nas empresas, vigentes entre sociólogos de outros países. Coloca, sobretudo, essas relações np quadro mais amplo da estrutura da sociedade global brasileira e de suas transformações".27

Max Weber, é claro, não constitui sua única base de análise. É inegável, porém, que uma aplicação a um tempo segura, flexível e autônoma das categorias analíticas do sociólogo alemão possibilitou a Juarez Brandão Lopes a chave para compreender muitos problemas do Brasil atual.

Na mesma linha de preocupação e de independência de análise, e com apelo a fontes teóricas semelhantes, encontram-se os trabalhos de Mário Wagner Vieira da Cunha, de quem conhecemos o utilíssimo O.sistema administrativo brasileiro, ampla visão das mudanças na estrutura governamental e nos grupos burocráticos brasileiros, notadamente no período entre 1930 e 1950.28

Não como suporte, mas como uma das inspirações de uma pesquisa, encontramos a idéia weberiana de racionalidade citada no pórtico do trabalho de Cândido Procópio Ferreira de Camargo sobre Kardecismo e umbanda:

"Por paradoxal que possa parecer à primeira vista, as religiões mediúnicas (especialmente ó setor mais próximo do Kardecismo) constituem uma das expressões de nosso relativo processo de racionalização e secularização. A pesquisa levou-nos realmente a entender o florescimento das religiões mediúnicas como um dos meios alternativos que facilitam a adaptação do homem brasileiro à vida urbana. Certos traços característicos favorecem esse papel: capacidade de ser fonte de orientação para os indivíduos (substituindo a tradição e sua autoridade), aceitação de valores urbanos e profanos, busca de coerência explícita com a 'ciência' e atitude 'científica', etc. Estes e outros aspectos, posteriormente analisados com minúcias no capítulo referente às funções do 'continuum', emprestam-lhe atributos de racionalização - no sentido weberiano de orientação da vida por valores éticos explícitos e coerentes - em contraposição à orientação pela tradição, fundada na permanência das formas habituais de agir e sancionadas pela autoridade".29

O fundamento dessa aproximação entre o fenômeno espírita e racionalidade no sentido weberiano encontra-se em A ética protestante, que volta a ser citado no curso da pesquisa, neste trecho:

"A tradição cultural brasileira - como sugerido no capítulo referente à função terapêutica [dessas práticas religiosas] - é impregnada de um estilo sacral de compreender a realidade.
O fato de se interiorizar a orientação da vida e se procurar valores, de modo sistemático e organizado (neste sentido 'racionais', cfr. Max Weber), não impede que as expectativas de solução e os próprios valores almejados sejam de natureza sacral. Pelo contrário, muitas vezes a solução sacral é a única que parece compreensível e significativa, a única bastante radical e profunda para ser capaz de organizar a vida íntima e atribuir valor e sentido às ações e experiências.
Embora a cultura brasileira seja naturalmente complexa, orientando-se também por valores estritamente racionais e profanos, cremos não ser exagerado afirmar que a solução geral para a orientação da vida assume, entre nós, importância considerável. A capacidade de poder combinar valores éticos internos, organizados de modo racional, com o estilo sacral de interpretação da vida, é uma das principais razões do sucesso das religiões mediúnicas".30

Esse trecho de relatório de pesquisa no campo da sociologia da religião ilustra a afirmação que sustento de que a aplicação por sociólogos brasileiros de certos conceito weberianos obedece a uma postura metodológica flexível, capaz de perceber certas nuances muito peculiares da estrutura histórico-cultural do Brasil.

Não me parece que esse mesmo resultado possa ser alcançado quando se utilizam certos esquemas atuais do tipo "transição tradicionalmoderno": é que estes se prendem a um rígido evolucionismo cujo ponto de referência (e de chegada) são as características "racionais" das sociedades capitalistas do Ocidente. Nesse ponto o aparente historicismo de Weber constitui diretriz muito mais fecunda em mãos hábeis de cientistas sociais capazes de perceber as sutilezas de certos traços de cada sociedade.

 

4. REPERCUSSÕES NO ENSINO

Quando lemos os programas dos cursos de sociologia, quer os introdutórios, quer os especializados, encontramos, amiúde, conceitos tipicamente weberianos ou a indicação bibliográfica de suas obras para uso dos alunos dessas matérias. Nos cursos de introdução, por exemplo, é comum a referência a Max Weber como um dos clássicos ou a alusão à sua metodologia. Ainda nesses programas, sempre que se fala em "tipos de estratificação", o que está implícito é a distinção entre casta, estamento e classe, na terminologia que Weber difundiu.

Na disciplina teoria sociológica, quando ministrada a nível de graduação, se encarada como exposição das diferentes aíwrdagens ou correntes do pensamento sociológico, é indispensável um tópico sobre Max Weber (no programa, por exemplo, da Universidade de Brasília, para 1971, encontramos o tópico, "A sociologia 'compreensiva' de Max Weber" indicando-se como fonte de consulta os Ensaios de sociologia e "Os conceitos sociológicos fundamentais" contidos em Economia e sociedade. Por outro lado, se se encara teoria sociológica em outro sentido, como sociologia sistemática, ainda aqui deverão ser incluídos alguns temas básicos de origem weberiana, como organizações formais, tipos de dominação, racionalidade, etc.

Nas chamadas sociologias especiais, a abordagem de Max Weber aparece com grande freqüência. Nos programas, por exemplo, de estratificação social, é imprescindível a exposição do ponto de vista desse autor, especialmente em confronto com a posição marxista; em sociologia da administração é também impossível ignorar a análise da burocracia como tipo-ideal construído por ele; em sociologia urbana tornase também indispensável mencionar a contribuição historiográfica desse autor, no exame do surgimento e das funções da cidade européia do início do capitalismo.

Se considerarmos, por sua vez, os cursos de pós-graduação, especialmente os de mestrado em sociologia, recentemente implantados no Brasil, verificaremos que os estudos de teoria sociológica, com caráter monográfico ou não, incluem sempre o estudo da obra de Weber.

Tais considerações, longe de ter o sentido normativo ("impõe-se a presença de Weber nos programas"), são formuladas com o intuito informativo, da parte de quem se encontra em contato direto com o ensino de sociologia, embora não disponha de informação completamente documentada sobre esse aspecto do problema.

Nos manuais e textos didáticos brasileiros, a menção do nome de Weber e o resumo sobre alguns dos conceitos que cunhou é relativamente freqüente. Dentre esses manuais, citemos dois, geralmente usados na preparação para ingresso na universidade ou nos cursos introdutórios de sociologia: Trata-se dos livros do Pe. Fernando Bastos de Ávila, em que discorre acerca de alguns temas weberianos, notadamente o da tipologia; e o do Prof. Paulo Dourado Gusmão, que versa também sobre esses assuntos e inclui, num glossário, definições weberianas. Deste último autor, em seu livro Teorias sociológicas, há um capítulo sobre Weber.

É curioso verificar a omissão do nome e da obra de Weber em manuais mais antigos. Trata-se do caso do compêndio de Amaral Fontoura, destinado ao curso secundário, de acordo com o programa da reforma de ensino de 1931 (a sociologia foi retirada dos currículos desse nível de ensino pela reforma de 1942). Mesmo na obra de Fernando de Azevedo, Princípios de sociologia, que se diz, no subtítulo, "pequena introdução ao estudo da Sociologia geral", não consta, da bibliografia, qualquer obra de Weber. Esse trabalho do veterano sociólogo brasileiro constitui, no entanto, excelente obra introdutória, marcadamente durkheimeana.31

Tem-se a impressão de que o uso da obra de Max Weber, para fins didáticos, nos cursos de sociologia, economia e ciência política firma-se depois da descoberta, por sociólogos jovens, nas décadas de 40 e 50, da importância e do vigor da análise weberiana de alguns temas fundamentais da vida social no mundo moderno.

O Dicionário de sociologia, organizado por Emílio Willems, cuja primeira edição data de 1950, contém muitos verbetes expondo conceitos inequivocamente weberianos (ou engendrados por ele ou assimilados a seu quadro de referência teórica básico). Além de breve biografia dele, contém o dicionário boas definições, por exemplo, de patrimonialismo, tipo-ideal, reciprocidade, burocracia, dominação, carisma.

Agora, uma referência a coletâneas de texto recentemente organizadas no Brasil para fins didáticos e em que foram incorporados capítulos de Max Weber. E também registro de traduções recentes de obras inteiras do autor, para uso nos cursos de ciências sociais.

No primeiro caso, mencionaríamos: "Os fundamentos da organização burocrática: uma construção do tipo ideal", numa coletânea sobre sociologia da burocracia; "Conceitos e categorias de cidade", numa coletânea de textos de sociologia urbana; "Classe, status, partido", numa coletânea sobre estratificação social. Um texto sobre castas e outro sobre feudalismo e Estado estamental aparecem também em coletânea sobre as teorias de estratificação, organizada por Octávio Ianni.

Dentre as traduções recentes, encontra-se a de From Max Weber, cujo texto em português recebeu a revisão técnica de Fernando Henrique Cardoso.

Como curiosidade-se o aparecimento, quase simultâneo, ém língua portuguesa, de quarto versões diferentes dos famosos textos de Weber sobre ciência e política: na tradução do livro FromMax Weber; numa edição brasileira de 1970, formando um livro separado, com prefácio de Manoel T. Berlinck; numa edição portuguesa, com longa introdução de Hebert Marcuse e, como fragmento numa coletânea, introduzida, sobre o humanismo alemão.

Finalmente, neste item, caberia registrar certos manuais e livros didáticos destinados ao curso superior, produzidos na América do Norte ou na Europa e traduzidos para o português, contendo informações e comentários sobre o autor que analisamos. Desses livros, apenas um é totalmente dedicado ao assunto: o do sociólogo francês Julien Freund, Sociologia de Max Weber, editado no Brasil em 1970. Capítulos sobre ele, em livros de teoria sociológica, há alguns no de Nicholas S. Timascheff (p. 212-33), Teoria sociológica; o capítulo de John Rex em Precursores das ciências sociais, coletânea editada pelo inglês Timothy Raison; no manual de Bogardusr, segundo volume. (As referências completas dos trabalhos citados neste capítulo podem ser consultadas na bibliografia geral ou na nota sobre as edições em português.)

 

5. INFLUÊNCIAS INDIRETAS

Assinalemos algumas influências indiretas de Max Weber na sociologia brasileira. Há alguns iivros de autores americanos, bastante difundidos através de suas edições em espanhol e em português, que se utilizam largamente dos conceitos weberianos, e que são adotados em cursos universitários. Mencionemos o de Peter Blau sobre a burocracia nas sociedades modernas. Todo o esquema analítico é desenvolvido a partir do tipo-ideal de burocracia. Da mesma forma, o livro de Kurt B. Mayer, Classe e sociedade é fortemente influenciado pelo nosso autor, especialmente no capítulo terceiro, que trata do tema weberiano das dimensões da estratificação social.

C. Wright Mills talvez constitua o exemplo mais brilhante de aceitação crítica do pensamento weberiano. Em Poder e política, por exemplo, desenvolve toda uma teoria da estratificação a partir das dimensões propostas por Weber. E no livro (recentemente traduzido para o português) Caráter e estrutura social, de Gerth e Mills há uma notável presença do clássico alemão: por exemplo, todo o capítulo sobre tipos de controle social constitui uma explicitação de conceitos weberianos.

Da mesma forma, o pensamento de Parsons, notadamente quanto à idéia de ação social, representa, no Brasil, uma influência indireta das formulações weberianas.

Na sociologia da modernização, que chega até nós principalmente através de autores norteamericanos, pode-se verificar a presença de Weber. David Mac Clelland, por exemplo, ao desenvolver sua tese da "necessidade de êxito". "tenta psicologizar a tese clássica de Max Weber" (da ética protestante) .32

 

6. CONCLUSÃO - MARCO HISTÓRICO E MARCA REGISTRADA

Este ensaio tem duplo caráter: informativo e interpretativo. Em nenhum dos dois sentidos pretende ter esgotado o assunto. Pelo contrário, é apenas uma primeira abordagem sistemática, no campo da sociologia comparada, das repercussões desse clássico europeu no Brasil. Abri essa vereda, por vezes de forma hesitante, mas certo de ter tomado a meu cargo um tema altamente sugestivo e relevante. Cabe-me agora, com ajuda de outros interessados, aprofundar, retificar se for o caso, e ampliar a análise aqui exposta.

Um clássico: em qualquer sentido que se tome esta palavra, será inevitável o rótulo para o caso de Max Weber. Ele o é, sem dúvida, como autor que se usa obrigatoriamente nas aulas de sociologia, como autor definitivamente consagrado e como autor que contribuiu de modo decisivo para dar fundamento ao conhecimento sociológico científico.

Depois da exposição feita, dos vários ângulos pelos quais vejo a presença de Max Weber no Brasil, a primeira verificação é de estarmos diante de autor com larga e variada audiência no Brasil. Sua obra repercutiu entre cientistas sociais de mais de uma geração, entre cientistas sociais das mais variadas tendências. Desde os sociólogos que praticam um conhecimento de cunho antropológico, até os interessados no conhecimento sociológico da política ou do próprio conhecimento, passando pelos interessados na transformação industrial33 - Florestan Fernandes, Gilberto Freyre, Octávio Ianni, Guerreiro Ramos, Juarez Brandão Lopes, Cândido Procópio Camargo, Viana Moog, Mário Wagner Vieira da Cunha, Emílio Willems, dentre muitos outros - debruçaram-se sobre a obra de Max Weber e dela retiram ensinamentos para discutir problemas teóricos ou fundamentar pesquisas. E isso em vários campos: sociologia do conhecimento, teoria sociológica, sociologia da administração, sociologia da estratificação, sociologia industrial, das religiões.

Na apreciação das contribuições weberianas, nosso sociólogos contemporâneos demonstraram notável autonomia de pensamento, quer no sentido de prescindir dos comentadores mais conhecidos, quer no espírito crítico, de modo a rejeitar como errôneas certas interpretações.

Mas desejo - já que os comentários foram feitos no decorrer da exposição - insistir apenas na importância de Weber sob dois aspectos. O primeiro é como marco histórico, que, de certa forma, muda o rumo do pensamento sociológico no Brasil. A temática e a forma de abordagem dos problemas foram inegavelmente alteradas depois da divulgação, em idiomas mais acessíveis, das obras capitais desse clássico. Insisto em que a edição de Economia e sociedade, em 44, na língua espanhola, representa marco indelével.

O segundo aspecto é que os termos weberianos - carisma,34 líder carismático, patrimonialismo, organização burocrática - passaram ao domínio comum, são propriedade de todos. Advérbios como "patrimonialisticamente" (extenso como uma palavra alemã) aparecem com freqüência em textos brasileiros de sociologia, sem que ocorra a necessidade de explicar o seu sentido e a sua fonte.35

O grau de adesão ao pensamento de Weber, entre nossos autores, é bastante variável, indo desde as simples citações de apoio ou o apelo ao argumento de autoridade até as confissões de afiliação.

Pressinto que as novas gerações sempre descobrirão clássicos da força de um Weber. Com o início dos cursos de pós-graduação, principalmente os mestrados em sociologia, os jovens cientistas sociais brasileiros estão tendo oportunidade de reavaliar, nos cursos de teoria sociológica, o pensamento weberiano. E é possível que a reavaliação crítica se faça cada vez menos com interferência de "intermediários", isto é, comentadores consagrados, brasileiros ou não. Os jovens sociólogos dirão em breve o que pensam de Weber e, se através dele, se lhes abre alguma fresta para compreender melhor o Brasil.36

 

7. NOTA SOBRE TEXTOS DE MAX WEBER EM PORTUGUÊS

Relacionamos a seguir, com algumas anotações dirigidas aos interessados, os textos em português de que temos conhecimento, restringindonos apenas aos aparecidos em livro:

- Ensaios de sociologia. Rio de Janeiro, Zahar Editores, s/data. Edição brasileira de From Max Weber, compilada por Hans Gerth e C. Wright Mills. Trad. de Waltensir Dutra, revisão técnica do Prof. Fernando Henrique Cardoso. 530 p. A edição brasileira foi traduzida da sexta impressão (1963) da versão publicada em 1946 pela Oxford University Press.

- Ciência e política, duas vocações. São Paulo, Cultrix, 1970. Trad. de Leonidas Hegenberg e Octany Silveira da Mota, Prefácio de Manoel T. Berlinck, professor-adjunto de sociologia da Escola de Administração de Empresas de São Paulo, da Fundação Getúlio Vargas, 124 p. Os dois textos incluídos no volume intitulam-se, no original alemão, Wissenschaft Ais Beruf e Politik Ais Beruf, editados, èm 1967 e 1968, por Dunker & Hunblot, Berlim.

Da "Notícia sobre Max Weber", de Manoel Berlinck: "Ainda, entretanto, que se descubram as causas estruturais do pensamento weberiano e suas limitações epistemológicas, sua contribuição à Sociologia permanece central não só por suas análises comparativas, por seu método de compreensão (verstehen), ou pela descoberta das conexões entre orientações valorativas e comportamentos estruturais. O pensamento de Weber persiste também porque muitas das características da estrutura social da República de Weimàr basicamente se repetem em outras sociedades, em outro tempos".

- O política e o cientista. Lisboa, Editorial Presença Ltda., s/data. Tradução de Carlos Grifo. (Outra tradução dos mesmos textos citados anteriormente.) 188 p. Prefácio de Herbert Marcuse (p. 9-44), contendo os seguintes subtítulos: Industrialização e capitalismo, O racionalismo formal, Capitalismo e domínio, A burocracia, O carisma, Tecnologia e libertação.

- A vocação política. In.: Bucher, Wolfrang Lempe. ed. Antropologia humanística alemã. Porto Alegre, Editora Globo, 1972. Trata-se de um fragmento do ensaio (p. 264-70), acompanhado de nota introdutória.

- "Os fundamentos da organização: uma construção do tipo-ideal". In. Campos, Edmundo. (Organização, introdução e tradução) Sociologia da burocracia. 1. ed. Rio de Janeiro Zahar Editores, 1966. O texto (p. 16-27) é transcrito de The essenciais of bureaucratic organization: an ideal-type construction, In. Merton, Robert K. et alü. ed. Reader in bureaucracy. Glencoe, Illinois, Free Press, 1963. p. 18-27.

- Classe, status, partido, tradução de Otávio Guilherme C. A. Velho. In: Bertelli, Antônio Roberto, et alii (organizadores). Estrutura de classes e estratificação social. 2 ed. Rio de Janeiro, Zahar Editores, Textos básicos de ciências sociais, 1969. O texto de Weber (p. 57-75) foi extraído de From Max Weber: essays in sociology (tradução para o inglês, edição e introdução de H. H. Gerth e C. Wright Mills), Oxford University Press, 1946.

- Conceito e categorias da cidade. Trad. de Antônio Carlos Pinto Peixoto. In: Velho, Otávio Guilherme (organizador). O fenômeno urbano. 1. ed. Rio de Janeiro, Zahar Editores, Textos básicos de ciências sociais, 1967. O texto de Weber (p. 73-96) foi publicado pela primeira vez no Archiv für Sozialwissenschaft und Soziál politik, t. 47, 1921. p. 621 ss (Primeira parte de trabalho intitulado "Die Stadt"). Traduzido de Economía y sociedade II. México, 1964, trad. por José Medina Echeverría e outros, cotejado com The city, trad. e org. por Don Martindale e Gertrud Neuwirth, Glencoe, Illinois, The Free Press, 1956.

Da introdução do organizador:

" Como em tantos tópicos, também no estudo da cidade aparece o nome do grande cientista social alemão Max Weber. Todavia, para Weber, o estudo da cidade inserese num plano mais ambicioso, e que é o estudo da origem e desenvolvimento da moderna economia ocidental, ou seja, do capitalismo, inclusive lançando mão de dados comparativos oriundos de outras formações históricas", p.9.

- O conceito de casta. Trad. de Oracy Nogueira. In: Ianni, Octavio, ed. Teorias de estratificação social. (Leituras de sociologia). São Paulo, Companhia Editora Nacional. Transcrito de Max Weber, The religión of índia. Traduzido e editado em inglês por Hans H. Gerth e Don Martindale, p. 29-54. Notas de pé de página de Octavio Ianni.

- Feudalismo e Estado estamental. Trad. de Heloísa Helena Teixeira de Souza Martins. In: Ianni, Octavio, op. cit. p. 186-238. Traduzido da segunda edição mexicana (1964) de Economia e sociedade. A tradutora acrescenta uma série de notas informativas, em geral de caráter lingüístico, econômico e jurídico, para cuja redação se valeu da ajuda de muitos especialistas da Universidade de São Paulo.

- Sobre a teoria das ciências sociais. Lisboa, Editorial Presença, 1974. Biblioteca de ciências humanas. Trad. de Carlos Grifo Barbo. O volume engloba dois ensaios: A objetividade do conhecimento nas ciências e na política sociais (p. 7-111) e O sentido da "neutralidade axiológica" nas ciências sociológicas e econômicas (p. 133-92). O primeiro desses textos foi publicado pela primeira vez em 1904 quando Weber passou a integrar o comitê de redação da revista Archiv für Sozialwissenschaft und Sozial politik. O segundo - em 1917 - constitui revisão de manuscrito destinado a ser apresentado, em 1913, à Associação de Política Social.

 

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Willems, Emílio. Dicionário de sociologia. Porto Alegre, Editora Globo, 1950        [ Links ]

 

 

1 A influência de Spencer e Comte é assinalável entre os primeiros sociólogos brasileiros. No meio não-especializado, autores importantes têm pouca repercussão no fim do século XIX e início do XX. Eis um comentário bem ilustrativo de Gilberto Freyre sobre as leituras de obras estrangeiras nessa época, no Brasil:

"Foi essa situação de inteiro abandono de parte tão considerável da população, que se tornou alarmante aos olhos de médicos com espírito público, os quais começaram a bradar que o Brasil se estava transformando em 'vasto hospital'; e a despertar com esses brados antes clínicos que sociológicos, os políticos da República de 89 e os seus clérigos: homens mais leitores de Anatole France do que de Georges Sorel; quase todos mais entusiastas de Le Bon do que Le Play, e de todo alheios ao que em inglês vinham escrevendo, naqueles dias, sociólogos ou parassociólogos como os Webbs ou como Patrick Geddes. Isso sem se fazer referência aos William Morris, aos Max Weber, aos Georg Simmel, aos Thorstein Veblen - quase de todos ignorados no Brasil da época pela brasileiros mais cultos - alguns dos quais se aperceberam apenas, sugestionados por Joaquim Nabuco, de um tanto simplista Henry George" (Ordem e Progresso, t. 2, p. 733-34).

Quanto a Weber, nunca foi muito citado pelas gerações posteriores à da implantação da República, até ser descoberto, na década de 40. Um exemplo curioso: Pontes de Miranda, que lia e lê alemão, em sua Introdução à sociologia geral (1926) não cita uma única vez Max Weber (a julgar pelo indice onomástico) .
2 Tobias Barreto editou um jornal em alemão em sua pequena cidade nordestina. "Na cidade sertaneja, imprime um jornal estranho, do qual era o único redator e talvez o único leitor: Deutscher Kampfer". Vita, Luís Washington. Panorama da filosofia no Brasil, p. 88.
3 Os exemplos mais evidentes desse progresso podem ser encontrados na produção sociológica de São Paulo na década de 60. Refiro-me particularmente à sociologia da industrialização.
4 Para uma periodização dos estudos sociais no Brasil, leia-se de Andrade, Almir de. A formação da sociologia brasileira, especialmente a nota introdutória. Há uma curiosa crítica a esse trabalho no pequeno livro de artigos de Buarque de Holanda, Sérgio. Cobra de vidro. Martins Editora.
5 Consultar os trabalhos de Fernando Azevedo, especialmente o apêndice de Princípios de sociologia. E também As ciências sociais no Brasil, de L. A. Costa Pinto e Edison Carneiro.
6 Esse debate foi travado especialmente por A. Guerreiro Ramos e Florestan Fernandes. Ver desses autores, respectivamente, Introdução critica à sociologia brasileira e A etnologia e a sociologia no Brasil.
7 Grande parte dessa polêmica travou-se em torno dos estudos de comunidade. Estes evoluíram de uma metodologia etnográfica para a sociológica. Hoje, fazem-se mais como sociologia aplicada (ao desenvolvimento comunitário, aos problemas urbanos, às questões de habitação, etc.). Também não tem mais sentido a crítica à fragilidade metodológica dos estudos globais da sociedade brasileira. Atualmente, apesar de se ter perdido a ambição das sínteses brilhantes da realidade brasileira ainda se fazem estudos globais, porém com a utilização de dados agregados muito mais seguros, confiáveis e bem elaborados do que os utilizados (quando o eram), algumas décadas atrás, pelos ensaístas brasileiros.
8 Consultar os livros mencionados na nota 6. E mais: A redução sociológica (Guerreiro) e A sociologia numa era de revolução social (Florestan).
9 Infelizmente não consegui ler esse ensaio pioneiro de Emílio Willems.
10 Guerreiro Ramos, A. A sociologia de Max Weber. O autor descobre a relevância do pensamento de Weber e transmite a descoberta nesse artigo. As linhas iniciais documentam o ponto de vista sustentado no presente ensaio, segundo o qual a tradução para o espanhol de Economia e sociedade, em 1944, representa marco histórico na evolução da sociologia no Brasil: "A tradução integral da obra de Max Weber - Wirtschaft und Gesellschaft - empreendida pela editora mexicana - Fundo de Cultura Econômica, sob a esclarecida direção de José Medina Echeverria, é um acontecimento a cuja magnitude esta revista não pode permanecer indiferente. É esta a primeira vez que a referida obra aparece em língua diferente da original, pois a anunciada tradução de seu primeiro volume, realizada por Parsons-Henderson, não foi editada até o presente e, ao que me consta, circula mimeografada, em restritos centros de estudo dos Estados Unidos". Praticamente, em todos os outros trabalhos de Guerreiro Ramos há citações de Weber. Em Sociologia industrial, cita o ensaio weberiano sobre "a restrição voluntária da produção pelos operários", em seu texto alemão ("Zur Psychophysik der Industrielle Albeit", de 1924), citado também por Juarez Brandão Lopes, que elaborou um ensaio sobre o assunto, incluído em Sociedade industrial no Brasil. No número anterior da RSP, Guerreiro Ramos publicara outro artigo, Administração e política à luz da sociologia, que menciona também Economia e sociedade.
11 Sobre burocracia e patrimonialismo ver a síntese de Lopes, Juarez Brandão. A crise do Brasil arcaico. p. 15-8.
Como síntese, também o prefácio de Mário Wagner Vieira da Cunha, ao livro Sociedade industrial no Brasil.
A Mário Wagner Vieira da Cunha deve-se também importante ensaio sobre Resistências da burocracia às mudanças sociais, no setor público e no setor privado. Diz o autor:

"Necessário se torna partirmos de uma noção preliminar de burocracia, como de desenvolvimento econômico. Nosso objetivo não será, porém, o de permanecer no plano meramente conceituai. Tanto quanto possível, desejaríamos nos reportar aos estudos brasileiros sobre a matéria, analisando-os e esboçando as linhas mestras das indagações no Brasil sobre a relação entre a burocracia e o desenvolvimento econômico."

A seguir, o autor fornece um resumo do tipo-ideal de burocracia, segundo a interpretação de Peter Blau. Também a Octávio Ianni devem-se dois pequenos ensaios em torno da burocracia no Brasil: Desenvolvimentos patológicos da burocracia e Burocratização e relações de classe, ambos inseridos no livro Industrialização e desenvolvimento social no Brasil. Tratam ambos de comportamentos tradicionalistas em oposição à racionalidade burocrática. No segundo, cita-se expressamente o texto de Weber, The essenciais of bureaucratic organization: an ideal type construction (da coletânea organizada por Merton). Não analiso aqui um livro muito bem recebido pelos especialistas, Os donos do poder, de Faoro, por se tratar de trabalho de historiografia.
12 Se fosse francês, certamente Roberto Cardoso de Oliveira seria citado como um etno-sociólogo, assim como Balandier. Seus trabalhos oscilam entre as classificações de antropologia social e sociologia. Faz, no capítulo denominado Problemas e hipóteses relativos à fricção interétnica, interessantes observações de ordem semântica e sociológica em torno dos conceitos de poder e autoridade, em Weber, e a forma como seriam aplicáveis na apreciação dos contatos entre sociedade nacional e grupos indígenas nela incluídos.
13 Lopes, Juarez Rubens Brandão. O processo histórico e Max Weber. In: Sociologia e história, p. 74.
14 Fernandes, Florestan. Fundamentos empíricos da explicação sociológica, cap. 5.
15 Id. ib. p. 101.
16 Fernandes, Florestan. A sociologia numa era de revolução social.
17 Guerreiro Ramos. Introdução critica à sociologia brasileira, p. 90.
18 Id. ib. p. 109.
19 Fernandes, Florestan. Ensaios de sociologia geral e aplicada, p. 73-4.
20 Fernandes, Florestan. Sociedade de classes e subdesenvolvimento, p. 40.
21 Texto sobre o assunto, de Juarez Rubens Brandão Lopes, encontra-se em Sociedade industrial no Brasil. Veja-se especialmente o capitulo 6. O de Maria Isaura Pereira de Queiroz é o artigo publicado nos Cahiers Internationaux de Sociologia, em um dos números dedicados, em 1965, ao problema das classes sociais no mundo. O conceito de classe e as dimensões da estratificação, expostos nos parágrafos introdutórios do artigo foram tomados de Max Weber, citando-se a edição de 44, mexicana, de Economia e sociedade. Um dos interesses de que se reveste esse texto é o tratamento que a autora dá ao problema de fundamentais diferenças entre estratificação urbana e rural no Brasil. É pena que os dados que utiliza sejam de 1950.
22 Pereira, Luiz. Ensaios de sociologia do desenvolvimento, p. 23. O autor utiliza, nessa análise, From Max Weber e The methodology of social sciences. Shils & Finch. ed. Glencoe, Free Press, 1949.
23 Viana Moog cita e discute longamente as teses da Ética protestante pondo-as em confronto com outras explicações sobre a origem do capitalismo e sobre as diferenças entre as posições protestantes e católicas diante da vida econômica. O escopo desse conhecido ensaio é o de compreender as diferenças da evolução histórica dos Estados Unidos e do Brasil. Deixo de citar, neste capítulo, certos tipos de trabalho aos quais é difícil o acesso, como as teses acadêmicas. Fui rever uma tese minha conhecida, a do Prof. José de Faria Tavares, Aspectos sociológicos da realidade econômica, de 1952, e nela encontro muitas referências ao pensamento weberiano, recolhido da edição mexicana de Economia e sociedade, de From Max Weber e da Ética protestante.
24 Lopes, Juarez Rubens Brandão. A sociedade industrial no Brasil, p. 100.
25 A crise do Brasil arcaico.
26 Id. ib. p. 149.
27 Juarez Rubens Brandão Lopes, em A crise do Brasil arcaico, afirma: "A ênfase deve ser na compreensão das relações de trabalho, dentro da matriz da organização da empresa e da estrutura social vistas uma e outra como fenômenos em transformação. É este o modo de se colocar a problemática da sociologia nesse campo: com a perspectiva da sociedade em mudança, onde a empresa, sindicato e pequenos agrupamentos de trabalho se inserem. Os fenômenos no nível da microssociologia do trabalho, se assim podemos nos expressar (... ) não devem ser entendidos isoladamente. A natureza dos padrões de organização da empresa precisam ser concebidos como em processo de mudança, como de fato estão. A própria sociedade de classes - e nessa a classe operária e a dos empresários industriais - acha-se em processo de constituição", p. 20.
28 Vieira da Cunha, Mário Wagner. O sistema administrativo brasileiro. INEP, 1962. passim.
29 Ferreira de Camargo, Cândido Procóplo. Kardecismo e umbanda, p. 13.
30 Id. 1b. p. 112.
31 Deixo de comentar as referências do livro Sociologia, de Gilberto Freire, onde encontro 37 alusões a Weber. Esse livro não apenas é mais do que simples manual, mas também foi escrito e editado (pela primeira vez) antes do período aqui tomado, isto é, a partir de 1950.
32 Ver Beltrão, Calderán. Sociologia do desenvolvimento, p. 157-8.
33 Adoto aqui a tipologia de Jean Duvignaud sobre estudos sociológicos no Brasil. Ver Le Brésil dans "sa" sociologie.
34 "Weber reproduziu este conceito de Rudolf Sohn, historiador da igreja e jurista de Estrasburgo". Hans Gerth e C. W. Mills no prefácio aos Ensaios sociologia, p. 70.
35 Os dicionários comuns, entretanto, não registram, em geral, esses termos. Numa rápida pesquisa, só encontrei no Novo Dicionário Brasileiro Melhoramentos, 3ª edição revista, verbetes adequados dos termos engendrados ou difundidos por Max Weber. Curiosamente, no estafe desse dicionário, entre os encarregados de "leitura geral ou preparo de termos especializados", encontra-se o nome do sociólogo Fernando de Azevedo.
Eis duas definições:

"Patrimonialismo, s.m. (1. patrimonial + ismo). Social. Tipo de organização politica em que as relações subordinativas são determinadas por dependência econômica e por sentimentos tradicionais de lealdade e respeito dos governados pelos governantes.
Carisma, s.m. (gr. kharisma). Teol. (... ) Social.
Conjunto de qualidade excepcionais inerentes a um certo tipo de líder".

Carisma tem, assim, um sentido teológico (graça) e um sentido sociológico, que muito deve a Weber. Na Enciclopédia Abril (fascículo 129) há um bom verbete sobre patrimonialismo. O consultor dessa publicação, para os termos de sociologia, é Fernando Henrique Cardoso.
Desejo terminar estas notas com um episódio anedótico, mas muito ilustrativo de dois aspectos: a dificuldade do idioma alemão, .para os brasileiros, fato a que aludi na introdução, e a presença de termos weberianos (como um espécie de influência difusa) em nosso meio. O jornalista e escritor mineiro Vivaldi Moreira em seu livro Milton Campos, politica e letras, que é uma coletânea de artigos de jornal, escreve:
"Em certa época, nem tão distante assim, vulgarizou-se o conceito de 'homem carismático', introduzido na sociologia pelo ilustre pensador alemão Max Weber. A circunstância de ser o alemão língua de poucos entre nós, ficou o conceito de 'homem carismático' pertencente a certo político brasileiro, que lê nessa língua, como criação sua... até que as traduções francesa e espanhola da obra Economia e Sociedade chegasse a nós" (p. 99). Dois dias depois de publicada essa observação em jornal de Belo Horizonte, outro cronista, Guálter Gontijo Maciel, escreveu:

"Leio sempre com prazer tudo o que escreve meu amigo Vivaldi Moreira. (... ) Li o que escreveu domingo sobre 'O homem carismático'. Eruditamente, começou por acentuar que o conceito de 'homem carismático' não é invenção de 'certo político brasileiro' que, familiarizado com língua alemã, não fez mais do que trazer para o nosso idioma o conceito de Max Weber. Esse político é o Sr. Francisco Campos. Por que Vivaldi não citou o seu nome?" (p. 102).

36 Este ensaio encontrava-se já redigido quando tomei conhecimento de alguns trabalhos produzidos por jovens sociólogos, e contendo interpretações e largas citações do pensamento weberiano. Dois livros de caráter eminentemente didático incluem-se nessa linha. O primeiro, do professor paulista Sedi Hirano, Castas, estamentos e classes sociais, tem como subtítulo Introdução ao pensamento de Marx e Weber, sendo, na verdade, útil monografia sobre o pensamento dos dois autores no tocante à estrutura de classes, estratificação e temas correlatos como divisão do trabalho. O segundo é um livro de leituras, organizado por Anna Maria de Castro e Edmundo F. Dias, intitulado Introdução ao pensamento sociológico. Contém informações biobibliográficas sobre Durkheim. Weber, Marx e Parsons, além de textos selecionados desses sociólogos e comentários em torno deles. Quanto a Weber, utilizaram a edição mexicana de Economia e sociedade (de 1969) e a edição francesa, Le savant et le politique. Finalmente, um terceiro exemplo de repercussão do pensamento weberiano nas novas gerações: o artigo da jovem professora goiana Maria Cristina Teixeira Machado, Weber e a psicologia social das realigões, aparecido no suplemento Caderno Especial, de O Popular, de Goiânia, utilizando-se de textos dos Ensaios (From Max Weber) e do estudo de Bandix.

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