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Revista de Administração de Empresas

Print version ISSN 0034-7590

Rev. adm. empres. vol.26 no.4 São Paulo Oct./Dec. 1986

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-75901986000400005 

NOTAS & COMENTÁRIOS

 

As origens das organizações modernas: uma perspectiva histórica (burocracia fabril)

 

 

Felipe Luiz Gomes e Silva

Professor de organização do trabalho na Escola de Engenharia de São Carlos da Universidade de São Paulo - EESC - USP

 

 

As organizações não são entidades abstratas que têm existência própria e independente da sociedade em que se situam. Elas possuem um conteúdo que é dado pelo modo de produção, mas, especificamente, pelas formas de cooperação existentes. Sua estrutura social é determinada pelas relações sociais de produção; estudá-las concretamente implica procurar entendê-las a partir da evolução das formas de cooperação. Desta maneira, o estudo das formas de cooperação é muito importante para a compreensão das organizações concretamente. A organização é uma construção histórica.

A origem das formas de organizar, das estruturas administrativas e da direção capitalista está estreitamente relacionada à evolução dos sistemas de cooperação. O mestre artesão é libertado do trabalho manual passando a diretor quando a quantidade de mais-valia produzida permite.1 Vejamos o que nos diz Fernando Cláudio Prestes Motta:

"As formas de cooperação na manufatura, gênese das estruturas administrativas contemporâneas e da função dirigente imposta pelo caráter antagônico do processo capitalista de produção, orientam-se pela apropriação de mais-valia."2

O estudo das estruturas administrativas das organizações modernas e suas relações puramente técnicas com a produção não explicam profundamente o significado destas organizações. Antes de mais nada, se faz necessário perguntar a que interesses servem estas estruturas, a quem serve a direção. Para isso, as estruturas administrativas e a função diretiva devem ser analisadas como frutos do desenvolvimento das forças produtivas, da necessidade de reprodução ampliada do capital e da necessidade de dominação política;' 'a direção se impõe como necessidade do capital e não do trabalho".

"A coordenação não é aqui algo que surge da necessidade do trabalho, mas sim de algo que se impõe como necessidade do capital" 3

Segundo Victor A. Thompson, em Moderna organização, á burocracia é uma forma de organização onde a hierarquia de autoridade se sobrepõe à divisão do trabalho.

"(...) explica-se o crescimento da burocracia como decorrência do avanço tecnológico. O surgimento de novas técnicas possibilitou o desenvolvimento de novas especializações, e estas, por sua vez, criaram interdependências organizacionais e, conseqüentemente, necessidade da cooperação; a resposta foi a ampliação do sistema burocrático".4

"Encontramos, assim, a tecnologia avançada associada à organização autocrática, monística, hierárquica de uma era mais simples".5 Mas o que precisamos ressaltar aqui é que essa necessidade de cooperação não surgiu como uma simples decorrência do avanço tecnológico . A associação da tecnologia avançada a uma organização autocrática, hierárquica, de uma era mais simples, responde também a uma necessidade política, a uma necessidade de controle da força de trabalho. Na forma exposta por V.A. Thompson, fica a impressão de que o uso moderno de burocracia como organização é uma resposta a uma necessidade puramente técnica; é o que veremos não ser verdade.

Segundo Maurício Tragtenberg, "o déspota oriental representa a confluência de um processo social que se inicia com a burocracia surgindo das necessidades técnicas (irrigação da terra arável), finalizando com o poder de exploração, efetuando-se assim a transitividade da burocracia cumprindo funções de organização e supervisão para o monopólio do poder político".

"No modo de produção asiático, dá-se a apropriação do excedente econômico por uma minoria de indivíduos, sem retribuição à sociedade. Daí a exploração assumir a forma de dominação, não de um indivíduo sobre outro, mas de um indivíduo que personifica uma função sobre a comunidade".6

Assim como no modo de produção asiático a burocracia passou a ser um instrumento do déspota, no modo de produção capitalista passa a ser instrumento do capital. A forma de organizar burocraticamente passa a ser útil aos novos sistemas de cooperação que surgem com a evolução do capitalismo, da cooperação simples à cooperação fabril. O objetivo do capital é fazer com que o processo de trabalho domine naturalmente o trabalho, que o trabalho vivo se subordine ao trabalho morto. Encontramos, já no sistema de cooperação simples, a existêcia de funções que se revestem de um aspecto técnico-produtivo e de um aspecto despótico, necessário para quebrar as resistências dos trabalhadores à exploração.

Novas formas surgem com o objetivo de controlar o corpo coletivo de trabalho, novas tendências autoritárias. Com o surgimento de novas formas de coopera-ção, o despotismo muda, assumindo formas peculiares; grupos de trabalhadores assalariados assumem a função inspetora direta e contínua - engenheiros, assistentes sociais, administradores profissionais etc...

A burocracia moderna, com seu conteúdo histórico, poderá ser considerada como esta nova forma despótica, necessária para quebrar as resistências dos trabalhadores, para garantir a reprodução ampliada do capital; é uma forma de organização superior, técnica e politicamente. Esta superioridade da organização burocrática (vista da perspectiva do capital) é uma superioridade concreta, comprovada historicamente com a evolução dos sistemas de cooperação a quem ela serve.

Segundo Max Weber, "a razão decisiva que explica o desenvolvimento da organização burocrática foi sempre sua superioridade técnica sobre qualquer outra organização".

"Um mecanismo burocrático perfeitamente desenvolvido atua em relação às demais organizações da mesma forma que a máquina em relação aos métodos não-mecânicos de fabricação. A precisão, a rapidez, a univocidade, o caráter oficial, a redução de fricções e de custos materiais são infinitamente maiores em uma administração burocrática."7

Uma das causas da emergência das organizações burocráticas, apontada por Max Weber, é sua maior eficiência sobre os demais sistemas organizacionais.

A contribuição da burocracia moderna para acumulação de capital não está somente na sua superioridade técnica, na garantia da produtividade através de sua bem definida estrutura de cargos. Sabe-se que ela apresenta, também, uma superioridade no que tange ao controle político dos trabalhadores: sua estrutura hierárquica, a delegação de autoridade e o amortecimento dos conflitos desempenham, também, um importante papel; o controle administrativo é uma negação da luta de classes.

O fracionamento do ofício do artesão, acrescente divisão do trabalho e sua perda de conteúdo são aspectos fundamentais para o estudo das burocracias modernas ou, como costuma-se chamar em teoria das organizações, organizações complexas. Com a alienação do trabalhador dos meios de produção, o fracionamento dos ofícios dos artesãos reunidos sob o domínio do capital e o desenvolvimento das forças produtivas, as habilidades humanas são transferidas para as máquinas, o trabalho complexo é transformado em simples. O ofício é dividido em um conjunto de tarefas que variam em complexidade. Se as habilidades são transferidas para as máquinas, a quem cabe planejar e controlar este conjunto de tarefas?

A hierarquia burocrática responde a esta questão praticamente; ela atende à necessidade da separação entre o trabalho intelectual e manual, entre a concepção do trabalho e a execução, sem o capital perder o controle da produção. O capital, ao destruir o ofício, liberta-se das habilidades dos trabalhadores individuais, passa a depender de um corpo coletivo de trabalho e da produtividade social; a organização burocrática moderna surge concretamente como uma forma de organização técnica e politicamente superior, ajustando-se ao sistema de cooperação fabril.

Não bastou ao capital alienar os trabalhadores dos seus meios de produção, transformá-los em mercadorias e submetê-los, através do sistema de cooperação fabril, ao processo de produção.

A hierarquia administrativa, instrumento de dominação política, reservou na burocracia fabril um lugar para um departamento especializado em controlar o "lado humano da empresa"; este lugar pode se chamar departamento de recursos humanos, de pessoal ou relações industriais.

O departamento de recursos humanos vai, juntamente com o de marketing, completar a obra do capital monopolista; o primeiro controla as condições subjetivas da produção - o trabalhador enquanto produtor - e o segundo, o comportamento do trabalhador enquanto consumidor. O sistema de máquinas, ao destruir as habilidades humanas, subordina realmente o trabalho ao capital; os departamentos de recursos humanos e marketing fecham o cerco.

O departamento que cuida do' 'lado humano da empresa' ' tem como objetivo fazer os trabalhadores mais eficientes, produtivos, leais, realizados... Com o denominado ' 'movimento de relações humanas", a psicologia social, "preocupada" com a "satisfação do homem" no trabalho, partindode um conceito de alienação puramente psicológico, reduz os conflitos sociais a conflitos pessoais - de ordem puramente psíquica. O homem é reduzido a uma só dimensão, a dimensão puramente psicológica; a motivação humana passa a ser um elemento importante da produção.

A alienação não é considerada como a perda de consciência em si, em relação a uma situação concreta, historicamente determinada.

"O homem perde sua consciência pessoal, sua identidade e personalidade, o que vale dizer, sua vontade é esmagada(...)"8

É como diz Whyte: "Se o nosso primeiro patrão já pretendia roubar-nos o suor, o segundo vai mais além, pois quer nos levar o suor e a alma."9

As organizações burocráticas modernas apresentam momentos da totalidade social. Embora o momento determinante da burocracia fabril seja o momento da valorização do capital, ela também desempenha um papel importante - o de transmissora de ideologia e controladora das consciências humanas.

 

CONCLUSÃO

A Organização só poderá ser humanizada com a humanização do processo de trabalho, e este, quando for posto imediatamente como social, constituindo diretamente a sociedade sem a mediação do capital. Nesta situação, o desenvolvimento das forças produtivas, o progresso da ciência e a organização da produção estarão subordinados às necessidades humanas e não às necessidades de acumulação privada.

Propor, por exemplo, a superação da alienação humana - fenômeno de ordem política, econômica e social - através de novos arranjos estruturais, incentivos psicológicos, enriquecimento de cargos etc., é não querer mesmo ir ao fundo do problema, e não querer buscar a gênese do fenômeno. Partilhar desta proposta significaria, para nós, recusar-se a entender, em termos concretos, o processo de alienação do homem.

 

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1 Ver Marx, Karl. O capital. 6. ed. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, livro I, v. 1, p. 379.
2 Motta, Fernando CP . Burocracia e autogestão. São Paulo, Brasiliense, 1981. p. 13.
3 Id.ibid. p. 14.
4 Gomes e Silva, Felipe L. Comentários sobre a Moderna organização de VictorA. Thompson. São Paulo, EAESP-FGV, out. 1974. p. 3, mimeogr.
5 Id. ibid. p. 4.
6 Tragtenberg, Maurício. A teoria geral da administração é uma ideologia?
7 Weber, Marx. Economia e sociedade. Apud: Motta, Fernando CP . & Pereira, Luiz Carlos B. Introdução à organização burocrática. São Paulo, Brasiliense, 1981. p. 103.
8 Basbaum, Leôncio. Alienação e humanismo. São Paulo, Símbolo, 1977. p. 17.
9 Whyte Jr., W.W. Theorganizationman. Garden City, New York, 1957. Apud: Thompson, V.A. Moderna organização. Rio de Janeiro, Usaid, 1967. p. 172.

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